Criticou-se o uso da faixa "100% Jesus" por Neymar, mas ao mesmo tempo se criticou a proibição ao burkini na França. O que explica?

Neymar causou polêmica ao receber a medalha de ouro nas Olimpíadas do Rio usando uma faixa escrito “100% Jesus”. Enquanto isso, na França, as cidades da Riviera Francesa discutem a proibição ao “burkini”, um misto de burca e biquini usado pelas muçulmanas locais para se banharem sem mostrar nada do corpo além do rosto e pés, como exige a religião islâmica. O “burkini” foi usado por jogadores de vôlei muçulmanas do Egito nas mesmas Olimpíadas do Rio.

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O argumento contra a faixa de Neymar ao receber a medalha é que o COI não permite manifestações de cunho político ou religioso. Por que então o burkini, que é nitidamente uma manifestação muçulmana (e, ademais, de proibição) é permitido?

Um singelo sinal da cruz, uma faixa escrito “100% Jesus” ou um vernacular “Graças a Deus” não podem ser comparados a um “burkini”. Como bem sacaneou Joselito Müller, é como o COI querer punir o jogador Gabriel Jesus por ter o sobrenome Jesus.

Todos são elementos tradicionais da vida ocidental – a que cria algo como Olimpíadas – e todas as sociedades surgem de alguma noção do sagrado: o conceito de “secular” é posterior, e dependeu de uma sociedade em específico que é capaz de separar o tempo dos séculos do tempo da eternidade (e também da eviternidade, para discussões teológicas mais profundas). Outras noções do sagrado, como a que exige burcas, não permitem tal distinção.

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Ademais, roupas transmitem mensagens. São uma forma de comunicação. Se assim não o fosse, poder-se-ia ignorar a mensagem na faixa de Neymar sem prejuízo de sensibilidades e indignações. Mas qualquer roupa transmite uma mensagem, mesmo sem palavras. De um terno a uma roupa de médico, de uma bermuda a uma camiseta do Iron Maiden. Há inclusive roupas que são proibidas, como trajes militares para civis.

Por que algumas roupas são permitidas e outras não? Por que um gaúcho pode andar de bombacha, alpargatas, bota campeira e pilcha no Rio de Janeiro, e uma muçulmana não pode usar burkini? Um debate antropológico sério, sem apelo a abstrações que servem aos dois lados, como “liberdade”, encerraria rapidamente a questão.

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Um gaúcho não é obrigado a usar nada: faz por livre vontade, e não sofre nenhuma sanção civil/penal se não usar trajes tradicionais – que, ademais, são usados hoje justamente pela raridade e exotismo.

Uma muçulmana é obrigada a usar burca: de acordo com a shari’ah, não pode se exibir, e os homens que são seus donos têm direito a tratá-la quase como uma prostituta se assim o fizer. Afirmar, portanto, que uma muçulmana escolhe usar o burkini exige muita boa vontade de crer que uma mulher que nasce em uma cultura de opressão e poder pela força realmente escolheu, por sua própria consciência, que aquela lei deve ser obedecida.

Aprofundando-se o caso, basta fazer uma analogia com o Direito: toda decisão gera também uma jurisprudência. Um gaúcho em trajes típicos (ou um tirolês, ou metaleiro, ou baiana vendendo acarajé), caso se torne a maioria, não afetará senão em escolhas estéticas a minoria.

Já a mensagem do burkini é clara, impoluta e bem outra: se a maioria das praias da Riviera Francesa tiver mulheres de burkini, é fácil notar que, por ser uma imposição de fora, logo será imposta às pessoas normais.

Ou, em resumo: um gaúcho não está tentando destruir sua cultura. Um burkini está. Qualquer análise de fim de impérios, como a de Eric Voegelin em A Era Ecumênica, mostra que grandes civilizações só são destruídas quando seus símbolos, que traduzem a realidade aos homens, são derribados e perdem valor. E quase sempre por influências externas, que substituem símbolos tradicionais por outros, com ajuda de bárbaros intra-muros.

