Milton Neves gerou um furdunço no Twitter por afirmar que futebol feminino não tem graça. Alguém sabe o nome de uma jogadora além de Marta?

Milton Neves, narrador da Band, colunista do UOL e da Placar, causou celeuma no Twitter ontem ao afirmar que “Futebol feminino é igual gordo comendo salada: não tem graça nenhuma”.

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Talvez pouco conhecendo o Twitter, não imaginou a reação que teria ao cutucar o vespeiro mais aguerrido da ideologia progressista: o feminismo.

O problema levantado por Milton Neves, bem ao contrário, é: quem aí realmente gosta de futebol feminino?

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A maioria dos torcedores (incluindo as mulheres) ficou sabendo do nome da nossa goleira, ou de outra atacante ou jogadora que não fosse Marta, justamente enquanto assistia as Olimpíadas. Porque o futebol feminino não gera público. Não tem muito do que se espera no futebol, que não é só gol: é dedo no olho, carrinho por trás, chuteira no peito, do pescoço pra baixo é tudo canela.

Alguém aí sabe em que times jogam as jogadoras? Sabe o nome de alguma delas? Alguém aí assistiu futebol feminino antes de Marta? Alguém, em sua vida cotidiana casa-trabalho-internet, naqueles dias normais da vida em que não há Olimpíadas, se preocupa com a mera existência de futebol feminino?

Todos sabemos as respostas a essas perguntas. Mas dizer a verdade é proibido. Como se algum problema fosse ser resolvido quando não se diz o nome dele (depois, não entendem por que candidatos como Bolsonaro ou Trump têm tanto apelo). Como se fosse possível curar um câncer ou ensinar uma criança a fazer sua lição de casa sem falar “câncer” ou “lição de casa”.

A razão para o faniquito é consabida, mas também não pode ser verbalizada para não ofender hipersensibilidades. Podemos diferenciar entre um pensamento filosófico, que busca uma correspondência entre palavras e coisas, e o pensamento ideológico, que nega a realidade em prol de uma mobilização política.

Assim, se não há um problema – todos vivem muito bem sem assistir a futebol feminino – inventa-se um – Milton Neves é “machista” – cuja única solução é a ideologia.

critério de verdade, antes a força motriz do jornalismo, é completamente substituído pela catalogação de opiniões em redes sociais. Como se elas significassem alguma coisa e valessem mais do que a verdade, a busca de uma linha cada vez mais reta entre fato e linguagem.

Foi o que Estadão e Folha fizeram em uníssono, ao relatar que “Milton Neves faz post machista” (já em si um julgamento de valor ideológico) “e revolta fãs” (alguém que o criticou é fã de futebol feminino?), catalogando tweets:

Pela linguagem e links apresentados contra Milton Neves, não se trata de “fãs”, mas de usuários de uma pesadíssima droga, a que mais vicia a nossa geração: o feminismo. Como já explicamos, são shibboleth’s do feminismo. Os jornalistas escolhem milimetricamente os militantes para, como exemplo, darem a impressão de ser o povo todo que pensa como os ideólogos. A mágica aos poucos vai funcionando.

Milton Neves joga futebolFeminismo, a ideologia em questão, além de negar a realidade (e não perceber o próprio, digamos, “lugar de fala”, já que estas próprias pessoas dificilmente são “fãs” de futebol feminino), crê em divisão e luta. Que os direitos de uma parcela da população devem ser tomados de outra parcela da população, ao invés de se criar uma lei universal para todos, como o e pluribus unum da Constituição Americana.

Por isso, as opiniões são patrulhadas: ou se segue a boiada, ou se é inimigo. Não se trata mais de alguns gostarem de azul, e outros preferirem o verde: até mesmo idiossincrasias, como o gosto pessoal mais arredio a racionalizações, vira bandeira de guerra.

Ideologias como o feminismo pegaram Milton Neves desprevenido pois no mundo das ideologias não se vence pela razão ou adequação à verdade, e sim pela força grupal. Por isso só funcionam como modismos. A opinião tem de seguir a boiada, ou é criminalizada.

Somos obrigados hoje a gostar de coisas para não sermos “preconceituosos” e “opressores”. Não de uma coisa em particular, mas do que a ideologia utilizar como sinal de uma “opressão”. Como, de repente, o Twitter inteiro estar preocupadíssimo em afirmar que futebol feminino é bacana, que respeitam, que gostam. Para horas depois nem lembrar de quanto foi o jogo ou contra quem.

Mesmo que Milton Neves afirme que as jogadoras são guerreiras, que gosta de vôlei, basquete, tênis feminino, imprime-se a pecha “machista” por afirmar o óbvio: que o esporte em si tem pouco apelo.

