saudi arabia execution

As tensões entre Arábia Saudita e Irã se acentuam, colocando o mundo islâmico e, por conseguinte, o mundo civilizado, cada vez mais a mercê das erupções do magma muçulmano, em alerta.

A Arábia Saudita possui as duas principais cidades do islamismo, Meca e Medina, e é de maioria sunita. Praticando uma espécie de capitalismo de Estado, é uma aliada regional dos países capitalistas do Ocidente.

O Irã possui maioria xiita, disputa poder regional, cultural e religioso com a Arábia. De passado persa (e advindo de culturas mais antigas do que o paganismo árabe que o islam varreu do mapa), possuía relações diplomáticas com a União Soviética e hoje é aliado dos socialistas do século XXI, como Venezuela, Bolívia, China e Brasil.

De certa forma, além da disputa de poder político e religioso (o islamismo é uma religião descentralizada, sem um “papa”), também os dois países revivem uma continuação da Guerra Fria a olhos vistos, para quem sabe compreender sua movimentação.

Fora a disputa de lideranças religiosas entre os monarcas árabes e os mulás iranianos, o que pode fermentar o caldo é o programa nuclear iraniano, para o qual Barack Obama, seguindo Jimmy Carter, favoreceu o poder da Revolução Islâmica Iraniana. A monarquia saudita pede constantemente a intervenção americana para acabar com o programa nuclear iraniano, e adverte que comprará artefatos nucleares caso o “vizinho” prossiga no programa para o qual Obama garantiu uma continuidade.

Não é exatamente um conflito com mocinhos e bandidos e um lado a defender facilmente, embora a arte da diplomacia seja a de favorecer o menos pior.

É o que gera futuras interpretações errôneas, como o chamado “apoio” da América a ditaduras pelo mundo. No caso, apenas apoiam o menos brutal de dois inimigos, mas a boataria se espalha e se mantém por décadas, séculos. Por isso, publicações conservadoras como a Spectator afirmam que, apesar dos pesares, ainda precisamos manter relações com a “imunda e brutal” Arábia Saudita.

O que é fácil de entender é que os dois principais commodities exportados pela Arábia, o petróleo e o islamismo, funcionam como o desejado e o hiper-tolerado pelo Ocidente.

GUERRE DU GOLFE / GULF WARO que são raros os analistas capazes de entender é que a Arábia é um regime desumano, cruel, que pratica decapitação pública e crucificação como pena de morte às mancheias, não reconhece o Estado de Israel e muitas outras coisas – mas é uma monarquia baseada em uma certa tradição muçulmana. Assim, está constantemente sendo um contrapeso às convoluções violentíssimas como os levantes de Saddam Hussein para dominar a região, o populismo do partido Baath e, claro, da Revolução Iraniana, fazendo com que vários países muçulmanos, do Irã à Síria, tenham tantas relações com a União Soviética (hoje, com a Rússia). Ela que contém os ânimos de tiranos tentando unificar a ummah, união dos muçulmanos, em torno do projeto de bombardear Israel (como Saddam Hussein o fez com mísseis Scud para ganhar apoio populista em países que queria dominar).

Tratar toda a questão apenas pela clave do petróleo é uma simplificação acachapante do complexíssimo Oriente Médio.

A tensão se intensificou com a execução, no segundo dia do ano, de Nimr al-Nimr, um sheik dissidente xiita da Arábia Saudita. Após ataques à embaixada saudita em Teerã, os sauditas cortaram relações diplomáticas com o Irã. E a escala de inquietação só tende a aumentar.

binladenApesar de os grupos terroristas mais ameaçadores ao Ocidente hoje, o Estado Islâmico, o Boko Haram e, em boa medida, o Hezbollah, serem majoritariamente contrários ao poder real da Arábia Saudita, é absurdo tratá-la como uma combatente do terrorismo. O terceiro produto de exportação mais famoso da Arábia Saudita, afinal, foi Osama bin Laden, o bilionário filho de Mohammed bin Awad bin Laden, com proximidade com a família real saudita, admirado por abandonar sua vida luxuosíssima para, por devoção religiosa, lutar nas espartanas montanhas do Afeganistão com os mujahideen contrários à influência do materialismo soviético.

