A busca pelo dono do triplex e a prova da existência de Deus não se tratam de "convicções", e sim de reunir fatos aparentemente desconexos.

Facebooktwittermail

Há alguns anos, o seriado mais assistido da TV se chamava CSI: Crime Scene Investigation (aqui no Brasil, creio eu, se chamava CSI: Investigação Criminal). Para falar a verdade, eu não assistia. Dei uma olhada por bobo que sou, já que fico fascinado por ciência, mesmo a da TV. Provavelmente por entender muito pouco daquilo tudo. É uma idéia fascinante juntar um grupo de especialistas para desvendar casos usando a ciência e a boa e velha astúcia humana.

CSI: Crime Scene InvestigationPois bem, imagine agora que você é um desses especialistas. Contaminado pelo discurso de guerra de classes, você se frustra com seu salário de funcionário público e parte para o crime. Você se lembra de um dos seus casos antigos, um bilionário que tinha um cofre cheio de jóias. Certo dia, o bilionário chama a polícia para se queixar de um furto. A sua antiga unidade é chamada para investigar o local e encontrar provas materiais. Nada! Eles não encontram nada! Nem uma mísera impressão digital parcial (eu me lembro dessa expressão), nada de fios de cabelo, pedaços de pele morta, traços químicos diversos, e sei lá mais o quê. Zero! Você utilizou tudo o que aprendeu como CSI e não deixou qualquer prova. Seus ex-colegas estão estupefatos. Nunca encontraram uma cena do crime sem pistas ou provas. Olhando para o dono das jóias furtadas, parado ao lado do cofre vazio, o chefe dos CSI diria o quê? “Concluímos que não há evidência de roubo, logo, suas jóias ainda estão aí”? Será que ele diria isso?

Quando você investiga um crime, principalmente um crime cometido por profissionais, o mínimo que se espera é uma investigação longa e complicada. Às vezes, construída apenas com evidências circunstanciais. Afinal, essa era a intenção desde o começo: esconder as pistas.

Quando Lula e os petistas dizem que não existem provas do tal Triplex, eles exigem que se encontre algo no nome do Lula. Ora, se houvesse algo no nome do Lula, e não houvesse uso de dinheiro ilegal através de empresas, aí sim é que não haveria crime! O apartamento seria legalmente dele!

O que se pode fazer na investigação de um crime cometido por profissionais, gente acostumada a lavar dinheiro, desviar verba e espalhá-la por centenas de empresas de fachada, laranjas, doleiros, contas secretas em paraísos fiscais, é tentar conseguir evidências mínimas de que o suspeito está mesmo envolvido. E que existe um caminho para o crime, ainda que com partes obscuras, possível de ser traçado. Ou para traçar o dinheiro, afinal, follow the money (siga o dinheiro) ainda é uma das melhores formas de se desvendar esse tipo de crime.

Se a famosa “boca na botija” fosse exigida para crimes financeiros, eles não seriam crimes, mas uma prática esportiva. O que praticamente já é no Brasil.

Na verdade, nosso CSI jamais diria que as jóias ainda estão ali porque não há evidências. O processo criminal nos lembra sempre de um princípio lógico muito útil para todos os aspectos da vida: “ausência de evidência não significa evidência de ausência”.

As jóias sumiram. Você não encontra provas, mas, de qualquer forma, as jóias não estão ali. Logo, as únicas hipóteses cabíveis são: você não encontrou as provas que procurava, ou que a ausência em si seja uma evidência. As provas virão por outro caminho.

Nosso CSI diria que quem cometeu o crime era um profissional, o que já demonstraria intenção, preparação, provavelmente um grupo de apoio envolvido, e muito mais. Então ele pensaria em quem teria a possibilidade de cometer aquele crime. Seria um bom ponto para começar a sua investigação se houvesse uma evidência circunstancial, como uma lista de todos que passaram pelo triplex, digo, pelo prédio onde foi cometido o crime. E daí por diante.

Lula mãosO fato de que o Ministério Público não pode encontrar o tipo de evidência que Lula e o PT exigem é apenas prova de que houve um crime. Se fosse simples determinar de quem é aquele triplex; se várias empresas não estivessem envolvidas em transações relativas a um mero apartamento; então não haveria crime. O fato de haver essa dificuldade é prova de um crime cometido por profissionais. Não só profissionais, como gente com poder (e vontade de permanecer anônima) para acionar gente graúda para fraudar a compra de algo comum como um apartamento. Mesmo um triplex!

De fato, tudo o que se tem até agora é mais do que o suficiente, em um mundo lógico e não louco, para se determinar que houve crime, e a culpabilidade de todos os envolvidos com aquele imóvel. Exatamente pela ausência de provas fáceis! Se quiserem chamar esse tipo de evidência de ‘convicção’, tudo bem. Só não confundam isso com ausência de provas.

