humaniza redes viado

Se um governante passa a usar a força para estabelecer uma ordem de obediência, qualquer pessoa sabe que está vivendo sob autoritarismo ou tirania, conceitos universais e atemporais, reconhecidos por todas as épocas e consabidos de qualquer pessoa versada em história básica.

Se um governante passa a controlar a linguagem, mormente partidos que dominam o Estado pelas beiradas, estamos nitidamente num caso de totalitarismo, fenômeno extremamente moderno para substituir o frágil controle pela força por algo extremamente mais efetivo: o controle completo da linguagem, bem mais completo do que o enfrentamento físico e a necessidade de sempre possuir força maior.

Uma lição meio óbvia num mundo que já teve livros como 1984, Laranja Mecânica, O Zero e o Infinito ou os mais profundos estudos técnicos do tema, como LTI – A Linguagem do Terceiro ReichIntrodução às Linguagens Totalitárias.

Bem, esperar que o ser humano aprenda uma lição não é exatamente uma aposta muito lucrativa.

O “Humaniza Redes”, perfil criado por cupinchas do PT para “humanizar as redes” sociais (ou seja, transformar qualquer coisa em defesa do PT ou do PSOL) ligou o modo Desespero nesta semana pré-impeachment. O perfil foi criado por Dilma Rousseff em abril de 2015 por querer uma internet que “assegurar a livre expressão de opiniões, compartilhe respeito e fortaleça direitos e deveres”, o que quer que isso signifique, já que livre expressão de opiniões é o oposto a “compartilhar respeito” e “fortalecer direitos e deveres”.

Quando há muito dinheiro subdividido pelo orçamento de vários ministérios e subsecretarias com um objetivo tão impreciso quanto “assegurar a livre expressão de opiniões que compartilhem respeito”, pode-se imaginar algo mais por trás do que a velha sinecura, o órgão público sem cuidado (sine cura) com o orçamento, apenas para aboletar companheiros e sangrar os cofres da nação.

Parte do orçamento do Humaniza Redes é pago através de repasses à Leo Burnett Taylormade, mas o contrato dessa agência refere-se a serviços prestados à Secretaria de Comunicação em geral. Parte do orçamento vai para o MEC. E assim se oculta os rastros da dinheirama que cuida dos perfis na internet. Até o logo do negócio custou uma fortuna, e trata-se apenas de plágio de uma imagem comum encontrável em 2 minutos no Google.

O perfil do Twitter @HumanizaRedes descreve-se como “Contra todas as formas de discriminação, preconceito e violações de Direitos Humanos”. Até hoje, não se sabe o que fez contra a discriminação, os preconceitos e, sobretudo, as violações de Direitos Humanos.

Difícil crer que ações como a do deputado João Carlos Bacelar (PTN-BA), que respondeu à jogadora de vôlei, ex-medalha de bronze da seleção brasileira Ana Paula, a chamando de “verme fascista” por questionar sua posição sobre o impeachment de Dilma Rousseff, possam ser denunciados ao tal perfil humanizador, e qual seria a conseqüência de tal ação.

bacelar ana paula volei

Ou então a jovem Maria Eduarda, militante do MBL de 17 anos, que cobrou o mesmo deputado sobre o mesmo posicionamento e sofreu assédio via WhatApp, como denunciou o Sul Connection:

bacelar maria eduarda MBL

Todavia, é facílimo encontrar nos perfis do, digamos, “projeto”, defesas dos direitos humanos e ações contra o preconceito que envolvem, por exemplo, relativizando a pedofilia. Como as postagens dizendo que “é preciso diferenciar abuso sexual de pedofilia, pois nem sempre os dois estão relacionados” – fato óbvio, mas colocado de maneira a menosprezar o ato volitivo de pedófilos em abusar de crianças, quando é seguido pela frase “se trata apenas de uma condição, que o sujeito não quer fazer mal à criança com sua prática” (sic). O termo “portador de pedofilia” (sic) já é usado pelas redes “humanizadas”.

humaniza-redes-pedofilia

Não há muito conteúdo no Humaniza Redes sobre os direitos humanos de crianças que não querem ser abusadas, bebês na barriga de suas mães e outras pessoas frágeis que não são chamadas de “minorias” por um órgão do governo. É a estatização da linguagem, que apenas disfarça sua tirania transformando absolutamente tudo em compra de voto.

Não surpreende que sempre estejam falando em “defesa da democracia” nas frases seguintes. No dizer do Partido Socialista Inglês descrito no 1984 de Orwell, “War is peace, freedom is slavery, ignorance is strength”.

