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“EMPODERAMENTO”, “sororidade”, “micro-agressão”, “discurso de ódio”, “gaslighting” e “falsa simetria” são palavras que você tem visto com frequência na sua timeline. Elas não eram comuns no Brasil até poucos anos atrás, mas estão se multiplicando. Esses conceitos não são neutros: são lentes para uma determinada forma de enxergar o mundo. Notadamente, são termos amplamente usados pela esquerda universitária americana: “empowerment”, “sorority”, “microagression”, “hate speech”, “gaslighting” e “false symmetry”.

A esquerda brasileira tem importado com cada vez maior frequência termos como esses. Com efeito, existem esforços para produzir traduções adequadas para aqueles que ainda estão em inglês (ex. “gaslighting”), pois na língua original eles seriam “elitizantes”. É engraçada essa forma de enxergar o idioma como mero instrumento, como se fosse possível importar termos e traduzi-los sem trazer com eles a visão de mundo correspondente (que é, em grande parte, de um público universitário altamente politizado). A própria língua inglesa é muito mais favorável que a nossa ao portmanteau, daí os termos aparentemente intraduzíveis como “manterrupting”, “bromance”, “brunch”, etc. Muitos portmanteaus usamos em português sem tradução: motel, cheeseburger, sitcom, e-mail, screenshot, cosplay, etc.

A esquerda brasileira também gosta muito de usar um termo – este produto nacional – chamado “indignação seletiva”. Ocorre que eles mesmos são responsáveis por um fenômeno que chamo de “importação seletiva”. Consiste em trazer para o debate brasileiro os conceitos favoritos da esquerda estrangeira e ignorar termos usados por AMBOS os lados do debate “na gringa”, e que, na verdade, ajudam muito a entender o Brasil.

Quais termos são esses?

E por que também não foram importados?

Agora, no Globo Repórter.

Astroturfing

1. Astroturfing. v. A prática de mascarar os verdadeiros patrocinadores de uma causa, mensagem ou política.

Em inglês, chamamos de “grassroots” aqueles movimentos “de raiz”, que se formam de baixo para cima, nas comunidades: com a Dona Maria, o Seu Geraldo, etc. Acontece que “AstroTurf” é uma marca famosa de grama sintética. Portanto, são chamados de “astroturfs” aqueles movimentos políticos que se disfarçam como “de raiz” mas na verdade têm patrocinadores poderosos por trás, como empresas, governos, partidos ou sindicatos. Em português poderíamos chamá-los de movimentos “siliconados” ou coisa assim.

Por que a esquerda brasileira não importa o termo “astroturfing”?

Porque ela é maior usuária e beneficiária da grama sintética. O conceito ajuda você a enxergar, por exemplo, que CUT, MST, MTST e uma misteriosa coisa chamada “Frente Brasil Popular” – todas elas participantes de manifestações pró-PT – são apenas astroturfs do PT. Podemos lembrar também do “Movimento pela Ética na Política”, da “Campanha Jubileu Sul” ou do “Plebiscito Popular por uma Constituinte Exclusiva” – todos eles frutos do PT. O termo “astroturf” também ajuda você a suspeitar de certos eventos misteriosos, como ataques racistas a profissionais da TV Globo acontecendo nos mesmos dias de Operação Lava Jato, sites com aparência “coxinha” que mobilizam doações para ONGs, e adesivos obscenos e hashtags com palavrão que subitamente estouram no Twitter. Também ajuda você a ler jornal melhor. Veja esta imagem:

tweets-folha-lula

São tweets da @folha no dia em que Lula foi conduzido pela Polícia Federal. Observe os quatro “diferentes” atores: Instituto Lula, Governo, PT e Dilma. A estes poderíamos somar Guilherme Boulos, João Pedro Stédile, Marilena Chaui, etc. Com a maior facilidade do mundo, sob diferentes cores de “grama”, a mesma “raiz” PT emplaca várias notícias com o mesmo viés e assim pode “controlar a narrativa”. Falando nisso….