E pessoas que fazem da vida uma busca incessante por glorificação umbigocêntrica através do pensamento ideológico (“já tomei meu sucrilhos, com o que vou me ofender hoje para ganhar uns RTs?”) passam a tratar como “opressão” não se gostar de algo do qual elas tampouco gostam.

É como jogadores de Magic ou RPG passarem, do dia para a noite, a criticarem a “Magicofobia”, que são discriminados com piadinhas em Big Bang Theory, que merecem mais respeito por jogarem algo pouco popular.

Daria para fazer o mesmo com modalidades bem populares: como ficam os fãs de Fórmula 1 em 2016? E quem, ao contrário de Milton Neves (que afirmou não gostar de MMA, nem masculino e nem feminino), assiste todas as modalides de artes marciais, do taekwondo ao sumô?

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Curiosamente, Milton Neves poderia ter dito que a ginástica artística masculina é sem graça, que ninguém nem teria notado o seu tweet.

Mas o pensamento ideológico, ao contrário do filosófico – e de quem busca a verdade sem grandes técnicas e regras –, busca pêlo em ovo e chifre em cabeça de cavalo para causar comoção, afastando as pessoas dos argumentos e se sentimentalizando pelo que nem é real. Se a monomania da vez é feminismo, busca “opressão” em qualquer coisa envolvendo a palavra “mulher” ou “feminino”, de um banheiro ao esporte preferido.

Basta-se exagerar o exemplo: qual seria o apelo do futebol americano feminino? O hockey feminino teria a mesma graça do masculino?

Será mesmo que as usuárias de feminismo e de problematização de Twitter criticando Milton Neves gastaram sua fatura de SporTV assistindo ao levantamento de peso feminino?

A despeito de toda a choradeira do pensamento ideológico contra Milton Neves, a verdade permanece impávida e colossa, mesmo que ninguém a defenda. Por isso o pensamento filosófico subsiste mesmo nessa era. Por isso, como já afirmou alguém perdido nas brumas do tempo, os jovens são de esquerda, mas vão indo para a direita conforme envelhecem, nunca o contrário.

As feministas podem chiar do pensamento meramente óbvio de Milton Neves. Mas ainda assim preferem ler romance de mulherzinha e fazer Letras ou Moda, mas a platéia de shows do Motorhead e de corridas de monster trucks permanecem eminentemente masculinas.

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  • Alverne Paiva

    É chato mesmo. Já tentei assistir jogos da seleção brasileira , que imagino ser de mais alto nível na categoria, e é parado, sem graça e massante. É tipo assistir futebol masculino da década de 60 ou futebol masculino da terceira divisão do Brasil.
    Deve ter quem goste mas eu não conheço ninguém que tenha interesse nessa modalidade esportiva . Não acho que vá melhorar porque o futebol masculino é muito intenso hj em dia e acho improvável que as mulheres consigam chegar perto desse nível, não por ser machista mas por uma questão biológica e um hormônio chamado testosterona que faz o corpo masculino mas apto a este tipo de intensidade e força

  • Pingback: Milton Neves e a patrulha da verdade: ninguém assiste futebol feminino – Senso Incomum | Cotidiana Vida Blog()

  • Fábio Peres

    Futebol feminino é mais lento que o masculino, assim como a maioria dos esportes. Lembra os vídeos antigos sobre o jogo, dos tempos do Pelé. Questão de gosto, mais do que de inclusão ou valorização.

  • Andrea Fernandes

    Comentário 1: “Não tem muito do que se espera no futebol, que não é só gol: é dedo no olho, carrinho por trás, chuteira no peito, do pescoço pra baixo é tudo canela.”
    Mas quando no masculino, a Colômbia quase quebrou a coluna do Neymar em campo, foi aquela choradeira: “é futebol e não UFC”. A mesma coisa no jogo com Honduras nesta Olimpíada. Se vcs gostam destas coisas no futebol, porque reclamam tanto e xingam tanto, quando um jogador fica meses sem jogar, depois de ter se machucado numa falta que supostamente é o que dá “graça” ao futebol? Incoerentes.

    Comentário 2: “As feministas podem chiar do pensamento meramente óbvio de Milton Neves. Mas ainda assim preferem ler romance de mulherzinha e fazer Letras ou Moda…”
    O simples fato de achar que o Milton Neves se comportou como um idiota, me faz ser rotulada como feminista? Então vcs estão fazendo a mesma coisa da qual acusam os outros e merecem tanto crédito quanto. Ele agiu como um oportunista, pois enquanto a seleção feminina estava goleando, elogiava as mesmas, e bastou elas perderem, pra falar o contrário, e tudo isso visando apenas causar. É sintoma do quanto o brasileiro precisa estudar mais filosofia, que até aqui neste site, que se acha pensador contra a corrente, pessoas tentem filosofar sobre o que disse ou deixou de dizer, um conhecido troll chamado Milton Neves. Se ele não acha graça no futebol feminino, devia ter dito isso quando as meninas estavam goleando as adversárias, mas aí não ia dar “ibope” ao boçal, não é? Lamentável o nível ao qual chegamos na guerra ideológica. Vcs incluídos.