Na versão européia do site Politico, um dos mais influentes nas filigranas das transações políticas e tendendo a apoiar o Partido Democrata americano, Nahal Toosi escreveu um artigo com aparência de imparcialidade, mas que causa uma sensação bem mais airosa para a Arábia Saudita, com “sistema penal transparente” que é implacável contra terroristas e países que o financiam.

O problema, apresentado pelo Think Tank Watch: Nahal Toosi cita apenas três fontes – o Departamento de Estado americano, que, como diplomata, diz algo sem dizer nada que possa ser um sim ou não; o governo saudita e o “analista político com JTG Inc.” Fahad Nazer, que defende os sauditas e sua ajuda na guerra ao terror.

O que não é explicado é que Fahad Nazer é ele próprio ex-analista político na Embaixada Saudita em Washington. Hoje trabalha no Arab Gulf States Institute, um think tank formado ano passado que esconde que é inteiramente patrocinado pela Embaixada Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos.

Com esta jogada, mostrada pela Intercept, os sauditas buscam manipular a opinião de jornalistas na América para serem favoráveis ao que pretende não a diplomacia americana, mas o governo saudita. Sempre citando fontes como “analistas políticos”, “estudiosos”, “especialistas” desconhecidos, tomam por verdade tudo o que é exótico.

Por exemplo, um editorial do Wall Street Journal cita Joseph Braude do Foreign Policy Research Institute para afiançar que Nimr era um extremista violento que clamava por uma revolta militar contra a Arábia. Outras fontes, variando da BBC e do Guardian ao Christian Science Monitor, descrevem-no como não-violento e defensor de manifestações pacíficas. Braude não apresentou nenhuma evidência para sua acusação além de “fontes sauditas”.

Braude é contribuidor para várias publicações oficiais do governo saudita, incluindo Al Arabiya e Al Majalla. Nenhuma dessas referências foi mencionada no Wall Street Journal. Braude também foi condenado em 2004 por tentar contrabandear artefatos de 4 mil anos saqueados do Museu Nacional do Iraque após a tomada de Bagdá pelas forças americanas.

A Arábia Saudita é um “parceiro” por falta de alguém melhor na região. Ainda é um país que impõe a shari’ah, que decapita infiéis e traidores do regime. Mas, como qualquer pessoa que assistiu Homeland sabe, não é um país livre de financiamento ao terrorismo, nem de ações violentas até em pleno solo americano.

saudi arabia execution 2O plano geopolítico americano e ocidental, traçado por Henry Kissinger na década de 70, foi sempre o de apoiar o menos pior dos inimigos, o que gera uma dupla interpretação entre os anti-ocidente. Ora criticam o “imperialismo” das intervenções militares americanas contra tiranias, ora criticam o “apoio” (como se fosse desejado) do Ocidente por um tirano menor contra um maior. Como se fosse possível implantar a pax americana que sempre criticam quando implantada.

Contudo, ver como a manipulação da opinião pública até americana está sendo controlada por pessoas tão ligadas ao “extremismo” acende uma luz de alerta vermelho em nossa percepção. É a chamada infowar, a guerra de narrativas que esconde de nós o real tecido dos fatos. Antes mesmo de termos uma noção dos acontecimentos, já temos nossos sentimentos direcionados para um lado ou outro da história.

Antes de medir a credibilidade de uma notícia através do jornal em que ela é publicada, urge compreender as fontes destas publicações. Os think tanks e fontes artificiais de dados, colunas e opiniões que vão cuidar do que achamos que é verdade.