Spin doctor

2. Spin doctor. s. Um profissional cujo trabalho é tentar controlar a forma com que uma notícia é descrita ao público, de forma a influenciar o que elas pensam a respeito.

Você já ouviu falar bastante sobre a “imprensa que manipula”, mas não chegou no Brasil o termo que descreve exatamente o responsável por essa prática. O termo foi cunhado nos anos 80, em um editorial do New York Times sobre um debate presidencial, para se referir aos assessores de imprensa que tentam influenciar o trabalho dos repórteres. “Doctor” não significa apenas “doutor” ou “médico”: o verbo “to doctor” pode significar “falsificar”.

Por que a esquerda brasileira não importa o termo “spin doctor”?

Por vários motivos. Em primeiro lugar, a noção de um “spin doctor” traz uma responsabilidade individual que a esquerda não enxerga. A “imprensa golpista” e a “mídia manipuladora” são forças super-estruturais, mas um “spin doctor” é uma pessoa. Além disso, a noção de “spin doctor” gira o holofote na direção oposta: os doctors em geral são assessores de imprensa, publicitários, blogueiros, etc. que informam a posição dos jornalistas, e não os próprios jornalistas, que são os verdadeiros vilões na narrativa da esquerda sobre a imprensa.

O termo “spin doctor” ajuda você a enxergar vários fenômenos muito importantes para a esquerda que ela quer que você ignore. Por exemplo:

– uma presidente demite vários ministros envolvidos em corrupção. Em vez de ela ser responsabilizada por ter contratado tantos corruptos, o spin doctor transforma isso em “faxina ministerial” e a presidente sai do episódio com boa imagem.

– milhões de pessoas vão às ruas espontaneamente, em um domingo, com cartazes improvisados, pedir o impeachment. Depois, em dia útil, uns tantos apaniguados, muitos deles vindos de ônibus fretados de cidades do interior, todos uniformizados e portanto bandeiras e balões, se pronunciam contra. O spin doctor declara com confiança: “o País está dividido!”.

– milhões de pessoas etc. etc. pedem impeachment. O spin doctor produz uma afronta à inteligência: a frase “não vai ter golpe”, deslocando totalmente a questão. Quem retrucar que “impeachment não é golpe” já caiu na armadilha do doctor: expliquei isso em Petistas Magros Não Lutam Sumô.

Dog whistle

3. Dog whistle. s.m. A divulgação de mensagens políticas que têm um significado para o público em geral e outro (subentendido) para a militância.

Você já reparou que em determinados momentos seus amigos petistas nas redes sociais ficam quietos? Quando o noticiário não favorece a agenda do partido, eles param de postar ou então passam a falar de seriados, flores… Isso acontece porque estão aguardando o “dog whistle”, o sinal do Comando Central para tentar emplacar uma pauta. Em 1º de abril deste ano, por exemplo, a Lava-Jato deflagrou a fase Carbono 14, que lançou luz no caso Celso Daniel. Este tema está vetado da agenda petista. Mas no dia seguinte a IstoÉ lançou uma capa com o título “explosões nervosas da presidente”. Os influenciadores da rede petista – os blogueiros, artistas, etc. de sempre – repercutiram a capa com grande ênfase. Não houve qualquer discussão sobre a VEJA do mesmo fim de semana. Por quê? Porque VEJA trazia uma capa sobre Celso Daniel…

O público “comum” entendeu que a repercussão sobre a capa da IstoÉ era o que parecia ser: um repúdio ao machismo, uma defesa da imagem da então presidente, etc. Mas a militância entendeu o som agudo do apito: ao falar de Dilma, a ordem era para sufocar qualquer repercussão da Lava Jato ou do caso Celso Daniel naquele fim de semana.

Por que a esquerda brasileira não importa o termo “dog whistle”?

