A notícia e os boatos sobre Dilma mandar sacrificar seu labrador Nego chocaram corações. Mas o debate necessário não foi feito.

Quando coloquei o Chocolate deitado no banco de trás do carro, eu sabia que tinha chegado ao fim. Diagnosticado com cinomose há dois meses, tudo havia sido tentado pela recuperação dele, mesmo sabendo que as chances de cura da devastadora virose canina eram pequenas.

Já há algum tempo eu tinha caído de paraquedas naquilo que comumente se chama de “proteção animal”. A motivação para o nascimento da ação de voluntariado fora a situação de abandono em que viviam cães em um parque público; o objetivo, fornecer-lhes alguma assistência, controlar sua população através de castrações, encaminhar em adoção tantos quanto fosse possível e combater a ocorrência de abandonos deliberados de animais naquela área florestal, sob gestão de uma instituição ligada à Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo.

A causa, a omissão do serviço público.

Por oponente, o próprio serviço público: cuidar de cães sem dono levou-me a conhecer mais do que gostaria de aspectos diversos da inócua burocracia estatal e do quanto poucas mãos privadas podem ser mais eficazes do que mil picaretas, concursados ou não, pagos para ocupar gabinetes e, muitas vezes, empenhados em impedir que algum desavisado altere as cômodas rotinas da repartição.

Mas meus sentimentos anti estado não estavam ali, naquele momento, deitados na mesa de aço da clínica veterinária: ali estava um cãozinho que vivia no parque há pouco tempo, que era rabugento, não muito chegado a afagos, que sequer gostava de mim; e que nós encontráramos doente dois meses antes, que tinha sido vítima dos danos neurológicos causados pelo vírus: estava paralítico e quase cego; naquele momento, estava apenas semiconsciente. Na verdade, ele quase já nem estava mais ali. Mas o pouco que estava, eu vi apagando devagarinho e serenamente. Ele não sentiu nada, nem dor, nem medo. Era apenas uma animalzinho se libertando do corpo físico. Eu também não senti nada: nem dor, nem medo, nem tristeza, nem frustração, nem alívio. Nada. Apenas um grande vazio me acometeu a partir daquele momento e por muitos dias que se seguiram.

Foi a primeira vez em que autorizei uma eutanásia.

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Durante os últimos dias, a mim não foi permitido fazer proselitismo rasteiro com o caso do cão de Dilma Rousseff, por mais que considere a ex-presidente uma criatura detestável e que, mesmo após ser apeada do poder, parece estar pronta para atrapalhar o país sempre que possível. Muitos o fizeram, enquanto a história permanecia nebulosa e com muitas versões desencontradas.

Quando o jornalista Cláudio Humberto Rosa e Silva, que tenho na conta de um profissional sério e intimamente ligado às coisas do Planalto há décadas, noticiou em sua coluna no sábado, dia 10, que o labrador Nego havia sido eutanasiado a mando de Dilma, para consternação de funcionários do Alvorada que teriam afirmado que o animal, apesar de idoso e doente, tinha plenas condições de sobrevida digna até que tivesse morte natural, as coisas pareciam se esclarecer.

Todavia, blogs pelegos saíram imediatamente em defesa de Dilma: o Diário do Centro do Mundo, por exemplo, em um texto tosquíssimo, publicado no domingo, dia 11, e assinado por um certo Kiko Nogueira, chamou a informação divulgada por Cláudio Humberto de “factoide”; e em meio a pérolas como “milhares de coxas, de repente, se descobriram dog lovers e militantes dos direitos caninos” e “o caso de Nego serve para mostrar que a hidrofobia da direita não parou no golpe” tratou de desmentir a informação e ratificar a narrativa dos dilmistas, que afirmava, com base em “fontes do Alvorada”, que o cão havia ficado em Brasília, aos cuidados de um amigo da ex-presidente, por orientação de um veterinário e em função de seu frágil estado de saúde.

Ontem, dia 12, nota oficial do site de Dilma Rousseff (que por alguma razão ainda se chama “Blog do Alvorada”) tratou de mostrar que os seus soldadinhos da esgotosfera estão órfãos e, se ainda a defendem, o fazem de forma cega e desorientada: não só confirmou a informação de que Nego, portador de mielopatia degenerativa, tivera seu “sofrimento abreviado”, como informou o paradeiro de outros quatro cães, todos entregues aos cuidados de outras pessoas, tia, ex-marido, amigos da ex-presidente.

Sobre esses últimos, a constatação é que não couberam na mudança – muito embora a mudança de Dilma Rousseff tenha mobilizado alguns caminhões (dependendo da fonte, a informação é de que foram de dois a quatro caminhões baú): a ex-presidente considerou que os cães não teriam como viver com ela no apartamento de Porto Alegre. Conclui-se, pois, que caso a mulher de coração valente permanecesse no Alvorada até o final de seu mandato, o destino de seus animais de estimação seria o mesmo, mas no final de 2018.

