Docência sem Açúcar I – As crianças não estão bem

Todos os alunos cresceram e estão irreconhecíveis. Só a professora e seus cabelos que continuam os mesmos.

Foto antiga. Todos os alunos cresceram e estão irreconhecíveis. Só a professora e seus cabelos que continuam os mesmos.

Inicio hoje aqui no Senso Incomum uma série de artigos sobre Educação chamada Docência Sem Açúcar. Sou professora há mais de uma década nas redes estadual e municipal de ensino e vejo que as publicações sobre o assunto quase sempre são assinadas por profissionais (jornalistas, publicitários, professores universitários, psicólogos) que nunca pisaram em uma sala de aula real, mas costumam palestrar para os professores que lá estão há anos, romantizando a profissão.

Aqui falarei sobre o que acontece nas salas de aula depredadas e com ventiladores quebrados, onde podemos encontrar os alunos mais incrivelmente inteligentes e esforçados que existem, mas também os que nos fazem pensar todo dia em desistir, por medo, cansaço e desrespeito constante – o segundo grupo supera o primeiro com larga vantagem numérica.

Prometo que não utilizarei metáforas cafonas e clichês típicos do meio pedagógico para adoçar a realidade, mas também que não carregarei nas tintas, inevitavelmente desbotadas após 12 anos de observação.

Educação é um tema enfadonho. Por isso, nesta coluna de estréia costuraremos dois assuntos aparentemente distintos, porém fortemente ligados.

Ao ler a chuva de críticas acerca da reportagem “Bela, recatada e do lar”, foi inevitável lembrar do livro O Outro Lado do Feminismo, da Editora Simonsen.

outro-lado-do-feminismo-livroNa obra escrita por Suzanne Venker e Phyllis Schlafly, vemos como o feminismo, a partir dos anos 60, em vez de libertar as mulheres acabou escravizando-as ainda mais. Com a disseminação de valores contrários à família tradicional – na qual o homem garante o sustento do lar e a esposa é incumbida das tarefas domésticas e da criação dos filhos – e a repetição de que a mulher só pode ser realizada se trabalhar fora e competir com os homens, pois a dona-de-casa é infeliz e se anula, poucas são hoje as mulheres que não possuem dupla rotina e e estão quase sempre esgotadas demais para brincar com os filhos e preocupadas demais com as crianças para se concentrar no trabalho. Agora, além do peso da educação dos pequenos, há ainda a necessidade de ser bem-sucedida no trabalho.

A cobrança sobre as mulheres hoje é dobrada. A verdade é que as revistas femininas, as séries de TV, e os filmes atuais mostram heroínas lindas, bem-sucedidas na profissão, que dão conta da casa e dos 3 filhos e ainda podem tomar vinho com as amigas aos finais de semana. Quase sempre são divorciadas.

Quem crê que o modelo feminino visto em Sex And The City não se aplica às brasileiras, deve assistir ao filme De pernas pro ar II, de Ingrid Guimarães. Conta a história da hiper-mega-bem-sucedida empresária do ramo de produtos sexuais (oooh, que liberal) que está prestes a perder o casamento por não dar atenção ao marido e se atrapalha com as poucas coisas que deve fazer em casa. Há na história a rival, uma médica ainda mais rica e bem-sucedida, que consegue conciliar com perfeição a profissão com as tarefas do lar, seus 5 filhos, além de ser linda (interpretada por Christine Fernandes). No fim, elas se tornam amigas e a doutora conta como consegue dar conta de tudo: “eu não tenho marido para me atrapalhar”. (Perdão pelo spoiler, mas duvido que você, caro leitor do Senso Incomum, fosse ver mesmo o filme.)

A mensagem que a mídia passa há anos é clara: esses são exemplos de mulheres. Quem não segue, quem opta por ser apenas “do lar”, é vista como alguém sem vida própria, que se anula pelo marido. Então a mulherada vai trabalhar fora e “descansa” cuidando da casa.