Porque ela é a maior usuária do apito, e na verdade a esquerda funciona quase inteiramente assim: criando uma cultura, uma moda, e despertando nas pessoas o medo de não se adaptar à regra, ao que é aceitável, legal, descolado, politicamente correto. Esse medo não pode ser ostensivo, mas sutil: se você não participar de compartilhamentos suficientes, se não mudar seu sobrenome no perfil, se não trocar seu avatar, se “curtir” esta ou aquela página, você será mal-visto, e muita gente faz questão de publicar isso (“não quero como amigos gente que…”).

Em novembro de 2015, Lula pediu à militância que criasse “uma corrente de boas notícias”. O resultado foi a onda das fanfics de esquerda.

Em janeiro de 2016, Flávio Renegado postou uma capa de uma IstoÉ de abril de 2013 e pautou as timelines daquela semana – o post de uma revista velha teve mais de 11 000 compartilhamentos. O texto que acompanha a foto: “Ótimo jeito de começar a semana”.

Empty suit

4. Empty suit. adj. Uma pessoa – em geral político, acadêmico ou colunista – que posa de importante mas não tem qualquer conteúdo, e – em especial – emite opiniões sem ter o “dele” na reta.

“Empty suits” são exatamente “ternos vazios”: pura imagem, zero conteúdo. Mudam de opinião com grande facilidade, já que não arcam com qualquer responsabilidade pelo que dizem. Mangabeira Unger, por exemplo, escreveu que “o governo Lula é o mais corrupto de nossa história nacional” e logo depois virou ministro do Lula. Kátia Abreu assinou texto sobre os perigos do gramscismo e das milícias do pensamento e depois virou ministra de Dilma (e sua mais firme defensora no ministério).

Por que a esquerda brasileira não importa o termo “empty suit”? 

Exemplo 1)

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Exemplo 2)

bresser-pereira-estadao

Exemplo 3) Delfim Netto, Cristovam Buarque, Marina Silva, Alberto Carlos de Almeida, etc. etc.

Newspeak

5. Newspeak. s.f. “Novilíngua”, a linguagem ambígua e enganosa promovida por um regime (ou partido) com o objetivo de reduzir o horizonte de consciência das pessoas.

A “newspeak” foi criada por George Orwell no romance 1984, mas ele já enxergava na União Soviética o fenômeno de controle pela linguagem quando escreveu o livro.

Por que a esquerda brasileira não importa o termo “newspeak/novilíngua”?

Ao controlar seu vocabulário o regime limita o que você consegue pensar. Dessa forma, as suas opiniões importam muito pouco. É irrelevante votar no partido A ou B se no final das contas esses partidos estão comprometidos com a mesma casta e com as mesmas ideias (assim, o PSDB pode ser um partido “de direita” e o PSOL pode dizer que faz “oposição” ao PT). Com o avanço da novilíngua e o estreitamento do seu vocabulário e da sua imaginação, todas as suas “opiniões” ficam cada vez mais restritas ao espaço discursivo demarcado pelo regime (este espaço do aceitável é chamado em outra literatura de “Janela de Overton“).

Notem que no Brasil…

– ser “a favor de X” quase sempre implica “ser a favor de que X seja fornecido pelo governo federal de graça”.

– a palavra “golpe” contaminou o debate sobre impeachment.

– com enorme facilidade, debates importantes e delicados são sufocados porque interlocutores podem ser chamados de “machistas”, “racistas”, “homofóbicos”, etc, não porque o comportamento deles tenha sido assim avaliado, mas porque emitem opiniões “atrasadas”, “retrógradas”, etc.

– a turminha do DCE não consegue se opôr a ideias diferentes, não apenas porque nunca ouviram falar nelas, mas porque não conseguem sequer concebê-las.

– a turma que ridicularizava os panelaços promove os “vomitaços”.

– a palavra “fascista” é usada hoje para significar “aquele que não concorda comigo”.

