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Você é a favor da inclusão de crianças com deficiência física e/ou mental nas escolas públicas?

Aposto minha caixa de giz que a resposta foi sim. Sim, é claro que somos favoráveis a isso. É o mínimo que se espera de uma sociedade civilizada, erguida sobre a moral cristã, de respeito à vida e amor ao próximo. Isso é ponto pacífico.

inclusão capaTambém parece claro a todos que para incluir alunos com mobilidade reduzida, dificuldade de locomoção, baixa visão e/ou audição é necessário apenas investir em reformas para adequação do espaço físico e aquisição de materiais apropriados, além da contratação de professores de Libras (grupo que vem aumentando, felizmente, graças às políticas públicas que oferecem formação aos professores das redes) e a consultoria de especialistas em caso de alunos com problemas muito específicos. A inclusão de alunos com deficiências físicas é mais simples de ser realizada.

Mas e quanto aos deficientes mentais? Você tem alguma ideia de como é feito o atendimento a essas crianças nas escolas? O que é, de fato, aquilo que os programas governamentais chamam de Inclusão? Imagino que não, até porque o assunto não é comentado, nem mesmo em manifestações de professores por melhores condições de trabalho.

Era a última aula do período da tarde. Entrei na primeira série com alguns livros de literatura infantil que pretendia ler para os pequenos, de 6 anos de idade (alguns entram com 5). Já estavam agitadíssimos devido ao calor e ao barulho que já se tornou comum nesse horário. Essas crianças têm a mesma carga-horária das turmas de 9º ano. Depois de uns 15 minutos colocando todos em silêncio, entre apartar brigas, ouvir queixas gravíssimas como “tia, o Fulaninho me chamou de feia”, encontrar material perdido e outras coisas que os professores não faziam no meu tempo de estudante, o menino autista começa a gritar no fundo da sala. E se joga no chão, chorando.

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Quando fiz Licenciatura, era possível optar pela especialização em alunos portadores de necessidades especiais. Diziam na época que o especialista ganhava muito mais e a ele poderiam ser atribuídas turmas com 3 ou 4 alunos no máximo, o que significava condições de trabalho melhores. Mas não era o meu perfil profissional e segui, como a esmagadora maioria dos professores que conheço, na habilitação para lecionar em turmas regulares. Em quase 15 anos de sala de aula quase sempre trabalhei com Ensino Médio. Todos esses detalhes sobre a minha vida profissional passaram pela minha cabeça durante os dois segundos em que observava o cenário caótico que eu precisaria administrar.

Olhei para a menina que se sentava na primeira fileira e perguntei o que a professora da turma fazia nesses casos.  Ela me disse que era normal o menino ter essas crises, mas que não podíamos deixar que ele batesse a cabeça na parede. Bastava colocá-lo sentado com seus brinquedos preferidos que ele parava depois de um tempo. E assim foi. Enquanto eu solucionava esse problema, e não sei quanto tempo se passou até que o menino se acalmasse, o restante da turma voltou às brigas, correrias, xingamentos e toda agitação do começo da aula. Quando os pus em ordem, os pais começaram a chegar para buscá-los. Não consegui ler nenhuma história para eles.

A bagunça das turmas se manteve com o passar dos meses. Mas esse menino foi – perdão pelo jargão clichê – se socializando, o que é um avanço para um autista. Ele olhava nos olhos, brincava, me puxava pela mão quando queria algo e apontava para as coisas que não alcançava, para que eu pegasse. Nossa comunicação melhorou muito e observar o seu desenvolvimento era fascinante.

O desfecho pareceu doce? Façamos um jogo dos sete erros para retirar o açúcar da narrativa:

1 – Um professor leva 1/3 da aula para que os alunos se sentem em seus lugares e façam silêncio;

2 – Sem especialização e sem orientação de um profissional, torna-se responsável pela integridade física de um aluno autista em crise agravada pelo excesso de estímulos (barulho e agitação dos colegas);

3 – Contorna a crise após um tempo, graças à orientação de uma coleguinha de 6 anos do aluno em questão;

4 – Perde o controle da turma, que se aproveita da atenção que ela dá ao menino em crise para transformar a sala de aula no pátio do recreio, porém cheio de carteiras pesadas e demais objetos que podem causar ferimentos, caso tropecem, batam a cabeça, etc. Se uma única criança se machuca em meio à agitação, vocês já podem imaginar a encrenca em que o professor se meteu;

5 – Não consegue realizar o que havia planejado para o dia. Duas ou três historinhas a menos para estimular a imaginação e ampliar o léxico das crianças;

6 – Os outros 30 alunos não receberam e nunca receberão a mesma atenção que o aluno autista, até porque, naturalmente, ele demanda muito mais. Ao se incluir 1, excluem-se 30.

