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Como a permissividade e a omissão dos adultos têm imbecilizado os jovens, tornando suas vidas um tédio supervisionado.

No último dia dos professores, recebi uma quantidade assustadora de mensagens de colegas cujo trabalho é excelente, dizendo que pretendem sair da sala de aula e já estão procurando vaga em outras áreas. Eu mesma, dependendo da turma onde estou, penso ininterruptamente em largar tudo, comprar um bom isopor e vender sorvetes na praia. Nunca vi o vendedor de sorvetes ser criticado e responsabilizado se o cliente é lerdo para consumir o produto e ele derrete. Ele também não leva a culpa caso o filho de quem comprou a guloseima não tenha educação e jogue o lixo na areia.

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A Educação tem sido uma sucessão de erros cometidos por ingenuidade, romantismo ou canalhice dos seus atores. E é por isso que, ao lermos relatos de professores da rede pública – aqueles que lecionam em escolas regulares, não em faculdades, não em locais que matriculam alunos após um processo seletivo – dificilmente conseguimos apontar algo de positivo.

Aliás, o quadro é desesperador: desde escolas dominadas pelo tráfico, com seus gestores sofrendo ameaças constantes, até os inúmeros casos de violência e indisciplina gravíssimos que passam batidos. Não é à toa que nossos índices estão entre os piores do mundo. Quem consegue produzir algo no caos que se apresenta?

Este ano consegui vaga na escola em que sempre quis trabalhar. Referência na região por sua disciplina rígida, obteve a maior nota no ENEM entre as estaduais da Zona Sul. Há cerca de um mês, o diretor veio nos prestar contas do que foi adquirido com determinada verba e disse: “Fui à 25 de Março com a vice e compramos pratos de vidro e talheres de inox para o refeitório. Ninguém merece aqueles pratinhos e garfinhos de plástico. Além do que, isto é uma escola, não um reformatório. Nossos alunos merecem essa dignidade”. Passei no refeitório outro dia e os vi comendo nos pratos de vidro. Alguns comem a comida feita na cozinha da escola, outros trazem marmita e esquentam no micro-ondas (alunos e professores utilizam o aparelho e ele está inteiro). Dignidade e respeito. Eu nem sabia que isso ainda existia…

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Enquanto outros gestores aceitam e até justificam a má postura da clientela e, com isso, terão de gastar as verbas para aquisição de novos itens com ventiladores, carteiras e vidros, pois essas coisas são depredadas e destruídas todo ano (digo sem exagero algum: há salas em que os ventiladores são trocados 3 vezes ao ano e não permanecem inteiros até dezembro), há raríssimos diretores que não permitem abusos e não toleram indisciplina, e, por isso, podem tratar os alunos com dignidade e respeito.

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Quando eu era estudante, no tempo em que não havia o ECA, éramos muito mais livres. Sabíamos que se fizéssemos algo errado, a punição seria certeira – a orientadora escolar poderia ser branda, mas nossos pais nos castigariam severamente, pois reclamações vindas da escola eram inaceitáveis e vergonhosas para eles –. As regras do jogo estavam estabelecidas, era só entrar em campo.

Éramos livres porque não ficávamos o tempo todo sob a supervisão de um adulto. Quem terminava de fazer uma prova, podia ir para o pátio descansar a cabeça. Havia aulas vagas programadas na carga semanal e era nesse abençoado período que fazíamos lições atrasadas, líamos revistas com nossos ídolos da música (“Gente, esta Bizz tem letras traduzidas do Guns n’ Roses!”) e brincávamos de STOP ou detetive. O pátio ficava limpo, conversávamos em tom normal, sem jamais atrapalhar as outras turmas com nosso barulho.

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Na quarta-série, aprendemos a fazer marmorização de objetos de cerâmica. Nós, com nossos 10-11 anos, levávamos a peça (muitos levavam cinzeiros para presentear os pais fumantes depois), pintávamos com duco e a marmorizávamos com uma mistura previamente preparada em casa: álcool com anilina comestível, que levávamos num frasco de desodorante spray.