Mas onde entra Deus nesta história? Bem, é impossível para este escriba não teologizar sobre qualquer encadeamento lógico (ou sobre quase qualquer coisa) assistido. Seja numa série ou no noticiário criminal.

O Dr. William Lane Craig, um dos filósofos mais gabaritados para debates que eu conheço (e também provavelmente uma das maiores paciências que eu conheço…), trouxe de volta o argumento de que a ausência de provas não prova a ausência para o debate sobre a existência de Deus. Da mesma forma que Lula exige um tipo de prova que seria incompatível com o tipo de crime investigado, o ateísmo militante exige um tipo de prova incompatível com a existência ou não de Deus. Não se pode provar Deus com pistas ou evidências estritamente científicas. Deus está além do mundo físico, que é estritamente o campo da ciência.

Lula anjoDa minha parte, esses debates são quase sempre inúteis. Exatamente porque é um debate sobre duas formas de provas diferentes. De nada adianta um cientista pontificar sobre a ausência de evidências físicas de Deus. Adianta menos ainda um cristão entrar nesse jogo, se não puder incluir no debate a filosofia e a teologia como métodos racionais que são, e ficar discutindo apenas ciência. No máximo, esses debates servem como aprendizado para, nas palavras de São Pedro: “estai sempre pronto para dar razão da vossa esperança a todo aquele que te pede” (1Pe 3,15). Esse é o significado da apologética cristã: dar razões para a fé em nossos corações; para a esperança da salvação. Mas não nos termos estritos estipulados pelos adversários.

A ausência de evidências contra Lula e o PT, nos termos que eles exigem, pode provar que eles são criminosos profissionais, e que temos que determinar melhor que tipo de prova é realmente necessária nesse debate.

A ausência de evidência científica sobre Deus prova apenas que, ou a ciência ainda não pode identificar a ‘impressão digital divina’, ou que Deus não deseja ser encontrado por esse tipo de evidência. Apenas pela fé. Fé ajudada pela razão e o senso comum. Um senso um tanto incomum para o que se quer dizer comum hoje em dia.

Um brinde ao Senso Incomum. Parabéns!

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista.

Contribua para manter o Senso Incomum no ar sendo nosso patrão através do Patreon

Não perca nossas análises culturais e políticas curtindo nossa página no Facebook 

E espalhe novos pensamentos seguindo nosso perfil no Twitter: @sensoinc

Saiba mais:

  • Felipe de Paula

    Epaminondas Não parece, pelo seu argumento, você ter se posicionado à favor de Craig. Você concordar que a ciência não é onipotente mas que ao passar do tempo Deus se torna menos necessário pela evolução da mesma é o mesmo que afirmar que ela, a ciência, é sim onipotente — e assim também o homem, faltando apenas tempo pra isso. Então parece uma deificação do homem real substituindo um Deus imaginário. Acreditar nisso (nesse processo evolutivo homem-deus) pra mim é ainda mais inconcebível. Analisando informalmente a evolução humana parece-me mais com um processo que guia à auto-destruição do que à “auto-criação”.
    E esse processo “involutivo” é ainda mais evidente quando analisamos o desenvolvimento moral e ético da sociedade.
    E dizer que um ateu possa ser ético não significa que essa ética não derive de Deus.

    • Epaminondas

      No debate, o Craig me parece com colocações muito mais racionais que o tio do lado dizendo que “a ciência é onipotente”. Não é. Como reclama Richard Dawkins: “Cada vez que encontramos o fóssil de um elo evolucionário, cria-se dois novos elos faltando”.

      Já não precisamos empregar a explicação que os deuses estão chateados para explicar erupções vulcânicas ou eclipses. Isto não acabou com deuses nem tornou a ciência onipotente. Ao apontar que precisamos menos de Deus para explicar as coisas (LaPlace), porque isto necessariamente leva a ciência a uma categoria onipotente? Por que precisamos exatamente de algo onipotente, pra começo de conversa?

      Uma raça ser extinta, pode se dar pela tecnologia, mas a natureza por contra própria já se encarregou de extinguir, sem usar um transístor, 90% das espécies que já pisaram neste planeta. O processo natural, do qual a ciência não inventou, apenas investigou, já eliminou mais espécies do que nossa arrogante espécie consciente jamais conseguiu. E qual uma das maneiras que usamos hoje para conter este extermínio? Ora, ciência.

      A ciência tem nos tirado da miséria natural do qual o dogma explica termos sido jogados porque raios alguém deixou uma certa árvore ao alcance de criaturas ingênuas, tendo solta num jardim uma terceira criaturinha sórdida. Você exagera que a ciência se propõe onipotente e homens virando deuses. Eu só acho que a ciência ajuda um bocado em dignificar nossa espécie. De macacos que andavam em pé para pousar robôs em cometas, foi graças à ciência.