Culpadas por não passarem tempo o suficiente com os filhos – excluamos aqui as mães solteiras, viúvas, mulheres cujos maridos ganham salário baixíssimo ou estão desempregados etc – tentam contornar financeiramente (com brinquedos, festas e outros mimos caros) esse sentimento. Para oferecer tudo o que agrada os pequenos, e não são poucas coisas, muito menos baratas, precisam trabalhar por mais e mais horas e passar menos tempo em casa, deixando-os em creches ou escolinhas por longos períodos.

O que se verificou nos EUA, por meio das pesquisas mencionadas no livro é preocupante para pais e professores:

“O estudo mais abrangente até hoje (…) mostra uma ligação inegável entre passar muitas horas na creche e o aumento de problemas comportamentais em crianças pequenas. (…) Um outro estudo feito pelo JAMA Psychiatry constatou que há crianças ‘com apenas três anos’ sofrendo de depressão. Lynn Hopson, diretora executiva de uma pré-escola de New Haven, Connecticut, disse ‘A cada ano, estamos notando mais e mais crianças com mau comportamento'”. (p. 50)

No Brasil acontece o mesmo. As professoras das séries iniciais especialmente são testemunhas do círculo vicioso, quando elas próprias não o fomentam: as mães se sentem culpadas, as crianças fazem birra para obter vantagens disso e tentam ganhar tudo no grito. Quando as mães resolvem dar um basta nessa atitude, os pequenos ficam agitados, chorosos e berram ainda mais. As mulheres, amarradas pela culpa, pelo cansaço e pela irritação – choro de criança é uma tortura – acabam cedendo novamente.

“Um acervo significativo de pesquisas mostra que a educação formal precoce pode realmente ser prejudicial às crianças. David Elkind, professor de Desenvolvimento Infantil da Universidade de Tufts e autor de vários livros sobre o desenvolvimento cognitivo e social das crianças e adolescentes, explica que as crianças que recebem instrução acadêmica muito cedo são muitas vezezs colocadas em risco, mas não recebem nenhum proveito aparente. Ao tentar ensinar o certo na hora errada, o ensino precoce pode prejudicar a autoestima da criança de forma permanente, reduzir o entusiasmo natural da criança em aprender e bloquear dons e talentos”. (p. 159)

Duvida ainda? Pois basta ver que antigamente não havia problemas tão graves de alfabetização no país. Hoje em dia, há metas dos governos para que as crianças estejam plenamente alfabetizadas até os 9 anos de idade. Estamos falando da criança que está desde os 3 anos frequentando uma escola/creche, onde passa em torno de 5 horas por dia, 200 dias por ano. E são muitas que não estão plenamente alfabetizadas nem mesmo ao chegarem no nível 2, que nós conhecemos como ginásio. Observação: “plenamente alfabetizado” significa ler e escrever todas as palavras, porém sem preocupação com ortografia e pontuação.

Quem agora pensou nos avós, que para ir à escola muitas vezes precisavam andar quilômetros a pé (e descalços), estudaram somente até a 3ª série do Primário, passando só 3 horas diárias na escola, escrevendo em papel de pão, porém liam qualquer clássico da nossa Literatura, faziam cálculos matemáticos que universitários hoje não são capazes de realizar, levante a mão.

E o que fazer diante desse quadro pavoroso?

A escola sozinha não tem condições de equacionar problemas sociais. Está fora de cogitação solicitar, por exemplo, que as mães trabalhem menos horas (o que, aliás, seria uma crueldade abjeta com as que precisam trabalhar para sustentar seus filhos). Determinar uma idade mínima para que as crianças passem a frequentar creches? Diminuir a quantidade de horas que passam lá? Quem seria o governante suicida que aceitaria ser apedrejado pela mídia e pela sociedade para abrir mão do poder do Estado sobre os indivíduos ao aprovar algo assim?

A resposta, ou melhor, o remendo puído daquilo que não tem conserto fica para a próxima aula coluna.

P.S.: Quem já passou dos 30 e teve uma adolescência feliz percebeu a malandragem do subtítulo.

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