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Abra o Facebook nesse momento e você verá a genialidade humana. Ler Tocqueville, Ortega, Adam Müller, Santayana ou Mihai Eminescu discorrendo sobre política? Quem precisa disso, quando tudo o que você precisa ler (e não se esqueça de comentar, e gastar horas nesta atividade) está no Facebook, que vai mudar o mundo?

Logo após a sessão da Câmara dos Deputados que decidiu pelo impeachment de Dilma Rousseff, o Facebook começou a sessão nojinho: “Aaaiiinnn, vocês estão comemorando algo deeessa Câmara?!

Claro, não foi só o Facebook. Assim como a vida imita a arte, hoje muitas coisas maiores imitam coisas menores. Quem imita o Facebook é qualquer comentador de canal de notícias 24 horas que precisa tentar ser bem visto pela galera do Facebook.

Bem, amigo, sinto lhe informar, mas qualquer um odeia a Câmara. Sério. Você não é o Iluminado, o Chosen One, as Tábuas da Ética que vieram iluminar o mundo.

Dá até para medir em números. Segundo a pesquisa Índice de Percepção do Cumprimento das Leis, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), só 15% das pessoas confia no Congresso Nacional. Más notícias, buddy, mas você chegou por último. Ou pelo menos 85% das pessoas já não confiava na Câmara e no Senado antes de você.

(aliás, não se surpreenda com o fato de os órgãos mais bem avaliados serem aqueles não eleitos, como a imprensa escrita, o STF e, sobretudo, a Igreja Católica e as Forças Armadas; quem fica gritando em “defesa da democracia” para defender bandido nunca percebe que são os defensores da pior escória que já tomou esse país.)

O cara que chega praguejando contra os ridículos discursos da Câmara dos Deputados é o tiozão do pavê das redes sociais. O cara que se acha o máximo por dizer que Eduardo Cunha é corrupto, que Paulo Coelho escreve mal, que o programa do Marcos Mion é ruim.

Sério, companheiro? É aí que você aparece e choca a platéia, faz todo mundo pensar em algo que nunca tinha pensado antes, reverte todas as crenças assentadas e nada heroicamente contra a fortíssima corrente das crenças prontas e das opiniões histéricas de massa de seu grupinho de amigos fazendo pressão social? Parabéns, campeão.

A Câmara é um lixo por um simples fator: ser humano é um lixo. Converse com seu vizinho e veja no que consegue concordar com ele. Não dá, ele só pensa merda. E ele precisa de uma certa representação na Câmara. E você também. E você também só pensa merda. O resultado? Aquilo ali que você viu na votação do impeachment.

Você por acaso acha que estava no Parlamento inglês, onde se parlamenta de fato, onde a jurisprudência faz referência à Carta Magna e a nomes como Disraeli e Churchill, onde dá para recitar Shakespeare sem avisar que é a peça Titus Andronicus e metade entender?

Se você é da turma que repete “democracia” pra cima e pra baixo como sinônimo de “concordância absoluta comigo”, talvez precise pensar no que faz de fato com que um sistema político que busque “representar” vozes dissonantes sem virar briga de foice no escuro até o mais forte vencer – e aí vai finalmente entender por que séculos de sangue, guerra, morte, gritos por “liberdade!” precisaram ocorrer antes de termos documentos simples e efetivos para a garantia da ordem com liberdade da Carta Magna e da Constituição Americana.

A arte da política é a arte da convivência. Morássemos todos em casas distantes uma das outras na vastidão das florestas coníferas pouco habitadas e não precisaríamos de leis, Congresso, Executivo, STF, nada. O difícil é conviver com quem você é obrigado a conviver, dos seus pais e irmãos até a tia que empaca no lado esquerdo da escada rolante. A lei serve sobretudo para os casos de convivência extrema, como gravidez, assalto com ameaça de morte e linha de ônibus 637A-23 Jardim Ângela às 6 da tarde de sexta.

Achar que tudo se resolve fazendo todo mundo concordar com suas idéias é o mesmo que Stalin pensava, camarada. É a versão concentrada do pensamento que bem dissolvido vira a enxurrada de posts falando em “respeitar a opinião do outro” como forma velada de dizer que você tem de concordar formalmente com tudo o que te mandam concordar.

Agora o que pega mesmo é ver a turma galerosa que só pensa em falar em nome “do povo” tendo nojinho crítico de deputado falando de Cangaíba, mandando aquele abraço para os filhos, a família, Deus, a base eleitoral do café e da igreja pentecostal. É isso que é o povo, minha gente. Ou vocês acham que “o povo” é uma grande Vila Madalena preocupada com casamento gay, fumar maconha e andar de bicicleta?

Esse povo que só viu pobre na vida no programa da Regina Casé e ainda quer falar em nome do povo fica com nojinho da Câmara justamente quando a Câmara representa de fato o povo, e não quando é algo acima dele. E se você zoar essa logorréia chamando-a de esquerda caviar, agüentará um quadrimestre de colunas de Eliane Brum e Marcelo Rubens Paiva criticando sua “intolerância” e “discurso de ódio”.

Só não é pior mesmo do que o moralismo de ocasião a surpassar os faniquitos estéticos dos riquinhos com nojo de representantes do povão. O grande Dionisius Amendola explicou muito bem:

Até ontem tínhamos circulando por aqui o “isentão”, aquele que fingindo ser apartidário, fez cabriolas para defender o PT.