Protetores que encaminham animais em adoção conhecem muitas histórias (e a sensação de revolta e frustração que isso causa) de adotantes que, após meses ou anos de terem recebido um animal, aparecem querendo devolvê-lo, sob essa alegação:

Sabe o que é? Eu vou me mudar para um apartamento…

Nesse caso, Dilma é tão leviana quanto muita gente que há por aí. Apenas isso.

Quanto ao labrador Nego, o que se deduz através da própria nota oficial é que a decisão de “abreviar seu sofrimento” só foi tomada quando ela teve certeza de que seria despejada do Alvorada: ao contrário dos outros cães que, saudáveis, foram entregues aos cuidados de outras pessoas, Nego exigiria cuidados especiais e dedicação; seria um estorvo: e Dilma se livrou dele antes de tomar o rumo de Porto Alegre. A nota de Cláudio Humberto estava correta. Ponto final.

Resta saber quem foi o profissional responsável pelo procedimento: médicos veterinários minimamente éticos só adotam a eutanásia em casos de animais em sofrimento intenso e sem chances de sobrevida digna; considerando ainda ser a proprietária pessoa com plenas condições materiais de manter, se fosse o caso, um tratamento prolongado, a história fica ainda mais estranha: parece ser muita “coincidência” que o animal tenha chegado a esse estágio justamente às vésperas da partida da dona.

Ironicamente, consta que o labrador Nego fora um presente a Dilma, dado por ninguém menos do que José Dirceu, que certa vez publicamente a chamou de “minha companheira de armas”, o grande articulador do projeto cleptocrata de poder que ela comandou por cinco anos, ele mesmo hoje em dia velho e – ao que consta – doente, abandonado pelo petismo em uma cadeia, esquecido, um estorvo, praticamente eutanasiado em vida.

Seria mesmo demais esperar que Dilma tivesse maior consideração por um velho cão.

x — x — x

Ensurdecedor durante o desenrolar do episódio foi o silêncio da maioria dos protetores e ativistas pelos “direitos dos animais”. Uma gente normalmente ruidosa, sempre pronta para protagonizar gritarias e escândalos diante de notícias de crueldade ou maus tratos, ficou calada. No último final de semana, alguns desses ativistas mobilizaram-se pela internet e interromperam a encenação de uma peça teatral em Santos; o motivo: galos e galinhas estavam sendo usados em cena e supostamente maltratados. Estavam certos: há uma lei que proíbe animais em espetáculos naquela cidade; além disso, independente de haver ou não uma lei, o bom senso não recomenda tal estupidez.

No episódio do labrador da ex-presidente, contudo, calaram-se de forma constrangedora. Alguns, mal conseguindo se equilibrar entre a desorientação e o cinismo, adotaram – talvez pela primeira vez em suas vidas – o discurso da ponderação: “não há confirmação”, “não sabemos”, não podemos nos precipitar”. Outros, tascaram compartilhamentos das matérias dos blogs pelegos, que afirmavam que o cão, apesar de muito doentinho, estava vivo e aos cuidados de um super amigo de Dilma – e foram ridiculamente desmentidos poucas horas depois.

Ontem, em postagem minha no Facebook, em que compartilhei a nota oficial do site de Dilma, um punhado de pessoas ainda apareceu nos comentários para me acusar de “difamador” e dizer que a informação era falsa: incapazes de compreender e aceitar tratar-se de informação divulgada pela assessoria da ex-presidente. Inacreditável.

Muitas páginas, entre as mais ativas da proteção animal, algumas de gente muito boa e que realiza trabalhos elogiáveis, continuam caladas, sem publicar sequer uma linha sobre o episódio.

Propagadoras teimosas da teoria fajuta do “golpe” e divulgadoras obstinadas do mito da “mulher honrada”, muitas dessas pessoas aparentemente não sabem o que dizer ao seu público; e provavelmente não dirão nada.

Tento imaginar o que aconteceria, caso episódio semelhante tivesse como protagonista algum outro político apeado do poder e, tendo que deixar uma ampla residência funcional em que vivia cercado em empregados e rumar para sua cidade de origem, resolvesse abreviar a vida de um animal doente; imaginemos, pois, Eduardo Cunha nesse papel. O mínimo que posso supor, é que estaríamos presenciando cenas de guerra neste momento: ativistas enfurecidos incendiando tudo o que encontrassem pela frente e tentando linchar o ex-deputado em praça pública.

Mas estamos falando de Dilma. Da mulher. Da mãe. Da avó. Da representante da esquerda que, como todos sabem, detém o monopólio da bondade e da virtude. Da ex-guerrilheira que lutou contra a ditadura. Da presidenta honesta que não cometeu crime. Falamos de “machismo”, de “misoginia”, de “preconceitos” e de muita – muita – hipocrisia.

