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Já está quase fazendo parte do nosso cotidiano. Mais dia menos dia, chegam notícias tais quais: Agência de classificação de risco rebaixou nota do Brasil, Risco-calote do Brasil já é igual ao de Angola, Com corte, Moody’s deixa Brasil pior que Paraguai, Namíbia e Cazaquistão.

E vamos levando a vida, esperando o último dia do mês e já começando a achar a palavra “calote” novamente familiar.

Quero aqui abordar um ponto, no entanto que acho crucial para entendermos a causa do nosso vexame nos mercados mundiais: confiança. E vou fazer uma comparação algo esdrúxula. Vou comparar o Brasil ao Sea World.

Primeiro: como podemos definir confiança? Muitos pesquisadores que trabalham nas áreas de economia e gestão têm se debruçado há algum tempo sobre o tema. Afinal, nós confiamos nas outras pessoas todo o tempo (se não confiássemos, nunca tomaríamos uma vacina), empresas realizam transações 24 horas por dia e países financiam suas dívidas lançando títulos (sobre os quais serão pagos juros) já faz um bom tempo.

Dá para dizer que entre os pesquisadores acima, existem aqueles que são mais “desconfiados” e os que são mais “confiados” na hora de explicar qual a razão que está por trás da nossa, enfim, confiança em estranhos.

Há um grupo de economistas que vai dizer que nós confiamos quando existe um contrato. Ou seja, nós só tomamos vacina, vendemos para um cliente e fazemos aplicação em tesouro direto (os tais títulos de dívida do governo) porque sabemos que existe uma punição caso a outra parte não cumpra parte do acordo.

Já entre os mais confiados, temos um cara como Mark Granovetter (Economic action and social structure: The problem of embeddedness. American journal of sociology, p. 481-510, 1985), que diz que a confiança existe por causa da imersão. Estamos imersos em laços sociais e estruturas que são mantidas pela confiança em que a outra parte vai manter o seu comportamento. Não somos nem seres eternamente em busca de auto-interesse (e oportunistas a todo o momento), nem seres que só reproduzem o que nos foi ensinado. A conclusão da teoria toda? Relações econômicas estão imersas em relações sociais.

Então vamos agora pensar em confiança aplicada ao Sea World. Acho que muitos de vocês que leem essas linhas já ouviram falar (alguns até já foram) ao parque. É uma rede de parques nos Estados Unidos onde as pessoas podem ter contato com animais marinhos. E o ponto alto do parque sempre foi o show das baleias, as Shamus.

A coisa sempre funcionou porque havia confiança. O parque passava em sua comunicação corporativa e nos shows a ideia de que as baleias eram bem tratadas, viviam felizes e gostavam de seus treinadores. E as pessoas acreditavam nisso.

sea worldEis que em 2013 surge o filme Blackfish, documentário vencedor de vários prêmios, que mostra que a situação das baleias era tudo menos idílica. Elas foram caçadas, seus laços sociais rompidos, tinham pouco espaço e vivam estressadas. O resultado foi a morte de uma treinadora.

As consequências para o SeaWorld foram muito ruins: notícias indicam que ao final de 2015, o parque havia perdido mais 80% dos seus lucros e já pensava em eliminar os shows com orcas de alguns dos parques.

Agora, vamos ao Brasil. Quando uma agência de classificação de risco diz que a nota do país abaixou, está dizendo que estamos mais próximos do calote. Claro que há uma análise dos números do país, das receitas e das despesas. Mas, assim como no caso do Sea World, o nosso “valor de mercado” é perdido basicamente por uma questão de perda de confiança.

A professora Rosemarie Bone (Ratings soberanos e corporativos: mecanismos, fundamentos e análise crítica. Perspectiva Econômica, v. 2, n. 1, p. 46-67, 2006) argumenta que as agências de classificação de risco utilizam as seguintes variáveis qualitativas para definir as notas soberanas dos países: a) estabilidade e legitimidade das instituições políticas; (b) participação popular nos processos políticos; (c) probidade da sucessão das lideranças; (d) transparência nas decisões e objetivos da política econômica; (e) risco geopolítico; (f) outros (caso necessário).

dilma bad moodyLegitimidade das instituições políticas e transparência nas decisões e objetivos da política econômica são as nossas orcas torturadas. O possível risco de o Brasil dar calote é a nossa treinadora de baleiras morta. São os elementos que erodiram a confiança do mundo no Brasil e que tanto afetaram nossas relações econômicas.

A condução da economia sob a batuta de Dilma (com as tais “pedaladas fiscais”, contrárias à transparência) e os incontáveis escândalos de corrupção são elementos tão relevantes na nossa derrocada quanto as (terríveis) contas públicas em si.

O PT hoje é o Sea World. As agências de risco, o Blackfish.

O único jeito de melhorar a confiança dos mercados no Brasil, e garantir que as sinalizadoras dessa confiança, as agências de classificação de risco, também melhorem sua avaliação, é investir em outro tipo de entretenimento. O mundo não quer brincadeira com o dinheiro público.

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  • Camila

    Parabéns pelo artigo, muito esclarecedor. Ficou fácil de explicar para outras pessoas da próxima vez que surgir na conversa.

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