ricardo noblat

O pedido de prisão preventiva do ex-presidente Lula vem desencadeando reações as mais díspares. Já respondemos aos advogados de Lula e analisamos tecnicamente a peça – diferentemente da Folha, que apenas afirmou que “especialistas” (como se fossem todos os especialistas do país) garantem que o pedido afronta a lei. Em nosso caso, vimos que, de uma maneira que a defesa não espera, ela está certa.

exemplum maximum do que as alegações da defesa, o bafafá na mídia e a nuvem de fumaça provoca em incautos pouco especializados em Direito de hoje veio de Ricardo Noblat, jornalista d’O Globo, que declara voto em Lula e Dilma, apesar de suas críticas mordazes ao PT.

Como afirmamos, há sim uma operação midiática: um discurso reproduzido na mídia para ser repetido bovinamente por todos os que o compram. Para dar uma aparência de credibilidade, este discurso vem justamente criticando a imprensa, afirmando que “isto não sai na mídia”.

Ricardo Noblat chama os três promotores que pediram sua prisão de “jovens” como algo denegri-los, que “procuram seus 10 minutos de fama”, que produziram uma peça “medíocre” e “prenhe de adjetivos barulhentos e inócuos”, além de ser “panfletária”, além de que “sequer (sic) disfarça a má vontade que seus autores devotam a Lula”. Com a óbvia exceção da genuflexão ao ex-presidente, todas características que se aplicam ao próprio texto medíocre e prenhe de adjetivos barulhentos e inócuos (exemplo: “prenhe de adjetivos barulhentos e inócuos“) que é o próprio artiguinho de Ricardo Noblat.

Como conclui o próprio Noblat, sem base em muito além de sua extrema boa vontade que “sequer” disfarça que devota a Lula, é, “em suma, uma porcaria”. “Cujo destino deveria ser a lata do lixo”.

De acordo com os promotores, a prisão preventiva de Lula tem sobretudo quatro bases. Noblat apresenta as seguintes contra-razões (não utilizamos o novo acordo ortográfico, assinado por um presidente que nunca leu um livro na vida) a cada uma delas (a seguir, nosso comentário).

Tese: Lula teria feito críticas à atuação do Ministério Público e a decisões judiciais;

Noblat: Lula tem o direito, como de resto qualquer cidadão, de criticar o Ministério Público e decisões da Justiça. Se o fizer em termos  ofensivos, poderá ser processo, apenas isso;

Uma crítica de Lula não tem o mesmo valor de uma crítica minha, sua, de Ricardo Noblat. Apenas se alicerçar pelo resumo que a peça jurídica faz de tantos fatos é manipulação gritante. Quando Lula “critica”, é incitando, por exemplo, o “exército do Stédile nas ruas”. Bem diferentemente da minha crítica ao cabelo Maga Patalójika da Carmen Lúcia.

Tese: Lula “poderia inflamar a população a se voltar contra as investigações criminais”;

Noblat: Não dá para prender Lula por um crime que ele ainda não cometeu, o de inflamar a população para que ela se volte contra as investigações;

O crime que Lula “ainda não cometeu” só não foi cometido na cabeça de Ricardo Noblat. Praticamente nenhuma frase de Lula ou de petistas graúdos recentemente tem como sentido algo que não seja inflamar a população contra a Justiça e contra inocentes nas ruas. Basta ver como a militância do PT reage e obedece a seu líder (novamente, ao contrário de mim, de você, de Ricardo Noblat).

A própria idéia de criar um “ato a favor de Lula” na Paulista no mesmo dia 13 de março não pode significar outra coisa. Além de inconstitucional.

Talvez Noblat quisesse dizer que a conclamação lulista ainda não surtiu efeito – e o único efeito possível é agredir ou matar inocentes (qual outro efeito teria?). Mas isto é diferente de afirmar que seu incitamento aos ânimos exaltados e tomada violenta das ruas inexiste, apenas porque o resultado pretendido não se consubstanciou. Uma diferença incrivelmente maior do que Noblat reclamar do MP pelas “críticas” de Lula.