São estes agentes plantadores de notícias, espalhafatos e visões de mundo que cuidam de mediar nosso contato até com as próprias notícias, tecendo sentimentos anteriores ao que lemos. Já orquestrando nossa preferência, somos vacinados contra qualquer notícia em sentido contrário ao que querem os especialistas em costurar visões de mundo do Ocidente, tão viciado em “opinião pública” desde pelo menos a Revolução Francesa.

Como demonstrou Alexandre Borges em palestra ao MBL, citando o método do Americans for Democratic Action, um grupo de esquerda, as fontes do jornalismo contam extremamente para o resultado final do noticiário. No noticiário americano, em uma cifra a qual o Politico faz peso, a imprensa dá ao Partido Democrata de 8 a 10% dos votos. Sem este viés, por exemplo, John McCain teria vencido Barack Obama por 56% a 42% em 2008 (perdeu por 46% a 53%).

O perigo maior das interpretações do mundo, hoje, envolvem este vezo por considerar “aliados” como corretos, sobretudo em relação a um inimigo maior e mais poderoso. É o que era chamado “desinformação” na Guerra Fria, habilidade número 1 da KGB – que, ao contrário da visão aventureira e instigadora de filmes de espionagem, não era um comitê de espiões tramando assassinatos irrastreáveis, mas uma rede de professores, jornalistas, padres e formadores de opinião. Os profissionais simpáticos, que ajudavam os vizinhos quando precisavam.

E mesmo entre aliados ocasionais e problemáticos, como a “suja e brutal” Arábia, é preciso ter cuidado imenso. Ainda que o inimigo seja o Irã nuclear.





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  • Flávio, bom dia!

    É complicadíssimo traçar uma estratégia de longo prazo no Oriente Médio. A cada momento um antigo aliado (geralmente um tiranete) torna-se o atual inimigo, cujo denominador comum é o patrocínio do terrorismo. Quem sabe quando o petróleo deixar de ser tão valioso (seja por preço ou por uso de algum substituto) esse caldeirão resfrie e dê algum sossego ao mundo.

    Ainda não meditei muito no assunto, mas eu tenho a impressão que a única época em que o Oriente Médio viveu relativa paz foi durante o domínio otomano. O problema é que os islâmicos, não contentes em se exterminar, querem acabar com o mundo comedor de bacon. Talvez um estado forte o bastante para instalar uma PAX na região, seja uma ameaça ainda maior ao Ocidente.

    Sinceramente, não faço ideia de alguma estratégia de longo prazo para conter o terrorismo. Penso que essa é uma realidade que teremos que aceitar.

    • Flavio Morgenstern

      João, é tema pra um dos meus próximos artigos, mas a questão do Império Otomano é que ele era um califado, e não contente com isso, quase tão criminoso quanto o ISIS é hoje, mas os meios de comunicação da época não permitiam ao Ocidente saber disso. O que o ISIS quer não é senão ser o novo califado. Mas isso é, ehrr, spoiler. 😉

  • Artur

    No prefacio da primeir edicao de Animals Farm, George Orwel denunciou que a opiniao publica inglesa trabalhava para os intesses da URSS e nao da diplomacia inglesa quando praticava auto censura em relacao a qualquer fato sobre o que estava ocorrendo nos dominios bolcheviques,a pretexto de nao ferir a suscetibilidade de um oossivel aliado. Ocorre o mesmo em relacao a arabia agora. Nossas classes falantes sao prodigas em desonesidade e falsificacao da historia em prol de uma narrativa que tem por horizonte a destruicao do ocidente como o conhecemos. Faltou acento neste teclado.

  • Marcel

    A Arábia Saudita financia o ISIS? Isso já não coloca ela num patamar similar ao Irã?

    • Flavio Morgenstern

      O ISIS é sunita, mas é um califado, ou seja, declara-se como portador de um supremo “verdadeiro islam” também politicamente. Mas o ISIS, tanto comercialmente quanto pela pilhagem, recebe dinheiro e combatentes de todo lugar, sobretudo do país islâmico com as principais cidades muçulmanas.

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