7 – Mesmo em um ambiente inadequado, barulhento, agitado e sem especialistas o menino obteve um bom desenvolvimento. Se recebesse um atendimento correto, em turmas de 3 ou 4 alunos (e não 30, 32…), com profissionais da área e materiais próprios para auxiliar nesse processo, o quão excelente seria a inclusão desse menino? Dá para crer que chegaria a se alfabetizar e ir muito além.

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O que todos os pais e professores esperam dos jovens é que tenham autonomia para viverem suas vidas. Ler, escrever, fazer contas, conhecer a história das coisas – para entenderem o que é o mundo em que vivem, graças a quem temos chuveiro elétrico, vacinas e automóveis – e se localizar no espaço são elementos imprescindíveis para que eles possam “se virar” quando não estivermos mais aqui para orientá-los. Creio que essa seja uma preocupação ainda mais presente e angustiante no caso dos pais de crianças com necessidades especiais.

Dá para chamar o que temos de “educação inclusiva”? Apenas colocar as crianças deficientes nas turmas regulares, sem nenhum recurso ou preparo pode ser inclusão como um antônimo de segregação, mas a educação não tem sido o foco desse processo. O que temos são alunos especiais que não recebem atendimento adequado, professores sem formação adequada para lidar com esses casos, insatisfeitos com a própria atuação, pois mesmo fazendo tudo o que podem para que a coisa funcione, os resultados – se houver – serão ínfimos perto do esforço empreendido, os pais das outras crianças também insatisfeitos com a pouca atenção que elas recebem, e os conhecidos índices baixíssimos de aprendizagem nas escolas públicas.

E a inclusão, da maneira como vem acontecendo, não fornece o caminho para a autonomia para ninguém, nem mesmo para os alunos regulares. Claro que a convivência é importante para que as crianças especiais possam interagir com as demais, pois isso faz parte do desenvolvimento infantil. E também para que as outras crianças aprendam a compreender que o diferente existe e deve ser respeitado. Mas 200 dias letivos, 6 aulas por dia? Sem especialistas, sem material adequado, sem aprendizagem de fato. A diferença entre o remédio e o veneno às vezes é o exagero na dose.

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Obviamente que não é a inclusão a origem dos problemas – ou o maior dos problemas – da educação pública. Seria injusto e mentiroso afirmar algo assim. Mas, por vezes, há relação direta com outras questões preocupantes, que pretendo abordar nos próximos textos, tais como absenteísmo de professores.  O caso relatado acima é bastante ameno, mas não raro vemos professores sendo espancados por alunos violentos com deficiências mentais graves. O profissional é agredido fisicamente no exercício da função e sabe que o aluno é duplamente inimputável, não será sequer suspenso, ainda que repita a agressão todos os dias (e isso acontece com frequência). No entanto, o professor que se recuse a lecionar para o jovem que o agrediu será acusado de fascista para baixo pois é “contra a inclusão”.

A educação pública de verdade não é poesia. É prosa, cheia de nós cegos em sua trama.

P.S. Utilizo aqui os termos “portador de necessidades especiais”, “crianças especiais” e “deficientes”, porque a terminologia (politicamente) correta muda todo ano nas publicações sobre o tema. Sim, é uma mudança digna do que vemos no romance 1984, de George Orwell. E quem não usa o termo da vez corre o risco de ser chamado de preconceituoso, ultrapassado e coisa pior. Como não consigo acompanhar essas determinações, pois até o ano passado usávamos N.E. (Necessidades Especiais) para nos referir a essas crianças, mas me avisaram agora que é para chamar de “deficientes” de novo, então os termos aparecem como sinônimos.

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  • O Bebum da Rosemary

    Só para comparar Paula,fui pegar o álbum de formatura do meu filho, do segundo grau, para ver quantos alunos especiais havia no ano passado.Sabe quantos?15,divididos em:6alunos primeira série,3 na segunda e mais 6 na terceira e última série.Realmente 30 alunos especiais numa classe é demais,e com 1 só professor,imagino o nível do seu stress!

  • Lena

    Artigo excelente! Alguém deu voz às minhas críticas. Sou professora de escola pública e encontro problemas semelhantes aos relatados todos os dias. Sem formação compatível para lidar com eles. Na licenciatura de História não são ensinadas técnicas para tratar com crianças especiais. E vou além: mesmo em salas que não possuem crianças com problemas mais graves, há aqueles que são limitadíssimos em capacidade de aprendizagem, que demandam turmas pequenas e atenção individual para se desenvolverem, mas uma professora como eu, tem apenas 60 segundos de atenção para cada aluno, numa aula de 45 minutos em que 10 deles são gastos para acalmar os alunos e fazer a chamada. É cruel deixa-los para trás, mas os professores não possuem outra alternativa, pois as turmas tem de 35 a 40 alunos e dar atenção a um apenas, significa ignorar completamente os outros.

  • Tharlyns

    Fantástico, Paula!

  • Ana

    Já que já comentaram a precisão com termos, autismo faz parte do grupo de Transtornos Globais do Desenvolvimento, não é uma deficiência mental…

  • dudu

    Muito bom texto.

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