Para pensar

Reparem que estes cinco termos preteridos pela “importação seletiva” da esquerda brasileira têm algo em comum: todos servem para detectar malandragem. Com efeito, são termos decontra-malandragem, que ajudam a enxergar o que é falso, exagerado, distorcido e – principalmente – as pessoas responsáveis por essa malandragem.

Em oposição, os termos preferidos pela “importação seletiva” (“mansplaining”, “falsa simetria”, etc.) servem todos eles para enxergar a opressão, a desigualdade, etc. Que espécie de visão de mundo está sendo construída com essa novilíngua, em especial quando os termos que ajudam a ter uma visão crítica dela não são importados? Adoraria ouvir vocês nos comentários.

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Saiba mais:










  • Eduardo Abreu

    A melhor resposta ao “Não vai ter golpe” é GOLPE É O CA**LHO!!!

  • Laís Barbosa

    O espaço não é só para intelectuais não neh?
    Da até medo de postar besteira! Rs

  • Laís Barbosa

    Sou obrigada a conviver com as marionetes advindas da doutrinação esquerdista até que me forme! Está cada dia mais difícil. São professores realizando verdadeiras lavagens cerebrais com sua ideologia empoeirada e insuportável, com seus textos sem a presença de contra argumentação à ideologia das autoras do dito “artigo acadêmico”. O ensino foi resumido ao único objetivo de insuflar a massa. Não se questiona o fato de um texto acadêmico perder a veracidade intelectual, a sua cientificidade com a ausência de dialética.
    Minha indignação já não é mais suficiente para me estimular a causar se quer uma discussão, já que todas as vezes que tentei me deparei com uma falta de conhecimento histórico, político e até mesmo ideológico por parte dos esquerdistas aficionados, com seus discursos de verdades prontas. Eles não sabem nada sobre o que defendem. Sem contar a repressão exercida pelos professores aos contrários as suas falácias. A oposição é condenada, porque pode gerar questionamento e quem sabe até mesmo conhecimento. O gado não pode se dispersar! Viverei essa situação por mais uns anos, o que não sei é se vou aguentar!
    Precisava desabafar. Isso estava me matando.

    • Carlos

      Ótimo raciocínio. Agora imagine o inverso do que vc passa. Sou professor e amargo o sofrimento de tentar passar obras e autores com posicionamento divergentes mas meia dúzia de alunos esquerdistas ficam me aporrinhando pois qualquer posição diferente do linguajar e da posição medíocre da esquerda é machista opressor retrógrado etc.

    • Juliana

      Laís, uma das piores características do brasileiro bovino é ter opinião sem poder de argumentação. Porque acha que pode falar qq asneira, para qq um, em qq contexto. E sabe como é, opinião é como bhunda, todo mundo tem a sua. Este país cansa.

  • Vinícius F. de Oliveira

    A medida que Temer desenterra gente dos anos FHC como Pedro Parente, a esquerda sem imaginação vai desenterrar termos daqueles anos: “neoliberalismo”, “FMI”, “consenso de Washington”, e por aí vai. Aliás já o faz desde 2014.

  • David Kesller

    Excelente!

  • Cesar

    Boa e estratégica dissecação do uso da linguagem política.

  • Monica Accorsi

    Obrigada por possibilitar q eu vá dormir muito mais antenada do que quando acordei na manhã de ontem!obrigada por trabalhar assim.obrigada por ajudar a não me sentir tão estranha neste nosso ninhonatal…
    Lamento dolorosamente perceber o quanto a falta de leitura básica, mínima, o quanto a falta de um certo metabolismo mental pode tornar tantas mentes tão vulneráveis e suscetíveis a tudo e todos!
    Um grato bacio.

  • Jefferson

    Texto excepcional! O Senso Incomum cada dia se supera mais. Não bastam os textos incríveis do Flávio, de vez em sempre surge algum convidado para nos dar uma verdadeira aula. Parabéns mesmo!

