A revista Vogue é promotora de causas progressistas – as mesmas causas que geraram buzz com o ensaio de Cléo Pires para as Paraolimpíadas.

O busílis do dia, numa era em que acordamos sempre frontalmente ofendidos com alguma coisa que precisaram nos avisar que é pessoalmente ofensora, foi a campanha da revista Vogue estrelada por Cléo Pires e um outro cara. Parece que ele se chama Paulinho Vilhena. Ou ao menos atende por este nome.

Na campanha da revista de moda (frise-se: de moda), Cléo Pires e esse tal Paulinho Vilhena aparecem photoshopados com partes dos membros faltantes. A campanha é para as Paraolimpíadas, perdoe-se o cacófato.

Sua mensagem é clara, óbvia e cristalina como o meio-dia numa salina para qualquer pessoa normal. Pessoas normais, cujo senso comum não tenha sido deturpado pela mentalidade da moda, são cada vez mais raras. A mensagem da Vogue é: “Cléo Pires e Paulinho Vilhena são considerados bonitos, e mesmo se os desmembrarmos via Photoshop eles continuarão bonitos. Portanto, assistam as Paraolimpíadas.”

Criticou-se a Vogue por não usar atletas paraolímpicos de verdade. Por que photoshopar quem não tem deficiência, ao invés de usar algum dos belos atletas? É fato, mas perder-se-ia um dos elementos da mensagem da revista: você continua achando alguém que já acha bonito se essa pessoa adquirir uma deficiência.

Novamente, é preciso do senso comum básico, cada vez mais incomum pela manipulação midiática, para compreender uma mensagem que, há 15 ou 20 anos, até pessoas que não comeram muito ferro e proteína na primeira infância compreenderiam.

Uma das principais responsáveis por essa mudança de percepção foi, justamente, a revista Vogue.

Basta uma rápida pesquisa pelo Google para ver que tudo o que a Vogue publica se coaduna, ou melhor, impulsiva e instiga a agenda progressista, traduzida hoje na patrulha do politicamente correto. Temas como feminismo, transexualismo e afins não são a margem ou uma teoria: são o próprio motor condutor, a linha editorial da revista.

Vogue defende barba com glitterVogue defende mais gênerosQuando se usa o linguajar da última moda para vender, corre-se o risco de que, nos dizeres de Nietzsche, o abismo olhe de volta.

A idéia por trás do politicamente correto é uma polícia vernacular, uma revolução na linguagem maior do que a Revolução Russa foi em relação à política. Trata-se de se indignar, de procurar desigualdades, exclusões, opressões e injustiças no que se fala, para se transformar a realidade (e nossa relação com ela) através das palavras. Exemplos extremos de tal polícia política verbal são a teoria crítica e, mais radicalmente, a análise do discurso.

Quando a própria Vogue tenta ganhar seu quinhão promovendo tal transformação de “artes, moda e vida”, seu departamento comercial ganha alguns leitores ricos que estudam Ciências Sociais, tingem o cabelo de roxo e fumam bagulho, mas o propósito de tais indignados sociais classe AAA é a própria indignação, não um mundo melhor. Indignação pela indignação: se o mundo se tornar um lugar habitável e eles não tiverem do que reclamar, sobre o que postariam no Facebook?

O objetivo de modismos como o feminismo, o discurso de ativismo gay, ou a causa “anti-racista” que trata negros como peões de xadrez é justamente estar “problematizando”: enxergando problema em tudo, até e sobretudo onde eles não existem.

Se a tônica é achar que a grande injustiça do mundo é, digamos, o preconceito contra homens que usam glitter na barba (sem print ninguém acredita), uma preocupação que só pode atingir, única e exclusivamente, gente que nunca pegou um ônibus ou calculou quantas horas com o bucho num tanque lavando roupa custa a sua conta de internet, é óbvio que tais pessoas, até mesmo numa propaganda favorável às Paraolimpíadas, iriam “problematizar”.

A propaganda poderia usar atletas paraolímpicos de verdade? Sim, mas, novamente, perder-se-ia um elemento. É uma escolha. É motivo para tamanha quizomba, que fez com que “Vogue”, “Cleo Pires” e “Cléo” figurassem em três posições nos Trending Topics do Twitter? Não.

Como já definiu René Girard com sua teoria do desejo mimético, as pessoas querem o que outras pessoas querem. Inclusive para a nova onda, de se ofender: como a moda é se ofender, como é preciso estar ofendido e oprimido e indignado com alguma coisa para fazer parte da rodinha de samba, cerveja e camisa hipster na Vila Madalena e no Twitter, tais pessoas acordarão buscando algo para se ofender.

Que dia horrível e que existência vazia terão se andarem por 5 quarteirões e não notarem nada que possa ser chamado de “machismo”, “racismo”, “homofobia” ou associado ao nazismo.

O que estiver “indignando” nos Trending Topics fará com que gente que viveria o resto do dia e da vida feliz sem saber daquilo (e quase nunca é uma causa real que afete mesmo a vida concreta de alguém) envide seus melhores esforços, mundos, fundos e retórica de palavras repetidas (miga, seje menas, apaga que dá tempo, lacrou) para criticar o obscurantismo – até mesmo de uma promotora de sua própria causa, como a Vogue.

Em nosso livro, Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs, comentamos que “movimento de massa”, na designação técnica de autores como Eric Hoffer, Ortega y Gasset ou Elias Canetti, difere de qualquer agitação popular nas ruas, agremiando centenas de pessoas, por ser difusa: não ter um tópico, um fim, um motivo, um objetivo. É apenas uma grande agitação pela agitação.

A ótica do progressismo e do politicamente correto segue o mesmo script: problematizam tanto que sempre se esquecem de que alguma hora, até uma propaganda para uma Olimpíada de deficientes físicos acaba sendo problematizada.

Conservador, no caso, é exatamente aquele que fica de saco cheio rapidamente do jogo de espelhos e sente saudade da época em que as pessoas não eram tão impiedosamente chatas.

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  • Camila

    Ainda bem que temos aqui um oásis para fugir disso! 🙂

  • Ilbirs

    Minha experiência de vida mostra: quem mais problematiza é quem menos soluciona.

  • Fábio Peres

    Excelente texto.

  • Le Zuero

    Falou e disse. Daqui a pouco até dar “bom dia” vai ser alvo de problematizações. Por que “bom” o que é “bom”, bom é o que a burguesia diz que é bom, vai ser nesse nível. Quando chegar nesse ponto, não dou mais bom dia, vou mandar tomar no rabo direto.

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