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Faltavam poucos minutos para as 7h daquela manhã de sol quando os tiroteios começaram. Aquele não seria um domingo qualquer. Moradores correram para suas casas enquanto helicópteros sobrevoavam cada ponto de fuga. Quem já havia saído para trabalhar foi impedido de voltar. Depois de uma semana de crimes e terror, o maior complexo de favelas da cidade seria finalmente ocupado.

Um aparato de quase três mil homens cercou os 58 pontos de acesso ao Morro do Alemão e da Penha usando 36 blindados e tanques de guerra. Ao lado de 1.300 policiais militares e civis do Rio, 800 paraquedistas do exército, 300 policiais federais, 200 fuzileiros navais participaram da ocupação mais espetacular dos últimos anos. Na linha de frente, o notório Batalhão de Operações Especiais (Bope), a tropa de elite da polícia militar estadual.

Apenas duas horas após o início da ação, o subchefe operacional da Polícia Civil, Rodrigo Oliveira, anunciava que o Alemão estava recuperado. A bandidagem praticamente não ofereceu resistência e o complexo estava “pacificado”. Por vota das 13h30min, uma bandeira do Brasil foi hasteada no teleférico do alto do morro, num dos momentos mais simbólicos de todas as ações deste tipo já feitas.

DantonA “pacificação” do Complexo do Alemão em novembro de 2010 será lembrada para sempre. Não apenas pela recuperação de uma área conflagrada com 15 favelas e 400 mil moradores, uma das mais violentas do país, mas também por revelar como os criminosos que ocupavam a área eram eficientes em mostrar mais poder do que realmente tinham. Quando a polícia e as forças armadas finalmente decidiram recuperar a região, o que parecia impensável, a parte mais arriscada da operação levou pouco mais de duas horas. Como disse Danton em 1792, “il nous faut de l’audace, et encore de l’audace, et toujours de l’audace”.

Faz parte do arsenal dos criminosos e guerrilheiros mais ousados o uso de técnicas para despistar, amedrontar ou atordoar o adversário mais forte. Há os que apelam para aterrorizar a população civil ou dar demonstrações públicas de barbarismo, como nas execuções divulgadas em vídeo pelo Estado Islâmico. O terrorismo e o crime organizado operam nesta mesma frequência, realizando ações pontuais com um único propósito de espalhar o pânico e fazer com que sua incapacidade de derrotar o inimigo no confronto direto dê lugar a uma batalha psicológica de atordoamento, quebra de resistências e vitória pelo cansaço do oponente.

morozgvnc_fileMais complexo do que ocupar o Complexo do Alemão ou Bagdá é reclamar para a sociedade novamente os centros do poder em Brasília, mas nada impossível, inviável ou impraticável. Criminosos encastelados nas instituições democráticas do país também usam de bravatas para dar a impressão de serem mais ameaçadores e letais do que realmente são e o primeiro passo para a vitória sobre eles é não se deixar levar pelo valor de face do que dizem, tanto diretamente quanto por seus despachantes na imprensa e blogosfera. Eles tentam evitar a todo custo o enfrentamento direto com a lei para que suas reais forças não sejam colocadas à prova.

Alguns movimentos recentes da Operação Lava Jato lembram o tipo de aviso que a segurança pública do Rio de Janeiro enviou aos líderes do Complexo do Alemão em 2010. Ao deixar claro que o estado está a caminho e que a marcha é irreversível, o poder público tem a chance de evitar confrontos diretos e o uso desnecessário da violência, especialmente pelo risco da fabricação de narrativas vitimistas que possam ser usadas para fins políticos dos eventuais presos.

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A tropa de elite de procuradores da Lava Jato parece entender que é possível ocupar e pacificar as partes do poder entregues ao crime sem iniciar um conflito direto com seus apoiadores, especialmente por saber que a resistência poderá ser pequena na detenção mas ela dará início a uma outra batalha, que é a conquista de corações e mentes da opinião pública. A guerra pela opinião pública é a mais importante de todas nesse momento e não é um desafio para principiantes.

O Brasil precisa com urgência ocupar e pacificar Brasília, tirando de lá os meliantes que puderem ser condenados e reclamar o território de volta para a população. É perfeitamente possível fazer a ocupação sem a necessidade de blindados, bastam os avisos certos para ouvidos que saibam ouvir. Se o país mandar uma mensagem clara de que o poder voltará a ser exercido sob o império das leis e da Constituição, que não há ninguém acima do ordenamento jurídico do país, a ocupação poderá ser feita sem traumas ou choques, mantendo a normalidade democrática e a ordem pública.

23694300-lava-jatoOs ingredientes de sucesso da ação são bastante conhecidos: não recuar, ter clareza de propósitos, estar do lado da lei, mobilizar o devido aparato de força do estado e realizar as prisões necessárias, todas amparadas judicialmente e respeitando os ritos constitucionais. Tomando os cuidados necessários, o país poderá se ver livre da maior organização criminosa que já conheceu e recolocar a bandeira nacional no lugar da estrela.

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  • Carvalho

    Excelente texto como sempre Alexandre.

    Acho que seria educativo mostrar o “antes” e o “depois”, como faz o mercado publicitário. Só que ao invés de carecas se tornando cabeludos, poderia ser mostrado como bravatas viram fumaça.

    Um bom exemplo são as ameaças de violência nas manifestações contra o PT. Botam medo em muita gente de bem, que acaba não indo protestar, e no final sabemos que não são de nada. O próprio Lula é um bravateiro de marca maior.

    Como diria o outro. Temos que focar no que fazemos melhor. Memes!

  • Rafael

    Queria ter essa esperança, mas não vejo assim, o que observo é um claro direcionamento dessa operação, e além disso, essa visão maniqueísta que existe uma quadrilha e ela é a única responsável pela corrupção está equivocada.

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