  • Brasileiro

    Vamos dizer o seguinte nessa história toda: desses termos, “novilíngua” não foi importado pela esquerda brasileira, mas foi contrabandeado pela direita de cá, ganhando alguma popularização das boas se considerarmos que a esquerda não mais manda e que 1984 é um livro relativamente popular por estas bandas.
    Sobre as fanfics de esquerda, talvez o mais adequado seja dizer que houve um redirecionamento de temas, pois já no ano retrasado tínhamos diversos relatos de supostos estupros bem absurdos, como o de uma moça de 17 anos no Rio que dizia ter sido estuprada por três eleitores de Aécio Neves por simplesmente ter dito que votou em Dilma. Aliás, o mais absurdo de tudo isso foi ver que essas fanfics pautaram a imprensa e tudo indica terem tirado o espaço para que verdadeiros casos de estupro fossem relatados e se conseguisse com mais facilidade, graças à exposição, chegar aos verdadeiros autores dos mesmos.

    Sobre este link que consta no texto, há um detalhe: a autora dele é Nana Queiroz, aquela que ficou seminua na Esplanada dos Ministérios com a frase “eu não mereço ser estuprada”, captada por fotografia de nível profissional, logo após a divulgação daquela pesquisa fajuta do Ipea. Vamos dizer que ela foi o cão líder da matilha a ouvir o apito dado pelo instituto, talvez de forma privilegiada, permitindo-lhe fazer aquela encenação constrangedora. Talvez tenha sido uma espécie de IPO dela como spin doctor para a parte feminista do gramscismo, ainda mais que ela não está dentro daquele arquétipo típico de militante de tal movimento, uma vez que é casada, não é feia e teoricamente serviria de porta-voz mais adequada para uma determinada imagem que se queira passar do movimento que não aquela que sabemos ser a mais normal e esperada.
    Em relação a astroturfing, modalidade importante a ressaltar são essas recentes histórias envolvendo escolas paulistas e, mais recentemente, a Funarte especialmente após Francisco Dornelles estar sendo o governador em exercício no Rio de Janeiro. Essas, mais as anteriores invasões de escolas em São Paulo, a “revolta do shortinho” e outras têm como padrão começarem sem maiores menções de atores políticos para só depois de um certo tempo o PSOL se apresentar. Parece que os caras aprenderam com os protestos de 2013 que não adianta mais entrar com faixas escrito “Juntos” porque o pessoal já saca qual é a coisa. Também há a guinada que me faz suspeitar de a esquerda ter sido tão vocal contra projetos recentes diminuindo a maioridade penal para 16 anos: em média tem sido essa a idade dos militantes mais recentes, que na prática estão substituindo os universitários e sendo mais utilizáveis que eles justamente por serem menores de idade.

  • Acrizio

    Parafraseando Sun Tzu em A Arte da Guerra: quem domina a linguagem obtém grande vantagem sobre o adversário.
    A esquerda no Brasil não conseguiu somente dominar o uso da linguagem nas universidades e entre jornalistas e políticos, como conseguiu dinamizar entre pessoas que até não se consieram de esquerda. A prova está no fato de que quando algum libertário ou conservador fala algo que vá de encontro às ideias progressistas logo as pessoas de alto como de baixo escalão conseguem encaixar machismo, sexismo, fascismo, e outros sufixos -ismo com facilidade.

    E isso está tão arraigado que parece haver um software nessas pessoas de identificação simultânea. Pasmem, já vi uma pessoa comparar comportamento de pedófilo com machismo!

    Excelente artigo.

  • Edu Porto

    Faltou um termo que está crescendo bastante nos EUA: apropriação cultural. Por exemplo, um loiro usar cabelos rastafari seria apropriação cultural, ou mesmo usar um turbante, inclusive com casos aqui no Brasil já relatados. Veja o “Negros contra o movimento negro” no facebook para ter uma idéia.

