"Quem vai pensar nas criancinhas?!"

“Quem vai pensar nas criancinhas?!”

Pra quem costuma se desesperar com cada notícia que lê sem entender o continuum e o destino delas, e para quem adora fazer análises Helen Lovejoy, sem juntar lé com cré, mas carregar forte nas tintas do sentimentalismo, hoje é dia de dar um passo pra trás.

O PT afirma já ter 200 votos contra o impeachment, dos 170 e alguma coisa necessários (sou de Humanas, o Google tá longe). O problema da sentença, que deveria levantar os sobrolhos em sinal de suspicácia de qualquer alma do país, são as três primeiras palavras (“O PT afirma”), sobretudo a passagem “O PT”.

Para o partido que adora repetir sempre a palavra “democracia”, sabendo que isto significa tão somente “forçar maiorias para a minoria obedecer”, é imprescindível obtemperar: isto é verdade?

A jogada da maioria pode ser um blefe. O PT, no momento, não tem motivo para blefar para baixo, como fazem os grandes jogadores de poker, fazendo o adversário apostar mais alto do que deveria. O PT só tem a estratégia do uso do Estado para comprar aliados, tática feita agora às escâncaras do Congresso e da lei, o que pode gerar algum desânimo nos proponentes do impeachment, fazendo-os crer que novos atos contra o PT (prisão de Lula, impugnação da candidatura, novas prisões na Lava-Jato etc) serão inócuos.

Collor também afirmou ter números o suficiente para barrar o impeachment, tal como Dilma. Perdeu com larga margem. Talvez até mesmo Collor e Dilma acreditem de fato possuir tal número, o que não perfaz um blefe. Talvez os tapeados sejam eles. E é mesmo o cenário mais provável.

O PT ainda não caiu. Se alguém diz a um petista sondador de votos que vai votar com o PT, é porque esse deputado, se não for do PCdoB ou PSOL (que votarão a favor de Pol-Pot se for para impedir que alguém minimamente não-extrema-esquerdista assuma o poder), ainda crê que pode ganhar algo do PT. Afinal, os votos estão sendo vendidos por ministérios ou por R$ 1 milhão descaradamente, mostrando que não há mais escrúpulos ou limites para o que pode será feito para salvar o partido. O PT já desistiu de 2018 adiante, mas segura este osso com todas as forças, mensalões, pixulecos e mortadelaços.

Alguém pode dizer que vai salvar o PT para um petista, mas dirá e fará o mesmo diante da nação, protegendo o governo mais mal avaliado da história, sabendo que todo político no Brasil é profissional e quer se reeleger até a sétima trombeta?

Matemática básica: o PT está no limite, a confiar em seus números auto-pavoneados. Umas poucas defecções contáveis em pouco mais do que as mãos já fazem o impeachment ocorrer.

História básica: há chance mesmo de o PT ir ganhando espaço entre os “indecisos”, aqueles que ainda acham que podem negociar um cargo no navio petista, algo como exigir nesse momento a primeira classe do vôo 370 da Malaysia Airlines?

Pode comprar os partidos fisiológicos com R$ 1 milhão por cabeça e ministérios. R$ 1 milhão é troco de pinga perto das somas negociadas circadianamente no Congresso, mas ministérios? Podem valer muito mais, mas são dependentes de, ehrr, o PT continuar no poder.

É o all-in dos partidos fisiológicos: apostar que pode ganhar muito, mas poder perder tudo se não ganhar. Simplesmente todos os fisiológicos e nanicos precisam estar alinhados, sem uma única deserção, ou o projeto vai por água abaixo, deixando a todos com o ticket petista nas mãos. Ninguém ali confia um no outro o suficiente para isto ocorrer. O primeiro que vote pelo impeachment fará com que todos os outros votem pelo impeachment igual a cena de filme.

É de se duvidar que alguém possa estar secretamente tramando pró-PT, enquanto se arroga pró-impeachment. Pelo contrário: qualquer pessoa que tenha aberto um jornal no país no último ano sabe que se considerar petista hoje é algo que só pega bem entre outros petistas. Ser neutro já é mal visto. Ter como admirador a blogosfera progressista e os artistas Rouanet, pior ainda.

Em contrapartida, alguém pode muito bem estar bancando o sedizente petista para os ouvidos de Lula e dos petistas sondadores de voto que não citam nomes, enquanto diante do país inteiro em contagem regressiva votarão pela defenestração de Dilma. A lógica da Câmara não permite o contrário.

Por fim, toda a contabilidade pode ficar a ver navios caso um bom número de deputados resolva fazer o que uma boa penca provavelmente fará: faltar à Sessão. Alguém contra o impeachment faltaria? Se estivesse morrendo engasgado com vidro moído, talvez. Alguém com o rabo preso com o PT, mas sem ser petista, psolista ou comunista faltaria? É de se crer que vários. É o melhor que podem fazer para não pegar mal com os caciques petistas e não perder tantos votos nas próximas eleições. E aí, são menos votos para a frágil defesa petista.

Os números, portanto, podem não dizer a realidade do que acontecerá, e certamente não dizem. Mas não há lógica, ministério, dinheiro, fisiologismo e ideologia que aponte para uma vitória do PT em segurar o impeachment. Toda a mudança, no momento, tem um caminho: do pró-PT ao pró-impeachment. É estrada de mão e pista única.

Basta ver o PMDB se tornando oposição pela primeira vez desde o Império Romano. Não parece mesmo que o reinado petista chegará  a durar 15 anos.

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  • Edu Porto

    Eu espero mesmo que o PT saia perdendo, seja qual aposta tenho resolvido investir.

  • “Por fim, toda a contabilidade pode ficar a ver navios caso um bom número de deputados resolva fazer o que uma boa penca provavelmente fará: faltar à Sessão.”

    Só um parênteses: O impeachment precisa de 2/3 a favor e não de 1/3 contra. Então, se todo mundo faltar, o impeachment não rola. Ao menos não nessa denúncia. Nada impede uma denúncia de impeachment nova sendo votada a cada 12 sessões (além do que, o quorum pra emenda constitucional é menor que para impeachment, o que permitiria, por exemplo, que as regras da lei fossem mudadas ad hoc, num caso extremo).

    • Flavio Morgenstern

      Matheus, a conta aqui é diferente da do parágrafo anterior. Num caso, um voto a favor vira um contra. No caso de uma falta, apenas se conta um que poderia ser contra como não existente. Mas os únicos que parecem interessados em faltar são, justamente, os que poderiam ser obrigados a obedecer ao PT, mas perder eleitores futuros com isso.

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