No livro “As Vantagens do Pessimismo e o Perigo da Falsa Esperança”, ao comentar sobre “a falácia da melhor das hipóteses” e durante o segundo capítulo sobretudo, Roger Scruton contrapõe os fundamentos do modo de pensar progressista aos pilares de sustentação do conservadorismo. De acordo com o autor, este último se expressa essencialmente através de uma “postura do nós”, isto é, uma atitude tendente a reconhecer que a sabedoria raramente está contida em uma única pessoa, e é mais provável que esteja consagrada em costumes e tradições cuja efetividade prática permitiu sua prolongação no tempo. O primeiro, por outro lado, tende a se fiar na iluminação individual de determinados radicais ou ativistas e nos esquemas que habitam o interior desta ou daquela cabeça — por vezes, a própria.

Além disso, o pensamento conservador reconhece que a origem de quase todos os males que nos afligem liga-se a nossa própria natureza viciada, daí o uso da moralidade e das leis para contê-la, por intermédio de um sistema moral e jurídico de responsabilização individual; ao passo em que a visão progressista, seguindo a linha de pensamento rousseauniana, tende a projetar nas instituições a causa de tais flagelos, confiando estritamente na reforma de nosso arcabouço social como método de os eliminar e assim alcançar a paz social, frequentemente desdenhando da relevância de ações pontuais e concretas no cômputo geral do atingimento de tal meta.

É o que acontece com os progressistas que, em sua ânsia de denunciar todas as fontes de opressão existentes aqui e no resto do planeta — seja através das corzinhas do seu filtro de avatar no facebook, seja dando “like” no maior número de causas sociais abstratas possível — , acabam abdicando da bondade concreta, dirigida individualmente às pessoas que o cercam, e não raro revelam-se em seu cotidiano péssimos filhos, maridos, amigos, vizinhos e assim por diante.

Mais: é o que motiva, por exemplo, as hediondas ações recentes da Guarda Civil Metropolitana da cidade de São Paulo que, sob a gestão de um prefeito que se declara dos mais humanistas e “um agente da civilização contra a barbárie”, passou a retirar cobertores, colchões e outros pertences de moradores de rua, ao argumento de que tal medida serviria para “evitar a refavelização”, tudo isso em meio a um dos mais rigorosos invernos de que se tem registro na capital paulista. Em uma frase: em nome de um pouquíssimo verossímil ideal de revolução urbana que permitiria eliminar as favelas do perímetro de uma cidade com quase 12 milhões de habitantes, não há problema em deixar essas pessoas morrerem de frio aqui e agora.

Sob a aparentemente inofensiva pretensão de tão somente aperfeiçoar o mundo em que vivemos, o pensamento progressista na verdade esconde o objetivo em si irrealizável de buscar e prover uma solução única e permanente para o conflito humano. Na contramão da forma mais racional e correta de planejar o contingenciamento das desavenças inerentes à vida em sociedade — qual seja, resolvê-los um a um, conforme a urgência e à medida em que forem surgindo —, a mentalidade revolucionária ambiciona eliminar a própria origem de tais desentendimentos, mediante a criação de uma sociedade em que eles não mais existam, no processo que Eric Voeglin bem denominou de “imanentização escatológica”.

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Paradoxalmente, a inaplicabilidade congênita do progressismo ao mundo real é também o que o torna tão encantador sob a perspectiva de um espírito mais incauto (ou “inescrupulosamente otimista”, como prefere Scruton). Precisamente porque tais ideais de vida em comum, bondade e justiça são irrealizáveis, eles jamais poderão ser postos à prova e qualquer experiência malfadada de sua implementação será naturalmente considerada uma versão inacabada ou desviada do projeto definitivo — este sim, infalível. Não por outra razão, caso cheguem ao poder, dada a própria intangibilidade de seus objetivos, os progressistas fatalmente são forçados a encontrar no mundo real alguma trama, conspiração ou inimigo externo a justificar o fracasso de sua empreitada. Contudo, embora despido de qualquer função materialmente exteriorizável, este ideal inatingível possui a poderosa função simbólica de remanescer para sempre no horizonte de nossa existência, como um canto da sereia, “lançando um julgamento sobre tudo que é real, como um sol para o qual não podemos olhar diretamente, mas que cria um lado sombrio em todas as coisas que ilumina”.[1] O adepto do modo de pensar progressista sobrevive, portanto, em constante estado de preparação, lutando contra os inimigos da utopia por prazo indeterminado.

É de se ver que tal solução universal e definitiva não existe e jamais poderia existir; as soluções reais para as agruras de nossa vida individual e coletiva são sempre parciais e provisórias: descobertas caso a caso, incorporadas e então amplificadas, mediante um processo de indução, para que sejam aplicáveis aos demais casos semelhantes, sob a forma de precedente judicial ou diploma legislativo.

Enquanto o pensamento progressista confia nas inquestionáveis virtudes messiânicas de um Jean Wyllys ou de um Bernie Sanders — a quem incumbirá nos guiar pelo caminho da correção política e ideológica até o Olimpo da absoluta igualdade (econômica, social, racial, de gênero etc.) — , o pensamento conservador busca socorrer-se dos costumes e regras de experiência aprovados no teste do tempo, na esperança de que tal conhecimento coletivo acumulado seja suficiente para que, paulatinamente, possamos chegar a bom termo quanto a cada um de nossos desentendimentos, mediante esforço mútuo e concessões recíprocas.

E certamente uma dos primeiras compreensões que a experiência humana nos permite absorver, seja qual for o ponto no tempo e no espaço que se queira pinçar, é o de que não existe redenção coletiva, que todas as promessas de expurgação geral do sofrimento são falsas e só conduziram a flagelos ainda mais terríveis, e que tudo que podemos fazer para evitar os dissabores alheios é praticar a bondade diária e concreta que está ao nosso alcance imediato— e rezar para que o resultado ao final saia de acordo com o que esperamos.

Bem por isso, conservadorismo é antes de tudo ter a humildade essencial de reconhecer a severa limitação de sua capacidade de agir e, por via de consequência, da própria força humana transformadora.

[1] Ob. cit., 1ª ed., São Paulo: É Realizações, 2015, p. 67.

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