    Na minha opinião, e me perdoe se falo asneiras, o uso dessa linguagem compensa a ignorância ordinária do brasileiro com relação a tudo que seja intelectualizado ou que necessite o mínimo de vida intelectual, inclusive, com relação a literatura esquerdista, já que ninguém lê porra nenhuma mesmo… Então como fazer com as pessoas adotem a visão de mundo da esquerda, se elas não querem ler para entender o que a esquerda acredita?

    Imagine explicar para as pessoas comuns conceitos como luta de classes, estrutura e superestrutura e toda aquela xaropisse que professores de esquerda ensinam, mas ninguém aprende. Então, colocar termos fáceis de engolir remontando situações do dia a dia pavlovianamente enxertados na cabecinha das pessoas, e portanto no seu imaginário, como coisas ruins e que expressam relações de opressão que devem ser combatidos por todos e principalmente pelo estado, para que então, vc vai perder tempo explicando Hegel ou Marx para os incautos (eu incluso :-))?

    Veja o exemplo do “gaslighting”, alguém precisou ler A Origem da Família da Propriedade Privada e do Estado, para que quando presenciasse um homem chamando a atenção de uma mulher, mesmo que nas melhores das intenções, atribuísse a isso a dominação machista do patriarcado? Não. E olha que hj em dia a dama sai com a torcida do flamengo inteira, rolando até um threesome de vez em qdo, casa de vel e grinalda e ninguém sai traumatizado por isso e vivem felizes pra sempre enquanto dura. Não sei de que patriarcado eles tanto falam.

    Voltando… Mesmo assim isso acontece com uma naturalidade alucinante. Eu que trabalho com TI, já presenciei vários colegas serem chamados a atenção por fazer “gaslighting” com mulheres, pelo simples fato de perguntarem se elas precisavam de alguma ajuda para implementar um software.

    E a coisa não para por aí, houve até um curso dado na empresa para “tratar de questões de gênero”, por conta disso. Novamente, alguém deu pelo menos uma palestrinha de guerra de classes? Nem precisou. É só enfiar um conceito difuso na cabeça dessas pessoas pseudo intelectualizadas que magicamente passam a enxergar machismo em tudo e querem fazer parte do “time do bem”, e passam a ver como machismo até se vc abre a porta ou segura o elevador para uma mulher.

    A esquerda resolveu brigar em outros campos completamente desconhecidos para pessoas comuns como eu. Por isso te agradeço por esse blog que tenta fazer algo que o Olavo também nos alerta, sanar a linguagem na esperança que as pessoas voltem a pensar com o dois pés no chão e não com os quatro (hehe)

    Em tempo: sou um “apropriador cultural” inveterado. Estou aqui no RS gelado de frio nessa manhã, fumando um cachimbo de briar italiano, com tabaco oriental, tomando um vinho argentino barato, escrevendo com caracteres latinos e números arábicos, esperando pela minha aula de francês online, escutando música clássica (Bach para ser mais preciso). E depois, quem sabe, vou ler um mangá ou algum conto do H.P. Lovecraft. Não consigo mais parar de fazer isso, acho que sou um viciado.

    • Ivan

      Excelentes, tanto o conteúdo da página, quanto o comentário do Edu Porto.

      • Edu Porto

        Obrigado. Estou me esforçando para escrever tão bem quanto o Morga ehhehe. Por enquanto, só o imito.

    • Augusto Paiva
    • Carlo

      Sensacional, haha.

  • Giuliano

    Muito bom texto! Uma aula!

  • Edu

    Brilhante post,vou repassar para minha rede.

  • Muito bom…

  • Muito bo.

