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Na peça Ricardo II, que fala justamente sobre um rei que será deposto por seus pares, William Shakespeare faz o moribundo João de Gaunt dar o seguinte conselho ao incompetente e arrogante monarca:

“Tens por leito a própria pátria, onde agoniza tua reputação. E tu, por seres um doente negligente, o ungido corpo aos cuidados confiaste dos que tantas feridas te causaram, os milhares de aduladores que se abrigam dentro da coroa, cujo âmbito, contudo, se mede apenas pela tua cabeça. Mas com ser tão pequeno o ninho deles, estende-se a devastação por toda a terra”.

Para quem ainda precisa de tradução neste Brasil varonil, especialmente se for do lado da direita histérica e esnobe ou da esquerda anquilosada e jacobina, fica claro que Shakespeare nos enviou um recado sobre como estamos indo para o caminho errado ao ouvirmos os conselhos doentes de conselheiros ainda mais infectados, especialmente em tempos de “impedimento” da Sra. Presidente Dilma Rousseff.

É só ligar a TV, abrir o jornal, acessar a internet e dar uma breve olhada na timeline do Facebook ou do Twitter para comprovar o contágio geral desta doença. A elite brasileira, a que supostamente comanda o nosso país, dá ouvidos a uma outra elite, formada em sua maioria por intelectuais, jornalistas e artistas, que não consegue entender o ambiente de incerteza que vivemos e, sem saber se isso é algo que pode ser mais uma vantagem do que um prejuízo, querem divulgar ao resto da população, tida como iletrada, que tal instabilidade seria negativa e que corromperia as “nossas instituições solidamente democráticas”.

Joshua Cooper RamoO que esse “círculo de sábios” evita reconhecer é que, se há uma regra geral para entender o mundo atual, é aceitar a incerteza como nosso único fundamento. Em A Era do Inconcebível, o cientista político Joshua Cooper Ramo (um globalista in disguise, mas suficientemente inteligente para ser braço-direito de ninguém menos que Henry Kissinger, o Delfim Neto dos americanos, com a vantagem de que ele não é um economista) afirma claramente que um país que tenha uma elite ineficiente ao entender essa nova situação também se torna inviável para resolver qualquer crise que apareça – e pelo motivo mais simples: a incapacidade de entender que a mudança está no centro da vida de todos nós.

Na grande mídia, não há exemplo mais concreto dessa atitude de “estratégia da avestruz” do que o programa Painel, exibido no canal por assinatura GloboNews e mediado por William Waack. Ninguém aqui quer questionar a competência de Waack (autor do excelente Camaradas, um livro essencial para se entender a influência do Partido Comunista Brasileiro na vida cultural e política do país), mas o fato é que parece que ele se tornou vítima daquilo que acomete qualquer jornalista que está há tempos no mercado: o Efeito Rolodex.

Saia-Justa-do-GNT-Paula-LavigneO Efeito Rolodex é o fenômeno em que o homem de imprensa, já acomodado na sua “zona de conforto”, decide que não adianta mais ousar em qualquer coisa que faça na grande mídia, e então apela para os contatos mais habituais e seguros, os que não darão nenhum problema, todos marcados em um Rolodex já empenado e embolorado. Consequentemente, eles terão lugar certo em cada edição do programa, talvez com uma alteração aqui, outra acolá, mas o suficiente para que contamine o debate cultural-político de tal maneira que a doença passe a ser uma normalidade e o espectador, anestesiado e confuso, acredite que aquilo que escuta dos “luminares” presentes ali seja percebido como a verdadeira visão sobre o estado de coisas do país.

william waackNo caso específico do programa Painel, o uso excessivo do Efeito Rolodex tem um agravante: temos a impressão de que não estamos mais assistindo um programa de entrevistas ou de discussão frutífera, e sim uma reunião de consultores que, no melhor estilo “cada um por si, Deus por todos”, querem convencer o espectador que eles não têm uma “agenda oculta” quando isso, na verdade, está escarrado na nossa cara o tempo todo – em geral, para convencer os clientes da elite financeira de que eles são os sujeitos ideais para serem contratados. E não adianta nada você reclamar: se quiser alguma alteração, o Rolodex agirá novamente, com apenas uma rodada na agenda de contatos e mais uma mudança “cosmética” para disfarçar o fato de que a maioria da imprensa está gravemente doente.

Os exemplos são tantos no programa que, se o leitor quiser fazer o teste para comprovar que este texto não está sendo malicioso, terá a impressão certeira que entrou no meio de uma cena criada por Eça de Queirós em O Primo Basílio e está a conviver, sem pedir nada para isso acontecer, com um batalhão de Conselheiros Acácios – representações do famoso personagem que dizia o “óbvio ululante” com a linguagem mais empolada possível.

