Claudio Botelho: um artista insubmisso

Charles Moeller e Claudio Botelho

Charles Moeller e Claudio Botelho

Durante a apresentação do espetáculo Todos os musicais de Chico Buarque, na noite de sábado (20/03) em Belo Horizonte, o diretor e ator Claudio Botelho improvisou uma crítica à atual situação da política brasileira em uma de suas falas. Quando sua personagem chega a uma vila vazia e diz: “Onde estão as pessoas dessa vila? Assistindo novela?”, acrescentou “Ou será que estão assistindo à prisão de um ex-presidente? Ou de uma presidente ladra que vem sendo vítima de impeachment?”.

Aplaudido por boa parte da plateia, o ator mineiro enfrentou a fúria dos defensores da corrupção, que passaram a vaiá-lo e gritar o nome de Chico Buarque. De início, Botelho reagiu com bom humor. Sorriu e disse “Até na minha terra, gente?”. Mas não adiantou: um grupo se aproximou do palco para gritar o estranhíssimo refrão “não vai ter golpe” (como se a nomeação de um investigado pela polícia para ministro e a tentativa de obstrução da justiça já não fossem, por si, um golpe). Embora o restante do público pedisse silêncio para que a peça continuasse, não foi possível. Os petistas não permitiram.

Imediatamente o diretor tentou entrar em contato com Chico Buarque para explicar o ocorrido, mas conseguiu falar apenas com seu empresário. O temor de perder a amizade e o bom relacionamento com Chico se concretizou: o compositor proibiu a dupla de usar qualquer música de sua autoria em seus musicais.

Todos os atores da peça estarão desempregados a partir de agora. A prioridade de Chico Buarque é defender o PT.

Amizade e parceria musical encerradas. A prioridade de Chico é defender o partido.

Outro problema enfrentado pelo ator foi a divulgação de uma conversa que ele teve com uma atriz da peça no camarim, em meio ao tumulto. Indignado com a interrupção forçada da apresentação, ele disse: “O artista no palco é um rei! Não pode ser interrompido por um nego filho da p… da platéia!”. Em São Paulo e no Rio de janeiro, o termo “nego” é usado como sinônimo de pessoa indeterminada. Para a militância, no entanto, foi o gatilho para chamá-lo de racista.

Mas voltemos ao que se destaca no caso: Julinho da Adelaide, o artista que ganhou fama pela censura sofrida no Regime Militar por discordar do governo agora proíbe um artista que discorda do governo de usar suas músicas.

Hoje o samba saiu lá lalaiá, procurando você Quem te viu, quem te vê Quem não a conhece não pode mais ver pra crer Quem jamais a esquece não pode reconhecer

Hoje o samba saiu lá lalaiá, procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais a esquece não pode reconhecer

A dupla Moeller e Botelho é maior referência a musicais no Brasil, responsável por mais de 30 obras de sucesso, dentre os quais se destacam as adaptações de A Noviça Rebelde, O Mágico de Oz e Sweet Charity.  E Claudio Botelho é o melhor versionista brasileiro, autor também das versões primorosas de obras como O Fantasma da Ópera (2005) e My Fair Lady (2007), em que a simples tradução para o português não adiantaria: foi necessário manter ritmo, rima, tônicas e preservar o sentido original. Não é coisa para amadores, portanto.

(Áudio da famosa música, cantada por Saulo Vasconcellos e Kiara Sasso. Versão de Claudio Botelho)

