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O Charlie Hebdo pintou as vítimas do terremoto na Itália como pizzas. A mania moderna de tratar qualquer um como herói faz novas vítimas.

Quando o Charlie Hebdo sofreu o seu segundo atentado terrorista islâmico, que resultou na morte de 11 funcionários do jornal em janeiro de 2015, o mundo pediu paz e a hashtag mais famosa da história do Twitter, #JeSuisCharlie, tomou o mundo.

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Em Paris e no globo, a música Imagine, de John Lennon, foi tocada como hino pela paz. O jornal havia publicado 6 capas com alguma piadinha contrária ao islamismo em seu último ano. Praticamente o triplo de capas foi dedicado a criticar o cristianismo. A violência em resposta veio apenas do islamismo.

Sem conhecer o jornal, as pessoas o tomaram por algo meramente satírico, como um The Onion, Joselito Müller ou Private Eye. O Charlie Hebdo é um jornal criado por marxistas (até livros de Marx são ilustrados por cartunistas assassinados, como Charb), e apesar de se considerar “laïque”, sua linha editorial é a do comunismo (os editores não temem a palavra, como o faz hodiernamente a esquerda progressista).

Seguindo a linha marxista, o Charlie Hebdo prefere encarar as questões políticas pela ótica da luta de classes. Inclusive em relação ao islamismo: o jornal defende a imigração muçulmana e acredita que as pessoas temerosas da islamização da européia são, na verdade, “fascistas”, disfarçando seu “racismo” contra pessoas de descendência árabe e pele mais escura.

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Basta ler as palavras do cartunista Charb, no livro Carta aos escroques da islamofobia que fazem o jogo dos racistas, terminado dias antes de sua morte:

O comunismo é umacorrente de pensamento minoritária na França, e é regularmente atacada, ou pelo menos violentamente escarnecida, por todos os infiéis defensores do triunfante modelo liberal. Não existe (infelizmente) um bilhão e pouco de comunistas no mundo, o partido comunista não é (infelizmente) o segundo partido da França, há (infelizmente) mais mesquitas do que federações do partido comunista, e um comunista que trabalha em contato com a clientela não pode exibir uma bela foice e um martelo amarelos em sua camiseta vermelha.

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Embora, ao contrário da existência de Deus, seja difícil negar a de Marx, de Lenin ou de Georges Marchais, duvidar da validade dos escritos deles não é blasfemar, mostrar-se racista ou comunistófobo. (…)

Nesta semana, o Charlie Hebdo mostrou sua face: fez uma charge comparando as vítimas do terremoto na Itália, que matou cerca de 300 pessoas, com pizzas. Um modelo de piada já desgastado referindo-se a judeus. E sem nenhuma razão aparente para tripudiar sobre uma catástrofe natural, do que uma tentativa laïque de retirar a sacralidade da vida humana.

O hebdomadário irritou não quem já conhecia suas tropelias, mas apenas quem passou a defendê-lo como um símbolo supremo de liberdade de expressão – conceito integralmente alienígena ao comunismo defendido pelo jornal – sem saber do que o Charlie Hebdo se tratava.

Os cartunistas do Charlie Hebdo foram tratados como verdadeiros heróis pós-modernos, um símbolo da luta pela justiça e liberdade do Ocidente, que os próprios cartunistas tanto desprezavam. De Robespierre a Charb e sua trupe, a França e o Ocidente repetem o mesmo script: uma defesa aguerrida de ideais que não sabem traduzir na realidade, sem perceber que no processo acabam defendendo quem mais quer separar suas cabeças de seus pescoços.

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O heroísmo da era digital reflete tão somente o pensamento binário que determina as vontades irrefletidas, o fanatismo momentâneo e a histeria coletiva da era das redes sociais, onde o certificado de existência é ter uma opinião sobre tudo: basta enxergar um inimigo e um amigo em tudo, como se casos extremamente complexos, de um impeachment à crise de refugiados pós-guerra civil na Síria, pudessem ser espremidos numa equação simplória como “o inimigo do meu amigo é meu inimigo”.

Recusando um convite à reflexão mais profunda em casos inquietos, qualquer Trending Topic hoje serve tão somente à agitação superficial dos modismos, tão bem aproveitados pelas correntes políticas do presente.

Quando as pessoas acabam por conhecer a verdade e se decepcionam, como fez o Charlie Hebdo nessa semana, basta o fanatismo inverso, gritando sandices como “O Estado Islâmico fez pouco em matar todos” ou “o Charlie Hebdo colheu o que plantou” (como se tivesse recebido a mesma “resposta” da Igreja Católica, que tanto critica).

Se queremos entender a mente hodierna e o mal da palpitaria da internet, basta-se olhar para os resultados da mobilização mundial ao redor de um jornal como Charlie Hebdo. Tratar personalidades públicas como heróis ou bestas-feras anunciando o fim do mundo por nossas concordâncias ou discordâncias – ou, o que é muito mais comum, por nossas impressões primeiras – apenas nos deixa desinformados, gritando longe da verdade e formando mais um fanático que poderia ser curado com alguns minutos de pesquisa no Google.

O convite que o falhanço do Charlie Hebdo deixa é justamente esse: saber o que raios defendemos tão apaixonadamente na internet. Uma análise perfunctória – socrática mesmo – do que cada um ataca ou agasalha tão doentiamente mostra que quase ninguém sabe o que defende. É o famoso desejo mimético, do qual nos alerta René Girard: desejamos (ou repudiamos) tão fortemente algo tão somente porque outras pessoas o desejam.