Ao contrário do que muitos ativistas modernos dizem, a demonstração de amor pelos animais não é sinônimo de alma elevada; bem pelo contrário: eu mesmo conheço alguns protetores com sinais óbvios de sociopatias e com os quais não me trancaria em um quarto escuro. Sabemos ainda que pelo menos um dos maiores genocidas da humanidade – um sujeito baixinho, líder do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães entre 1921 e 1945, chamado Adolf – era vegetariano e apaixonado por sua cadela Blondi: que ele próprio eutanasiou com uma pílula de cianureto, para em seguida tirar a própria vida, pouco antes da invasão de seu bunker pelas tropas aliadas que haviam tomado Berlim.

O petismo, provando tratar-se de uma doença degenerativa, parece enfim ter conseguido, entre nós, mais um feito: o de embrutecer até mesmo os mais sensíveis corações.

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Saiba mais:

  • Newton Milanez

    Vocês são NOJENTOS! Os animais não merecem sua interferência em suas vidas!

  • pfelipens

    Texto quase perfeito. A única inconsistência aqui é acerca do vegetarianismo de Hitler, o que na verdade é apenas um velho mito criado pelo marketing da época. É sabido hoje que um dos pratos preferidos de Adolf era carne de pombo

  • Lucília Simões

    Já tive muitos cães, alguns com morte natural e muito sofrimento, outros com eutanásia. Todos os meus animais foram tirados da rua. Todos. O único animal de raça que eu tive foi um malamute do Alaska que fora vítima de maus tratos e era muito traumatizado. Só não me matou porque percebia que eu queria o bem dele. Uma das minhas cadelas teve um derrame aos 15 anos. Esperei uma semana para ver se reagia. Não reagiu. A vida do animal é brincar e ser independente. Era horrível ver seu sofrimento quando chorava para fazer xixi. Como manter um animal assim?
    A ong que nao recebe dinheiro público e vive de doações Quintal de São Francisco (a unica oNg de verdade que conheço) se manifestou contra a atitude de dilma e teve, entre os que a seguem, os revolucionários de sempre pondo a revolução e a EX-presidente acima de supostas convicções com relação à proteção dos animais. Ponto para o Quintal. A revolução é uma doença mental: nada pode estar acima dela. Tenho muita saudades do tempo em que o primeiro mandamento era respeitado.

  • Marcio Reaken

    Acho que o pobre cachorro foi sacrificado num ritual satânico contra os adversários do PT…

  • Pedro Rocha

    O cão ainda foi tratado com mais dignidade pela corja vermelha do que os fetos assassinados por aborto, pois a morte desses é exigida pela petralhada com um “direito” enquanto a do cachorro pelo menos não fizeram apologia de sua morte.

    • pfelipens

      Fetos não possuem sistema nervoso formado, ou seja, não sentem dor. Cães sim. Comparação desonesta.

      • clluiz

        Se não sente dor tá liberado matar?

      • Pedro Rocha

        Então a vida é relativizada pelo sistema nervoso? Nesses casos, animais com sistemas nervosos primitivos como as estrelas-do-mar podem ser eliminados sem maiores problemas? Isso se aplicaria também aos vegetais e fungos?

        Desonestidade é criar parâmetros sobre a vida alheia e achar desonesto que discorde de sua sapiência. Aplicado ao extremo, é fácil perceber a fonte darwinista-eugênica e sua aplicação prática: o higienismo racial dos socialistas (principalmente nazistas).

      • Marcos Martins

        Ou seja, uma anestesia e o assassinato está liberado…

  • Alexandre Fagundes Souto

    Texto perfeito, apesar de termos uma diferença de opinião ao sacrifício –
    não usarei a palavra eutanásia porque para mim só cabe quando ela é
    decidida pelo eutanasiado (se eu escolho para mim a eutanásia, assim
    deve ser chamada, se minha mãe escolhe por mim, é sacrifício).

    Como
    comentei em uma das suas postagens no Facebook, Dilma é uma criatura
    rudimentar, seus atos de maldade são puro instinto e o seu (dela) lugar é
    uma sala acolchoada usando camisa de força. O comportamento dela no
    impeachment para mim foi legítimo, ela realmente acredita na sua
    inocência por ser incapaz de entender as consequências dos seus atos, o
    que é claro não alivia em nada sua culpa, mas deveria servir para
    colocar em cana cada pessoa que ajudou a colocá-la na cadeira de
    presidente, eleitores inclusive.

    O episódio serviu também para desmascarar inúmeros protetores e a rede de proteção como um todo, onde só uma minoria se salva. Muitos deles são candidatos a vereadores e devem ser olhados com lupa pela população.

    Chegamos numa era onde até os pobres animais precisam de pedigree ideológico, sob pena de sacrifício.

  • Douglas Marques

    Caramba, to indignado aqui. Não sabia da eutanásia (pra você ver como ninguém ficou publicando isso). Até a vida de um animal foi ignorada por causa da agenda dessa gente.

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