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Se a principal missão que lhe foi atribuída é incluir a todos, até mesmo os que não querem estudar, ela tem cumprido com sucesso.

No último dia 4 foi noticiado no Jornal Hoje que, das 100 escolas brasileiras com melhor desempenho no ENEM, apenas 3 são públicas. Os apresentadores, num tom que misturava decepção e preocupação, anunciaram uma matéria com as 3 escolas que se destacaram e o diagnóstico foi: “O diferencial? A escola tem jornada ampliada, com aulas à tarde duas vezes por semana”. Em seguida, a diretora fala sobre a visão e os valores da instituição, naquele pedagogês que faz qualquer professor com mais de 5 anos de carreira revirar os olhos de tédio.

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Nossa, que fácil, não? Basta aumentar a quantidade de horas que o aluno passa na escola e a qualidade do ensino será uma consequência? Então por que o ensino hoje é muito inferior ao dos anos 50, quando as crianças passavam somente três horas e meia na escola, durante 180 dias letivos?

Fato é que o jovem de hoje não está lá muito a fim de aprender. No excelente artigo de Paulo Cruz para a Gazeta do Povo lemos:

Nossos governantes ignoram que o aluno atual não quer estudar. Ele vai à escola para “socializar”, como dizem os pedagogos; vai pelo Bolsa Família, pelas drogas, pela namorada, pela merenda; menos pelo ensino. Esperar que ele vença o niilismo de sua geração e escolha qual disciplina prefere é superestimar sua capacidade, hoje movida quase que exclusivamente por uma espécie de prazer suicida. Generalizo, mas não muito. Sem falar no total cerceamento politicamente correto das sanções disciplinares: o aluno faz o que quer.

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Para economizar o salário de profissionais especialistas, bem como a construção de instalações adequadas para alunos com deficiência, alguém teve a ideia de colocar todos juntos nas escolas regulares e chamar de inclusão. Numa turma com 30 alunos de 6 anos de idade, há autistas, portadores de Síndrome de Down e de transtorno global de personalidade, alunos com baixa visão e baixa audição.

Evidentemente que a única professora da sala é responsável por selecionar materiais em braile, aprender libras, criar atividades diferenciadas para os deficientes mentais e dar conta dos outros 25 que estão correndo pela sala, aos berros. E, provavelmente, dentre os que não possuem nenhuma deficiência, estarão os alunos que mais trazem problemas à turma: os violentos, os provocadores e os que não se contentam em apenas não realizar nenhuma atividade durante o dia inteiro, mas dão um jeito de impedir que os outros façam também, escondendo seu material, rasgando suas folhas, etc.

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A história se repete até o nono ano, quando alguns desses alunos que já apresentavam comportamentos inaceitáveis (bater em colegas e professores, depredar a escola, espalhar fezes por todas as paredes dos banheiros) tiveram tempo o bastante para perceber que nada lhes aconteceria. Então está na hora de ganhar um dinheirinho, e eles passam vender drogas para os colegas. O professor reza antes de entrar na sala, porque sabe que fatalmente será desrespeitado por esses jovens. Não se pode expulsá-los, pois o ECA diz que todos devem ter acesso ao estudo.

A reprovação é um caso a se pensar. É um prêmio. Ele passará mais um ano gastando o dinheiro do contribuinte, com transporte, material, merenda, água, luz e, de brinde, manterá sua clientela. Promovê-lo é injusto com os coitados que tentaram estudar numa sala em que ele era o ditador e não permitia que as aulas acontecessem. Sim, há sempre esse impasse.

Você reprovaria este aluno e conviveria com ele mais um ano ou daria um jeito de promovê-lo?

Professores se queixam dessa situação – a altíssima quantidade de professores com doenças psiquiátricas não é resultado dos baixos salários, embora os sindicatos pareçam se importar somente com isso – e os “pensadores” da Educação, aqueles que ficam no conforto do lar se lembrando do seu tempo de escola, vão dar palestras nas jornadas de qualificação profissional. Nesses encontros, entre algumas metáforas cafonas do tipo “alunos são como borboletas no casulo, um dia rompem a casca e voam com beleza por aí”, dizem que basta ter um pouco de amor para fazer a diferença.