    • Lindalva Cordeiro

      Essa de”romance de mulherzinha” doeu, será que a grande maioria de mulheres cultas leem romance de “mulherzinha”? Acho que ele considera todas mulheres como a descerebrada da mãe dele, coitado, dá dó, o referencial que ele possui de mulher é medíocre.

      • Sol

        Eu sou mulher, não sou tão feminina assim e adoro romance de “mulherzinha”. Super fã da Jane Austen, sou menos culta por isso?!

        • Andrea Fernandes

          O erro é tentar dizer do que uma mulher deve gostar ou não e tratar isso como verdade absoluta.

          • Sol

            Esse é o problema Andrea, todo mundo agora quer ditar como o outro deve ou não deve ser e qualquer coisinha que não se encaixe no padrão que deseja já é motivo para discriminação e chacota. Nunca vivemos num ambiente de tamanha censura, todos agora viraram censores, agentes da ditadura do “politicamente correto” Está insuportável conviver desse jeito. Não sei quem é Milton Neves, não tenho ideia se ele foi oportunista ou não. Mas o fato de um comentário sobre não gostar de futebol feminino gerar essa polemica toda é absurdo! Eu detesto futebol, o feminino então para mim é totalmente intragável. Mas não sou nenhuma ignorante no assunto, e sei que já existiram várias formas e estilos de se jogar futebol. O feminino é recente e elas ainda precisam melhorar muito, isso é óbvio. E só com a prática que elas aprimoraram sua forma de jogar. Ver gente que não entende nada disso e nem gosta de futebol, criticar quem falou mal do futebol feminino é no mínimo incoerente.

  • Sandro

    O maior cego não é aquele que não quer ver, é aquele que acha que tudo sabe vendo somente o que lhe proporcionam ver. Como alguém assistiria futebol feminino no Brasil se não existe futebol feminino no Brasil? Um homem criado na escravidão têm dificuldade de enxergar a liberdade.

    • Marco Simm

      Existe em pequena quantidade, e existe em pequena quantidade por não ser interessante. Simples.

  • Fabiana Priscilla Martins

    Eu gosto de futebol feminino justamente por não ter tanta falta (dedo no olho e do pescoço pra baixo é canela… pra mim é ridiculo). Todas as vezes que passa na TV eu assisto (fora do horário de trabalho), mas não tenho TV a cabo, por isso não acompanho… aliás, das pessoas que eu conheço todo mundo que conversei sobre olimpiadas assistiu, ou acompanhou depois por causa do horario, e ficou super triste com a derrota, torceu junto, elogiou… acho que voces estão tentando pegar a opinião de voces e dizer que todo mundo acho isso, verdade absoluta, sinto muito mas não é a opinião de “todo mundo” kkkkk Já ouvi falarem mal da ginastica masculina (“igual gordo comendo salada: não tem graça”) mas tambem é gosto, e o apoio deles é pequeno tambem. Não se sei voces já chegaram a ser atletas de verdade (treinar todo dia no mínimo 3 horas) mas eu já, por um bom tempo, e o que mais adoro nas olimpiadas e ver o quanto aquela medalha, a competição significa pra todos eles, o esforço… a seleção brasileira masculina de futebol não significa nada pra maioria deles, por isso tem tanta gente abandonando e torcendo até contra (eu torço a favor kkkk), mais uma vez, a maioria que eu conheço. OBS: no meu setor de trabalho tem umas 70 pessoas, desses, 6 são mulheres contando comigo, então não adianta falar que só falo com mulher kkkkk.

    • Andrea Fernandes

      A patrulha de esquerda chama o Milton Neves de machista. Aí a patrulha reaça (sim, os de direita tbm fazem patrulha, do contrário este texto do Senso Incomum nem estaria aqui) escreve textos como este, acusando quem criticou o Neves, de feminismo. E cometendo os mesmos erros, ou seja: tentando dizer q a opinião expressa no texto, é a de todos, ou a da maioria, quando em nenhum dos casos isso foi verdade. Insuportável essa guerra de “ismos” onde tudo vira machismo ou tudo vira feminismo, quando na verdade foi apenas uma opinião, que o Milton Neves deu, claramente pensando em gerar confusão e chamar a atenção para si mesmo (ele tem hábito de fazer isso). Por essas e outras é que tenho pouca esperança de um futuro melhor para o Brasil. A direita adora entrar na luta de classes instaurada pela esquerda em vez de acabar com isso e juntar as pessoas em torno de algo maior e mais nobre. Parece que ambos se beneficiam em manter a situação assim, ambos gostam de ver circo pegando fogo, e quem perde com isso, é o país.