  • Matias Pasqualotto

    muito bom, não conhecia a maioria…
    interessante que um que a esquerda usa muito nos EUA não veio ainda: o “trigger warning” e outras viadagens…

  • Alex

    Hoje, dia 20/05, mesmo dia desta publicação, é o dia que o novo governo interino anuncia que o déficit deixado pelo governo anterior nas contas públicas foi de 170,5 bi. Cento e setenta bilhões. Quase o dobro do que tinham anunciado antes que seria. Mas o assunto, de longe, mais comentado do dia pela nossa esquerda, a ponto de chegar e passar boa parte do dia em primeiro lugar nos Trending Topics Mundiais do Twitter, foi a cantora gospel que postou em sua rede social que discordava da “Ideologia de genêro”. Tornou-se inclusive notícia em todos os grandes portais que estariam promovendo um “vomitaço” na página da cantora, em protesto. Mais dog whistle impossível.

  • Faltou listar um sexto termo, por sinal já apresentado neste site em artigo dedicado: shibboleth.

    De todos os listados, eu só conhecia dog whistle e newspeak. Pra você ver…

    • Flavio Morgenstern

      Mas shibboleth não é bem um termo político, deve ser por isso.

  • dudu

    Excelente!!!

  • Usando sua linguagem, eu diria que João Santana foi, por anos, um dos maiores spin doctors e criadores de dog whistles da história do Brasil e de toda a América Latina.
    O sujeito era muito bom no que fazia, conseguia controlar a agenda e reverter quase tudo a favor dos seus contratantes. Não fosse ele, Dilma não seria sequer reeleita.

  • Jonas

    Parabéns pelo texto interessantíssimo.

  • Simplesmente indispensável.
    Pra quem é interessado, como eu sou, em guerra cultural e assimétrica, é um prato cheio.
    Se tiver mais conteúdo desses, não deixe de postar.
    Must!

  • Neusa Vegini

    Eu já tinha estudado as falácias, e todas estas expressões são falaciosas, mas demonstram precisamente como nossa juventude está a mercê deste discurso opressor da esquerda. Lamentável mesmo.

  • Eu ainda fico impressionado com o poder que tem a linguagem. Será que algum não-esquerdista está trabalhando contra essa nova moda da esquerda?

    • Flavio Morgenstern

      o/

  • André Luiz

    Tenho que tirar o chapéu para esse excelente artigo! A discussão sobre o assunto é fundamental para o movimento conservador de direita que renasce no Brasil. Não venceremos essa guerra cultural sem entendermos desses conceitos e suas consequências. Quem discute com comunista no Facebook sabe bem como funcionam esses termos importados no discurso cotidiano deles.

  • No final das contas, o problema maior nem é a minoritária sinistra, mas os “bonzinhos” que precisam de aprovação geral e abraçam as “causas humanitárias” com Astroturf bem definido.
    O que vc escreveu me faz ter certeza que a burrice é pior que a maldade. A maldade a gente combate – embora tenha uma parcela de bonzinhos a defender a maldade como doença -, mas a burrice ganha espaço por sua suposta inocência, o típico sonso.
    Tempos dificeis! Contra a maldade há antidoto, contra a burrice, apenas a prevenção de não frequentar locais infectados nem privar da companhia de infectados, pois é muito contagiosa.

  • Muito interessante teu texto. Infelizmente, lamento por uma classe de pessoas que mesmo frequentando as Universidades, não conseguem ir ao cerne da coisa e ao mesmo tempo se distanciar um pouco para tentar entender o que ocoolrre de fato. Os que são beneficiados é até compreensível a defesa, sem nem saber o que estão defendendo. Desde que seus bolsos esteja cheios. Quanto aos repetidores de plantão, não param para ler. Não escutam sequer a lógica de um raciocínio diferente dos seus. Que nem raciocinios são e sim palavras e jargões repetidas aleatoriamente pra intimidar. Parecem zumbis. Dentre estes, estão educadores, advogados, etc e tal. É muito perigoso não aguçar a faculdade de raciocínio.

    • Excelente texto,dificilmente encontrado fora do meio acadêmico dos EUA e Europa.Mais alegre ao ler tantos lúcidos comentários.
      Senti que, nem tudo está perdido.

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