Moeller e Botelho formaram o imenso público amante de musicais no Brasil. Em sua saudosa comunidade no Orkut davam ingressos para suas impecáveis produções, bastando colocar nome e RG (e ser um dos 20 primeiros a fazê-lo). Os ganhadores acabavam voltando ao teatro com companhia, então comprando os ingressos.
Sete, o musical, escrito com o parceiro Charles Moeller, inspirado nos contos dos Irmãos Grimm, com músicas sombrias e marcantes de Ed Motta foi um caso emblemático. Contava a história de Amélia (Alessandra Maestrini), uma dona de casa com ares de rainha má, cujo marido fugiu com a Branca de Neve.  Ela vai para a cidade grande fazer um feitiço que traga seu homem de volta.
Mas o sétimo pedido, exigido pela feiticeira Carmem dos Baralhos (Zezé Motta) é bastante difícil: um coração de homem jovem. Para obtê-lo, Amélia vai trabalhar como prostituta no bordel de Dona Odete (Rogéria). A estreia em São Paulo, no teatro Sérgio Cardoso, foi gratuita. Cada membro da comunidade do Orkut pôde levar até 5 amigos. A propaganda boca a boca foi a alma do negócio. Todas as sessões lotadas até o término da temporada.
Alessandra Maestrini, Ida Gomes, Zezé Motta, Alessandra Verney e Rogéria)

(Alessandra Maestrini, Ida Gomes, Zezé Motta, Eliana Pittman e Rogéria no musical sombrio e cheio de suspense)

No entanto, dada a falta de patrocínio, a temporada foi encerrada antes. A dupla não bajulou o governo o bastante para obter verbas que ajudassem a manter a produção cara: uma peça com vários efeitos, orquestra, iluminadores, técnicos e 14 atores vindo do Rio de Janeiro todo final de semana não era algo barato, como seria o blog para leitura de poesias de Maria Bethânia, que obteve autorização para arrecadar R$ 1.300.000 em lei Rouanet.

Lamentável é saber que peças às moscas, ideologicamente compatíveis com o governo, recebem o patrocínio que faltou ao premiado musical. Mas nem todos estão dispostos a vender seus princípios e sua liberdade, felizmente.

Grande elenco, Prêmio Shell e sucesso de público não foram o bastante. Talvez se algum personagem falasse mal dos militares...

Grande elenco, Prêmio Shell e sucesso de público não foram o bastante. Talvez se algum personagem falasse mal dos militares…

Atualmente causa estranheza o artista que ousa criticar quem está no poder. Mais de uma década de PT no poder e a classe artística, quando não elogia o governo, se cala diante dos fatos nefastos que o cercam. Mas a insubmissão sempre foi a essência do artista. Trovadores medievais e nos bobos da corte, ali mesmo nos palácios, por meio das cantigas de escárnio e maldizer ou dos gracejos cômicos, criticavam o comportamento dos seus nobres senhores.
Posteriormente, Gil Vicente, esse mesmo que será cortado do currículo de língua portuguesa pelo MEC, também criticava os governantes e o Clero (embora fosse católico). Muito antes deles, Aristófanes satirizava sem dó os intelectuais, militares e governantes gregos em suas comédias. Não raro, com tais pessoas na plateia.
 
Ay, Dona Fea...

Ay, Dona Fea…

Certamente os defensores do governo tentarão colar nele o rótulo de racista, porque ele descreveu o rapaz que desrespeitou durante a conturbada apresentação como negro. Difícil será explicar como um racista escala um ator negro para ser nada menos que o príncipe da Cinderella, o mais novo musical da dupla, com músicas de Rodgers e Hammerstein.

 

Tiago Barbosa, o Simba de O Rei Leão, é o príncipe da Cinderella

Tiago Barbosa, o Simba de O Rei Leão, é o príncipe da Cinderella

Um verdadeiro artista, ao contrário de Chico Buarque, não confunde talento com ideologia. Claudio Botelho já homenageou também Milton Nascimento e dirigiu uma aclamada versão de A Ópera do Malandro em 2004. Esse espírito livre é o que faz de Claudio Botelho um verdadeiro artista. Primoroso em tudo o que faz, capaz de comover plateias imensas com a beleza do que mostra nos palcos. É um homem que não se acomodou após os prêmios e as críticas positivas.
Um artista que não abre mão da liberdade de expressão, nem pelo dinheiro, nem pelo medo de não agradar a militância. Que a classe artística lhe seja solidária e aprenda com esse exemplo de honra.

Contribua para manter o Senso Incomum no ar sendo nosso patrão através do Patreon

Não perca nossas análises culturais e políticas curtindo nossa página no Facebook 

E espalhe novos pensamentos seguindo nosso perfil no Twitter: @sensoinc

Saiba mais:








Sem mais artigos