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No box da primeira temporada de O Mentalista, aparecem as seguintes informações de catalogação: Tema: Investigação – Contém: Agressão física/Assassinato/Paranormalidade.

Talvez por isso aqui no Brasil a série não teve o destaque merecido. Provavelmente, associavam-na à série Paranormal (Medium), em que a médium Allison DuBois ajuda a polícia a prevenir ou esclarecer crimes, parecendo mais do mesmo. A associação é incorreta.

Não há paranormalidade ou elementos sobrenaturais em O Mentalista. Patrick Jane (Simon Baker) era um charlatão, que dizia ter poderes sobrenaturais de adivinhação e leitura de mentes. Um dia, num programa de TV, levando-se pela vaidade disse que era capaz de ver como e onde estava Red John, o assassino em série que havia matado 8 mulheres até aquele dia. Ao chegar em casa, sobe as escadas e encontra um bilhete: “Se não fosse um verme mentiroso, mas um vidente de verdade, não precisaria abrir a porta para saber o que fiz com sua mulher e sua filha”. Ele abre a porta, a luz bate na parede oposta onde ele vê o desenho de um rostinho sorridente: era a marca registrada do assassino, feita com o sangue das vítimas.

Red John

Red John Sign

Patrick enlouquece, passa anos numa clínica e, ao sair, vai trabalhar como consultor na CBI, o Centro de Investigação da Califórnia. Lá, utiliza suas habilidades de observar, trapacear e manipular para resolver casos na equipe de investigadores liderada por Teresa Lisbon (Robin Tunney). Jane, como é chamado no trabalho, agora é um homem profundamente atormentado, que nega a existência de Deus e de elementos sobrenaturais que possam explicar quaisquer fenômenos, porém se protege dos olhares de pena e de demonstrações de afeto abusando de ironia, sarcasmo e petulância.  Ele coopera com a polícia justamente para ter acesso aos arquivos do homem que matou sua mulher e sua filha.

Diferente das demais séries policiais como CSI e NCIS em que vemos uma espantosa tecnologia à disposição dos investigadores e profissionais com grande competência técnica para utilizá-la, a série criada por Bruno Heller é bastante verossímil. Os policiais trabalham muito, com poucos recursos, e, não raro, ainda enfrentam barreiras burocráticas que atrapalham suas investigações.

CBI

O Mentalista também se diferencia das demais séries policiais, inclusive de Criminal Minds, que trata exclusivamente de serial killers, porque o fio condutor da trama é o percurso que Patrick Jane percorrerá para obter pistas sobre Red John ao longo de 6 temporadas. Os espectadores vão montando o quebra-cabeças junto com os protagonistas e cada episódio pode conter uma peça nova, por isso devem ser vistos de maneira linear – o que não vem a ser necessário nas demais séries mencionadas, pois a compreensão dos casos prescinde das informações obtidas nos capítulos anteriores.

Além disso, em todas as séries policiais os problemas particulares dos principais personagens são mostrados (divórcio, doença em família, discussões com filhos, etc) como questões à parte, e podem, no máximo, alterar o humor e o comportamento de alguns deles durante um ou dois episódios. Já a tragédia vivida pelo mentalista possui conexão com dezenas de casos que a equipe investiga e com toda a polícia da Califórnia, como se verá a partir da terceira temporada.

Apesar de falar sobre assassinatos comuns e crimes hediondos, o diretor conduz os capítulos com bastante leveza, com destaque para as artimanhas de Patrick Jane para encontrar evidências ou obter confissões dos criminosos. Muitos dos crimes são passionais, não planejados, o que torna difícil traçar o perfil dos assassinos.

É por isso que os investigadores aturam os métodos nada ortodoxos e a petulância de Jane. Muitas vezes precisam ceder aos seus caprichos para impedir que inocentes sejam condenados quando as provas apontam para o suspeito errado.

Com os anos de trabalho em equipe, passam a se respeitar profundamente e dariam a vida pelos colegas. Teresa Lisbon é o ponto fraco do Mentalista. A única maneira de o controlar é ameaçando-a. Os demais membros da equipe também se arriscam por ele, mas é a chefe quem costuma ser cobrada e advertida pelas extravagâncias do seu colaborador.

mentalis todosPatrick Jane passou a juventude num circo, onde aprendeu truques de mágica, a arte da enganação e a “leitura de mentes” pela observação das reações das pessoas. Seus poderes são extraordinários, porém nada sobrenaturais: ele lê as pessoas, porque conhece o espírito humano com todas as suas fraquezas, vaidades, inseguranças e desejos. O único sentido que sua vida passa a ter é encontrar o assassino de sua mulher e de sua filha, ainda que pegue prisão perpétua depois. O peso da dor não o permite desviar desse caminho e, já que tudo lhe foi tirado, ele não tem medo de nada, pois nada tem a perder.  Ao batalhar por esse objetivo, de maneira obsessiva, acaba ajudando os colegas e todos os que buscam justiça, enviando para a cadeia tantos outros que destruíram vidas e famílias.

Todo o elenco possui atuações excelentes, mas Simon Baker não é o protagonista à toa. É possível enxergar sua dor, sua revolta e até mesmo imaginar a piada em que ele está pensando só de observar seus olhos. Ele é capaz de levar o público às lágrimas e às gargalhadas num mesmo episódio.
Lisbon e Jane

A classificação da própria Warner nos DVDS não contempla a complexidade da série. Talvez fossem mais adequadas as palavras investigação, drama, suspense, sarcasmo e superação.

Quem vê Patrick Jane sobrevivendo à própria dor e culpa e se contentando com cada migalha que sirva de pista durante uma década, sem desistir frente às frustrações, certamente se lembra do Dr. Viktor Frankl sobre encontrar sentido em momentos de dor: “Quem tem um porquê encontra qualquer como”.

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Saiba mais:








 

  • Essa série era fantástica, foi a primeira série que passei a acompanhar de verdade. Depois da terceira temporada ela perdeu o ritmo e trouxe um desfecho ridículo pro arco do Red John, uma pena.

  • Fiquei interessado. Realmente achava que era mais uma série policial com paranormalidade. Parabéns pelo texto.

  • Claiton

    Essa série eu vi. Realmente é muito boa!

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