O Onze de Setembro inaugurou o mundo em que vivemos, até na linguagem e nos símbolos. E ainda não os compreendemos: nem a data, nem o mundo.

O atentado de Onze de Setembro será estudado no futuro não pelas razões que hoje parecem importantes. Sua dimensão é ínfima, em termos de êxito estratégico e mesmo de número de vítimas. Afinal, os aviões que rumavam à Casa Branca e ao Pentágono, os alvos militares reais, não provocaram estrago, e qualquer bombardeio da Segunda Guerra matou muito mais gente. Os atores envolvidos – salafistas sauditas, de um lado, e a potência militar americana, do outro – não durarão muito na cena mundial, e a própria natureza da dominação americana fará com que esta versão final e decadente do Império Britânico ocupe menos espaço nos livros que as anteriores.

Esta ataque, contudo, marcou o fim da concepção moderna de guerra como combate total entre exércitos de conscritos a serviço de potências soberanas. Na Guerra do Vietnã, o exército Viet-Congue – força armada a serviço do Vietnã do Norte, estado soberano vassalo da China Comunista – empregou táticas de guerrilha, e conseguiu, com enorme custo em vidas humanas, arrancar a vitória das garras do riquíssimo exército americano. Foi um confronto de guerrilha contra guerra, num retorno ao que já fora vivido quando da ascensão dos Estados nacionais.

Chamamos guerra de quarta geração àquilo que na verdade é extremamente semelhante ao que aconteceu aqui no Brasil, em Canudos, ou na própria conquista do território americano. A diferença é que no Vietnã do fim da modernidade havia ainda um Estado rico e poderoso por trás, apoiando o exército guerrilheiro e possibilitando sua vitória, enquanto nas guerras assimétricas do início da modernidade isso ainda não existia. O Vietnã foi o fechamento de um parêntese: a última grande guerra moderna, espelhando as primeiras, e o primeiro sopro da guerra pós-moderna.

O ataque de Onze de Setembro foi o início do período seguinte, a jogada inicial da primeira guerra pós-moderna. Os atores, pela primeira vez, não foram estatais nem paraestatais, e o alvo que obliteraram não tinha importância militar, sim psicológica. Miraram a Casa Branca (o cérebro), o Pentágono (o ânus) e as Torres Gêmeas (o falo) dos EUA, e com um sucesso em três conseguiram efetuar apenas o mais importante simbolicamente: a castração.

Sendo contudo atores não-estatais, a enorme e poderosíssima forma militar americana, pela primeira vez desde as guerras contra os índios, não teve para onde voltar-se. Bombardear as cavernas de Tora Bora é uma resposta patética; não há equivalência possível entre o assassinato de milhares de inocentes no coração da metrópole e o assassinato de algumas centenas deles num lugar tão remoto que é provável que a maioria sequer soubesse da existência de Nova Iorque.

Daí o uso (ou abuso) do atentado pelo presidente Bush para invadir o Iraque, que não tinha nada a ver com o peixe mas que ele já queria invadir, agindo ainda pelo libreto do Século XX, assim libertando as forças do caos que até hoje domina a região, bem como a eleição mítica e midiática do exótico Bin Laden como símbolo do mal encarnado e tornado horrendamente real no ataque.

A suposta morte de Bin Laden, anos depois, foi um anticlímax. Ele já não era mais necessário a nenhum dos lados, com a investida salafista tendo mercurialmente tomado outras formas e atacado em inúmeros outros lugares, sempre com o mesmo sucesso de público e de crítica (pois são espetáculos assassinos de mídia, obras de propaganda macabra, não ataques militares reais, o que lhes interessa).

O inimigo não foi sequer localizado, que dirá vencido, e o Ocidente moderno encontra-se em processo avançado de autodestruição acelerado pela impossibilidade de lidar com tal tipo de guerra empregando as ferramentas de que dispõe. Para atacar o terrorismo (que é uma tática, não um ator), o Ocidente autofagicamente ataca a si mesmo, destruindo as liberdades civis que o caracterizavam.

Reflexamente, como um moribundo que tenta se defender dos paramédicos, ele manda tropas aqui e ali, aumentando o caos e em nada afetando beneficamente a própria situação, ao mesmo tempo que aceita a perda dos seus valores mais caros e até mesmo a sua transformação em algo tão diferente do que existia que seria irreconhecível por alguém que houvesse sido congelado por algumas décadas.

É esta a pós-modernidade, em que o que parecia tão sólido na modernidade dissolve-se no ar e em que os adjuntos adverbiais fazem as vezes de sujeitos (armas matam, em vez de alguém matar com armas; o terrorismo é o inimigo, em vez de ser uma tática empregada pelos inimigos; o sexo cria o casamento, em vez de pessoas casadas gerarem sexualmente seus filhos, e por aí vai). Seu parto histórico, criminoso e doloroso, incompreensível até hoje pelas suas vítimas políticas, foram os atentados de Onze de Setembro.

É irônico, mas talvez tenha sido o fracasso dos atentados simultâneos à Casa Branca e ao Pentágono que tenha dado tamanha força à emasculação simbólica efetuada pela destruição das Torres. O fato é que o mundo em que hoje vivemos, e, mais ainda, o mundo em que se há de viver pelo resto do século, foi inaugurado ali, naquele teatro do absurdo em que tudo virou ao contrário, com estiletes de abrir caixote sendo usados para o assassinato em massa, com aviões civis desarmados e confortáveis tornando-se bombas mortíferas, com prédios quintessencialmente civis servindo de alvos primários, com semitas tribais matando WASPs, com a nostalgia fantasiosa do Século VII destruindo a aspiração a um futuro de contínua evolução.

Como sempre, é do horror e da morte que nasce o futuro.

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Saiba mais:

  • João Marcos

    Quem deseja entender de guerra irregular (a “guerra assimétrica” entre forças de guerrilha), deve começar pelo livro GUERRA IRREGULAR, do Alessandro Visacro. O autor é coronel das Forças Especiais do nosso Exército, foi comandante do Batalhão de Forças Especiais.

    Voltando ao assunto do texto, penso que a maior derrota do Ocidente NÃO É militar. Ele já tem bons manuais e alguns exemplos de bom combate a guerrilhas. O problema está fora do campo de batalha: nossas leis, cultura e mídia atam os militares, impedindo-os de combater as guerrilhas. Foi assim no Vietnã (onde os EUA já tinham obtido êxito militar antes do fim dos bombardeios de Hanói), foi assim no Iraque, Afeganistão e é assim na Palestina. Sempre que qualquer país ocidental se defende (com ou sem êxito militar), ele é achincalhado pela mídia, entidades paraestatais (ONU) e movimentos globalistas. Sempre.

    E como o Ocidente hoje não passa de uma grande assembléia de DCE, a única coisa que importa é o marketing. É passar a IMPRESSÃO correta aos eleitores. Não interessa mais a veracidade, a eficácia ou a moralidade dos atos políticos. Só a impressão, o marketing.

    E quem faz a cabeça dos votantes? Mídia. A mesma que condena qualquer reação ocidental. E quem depende dos eleitores? Os chefes dos militares.

    Morreremos por incapacidade de reação. Uma civilização complexa demais que não consegue reagir em tempo às grandes mudanças de época.

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