Os escolhidos deste tipo de atitude estão a mancheias (como diria o Eça), e é nosso dever analisar alguns deles, sempre a título de inocente indagação, uma vez que qualquer fala sem este tom dará ensejos a um eventual processo judicial, algo que a parca economia deste escriba é incapaz de providenciar.

salem nasserMas, enfim, o que dizer de Fernando Schüler, que parece competir com Demétrio Magnoli o título de “desinformante do ano”, talvez da década, ao confundir os incautos com sua defesa da “democracia” e do “pluralismo” quando, na verdade, acentua (ou revela) ainda mais a pusilanimidade da elite intelectual em relação à permanência da Nova República no poder? Ou então Carlos Melo, apelidado como “O Senhor dos Anéis”, que, no meio de um programa exibido em rede nacional, parece ser pago para dizer pérolas de sabedoria como “se [a situação política] piorar, piorará para a gente; se melhorar, será melhor para a gente”, enquanto nos obriga a ouvir o choque dos três adornos que cobrem seus dedos no momento em que ele inicia um raciocínio que mal consegue articular um “urubu, meu louro”? Sem falar em Salem Nasser, praticamente um garoto propaganda não oficial da causa palestina e que, protegido pela carapuça acadêmica, fala as maiores barbaridades contra Israel e sobre a situação do Oriente Médio.

E isso não é culpa exclusiva de William Waack, não senhor. Quando este resolve dar uma brecha ao seu domínio quase onipotente no programa Painel, sua substituta, a mocetona Renata Lo Prete, resolve, sabe-se lá porque, promover o indecifrável Celso de Barros, dublê de cientista político que, em priscas eras, tinha um blog chamado justamente daquilo que fazia quando discorria sobre a situação política nacional em seus textos: NPTO (Na Prática, a Teoria é Outra).

Mas acalme-se, leitor: tal visão de “cavalo de jockey”, intensificada pela moléstia do Efeito Rolodex, não é privilégio dos iluminados que aparecem no Incrível Exército de Waack e Lo Prete, apelidado carinhosamente em outras bandas de “Como Discutir o Sexo dos Anjos”.

A imprensa inteira – não, devemos ser mais precisos, 98% dela – está amarrada neste paradoxo inigualável: cada participante do Painel, cada escriba que cospe a sua opinião na página 3 da Folha de São Paulo, na coluna do editorial do Estadão, do Globo, todos afirmam que, para resolver o problema do país, é fundamental que se renova o debate público. Contudo, como fazer isto se os “aduladores que se abrigam dentro da coroa” não param de receitar um remédio que, justamente por estar fora da validade, pode matar definitivamente o corpo doente do país?

grima wormtongueE o que seria tal “remédio”? Para cada Conselheiro Acácio que usa a imprensa como sua tribuna, a solução para manter a “estabilidade democrática” seria a da recusa da incerteza, este monstro de sete cabeças, como algo benéfico e que passa a ser visto como um elemento negativo, talvez potencialmente destruidor. Mas, na verdade, isto é mais uma desculpa para boi dormir: os Acácios que nos rodeiam se apegam à retórica do “óbvio uluante”, porém esquecido por quem deveria nos avisar disso, simplesmente para defender o que é o seu e manter, a qualquer custo, a “coroa vazia” da grande mídia.

Lamento informar-lhes de que o artifício não dará certo, nobres cidadãos romanos, mesmo que vocês nos emprestem seus ouvidos para nos atender. Um dos pontos mais interessantes do raciocínio de Joshua Cooper Ramo sobre a instabilidade que nos governa é sobre o Efeito Monte de Areia (The Sandpile Effect). Para ele, as coisas estão tão interligadas no nosso mundo caótico e imprevisível que um determinado sistema fechado, por acreditar ser autossuficiente, jamais saberá quando começa o seu colapso, que pode ser igual a um pequeno grão de areia e fazer toda a estrutura construída desabar em um piscar de olhos.