      Reconhecer este avanço não implica que eu esteja devocionando a ciência. Ela tem também seus erros pra mostrar e precisamos de ética para lidar com ela.

      Ética. Você escreveu “E dizer que um ateu possa ser ético não significa que essa ética não derive de Deus.”

      Se a ética tem inspiração divina, porque ela permeia gente que não confessa crença na doutrina? Ateus ou outras religiões? Poderíamos dizer que ela é tão importante que Deus a sussurra mesmo em ouvidos pagãos.

      O que seria ótimo, então que não precisamos de religião para sermos éticos!

  • Epaminondas

    O autor sugere que religião e ciência são campos distintos — o que fundamentalmente concordo — e isto gera a absurda quantidade de animosidade das pessoas que tomam cada partido. Mas eu vejo muito pouco de um dos partidos entrar na seara do outro e muito no inverso. Por exemplo, quem agora, em termos estritamente científicos, está procurando por Deus? Nenhum cientista sério, espero. A ciência teima em não ser objetiva. Ela está lá pesquisando por um remédio para o coração e Bum! cria o Viagra; Está lá pesquisando um ruído captado por uma atenta e Bum! confirma o Big Bang; Está lá cuidando de suas bactérias e Bum! descobre a Penicilina.

    Deus poderia ser encontrado indiretamente. Bastava dar evidências de sua existência. Sim, já pareço os tais ateístas militantes, peço um pouco da paciência do Dr. Craig —mas o caso é, pela história humana, cada vez que a ciência avança, menos precisamos do subterfúgio de explicar as coisas usando Deus. Aonde isto vai parar é especulação. Mas é observável como cada vez precisamos menos do conceito para explicar a natureza.

    O autor declara que Deus pode simplesmente ter querido não ser experimentado por tal meio. Direito dele, suponho. Cria toda um universo natural mas vai residir no sobrenatural. Direito dele novamente suponho. Direito das pessoas que acolhem esta explicação acreditar, também suponho.

    Mas preciso entender porque, se claramente há diferença entre o que é da natureza e o que é do sobrenatural, as pessoas que acolhem o sobrenatural querem interferir nas que acolhem o natural. Há uma grande interferência do pensamento religioso em questões científicas. Podemos nos apegar em questões ancestrais como o heliocentrismo, por exemplo. E chegando até os dias atuais, com células tronco.

    Acima disse que nenhum cientista está buscando por Deus. Minto. Existe uma certa Fundação Templeton que incentiva amparo científico para fundamentos religiosos. Ainda bem que acima eu escrevi “cientista sério”, não porque o cientista crê em alma imortal não possa ser sério, mas porque não pode ser sério o pesquisador que parte da conclusão para achar o meio que a justifique.

    • João Marcos

      Este argumento da “falta de utilidade” de Deus se parece muito com a falácia genética, rebatida neste debate do monge budista, ops, filósofo, Laine Craig: https://www.youtube.com/watch?v=ET-0Vcp1vXs

      Não existem questões “exclusivamente científicas”. O problema das células-tronco embrionárias (porque um japonês ganhou nobel em Medicina ao descobrir como utilizar células-tronco maduras para pesquisas, através de reprogramação), por exemplo, envolve o aspecto ético além do científico. E por mais que se queira negar, a ciência, aliás, toda a vida em sociedade pressupõe o arcabouço ético. E ética dificilmente fica restrita ao naturalismo, que é por si uma filosofia.

      Então não tem como “separar” fé e razão. O Papa Bento XVI tratou desse problema magistralmente na Fides et Ratio, mas a Igreja (e não elementos individuais dela, sempre sujeitos a erros) nunca apoiou o Racionalismo (uma espécie de Sola Ratio) ou o Fideísmo (uma espécie de Sola Fide, irracionalismo). Aliás, a base da fé da Igreja é que o homem pode vislumbrar a Deus através da razão humana. Está nas primeiras páginas do Catecismo.

      Ao condenar a “interferência” da fé na ciência, na verdade o que se tem é a tentativa – sutil, na maioria dos casos – de censurar uma parte da história e da sociedade. No mínimo, revertendo seu argumento contra você, os metafísicos têm o mesmo direito de contestar a interferência da ciência na ética e na moral.

      A religião cristã (não me refiro às outras porque não as conheço) incentiva e foi uma das propulsoras da ciência moderna (veja Thomas Woods, Pernould, Le Goff e Moczar sobre as universidades medievais, Galileu, etc). Ela tem o dever, no entanto, de zelar pela dignidade da vida humana, pela condução de pesquisas éticas, que não tratem o ser humano como um ratinho de laboratório. Isso é pedir demais?