Uma de suas principais “contribuintes” é Irina Karla, cujo perfil no Facebook basicamente possui propaganda pró-Dilma e pró-PT, como o próprio Humaniza Redes. Uma de suas recentes postagens ameaça pessoas que discordam de sua agenda de engenharia social (discordantes são sempre chamados de pessoas com “ódio”) de serem exilados da Terra. Para humanizar as redes, expulsarão humanos do planeta. E discordar disso é ter “ódio”. Irina é puro amor <3.

irina karla

Na Semana do Desespero para quem pode perder seu dinheiro (por só ter um salário graças à política sine curae do PT), o perfil voltou a ligar seu modo vale-tudo.

Sem muito o que defender deste partido, apelou para o que tanto anima a esquerda 2.0 em tempos de redes sociais: usar minorias que são consideradas socialmente vulneráveis por algum movimento organizado (hoje, sempre é o tripé raça-gênero-sexualidade, descrito por Roger Kimball em Radicais nas Universidades).

Todos estes são tratados como peões de xadrez, protegendo as torres, cavalos, bispos e entidades mais poderosas e dotadas de personalidade própria por trás: são tão coitados que precisam de proteção e, como apenas o PT supostamente os protege, são obrigados todos a serem petistas. É uma força de tratar negros, mulheres e gays como massa de manobra manipulável, que vários negros, mulheres e gays adotam para si, como se isso fosse um acréscimo em suas forças, e não se rebaixar a um padrão esperado.

War is peace, freedom is slavery, ignorance is strength.

O perfil postou hoje, entre várias outras mensagens falando de travestis tendo direito ao uso de nomes sociais ou falando que apenas “este governo” garantiu o casamento homoafetivo (decisão do STF, enquanto o PT não moveu uma palha para não perder o apoio de igrejas evangélicas e órgãos petistas infiltrados na Igreja Católica, como quase toda a CNBB através da Teologia da Libertação), uma imagem que afirmava: “Sou viado, defendo casamento homoafetivo #Euapoioessegoverno”.

Sem que boa parte dos gays e apoiadores da causa entendesse bem a contradição acima exposta, a imagem foi criticada pelo uso do termo derrogativo, “viado”. São as eternas falhas do controle da linguagem por partidos totalitários – estes partidos que sempre afirmam agir em prol do coletivo através de uma minoria oprimida (sejam “viados” contra a “classe média coxinha e golpista”, sejam “alemães” contra os invasores “judeus” da burguesia exploradora).

A linguagem já não é mais usada como forma de descrição ou tentativa de apreensão da realidade, e sim como força psicológica. Vale não o que é verdadeiro, mas o que causa a reação esperada. O que George Orwell chama de novilíngua, uma nova forma de linguagem em que é impossível falar mal do governo. Guy Franco explica seu funcionamento nestes idos de 2016: “O lance da novilíngua é o seguinte: não interessa saber exatamente o que está sendo dito, mas o poder daquilo que se diz”.

O problema é que termos como “viado” são tentativas de tornar positivo (#orgulhogay!) aquilo que é originalmente negativo. Alguns gays, que dizem ter orgulho de serem gays, não gostaram de serem chamados de “viados” pela página, fazendo-a criar outra imagem com o mais bonzinho “gay”. O que, para esta novilíngua que não faz mais referência à realidade, mas apenas enxameia a turbamulta para um lado ou para outro conforme as circunstâncias, poderia até valer a acusação de “homofobia”, justamente para o perfil defendendo gays e acusando a Deus e o mundo (literalmente) de “homofóbicos”.

As palavras deixam de ser um meio de descrição da realidade, também com sua dose de participação na realidade. Viram apenas totens ou tabus. Coisas para serem adoradas, mesmo que completamente desconhecidas (como “democratizar”, “diversidade” ou “tolerância”) ou palavrões tão proibidos que não podem nem ser mencionados, para não se concretizarem de imediato (como “homofobia”, “preconceito” ou “Bolsonaro”). Mesmo que nunca se explique o conteúdo destas palavras, apenas vá se associando tudo o que o Partido Socialista não quer a elas.

Falando em Bolsonaro, o deputado Flávio Bolsonaro já foi acusado de “homofobia” por dizer que não conhecia caso de alguém que tivesse orgulho de ter um filho gay (e ainda mais acusado de homofobia por uma frase extremamente preconceituosa, machista, misógina, racista e nazista: que o normal é ser hétero). Será que ele estava mais certo do que pensa nossa vã realidade?

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