No dia seguinte após o último atentado à sua redação, a Notre Dame tocou seus sinos em homenagem às vítimas do Charlie. A edição seguinte, com a famosa capa com Maomé segurando o cartaz “Je suis Charlie”, tripudia do fato, ridicularizando a Igreja, já que ela sempre foi o maior alvo do jornal. A igreja mostrou amar seu inimigo. O Charlie Hebdo não demonstrou amar inocentes.

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Saiba mais:

  • Pedro Mello

    Aqui cabe uma crítica dupla então. A direita se igualando a esquerda.
    Lembro, e isso é muito fácil de comprovar, a direita mais conservadora
    do nosso amado e católico país, e um tanto quanto anti-islã, ficou do lado
    do Charlie Hebdo.
    Inclusive, houve muitas críticas ao Papa (esse argentino comuno-bolivariano – ironic mode on),
    quando ele , criticando a famigerada revista , disse que a religiões (todas elas) deveriam
    ser respeitadas.

  • David Xavier

    E como sempre, do jeito que eu sempre disse aos meus amigos, o Charlie Hebdo é uma bosta. O jornal tava morrendo, aí teve o ataque, ressurgiu e agora que voltou ao ostracismo tem que “criticar” o mundo para manter essa bosta viva. Já que, ao contrário do que queriam, o que faz as pessoas comprarem essa bosta é o interesse, interesse esse proporcionado pelo capitalismo (no comunismo seriam obrigados a ler o “Jornal do Trabalhador”). O Le Monde da França, por exemplo, é um jornal de linha centro-esquerda e até hoje vende, já o ‘Charlie Hebdo’ é de extrema esquerda e esta morrendo.

    Para que porcarias como essas possam ser aniquiladas de vez, não precisamos de islâmicos radicais, precisamos de políticos de verdade, de direita, não uns bunda mole iguais aos que tem na França hoje.

  • Miguel

    Flavio, li duas vezes o artigo e não entendi seu ponto de vista. O fato de o Charlie Hebdo defender o que há de pior em ideologia significa que não deveríamos ter criticado o massacre que sofreu por militantes islâmicos em 2015?

    • Mas hein? Até coloquei uma imagem do Charlie Brown chorando pós-ataque. Escrevi textos a respeito. De onde diria uma coisa dessas? Minha crítica é o modo como o mundo da internet trata qualquer um como herói. Leia minha conclusão sobre a Notre Dame e entenderá o meu ponto.

  • Estevao Junior

    “Recusando um convite à reflexão mais profunda..”
    O que leva SERES HUMANOS a aceitarem em suas vidas IDEOLOGIAS ANTI HUMANAS?
    O que leva esses mesmos SERES HUMANOS a aceitarem em suas vidas representantes dessas ideologias, que são os PSICOPATAS?
    É justamente a incapacidade à esta tal de reflexão profunda.
    Tente argumentar com um esquerdopata, levando-o à refletir sobre FATOS.
    A raiz de todos os males da raça humana chama-se ESTUPIDEZ.
    É a estupidez que impede à refletir com bom senso sobre o que quer que seja.
    É a estupidez que abre as portas para ideologias anti humanas como o marxismo, que é praticamente uma religião na mente dos estúpidos.
    Foi o marxismo quem gerou anomalias como o comunismo, feminismo, esquerdismo e o politicamente correto.
    Essas anomalias são aceitas por muitas pessoas no mundo (provavelmente a maioria).

    “A igreja mostrou amar seu inimigo”.
    Eis aqui um dos maiores erros de raciocínio cometidos pela raça humana ao longo de muitos séculos.
    Esta frase se adapta muito bem naquilo que a sociedade atual chama de “POLITICAMENTE CORRETO”.
    A frase é ao mesmo tempo bonita e um grande engodo.
    1– O amor é incompatível com castigo, punição e vingança (QUE SÃO SINÔNIMOS!).
    Quem ama perdoa. Perdoar significa não castigar, não punir, não se vingar.
    Exemplo 1:
    Quando um criminoso é mantido em reclusão ele está sendo PUNIDO pelo Estado devido aos seus atos contra o bem estar comum. Portanto o Estado está se vingando do criminoso.
    Exemplo 2:
    No apocalipse da bíblia Deus está PUNINDO a raça humana. Quem pune não perdoa. Portanto Deus está se vingando da raça humana.
    Não punir, não castigar e perdoar setenta vezes sete (sempre, incondicionalmente) é verdadeiramente levar a sociedade humana ao caos. É pedir para ser destruído.
    Perdoar alguém que lhe faz alguma maldade significa dar à este malfeitor poder sobre você.
    É dar “carta branca” para a maldade.

    2 – Inimigo é uma pessoa ou uma ideologia que irá lhe destruir. É por isso que se chama inimigo.
    Exemplo 1:
    A invasão da cultura islâmica no ocidente.
    Tolerar a cultura islâmica (que é um inimigo intolerante) significa permitir aos muçulmanos que destruam as crenças e os valores ocidentais através da violência. Isso significa, também, MATAR as pessoas para impor sua religião intolerante.
    Exemplo 2:
    A invasão dos valores marxistas na mente da maioria das pessoas.
    A História mostra e prova que onde o marxismo cravou suas garras, trouxe o inferno para as vidas das pessoas.
    Deve-se amar esses inimigos?
    Quem quer aceitar esses inimigos em seu país e em sua mente?
    Eles devem ser amados ou punidos?

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