Dilma-Rousseff-selfie jornalistas_cafe-da-manha

Na última quarta-feira, Dilma Rousseff, a presidente, tomou café da manhã com jornalistas, para a primeira entrevista coletiva do ano, para apresentar seus planos e suas desculpas para o terrível ano político de 2015.

No fim da entrevista, Dilma aproveitou para tirar um selfie com os ditos jornalistas, com todos eles se amontoando para conseguir aparecer, esgares com sorrisos de orelha a orelha, mais perto da presidente.

Esperava-se alguma crítica ao fato ao menos nos típicos editorais dos fins-de-semana de jornais, que criticam com uma verve mais sardônica os eventos da semana. Mas nada.

Parece que é apenas uma foto. Todavia, como é típico no reino da filosofia, do saber e das coisas públicas, o que parece apenas parece, escondendo sob uma camada externa de aparência seu real significado.

O Brasil já vive oficialmente numa juristocracia, uma ditadura de togas, em que as leis não são mais necessariamente criadas pelos representantes do povo, mas criadas por funcionários públicos indicados por um partido que legislam ad hoc cirurgicamente conforme os desejos deste partido.

Esta selfie apenas coroa o bolo cerejosamente para confirmar que agora também vivemos sob uma ditadura do jornalismo. Não no sentido de que o jornalismo crie leis ou faça parte dos 3 Poderes, mas porque estes 3 Poderes – é consabido desde os primeiros anos de imprensa – dependem deste “quarto poder” que é a narrativa jornalística dos fatos.

Há uma diferença entre jornalistas terem apreciação por políticos e usarem um evento oficial e profissional para se acotovelarem para conseguir sorrir mais para a presidente. Jornalistas podem – e devem – ter suas preferências político-partidárias. Mas esta propensão não pode ser o favoritismo oficial sem decoro, em que se vê mais a torcida do que o fato.

Quando jornalistas declaram suas predileções, temos uma honestidade maior do que quando as omitem, tentando aparentar uma “imparcialidade” e falar “apenas a verdade” dos fatos, sem declarar quais são suas intenções.

Mesmo uma notícia como “prefeitura está indecisa entre plantar rosas ou margaridas no jardim” já possui em si uma escolha: se esta notícia foi divulgada em Berlim em 1945, percebemos como a singeleza aparente trai uma vontade de esconder fatos de muito maior importância do público. Qualquer escolha editorial já é, em si, parcialidade. A honestidade é não escondê-la e argumentar com o leitor para explicar por que se prefere esta ou aquela visão. Poucos no Brasil fazem isso no jornalismo – argumentar, ao invés de apenas reafirmar sua posição inicial.

A falta de honestidade da foto revela a desonestidade completa de jornalistas. Como confiar no que escrevem pessoas que cobrem Dilma, quando envidam seus melhores esforços para ganhar apreciação por aparecer com ela? Quando estão aquilatando que vale mais se espremer para estar em conformidade com a presidente do que, talvez, perguntar-lhe algo que ela não queira ouvir?

Fica patente que não apenas a qualidade dos jornalistas particulares que estavam na foto é questionável – as próprias “entrevistas” de Dilma são postas em xeque. Afinal, por que são escolhidos a dedo apenas jornalistas com tamanho grau de puxa-saquismo explícito que terminam a entrevista realizando algo maior do que a entrevista – mostrarem a seus colegas que chegaram perto de sua ídola?

capachão TV ColossoImagine-se o mesmo trocando qualquer um dos personagens. Imagine-se jornalistas nos anos FHC tirando uma selfie com o presidente. Conjecture-se as entrevistas coletivas de George W. Bush (para ficarmos apenas nos últimos mandatos) aboletando-se no restrito espaço de uma câmera e um braço fazendo às vezes de pau de selfie para sorrirem com o presidente. Conceba-se um jornalista entrevistando qualquer um dos heterogêneos adversários freqüentes da petista – de Aécio Neves a Jair Bolsonaro, de Eduardo Cunha a Geraldo Alckmin – e, sorrindo como se ganhassem na loteria, mostrassem em público – e no seu expediente – que são mais torcedores e fãs do que questionadores.

Um evento oficial, a primeira entrevista “coletiva” do ano – aparentemente com um coletivo formado apenas por acólitos e capachos – não é uma festinha particular. Não é zona. E não é pasto e circunstância para troca de afagos. Como acreditar em qualquer informação que tenha nos chegado sobre as palavras de Dilma que não tenham sido editadas para chegarem aos nossos olhos e ouvidos da maneira mais edulcorada e alumiada possível?