Enquanto as cidades de Cannes e Villeneuve-Loubet, na Riviera Francesa, ganham destaque mundial pela proibição da burca, o que fez com que análises apressadas pensem na “liberdade de se usar um burkini” (sem perceber nenhuma contradição), a França se perde em uma discussão bizantina sobre como sua laïcité lidará com o caso com símbolos tão fracos – e apartados do entendimento do sagrado, de um lado a outro.

É essa falta de entendimento de símbolos, de ações, de circunscrição de ações, de significado nas ações e em símbolos como as roupas, que permite que “laicos” lutem tanto por uma imposição religiosa, segundos depois de criticarem uma faixa escrito “100% Jesus” – um símbolo mais próximo e, justamente por isso, que crêem que entendem, quando entendem ainda menos.

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  • Pedro Mello

    Se ela tivesse colocado uma faixa “100% Alah”, eu até concordaria.
    Mas a comparação entre o burkini e a faixa é muito tola.

  • Sergio X

    Em Roma, faça como os romanos. Ou não saia da tribo. Não pode fazer congraçamento com outros povos é melhor não se misturar. Você pode adorar uma pedra, mas não pode jogar elas em ninguém.

    • Anderson Borges

      PERFEITO COMENTÁRIO!!!

  • Camila

    Graças a Deus há quem escreva a verdade!

  • Allan Bulova

    Enquanto um mulher ocidental tiver que usar o véu ao visitar um país islâmico, essa medida se impõe. Princípio da Reciprocidade. Os franceses estão certos em proibirem o burkini. Não deveriam nem tolerar mesquitas uma vez que, igrejas cristãs são proibidas

  • Lauramélia França

    “Já a mensagem do burkini é clara, impoluta e bem outra: se a maioria das praias da Riviera Francesa tiver mulheres de burkini, é fácil notar que, por ser uma imposição de fora, logo será imposta às pessoas normais.”

    Assunto delicado… Porém, devo concordar com a possibilidade aventada na passagem acima, tendo em vista fatos (sim, fatos…) relatados por mulheres que, quando estiveram na Bélgica, ao “tentarem passear” por bairros ditos muçulmanos, foram obrigadas pelos comerciantes a cobrirem os cabelos, o que fez surgirem discussões calorosas entre os seus maridos e os muçulmanos que as queriam obrigar ao uso de um véu. Resultado: elas tiveram de sair do “bairro”, para que a situação não acabasse em violência física. E isso foi na Bélgica… Não li isso em nenhum blogue “fascista racista islamofóbico”. Isso me foi contado por mulheres europeias abertas à cultura estrangeira, visto serem todas professoras de estrangeiros em seus países.

  • Marcio Reaken

    Mas olha só, pelo que eu sei, é uma norma do COI proibir manifestações na cerimônia do pódio. Por mais escroto e nojento que seja o patrulhamento esquerdista, ao menos em parte eles tem razão dessa vez. Neymar poderia ter usado a faixa só fora do pódio, e se a mídia viesse esquerdar, era uma boa oportunidade de jogar na cara deles o quanto são preconceituosos contra cristãos.

    • David Xavier

      Mas veja o “100% Jesus” poderia muito bem ser relacionada ao jogador Gabriel Jesus (a gente sabe que não é, mas cabe interpretação). Dito isso, o próprio Neymar tem dado apoio ao Gabriel por causa das criticas do dois primeiros jogos, portanto o “Jesus” da frase não está claro, ou seja pra efeitos práticos não foi manifestação religiosa e sim manifestação de apoio, como, alias, teve muitos jogadores que usaram a camisa do goleiro Fernando Prass debaixo do moletom em apoio a ele não poder ter ido a seleção olímpica.

  • João Marcos

    Fala isso aos libertários. O Fernando Ulrich já está comparando a França ao Irã, porque ambos multam mulheres por causa das roupas.

    “Uma muçulmana é obrigada a usar burca: de acordo com a shari’ah, não pode se exibir, e os homens que são seus donos têm direito a tratá-la quase como uma prostituta se assim o fizer. Afirmar, portanto, que uma muçulmana escolhe usar o burkini exige muita boa vontade de crer que uma mulher que nasce em uma cultura de opressão e poder pela força realmente escolheu, por sua própria consciência, que aquela lei deve ser obedecida.”

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