Ou seja: para esses gênios, a coisa não dá certo porque não há amor no profissional que está sendo agredido por adolescentes. Não há amor no coração do profissional que optou pela carreira em turmas regulares e agora é obrigado, sem ter formação para tal, a atuar como especialista em todos os tipos de deficiência. Não há amor na pessoa que se esforça, gasta o pouco que recebe comprando projetores, amplificadores, folhas de sulfite e quaisquer outros materiais que nunca são encontrados (ou sempre estão quebrados) nas escolas para tentar oferecer aulas melhores e ainda se vê competindo com os fones vazando a música alta dos ouvidos de quem não está prestando a menor atenção em qualquer coisa.

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Também são esses especialistas em Educação que, se perguntados sobre o baixíssimo desempenho das escolas públicas nas avaliações nacionais, prontamente dirão que é necessário qualificar os professores, para que estejam em consonância com as novas tecnologias e as necessidades dos jovens de hoje.

Falam isso pensando, talvez, nos alunos da novela Malhação. E claro, nos poderes mágicos da educação em tempo integral, que oferecerá aos estudantes do ensino médio da maioria das escolas do país a oportunidade de passar mais tempo em sala de aula para mexer no WhatsApp (ou conversar, namorar, ouvir música, dormir, etc).

Imagem que circula atualmente no Facebook

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Há tempos se determinou que a escola pública deve incluir a todos. O professor é chamado de educador e vai ter de ensinar o que algumas famílias têm deixado de ensinar. Vai ter de entender os chiliques, os ataques de raiva, as agressões, a apatia, a vontade de não fazer nada, o deboche, o linguajar chulo, os palavrões gritados nos corredores. Porque todas aquelas pessoas ganharam o status de “estudantes”, ainda que jamais estudem, apenas por terem preenchido a ficha de matrícula. E nada lhes pode ser cobrado, sequer os vidros que quebram de propósito, até diante das câmeras. Os verdadeiros estudantes que lá estão também precisarão de doses infinitas de paciência e motivação para continuar frequentando as aulas, observando injustiças, apanhando dos colegas e tentando ouvir as explicações ou se concentrar na leitura em meio ao barulho infernal.

O papel da escola pública, portanto, não é mais o de ensinar. É o que ficar com as pessoas lá dentro e lhes dar um certificado ao término do ciclo. Ela tem cumprido bem o papel que lhe foi destinado. Estranho mesmo é a cara de surpresa e preocupação quando constatam que não há qualidade de ensino. É meio óbvio, mas vamos a um trecho da reportagem da Veja sobre isso:

“Das 100 primeiras escolas no ranking do MEC, como já era esperado, 97 são particulares e apenas três públicas – todas as três federais, instituições que recebem mais dinheiro e fazem estreita peneira para o ingresso. No grupo das 1000 melhores, 49 são públicas, resultado ainda pior do que o do ano anterior: no ranking de 2014, eram 93.”


Teste rápido:

As escolas que têm melhor desempenho nos testes são aquelas que:

a. Empregam professores que têm amor.

b. Possuem jornada integral e os melhores computadores do universo.

c. Selecionam os alunos que nela estudarão.


Acertou quem marcou a letra c. Bons resultados dependem muito mais de bons alunos do que de bons professores, haja vista que o profissional pode ter pós-doutorado na área e o carisma do Silvio Santos, mas se a turma não o deixa abrir a boca nem para dar bom dia, todo o seu conhecimento e técnica serão inúteis.

Quem tem os melhores alunos, o faz por meio de processos seletivos. Toda seleção é uma exclusão. Portanto, se o objetivo é incluir até mesmo quem não quer estudar, é impossível ter excelentes resultados. A comparação entre escolas públicas regulares e ETECs ou federais é extremamente injusta sob esse aspecto. Essas selecionam a clientela pelo nível de conhecimento enquanto aquelas não podem sequer se dar ao luxo de não aceitar a matrícula de alunos com histórico de violência ou indisciplina.

