Se não houvesse confronto com a PM, o que seria do MPL?

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protesto MPL PM

O Movimento Passe Livre voltou a estar em voga no noticiário com suas passeatas tranca-rua. Apesar de o movimento se declarar a favor da “tarifa zero” (é o que se lê em todos os seus cartazes que não falam de provocação à polícia ou que não contenham símbolos comunistas, anarquistas, de partidos políticos ou, atualmente, da Palestina), sua propaganda para a imprensa é a de que lutam pela “revogação do aumento da tarifa” (cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília aumentaram novamente o preço das passagens). A verdadeira causa, mais impopular, é instintivamente escondida.

Em 2014, o centro de São Paulo contou com 900 manifestações – quase 3 por dia. As causas variam de exigência de aumentos salariais a derrubar o prefeito, o governador, o capitalismo, Israel e instaurar revoluções. Todas começam e terminam e o paulistano, acostumado, segue a vida.

Apenas nas manifestações do Movimento Passe Livre, o MPL, acontecem fenômenos como o “black bloc”, que a imprensa insiste em tratar como um “grupo”, e não como uma tática do próprio MPL. Também apenas nos protestos do MPL há violentos confrontos com a polícia, que fazem a cidade, literalmente, parar para esperar o protesto acabar em suas vias principais.

cartaz ditaduraQuando isto acontece, o MPL sempre saca de um subterfúgio: afirmar que o governo está impedindo o direito de expressão, ir e vir e se organizar do cidadão comum. Sua causa extremamente impopular, o passe livre, não reúne apoio, mas uma causa bem maior, como um governo aparentando truculência e autoritarismo policia, sempre rende emocionados encômios de toda a população. Vide 2013, quando as pessoas só foram às ruas após confrontos com a PM.

Por isso, o MPL quer causar confrontos com a polícia. O que seria do movimento sem as cenas que usam como propaganda, de pessoas sofrendo com os abusos, erros e crimes de uma polícia despreparada? Mesmo casos sem prova (numa manifestação em que praticamente todos estão filmando tudo), como o recente boato de uma grávida que sofreu um aborto após ser derrubada e chutada no chão por 6 policiais (sic) são peças de propaganda fundamental do grupo.

anel barangaA quem desconhece, o MPL é um grupo transpartidário composto por membros de partidos políticos como PSOL, PCdoB, PSTU, PCO e PCB. Via de regra, atuam não diretamente pelos partidos, mas através de seus organismos, como os “coletivos” (o “Juntos!” do PSOL, com bandeiras quase onipresentes nas manifestações, a “ANEL” do PSTU, a UJS e a UNE, do PCdoB, a AJR, do PCO) e de suas “Juventudes”. Como exige-se concordância no MPL para suplantar divergências internas entre partidos, consideram o grupo “apartidário” (os partidos não podem decidir o trajeto das manifestações, por exemplo).

É inverossímil imaginar que alguém, sobretudo os membros de tais partidos (raramente pobres, quase exclusivamente compostos por alunos de cursos de Humanidades em faculdades públicas ou privadas), tenha como causa única da vida a tarifa de transportes.

Na verdade, os membros do MPL também são partícipes da Marcha da Maconha, da Marcha das Vadias, da cada vez mais politizada Parada Gay etc. Apenas usam, a cada momento, uma máscara, um nome fantasia distinto para sua razão social: a revolução de ruas. Os movimentos de massa, como tão bem estudados por Ortega y Gasset e Eric Hoffer, mudam de causa epidérmica, mantendo protegidos da inspeção pública e jornalística seu núcleo de intenções e objetivos.

Se não fossem os confrontos com a PM, o MPL não teria o poder que possui, e que tais partidos sozinhos nunca tiveram, e não logram tanto êxito com marchas e causas igualmente impopulares. O que precisam é de algo de forte apelo e comoção geral, como conflitos com a polícia.

anel congresso losersSua causa, como a revogação da tarifa, é secundária. Terciária. Quartenária. Ou mesmo inexistente. O que buscam é o confronto – o que é estudado por caudatários de tais manifestações, como o já estudado por aqui Fábio Malini, Henrique Antoun ou Ivana Bentes como a netwar, a guerra em rede, passo atual da infowar, a guerra de narrativas que cristaliza conceitos criados por intelectuais e burocratas no imaginário coletivo popular e no senso comum direto da população como se fossem verdades auto-evidentes. É o papel de estronvegas como o Fora do Eixo e sua “Mídia Ninja”. Estes “cyberutopistas” são desmascarados até a última flor de parreira a esconder suas vergonhas por Evgeny Morozov em seu já clássico The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom.