Se você, professor de arte, está imaginando a cena e tendo calafrios prevendo uma guerra de anilina e mães ligando posteriormente para reclamar dos uniformes manchados, acalme-se: eram outros tempos. A professora nem precisava ficar na sala o tempo inteiro, só cobrava que forrássemos as mesas com jornal e depois deixássemos tudo limpo. E deixávamos.

Atualmente vejo que os colegas de artes não têm nem coragem de usar o guache solúvel em água que vem no material deles. O compasso pode virar uma arma. Trabalhar com cola branca já é insuportável. Por questões de segurança, melhor trazer impressos para serem pintados com lápis de cor. E o mesmo vale para as experiências de ciências, que foram trocadas por slides, e as maravilhosas maquetes que dão lugar a mapas grandes impressos (quem é louco de deixá-los com estiletes para cortar isopor?).

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Tínhamos autonomia e podíamos usar a criatividade. As atividades eram muito mais interessantes.  Mas hoje, os inimputáveis têm destruído carteiras, ventiladores, aulas e a realização profissional de quem gostava de ensinar. Como nada lhes acontece, é necessário que fiquem sob constante vigilância. Não existe mais isso de terminar uma prova e sair da sala. Todos devem ficar contidos entre quatro paredes e, evidentemente, atrapalhando os que precisam se concentrar na avaliação ainda.

Aula vaga? De jeito nenhum. Somente se não houver nenhum professor disponível na escola no momento, mas aí eles devem permanecer na sala sob a supervisão do inspetor. Não há “atividades diferenciadas”, esse termo tão moderno que há 30 anos já existia na prática. Tudo se transforma em dor de cabeça para o professor que quer inovar. E, claro, o aluno que quer mesmo estudar e precisa de diferentes estímulos para desenvolver a criatividade, padecerá de um insuportável tédio durante toda a sua vida escolar.

Infelizmente, há cada vez menos gestores corajosos, capazes de enfrentar a burocracia e procurar respaldo jurídico para fazer o que é correto. As escolas por eles dirigidas têm características inconfundíveis: professores lá permanecem até se aposentarem, há muita procura por vagas (para docentes e discentes), pouca ou nenhuma depredação e bons resultados nas avaliações externas. A fórmula é muito simples, diz o meu diretor, mas dá trabalho.

A extrema permissividade e a omissão dos adultos têm sido um veneno para as crianças e adolescentes. Cabe aos pais e educadores escolherem entre não os traumatizar com broncas e castigos, tornando-os completos irresponsáveis, imbecilizados e sem autonomia; ou torná-los livres e maduros, cobrando-lhes responsabilidade. O caminho para a dignidade é óbvio e começa com uma ladeira íngreme.

  • Ramon Amorim

    Magnífico texto Paula. Estou compartilhando aos amigos e amigas.

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  • Ad Utrumque Paratus

    Parabéns pelo artigo, Paula. Identifiquei-me muito com seu artigo, pois sou um desses que você descreveu, que deixou de fazer algo que gostava bastante, eu era professor de música na rede pública, para se dedicar a outra carreira. Felizmente, também me encontrei nesse novo espaço e sou realizado com o que faço, mas sinto muito o fato de nos encontrarmos na situação em que estamos, em relação à educação pública. Tenho muito respeito por profissionais que labutam nessa área, porque não é fácil.

  • João Marcos

    Paula, você podia contar em mais detalhes o que os gestores dessas boas escolas regulares fazem de diferente. É questão de segurança nacional.

  • AC2016

    Ou seja.. trabalhar dá trabalho! É mais fácil ver o salário cair na conta no final do mês e tocar o F…..da-se.

  • Fábio Peres

    Isso exige, acima de tudo, TRABALHO.

  • Camile Pacheco

    Artigo magistral!

  • Helder Melo

    Como aparecer o gestor corajoso, se o inimigo da civilidade está no corpo docente? Vários professores são indutores da frouxidão, isso quando não cooptam militância entre os delinquentes.

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