A escola pública é exatamente aquilo que muitos educadores, intelectuais, governantes e pais almejavam antigamente: responsável pelo leite, pela merenda, pelo material, pelo uniforme, pelo lúdico, pela socialização, pelo nenhum-a-menos, pela convivência, pelo coletivo… E, às vezes, quando dá, pelo ensino.

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  • Jorge O.

    Excelente artigo.

    A constatação, de que as escolas com melhores índices são as que possuem processo seletivo, foi algo que passou batido por toda a imprensa brasileira. Felizmente, este artigo joga luz sobre esse ponto. Esse “detalhe” deveria estar escancarado nas discussões de melhoria do ensino.

    No Brasil, repete-se a exaustão os bordões: gratuito, público e de qualidade. Sendo que nada que é público é gratuito: tal qual liberdade e igualdade, em algum ponto, público e gratuito são mutuamente exclusivos. A fraternidade desse trio de bordões é a qualidade.

    A qualidade é alcançada quando é almejada, o aluno se esforçou por isso, ou uma força externa exerceu sobre o aluno tal interferência capaz de mudar o seu próprio comportamento. Essa força externa só pode ser a família, o estado jamais teria a prerogativa ou mesmo deveria ter o poder de alterar fundamentalmente o comportamento de qualquer aluno. Mas aí chega-se a questão do texto, se a família não tem controle sobre o aluno não é válido que esse descontrole afete alunos que seguem as regras.

    Em um sistema privado, ou por voucher que seja, os pais insatisfeitos com os professores ou ambiente escolar trocariam os filhos de escola. Para um libertário, ou um anarcocapitalista, a questão se encerraria aqui. Mas um conservador observaria o que funciona em outros lugares do mundo antes de conceber uma idéia que ignore externalidades.

    O sistema americano permite a plena liberdade. Home schooling e charterschools. Universidades hiperprodutivas com muito financiamento privado. Funciona. Mas seria impraticável adaptá-lo ao modelo brasileiro. Não consigo imaginar os professores do atraso aceitando a existência um exame como o SAT, uma sinergia com o setor privado, ou mesmo admitir que ferramentas como Khan Academy ou OpenCourseWare podem ser mais eficientes do que um professor. Se houvesse uma mudança brusca na mentalidade do país sobre a responsabilidades e competências individuais em uma geração, esses conceitos poderiam fazer parte do debate.

    O sistema brasileiro se parece, no formato apenas, com o sistema asiático. Todo mundo é tratado igual até o final do ensino médio. Então faz-se um teste e de acordo com as notas entra-se na universidade. O que difere, e o que faz este sistema ter qualidade na Coréia do Sul ou Japão, é a questão cultural. Nessas culturas a figura do mestre impõe respeito, o sucesso escolar é almejado por toda família e o comportamento rebelde é condenado por toda a sociedade. O Brasil precisaria deixar de existir e ser refundado para que o respeito, a honra e o senso de comunidade fizessem parte da identidade nacional.

    Já em um sistema como o alemão e o holandês, a cada nível os alunos são separados por aptidão e desempenho. Apenas àqueles com bom desempenho escolar durante toda a vida é facultado o direito de fazer uma universidade que visa o desenvolvimento científico: comprovadamente pública e qualidade. Há a possibilidade de um aluno que começou com desempenho ruim evoluir para as classes mais avançadas, mas não é a regra. Aos demais alunos, há cursos superiores com perfil técnico (incluem-se engenharias não focadas em pesquisa por exemplo), profissionalizantes ou vocacionais. Não sei a fundo qual a razão desse modelo, mas parece-me claro que busca a excelência e o melhor emprego de recursos públicos ao fazer essencialmente o que o artigo sugere: separar quem pode, de quem não pode ou não quer.

    Gostaria que discussões futuras sobre o currículo escolar brasileiro incluíssem a possibilidade de fornecer apenas um ensino médio protocolar para quem não almeja, ou mesmo não é capaz, de produzir algo útil no ensino superior. Deve-se ensina geometria analítica, álgebra, química orgânica ou física newtoniana para um fanfarrão que vai para a aula gritar e teclar no whatsapp? Acho mais justo que decida-se que pelo desempenho deste aluno não é interessante nem para ele ou para seus colegas que tempo e esforço sejam dispendidos para ensinar-lhe algo que ele não interesse e tampouco necessidade de aprender.