O filósofo marxista espanhol Manuel Castells, grande amigo de FHC, é um dos principais gurus de tais movimentos pelo mundo. O defensor desabrido de totalitarismos marxistas Slavoj Žižek, o marxista argentino Ernesto Laclau e o teórico igualmente marxista Antonio Negri são os outros teóricos de tais estratégias (sempre aparecem em faculdades e palestras durante ou pouco antes de tais movimentos, como Occupy Wall Street ou os Indignados espanhóis).

Enquanto a imprensa continua a tratar black blocs como “infiltrados” (e não como uma tática do próprio MPL, defendida por seu principal ideólogo, Pablo Ortellado, que assina prefácios e posfácios e livros do próprio MPL e sobre black blocs, como 20 Centavos: a luta contra o aumento e Mascarados), o MPL se preocupa mais com a mobilização que pode gerar a revolução (seu fim de fato, com método tão estudado em autores supracitados) e não se importa em discutir o preço das passagens.

Tal método é evidenciado por um fato que o próprio MPL, na voz de Pablo Ortellado, Elena Judensnaider, Luciana Lima e Marcelo Pomar contam, pimpões e faceiros, em seu livro (só lido por eles próprios).

Enquanto toda a imprensa repercutia o espalhafato de que o MPL não conseguiu “diálogo” com o poder público, por isso “foi obrigado” a fechar ruas, tendo manifestantes violentos “infiltrados” em seu protesto que geraram conflitos com a polícia (netwar em ação), a verdade é que a primeira manifestação de junho de 2013, extremamente violenta e impopular, foi realizada às 6 da tarde do dia 06/06.

Nesse momento, ao contrário do alardeado, o MPL tinha uma reunião marcada na prefeitura para discutir a tarifa civilizadamente, talvez com a presença até mesmo do prefeito Fernando Haddad. O MPL passa na frente da prefeitura, em um prédio encostado no Viaduto do Chá, não entra e desce para o túnel abaixo do Viaduto, fechando ambas as saídas do túnel com lixeiras em chamas. Ônibus, carros, motos ficaram presos num inferno difícil de se respirar, enquanto o próprio prefeito pôde assistir ao caos da janela de seu escritório. Mais simbólico, impossível.

Não há notícias sobre tal reunião na imprensa. Em toda a vasta pesquisa que fiz para escrever o livro Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs, as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, a única menção a tal reunião se encontra no livro do próprio MPL, nas páginas 28 e 29:

20 centavos 28

20 centavos 29

O MPL quer a revogação do aumento da tarifa? Quer o “passe livre”? Até reuniões do Conselho da Cidade foram realizadas para tais discussões. O MPL apenas comparecia para vociferar que não sabe como fazer os cálculos, mas que certamente deve haver dinheiro em caixa, e que não vai sair das ruas enquanto não tiver tudo “de graça”, através de mais impostos.

Seu real objetivo, como fica claro, é o espetáculo de chamas para o clamor popular e a futura revolução. Basta ver suas hashtags e seus clamores em seu perfil do Twitter (tão impopular que, a cada tweet, só recebe críticas, menoscabo, piadas e muita gente tirando sarro de seus siricuticos).

Não será o preço da tarifa que influenciará o MPL ou a tática black bloc a desaparecer. O movimento de massa vai trocar de camada externa, mas continuará com sua “estratégia socialista” (nas palavras de Laclau) de “multidão” (nas palavras de Negri) enquanto não destruir todo o capitalismo e reinstaurar o socialismo modelo stalinista, que não pode ser mais declarado com todas as palavras após o falhanço público da União Soviética.

O MPL é apenas a velhíssima esquerda stalinista ou trotskysta apontando mais um risco para o nosso futuro. O forrobodó de 2013, afinal, não terminou. Talvez ainda mal tenha começado.

Algumas leituras recomendadas:







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