O jornalismo brasileiro está no ponto exato de se tornar mais uma vítima do Efeito do Monte de Areia, de tanto acreditar que na eficácia do Efeito Rolodex. Pouco a pouco, de maneira imperceptível para quem faz parte do esquema, mas não quem para quem está fora dele, o jornalismo mostra sua completa irrelevância sobre as informações que divulga e sobre as tendências que deveria iniciar.

jose guilherme merquiorTome o exemplo da Folha de São Paulo, especialmente no seu caderno cultural de domingo, a Ilustríssima. Há debates que ocorrem em suas páginas que já foram resolvidos na década de 1980. Por exemplo: se José Guilherme Merquior era um sujeito da direita inteligente (qualquer um com dois dedos na testa sabe que Merquior nunca foi de direita e que ele era, de fato, muito inteligente) ou então a patética entrevista do presidente do IPEA, Jessé Silva, sobre seu livro mais patético ainda, A Tolice da Inteligência Brasileira, que afirma com a maior cara-de-pau que Sergio Buarque de Holanda era um crítico “liberal” que demonizou o Estado na cultura nacional (quem leu as últimas páginas de Raízes do Brasil sabe que é justamente o contrário).

Novamente, temos nesses dois casos uma mistura explosiva de Efeito Rolodex com as delícias do Sexo dos Anjos – e a consequência óbvia é a negação obsessiva de que esse tipo de jornalismo é justamente o grão de areia que faltava para fazer a imprensa inteira se dissolver sobre nossas cabeças.

O único problema é que, para perceber que o monte de areia começou a se desfazer, demoram vários anos – e, enquanto isso, somos obrigados a respirar este miasma infecto de ruído e discussões estéreis.

Contudo, os números não mentem: em menos de doze meses, a circulação dos jornais impressos nos grandes centros urbanos caiu de forma assustadora, conforme aponta o quadro abaixo do IVC (Instituto Verificador de Circulação):

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E não adianta contra-argumentar com o dado sofístico de que, por exemplo, a Folha ganhou mais relevância no meio digital, com a disseminação de notícias nas redes sociais. Esta é mais outra conversa para fazer o boi não só dormir, como também hibernar por anos a fio.

O que os “luminares” da imprensa ainda não perceberam é que, seja na Folha, na Rede Globo, no Estadão, é que antes eles ditavam a moda; agora são as redes sociais que determinam o que deve ser seguido – e quando falamos em “redes sociais”, entenda-se o público, composto tanto por seres letrados como também por este pessoal iletrado que não sabe coordenar sujeito com predicado, mas ainda tem a sabedoria prática para distinguir o que é verdade e o que é pura besteira.

net delusionÉ claro que isso não significa necessariamente uma boa ideia. Em The Net Delusion, o bielorusso Evgeny Morozov mostra que a dependência de um regime democrático para a troca de fatos e informações em redes sociais não é prova de que a liberdade prevalecerá, mas sim que pode acontecer justamente o seu contrário – ou seja, a criação de uma nova tirania, talvez a “tirania da maioria” profetizada por Alexis de Tocqueville no seu A Democracia na América.

É muito provável que a “coroa vazia” da grande mídia seja substituída pela “babel” do Facebook para manter o corpo doente de um sistema de governo que não tem mais representação popular, exceto pelos militantes virtuais do Partido dos Trabalhadores ou qualquer outra facção que tenha o estômago para pagar as contas deles.

Enfim, o que testemunhamos é um Efeito Monte de Areia sobreposto a outro, somada à artificialidade do “Sexo dos Anjos”, cuja intenção primeira é querer impedir que percebam a novidade de um mundo que já atinge a todos nós, desde os atentados de 11 de setembro de 2001, passando pela crise financeira de 2008 – e sem prazo para acabar, com a expansão islâmica na consciência ocidental, especificamente na europeia, acentuada pelo surgimento aterrorizante do Estado Islâmico.

dilma fogoO “circulo dos sábios” da nossa imprensa tupiniquim ainda não percebeu que as pessoas deste “novo mundo” pensam de maneira assimétrica, assistemática e pouco se importam se querem preservar aquilo que a tal “estabilidade democrática” sempre garantiu. Independente de serem da direita ou da esquerda, católicos ou muçulmanos, republicanos ou democratas, russos ou americanos, o que eles desejam é o mesmo que o grande pensador Alfred Pennyworth disse a seu mestre Bruce Wayne: “Alguns homens só querem ver o mundo pegar fogo”.

Ou, no caso de sermos os “doentes negligentes”, contaminarmos o corpo inteiro de uma nação, como nos avisou William Shakespeare pela boca do velho João de Gaunt. A insistência na recusa de aceitar a incerteza inerente ao mundo que hoje vivemos não é apenas o anseio de permanecer em um sonho ou na crença de que todos na imprensa ou na política terão uma chance de se apossar da “coroa vazia” dos nossos governantes e dos seus conselheiros. É algo muito mais perigoso: trata-se de cavar a própria cova.

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