    • Lindalva Cordeiro

      Eu também curto muito o futebol feminino, até mais que o masculino, sempre gostei de futebol, desde que começou o futebol feminino, gosto de assistir, mas quase não se vê nem em canais pagos e conheço homens que gostam, dizer que ninguém gosta de futebol feminino, é generalizar, e toda generalização é burra. Elas claro vão evoluir, afinal, a modalidade tem pouco mais de 20 anos e muitos percalços para as atletas praticarem, a maioria trabalha para se manter em outra área e joga por amor. Será que os marmanjos fazem isso? Eles têm tudo, portas abertas, mídia a favor, apoio milionário e ainda passam vergonha, como a final da Copa do Mundo. E essa final medíocre dos dois lados, por serem homens, fortes, habilidosos, e tudo de bom, bem que essa final foi bem chinfrim.

  • Minha Opinião

    De competição feminina nas Olimpíadas, curto apenas a ginástica artística.

    • Lindalva Cordeiro

      E eu dos homens, só curto o salto ornamental, por causa das sunguinhas. kkkkkkk

  • Minha Opinião

    De competição nas Olimpíadas, curto apenas a ginástica artística.

  • David Xavier

    A verdade é que o Sr. Milton Neves é do tipo polêmica, basta assistir os programas dele pra vê. Com qualquer coisa que ele possa fatura, ele vai faturar. Uma hora é corintiano, outra santista, palmeirense e por aí vai.

    Mas o fato é que, mesmo adorando uma polêmica (afinal em polêmicas aparecem nomes), ele disse exatamente o que todo mundo já percebeu: o futebol feminino não tem a graça que o masculino tem. Véio os dois primeiros jogos do futebol masculino foram péssimos! Galvão Bueno, Milton Neves, até o tiozinho do bar criticaram, desceram o sarrafo e, a feminazi (ou machonazi, que por sinal não existem) não falaram nada em defesa do futebol masculino! Agora os dois últimos jogos do feminino foram ruins (claro que não foram tão péssimos quanto os dois do masculino, mas continuaram ruins), não tiveram gols, não atacaram como os dois últimos do masculino e o que a feminazi falaram? “Lutaram, guerreiras”, se alguma das jogadoras fossem petistas: “lacrou”.

    Então velho, o futebol feminino é ruim. Ele disse a verdade, quem o critica são os mesmo que adoram descer o sarrafo no futebol masculino. Devem tá querendo morrer depois de 6 a 0 e está classificado na final.

  • yoroshi

    Só mimimi de feminista e gentalha politicamente correta que não estão nem aí para o esporte, ou para as jogadoras, só enxergam o sexo delas, guiados(as) pelas velha luta de classes. Só sem importam com aquela coisa do por ser mulher, todas as vitórias delas é crédito do feminismo, e quem discordar é machista, fascista, etc…

    • Lucília Simões

      O que é um contra-senso, pois estas mesmas imbecis afirmam que ninguém nasce homem ou mulher. Como disse o artigo, não há lógica, só gritaria.

  • Filipe Mendonça de Lima

    “É como jogadores de Magic ou RPG passarem, do dia para a noite, a criticarem a “Magicofobia”, que são discriminados com piadinhas em Big Bang Theory, que merecem mais respeito por jogarem algo pouco popular.”

    Cara, isso já está acontecendo. Já vi textos de “nerds ideológicos” reclamando de Big Bang Theory porque “Eles fazem piada dos nerds”.

    http://butmyopinionisright.tumblr.com/post/31079561065/the-problem-with-the-big-bang-theory

  • PHSA

    Acho que o que pegou pra mim foi o momento. Ele falar e dar a opinião dele tudo bem. Realmente a maioria que reclama da opinião não dá a mínima pro esporte e vai fazer o que foi dito no texto. Mas ele não deixou nem o jogo acabar direito. Gostaria de saber se ele falaria isso se elas tivessem passado. Ou se ele demonstrou essa postura antes da derrota. Pra mim, parece um senhor chateado com a derrota. O que tornaria ele quase tão hipócrita quanto os outros.

  • Allan Bulova

    Milton Neves fala muitas besteiras e é um pouco imbecil , mas nesse caso ele está certo.

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