  • Junior Vieira

    Parabéns professora, o melhor artigo que já li sobre o assunto. Não há sequer uma ressalva a ser feita, acredito que há muitos que pensam assim também mas infelizmente não são ouvidos ou não possuem poder de decisão.

  • Pingback: Reformas na educação | Pearltrees()

  • Marcelo Napolioni

    Enquanto a esquerda continuar determinando as premissas da discussões sobre educação o sistema educacional brasileiro continuará nessa situação deplorável.

  • Rodrigo Kibao

    Só para uma breve reflexão. Muito simplório diante da complexidade do caso o peso da sim má qualidade do ensino nas instituiçoes públicas recair sobre os ombros dos alunos e seus pais, e, no caso em se tratando de escolas publicas temos os pobres que superlotam as carteiras escolares(peço perdao pela ausencia de pontuaçao pois escrevo do celular).
    Desde que me formei em licenciatura e passei a frequentar a “sala dos professores” tenho observado a dificuldade imensa de professores/educadores, de coordenadores pedagogicos e diretores, normalmente das classes media/alta em concluir o ato comunicativo com os alunos nas escolas da periferia. Ao mesmo tempo percebi e ocorre comigo também que professores mais jovens, formados na ultima decada com o incentivo do governo federal que ampliou em muito o acesso de jovens periféricos à formação superior e mais ainda à licenciatura, que muitos desses “obstaculos” citados no texto -que atrapalham o processo educativo de uma instituiçao publica de ensino – não acometem esses jovens profissionais da licenciatura, relatam que conseguem realizar um dialogo respeitoso com seus alunos. Não sei se há alguma pesquisa academica que relaciona a classe social/economica e processo educativo dentro de um ambiente escolar público que ajude nessa questão, entretanto é sempre bom uma autocritica por parte do professor e dentro da complexidade que se da o processo educativo no Brasil é muita sacanagem deixar o peso sobre os ombros dos pobres.

    • Fernando Serrano

      Babaca esquerdinha caviar!!

  • Simon Salama

    Excelente, Paula Rosiska. Na verdade, o professor da rede pública que, por “deformação de caráter”, se preocupa com o rendimento daqueles jovens denominados alunos, devem ser chamados mesmo de HERÓIS!

  • Laura Cardoso Baptista

    Até que enfim um texto lúcido e honesto sobre o tema!

  • David Xavier

    A 70 anos o Japão era um país quebrado pela Segunda Guerra Mundial, os EUA ajudaram a reconstrução (mais interessados na grana que isso ia dá). Agora porque 70 anos depois o Japão tem um dos melhores ensinos do mundo e o Brasil não, a já visto que o Brasil não foi quebrado na SGM, então por que?

    A resposta é processos de ingresso. Lá cada escola é de um ciclo único, apenas Fundamental I na escola X, fundamental II na escola Y e Médio na Z, o aluno que sai da X e quer entrar na Z tem que fazer uma prova e se for aceito estuda, se não, procure outra. Simples, quem quer estudar tem que escolher a escola e escolas de alto nível são exigentes, quem quer moleza tem que ir pra uma escola mais barata, escolas de qualidade são as que mais recebem recursos e por isso são justamente as mais exigentes.

    Pro ensino no Brasil funcionar tem que investir em ORDEM, apenas com Ordem se tem Progresso (como na bandeira, aliás a “ordem” das palavras é justamente essa). Escolas que tenham ordem, que o professor fale e os alunos escutem, que os alunos aprendam coisas úteis, só assim pra que a qualidade no ensino aumente. Sejamos claros, ninguém se importam com as besteiras de Filosofia e Sociologia, as pessoas se importam mais com matemática que alias é muito mais legal e os alunos se importam mais (quando podem estudar e tem um professor que ensine), do que o besteirol de “Filosofia”. A flexibilização do currículo do Ensino Médio é um passo importante, mas é muito mais importante ter escolas que separe os que querem escutar dos que querem bagunçar e isso por meio de processos seletivos.

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