Os ministros do STF julgam os pares do mesmo partido dos presidentes que os colocaram lá. Um deles já foi advogado do partido e nunca conseguiu nem mesmo passar num concurso comum de magistratura – mas, de repente, é juiz e ministro da maior Corte do país, e por décadas vindouras. Outro já foi advogado do MST, o “exécito do Stédile”, como declarou o próprio primeiro presidente petista, pronto para agredir fisicamente nas ruas quem não concorde com o PT.

Estes ministros decidem as vidas políticas e as punições penais de deputados que freqüentam as mesmas festas que eles em Brasília, esta cidade criada ad hoc apenas para separar políticos do povo. Os deputados investigados por CPIs são os mesmos que são padrinhos de casamento e donos das empresas em que os juízes fazem suas carreiras.

Seu Batista Escolinha Professor RaimundoE assim por diante. Não há uma clara divisão de poderes no Brasil, embora o país não tenha um embrutecimento de censura e violência estatal tão brutal quanto o de ditaduras desabridas – afinal, aqui a violência é a única coisa privatizada, alçando-nos a 64 mil homicídios por ano em 2014, tornando-nos o país que mais mata em números absolutos no mundo, superando até mesmo a Rússia. Embora tal privatização seja, como é típico no Brasil, mancomunada com o governo. E mesmo ditaduras dificilmente matem tanto em tão pouco tempo (são mais de meio milhão de assassinatos por década).

E a censura pode não ser do governo mandando fechar jornais, revistas e sites – embora coisas como o Marco Civil da Internet, o “Controle Social da Imprensa”, a TV Brasil e outros mecanismos de censura e controle de notícias mais desabridos são tentados e se tornam leis.

Entretanto, o filtro para as notícias serem sempre as mais positivas (e com aparência de neutralidade) estejam diante de todos: os jornalistas que não fazem perguntas, parece mais é que obedecem Dilma e o PT. Com efeito, através as verbas estatais para “publicidade” nos jornais e sites destes jornalistas governistas, eles se tornam praticamente funcionários de Dilma e do PT. Não do governo: do partido que controla tais verbas.

Em outras palavras, nem entre os poderes do Estado, nem entre o poder do Estado e o poder econômico e menos ainda entre o poder do Estado e o “quarto poder” informal da imprensa há divisão de poderes no Brasil.

Fora da grande mídia, Aluizio Amorim descreveu-os curiosamente como “volume morto” do jornalismo. Dois gigantescos sites geridos por ex-colunistas da Veja comentaram o caso: Rodrigo Constantino e O Antagonista. Absolutamente mais nenhuma palavra, nem num caderno secundário de jornal na grande e velha imprensa.

Bem asseverou o maior editor do Brasil, Carlos Andreazza, da editora Record, esta situação é um descalabro, mas “passará como curiosidade, fato pitoresco, no máximo algo impróprio”. Ninguém parece interessado em dar a exata medida das coisas ao relatá-las – no máximo, rir, debochar ou ignorar sua desproporção entre o ser e o dever-ser.

Por razões óbvias, fora uns gatos pingados que mal podem ser chamados de “meia dúzia” no país (e quase a metade deles fora do país), não é bom esperar que logo os jornalistas expliquem o raciocínio por trás desta imagem ominosa para seus leitores.

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  • Sei lá, não consegui encontrar palavras que expressem adequadamente o que sinto quando vejo essa foto.
    Só considero que há uma foto pior que essa, pela menos entre as fotos que envolvem políticos que eu conheço, e é essa:
    http://ep00.epimg.net/elpais/imagenes/2015/09/10/album/1441886016_463167_1441886233_album_normal.jpg

  • Flávio, você não consegue identificar os veículos de comunicação e jornalistas desta infame foto? Só reconheci a Zileide Silva da Globo. Quero saber quais falsos jornais devo evitar. Obrigadom

    • Flavio Morgenstern

      Caríssimo, costumo evitar olhar tais pessoas para não me traumatizar, seus textos já dão engulhos o sobejante…

  • João Marcos

    Isso me lembra o livro “O Poder”, do Jouvenel. Parece que o Brasil é um gigantesco condensador do estado.

    Eu sinceramente não sei o que as pessoas comuns, sem “poder”, podem fazer para aliviar essa situação.

  • Rodrigo

    Flávio, você acredita que com o fim das verbas estatais e das concessões de mídia, pode haver uma mudança significativa em relação a isso?

    • Flavio Morgenstern

      Naturalmente.

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