Hoje temos o “entojadinho”, aquele que vai passar os próximos dias falando como ficou enojado com o dia de ontem, com os discursos hipócritas, com as citações toscas, com a guerra política, que sim, é suja meus caros. Não à toa, pessoas comuns não enfiam a mão nesta cumbuca.

Mas convenhamos, se você não ficou enjoado com o leilão público promovido por Lula e a turma para tentar barrar o processo do impeachment, seu nojo é falso; se você não ficou enojado quando teve que votar no Temer ao votar na sua querida, seu nojo é seletivo; se você engoliu o nojo e aceitou o apoio do Maluf ao Haddad, para que o “poste” fosse eleito prefeito de SP, sua indignação é falsa como a Marina Silva; se você não enfiou a cabeça na privada quando Eduardo Cunha pediu votos para a D.Dilma, você não é lá muito puro politicamente; se você não passou mal quando Kassab foi escolhido para ser ministro do governo da D.Dilma, você tem um estômago de avestruz; se você engole o nojo quando o Collor aparece defendendo D.Dilma e o Lula, você no fundo é tão hipócrita quanto qualquer dos deputados que desfilaram ontem na telinha da sua casa, os mesmos que causaram engulhos seletivos em sua alma política tão ilibada e pura.

Em todas estas situações, se você engoliu seu nojo e “lacrou o 13” sem pestanejar, você nada mais fez do que < Política >, e exatamente do mesmo jeito que o mais tosco dos nossos queridos (e votados) deputados fizeram ontem.

Viva com isso.

p.s. E fala sério, você adora falar do Eduardo Cunha mas…e o Renan Calheiros?

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  • Joao Silva

    Eu gostei. Foi bem familiar. O congresso é muito parecido com minha família. Muita gente que não sabe o que fala, que gosta muito de Deus e da família, com um tio petista histérico e seus filhos vagabundos, incluindo alguns já presos e outros bem encaminhados na delinquência. E eu falando de Olavo de Carvalho ocasionalmente.

  • Igor

    Adoro sua sensatez, Flávio. Ótimo texto, parabéns.

  • Anicio Oliveira

    Flavio faço uso das palavras de um amigo:nunca vi PTista pobre ! Sempre pessoas estudadas e influentes.

  • Policarpo

    A minha decepção com os discursos não foram as bobagens ditas, mas a constatação inequívoca de que as autoridades perderam toda a honradez. Ver pessoas adultas chamando umas às outras, gratuitamente, de ladrões sem nenhuma reação condizente com a gravidade do ato é desolador.

  • Diego Borges

    Aposto que a mesma turma que se sentiu ‘enojada’ no domingo, não se enojou com a foto de Maluf abraçando Lula e Haddad, nem com o apoio do Collor à Dilmanta.

  • Um detalhe que nao foi comentado: o discurso do Bruno Araújo, o 342. Achei ótimo. Disse ter sido honrado pelo destino por dar o voto do grito das ruas. Ninguém pode negar este fato. Acho que é o único psdb a fazer oposição de verdade ao pt. O psdb é acusado do que não é, ser oposição. Era impossivel o psdb ser oposição, mas BA nao sabia e tornou possivel. O destino é mesmo um cara inesperadamente engraçado…

  • C’est bien vrai.
    Essa turma conhece as regras do jogo, mas quando começam a levar goleada, cartão amarelo, cartao vermelho, querem bater no juiz, furar a bola, cometer penalties sem serem apitados. Querem alterar as regras e o tempo do jogo, dizendo sempre que não vale. E ainda têm a desfaçatez de dizer que intolerante é o cara que deixaram caído e quebrado no gramado, que a torcida do outro tem que ser expulsa do estádio, que só vale a sua torcida organizada e uniformizada de boné do mst e camiseta da cut. Deve ser um problema freudiano: acho que nynca escutaram um ‘não’ da mamãe, aquela desocupada que não tinha o que fazer quando inventou essa gente.

  • Thiago Paz

    Flávio, como de costume, ótimo texto. Parabéns.

    Eu havia comentado com alguns amigos ontem sobre as exageradas e inúmeras homenagens feitas, principalmente à religião, Deus especificamente, e à família. Falei que, por mais seja algo piegas e exagerado, quando você compara com grande parte dos sociopatas do “não” fazendo reverência aos Marighelas da vida ou gerando memes curiosíssimos como o “voto contra o golpe” sem se aperceberem da contradição e do ridículo da sentença em si mesma, se percebe também a distância moral entre a maioria dos mortadelas e a maioria dos outros.

    Além disso, ainda tem a tirania das virtudes, afinal, “você acha mesmo que ninguém ali traiu a esposa ou bateu no filho”?, e claro, se você não for um indivíduo kantiano com consciência social e atravessou fora da faixa, tudo em que você acredita não é mais que uma grande fraude e você um abominável hipócrita.

    No mais, abraço e continue nos agraciando com seus textos.

    Thiago Paz

  • Analítico e Crítico

    M u s t !

  • Michael

    Flavão, mais uma na lata. Excelente artigo. E a arrematada do Dionisius foi pra lacrar a porra toda. Até a próxima!

  • Alexandre Budu

    Mihai Eminescu precisa ser traduzido para o protuguês urgentemente.

    • Alexandre Budu

      * português

  • Cesar

    Um dos seus melhores textos para este site.

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