Tese: Lula usou de seus “parceiros políticos” para requerer ao Conselho Nacional do Ministério Público medida liminar para suspender a sua oitiva durante as investigações;

Noblat: Lula pode apelar aos órgãos judiciais para suspender investigações que ele imagina desnecessárias. Cabe a tais órgãos atender ou não ao seu apelo;

Este trecho assusta qualquer pessoa que saiba o que é totalitarismo. Usar parceiros políticos aparelhados em instituições do Estado (não é preciso pensar em Toffoli, podemos pensar mais baixo) é algo incrivelmente distinto de “apelar aos órgãos judiciais”.

A manipulação que Noblat faz, com palavras parecidas, mas de significado pontual absolutamente diverso, é desinformação pura (seria como chamar sua manipulação de “criminosa”, o que ela não é, mas parece).

Se eu não gosto de alguma ação de instituição estatal, posso talvez mandar uma cartinha para a ouvidoria que a encaminharia para o setor de reclamações e assim por diante. Lula, o todo-poderoso, já pediu para não depor porque está com medo (!), e o Conselho Nacional do Ministério Público atendeu ao pedido (eu posso fazer o mesmo?), já apelou para a Justiça para não depor ao Ministério Público (você pode fazer o mesmo?), já teve suspensão de depoimento seu e de Marisa sobre o triplex (Ricardo Noblat pode fazer o mesmo?).

Exatamente ao contrário do que espera Ricardo Noblat, isto apenas prova a urgência da prisão de Lula, e não a normalidade de Lula “apelando a órgãos” como nosotros, comuns-mortais. E para quem não sabe a diferença entre autoritarismo e totalitarismo, este caso também elucida: autoritarismo é quando usam o Estado para mandar em você. Totalitarismo é quando usam o Estado para mandar em você e jornalista aplaude.

Tese: Lula se coloca acima da lei.

Noblat (e acreditem, isto é citação ipsis litteris): Colocar-se “acima da lei” não passa de um ponto de vista. Não acho que ele se coloca acima da lei. Acho que ele foge dela sempre que pode. Está no seu direito, ora. Que depois arque com as consequências.

Um ponto de vista? Devemos então ignorar 7 meses de pesquisas, e notícias recentes sobejantes (e ignoradas por Ricardo Noblat, o jornalista tão líder de redação) apenas porque o Ricardo Noblat “acha” que não?

O que se segue está entre as coisas mais absurdas já escritas na língua portuguesa: não é que ele se coloca acima da lei, é que foge dela – e que isto é… o seu direito. É um jornalista dizendo que fugir da lei é um direito. Assim, na cara de todos. Quando um ladrão, assassino, seqüestrador, estuprador ou político corrupto consegue escapar da cadeia, atirar num policial para não ser preso, esconder provas (ocultando cadáveres, talvez) ou fugir pizzolatamente do país, ele também está “no seu direito, ora”?!

Basta usar uma frase chocha e clichê como “Que depois arque com as consequências” e está tudo em ordem? A propósito: as conseqüências com as quais Lula deve arcar incluem… sua prisão preventiva.

Por fim, por que Ricardo Noblat não admite que tomou como base para sua “defesa” exatamente o que o Instituto Lula disse sobre a peça do Ministério Público?

Fique de alerta aos pais: tomem cuidado se seus filhos estiverem consumindo drogas ilícitas, andando com pedófilos, fazendo parte de gangues, envolvidos em atividades como latrocínio e terrorismo ou lendo articulistas d’O Globo e lacrando 13-confirma na urna.

Contribua para manter o Senso Incomum no ar sendo nosso patrão através do Patreon

Não perca nossas análises culturais e políticas curtindo nossa página no Facebook 

E espalhe novos pensamentos seguindo nosso perfil no Twitter: @sensoinc

Saiba mais:






  • Carvalho

    E tem muita gente comprando esses argumentos. Pessoas de boa índole, que trabalham duro, mas que são pouco versadas sobre política. E como se informam lendo o O Globo, vendo noticiário de TV, lendo uma ou outra revista, terminam achando que essa questão “tem dois lados”.
    Parabéns pelo seu trabalho aqui no site. De pouco em pouco as idéias vão se espalhando.

  • Rafael

    Não tem nenhum jurista ai para te ajudar?

Sem mais artigos