A tragédia de Chapecó abala pelo sofrimento, mas também nos lembra da importância da fé, que abrilhanta nosso conhecimento sobre o mundo.

Pouco tempo depois da tragédia com o time da Chapecoense, tudo o que eu tento escrever parece inadequado. Provavelmente é! Não tendo experimentado dor como a das famílias marcadas por uma perda tão brusca e violenta, eu me sinto um farsante tentando colocar umas letras no ‘papel’. Porém, é uma dor como essa que nos força a pensar na fé e no sentido das coisas.

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Eu reproduzo abaixo (levemente editado)  um trecho de um artigo que eu escrevi há algum tempo chamado Jó, ateísmo e sofrimento:

O “Livro de jó” é um dos livros mais interessantes da Bíblia, mesmo para quem não acredita em Deus. É do Antigo Testamento, e trata especificamente do problema do mal. No caso, em sua forma mais elevada.

O “Livro de Jó” é parte de um dos estilos presentes na Bíblia, a literatura sapiencial, ou seja, é uma história contada por homens inspirados por Deus, com o objetivo de passar uma mensagem.

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Na história em questão, Jó é um homem bom, o que é chamado de “homem justo” na tradição judáico-cristã. Deus cuida dele e dos justos. Deus é desafiado por Satanás a provar que, mesmo (Satanás) tirando tudo de Jó, ele jamais falaria mal de Deus.

Jó perde tudo! Família, casa, e saúde. Apesar de não trair o Senhor, Jó tem sua fé bombardeada. Ele não acredita mais em reparação (naquela época, muitos acreditavam no “aqui se faz, aqui se paga”, e que o justo estaria sempre bem). Jó questiona diretamente Deus sobre o que aconteceu com ele. Ou seja, é uma relação íntima. Ele não trai o Senhor, mas precisa de respostas.

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Após muitos questionamentos, o Senhor aparece para Jó, e tem com ele o que é o seu maior diálogo com uma pessoa. Deus pergunta a Jó coisas como: “onde estavas quando lancei os fundamentos da Terra?”( Jo 38,4). Deus não está forçando sua autoridade sobre Jó, como é constantemente (mal)entendido. Ele quer mostrar que Jó não sabe o que está acontecendo; não sabe o que Deus tem preparado para ele; não sabe, e não poderia compreender, uma justiça maior do que a que ele entende naquele momento, e acha que seria a perfeita.

Um grande teólogo (Bispo Robert Barron, se não me engano) descreveu mais ou menos assim: “imagine que você encontra uma página do livro ‘O Senhor dos Anéis’. Digamos que seja a página em que Frodo sofre suas piores provações no terror de Mordor, a terra do senhor da escuridão. Você talvez pensasse que algum lunático, sádico, escreveu aquele livro. Mas se você pudesse entender que aquilo é apenas uma página em um livro de mais de mil páginas, e que aquilo faz parte de uma história cristã de redenção e vitória do amor sobre a escuridão, talvez você compreendesse o porquê daquela página que você encontrou, mesmo que você não tivesse lido (ou compreendido) o livro”.

A história de Jó é um prenúncio do Novo Testamento, da Nova Aliança, de Jesus Cristo. É um prenúncio de que a nossa dor talvez tenha uma razão de ser. A existência da dor e do mal em nossas vidas é um problema que nós hoje não podemos compreender plenamente. Mas podemos ter a certeza de que Deus é infinito amor. Se Deus é infinito amor, não significa que nós não podemos sofrer. Significa que Deus, em algum momento, torna certo e bom.

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É possível ter fé. É possível ser um pouco como Jó, e não perder a fé, mesmo que nós precisemos de alguma explicação. É possível saber que nossas provações não podem ser resolvidas por nós mesmos. Isso me parece bem óbvio. Eu nunca me dei nenhuma boa razão para acreditar que eu mesmo conseguiria entender tudo, ser feliz por mim mesmo, ou fazer tudo ficar certo no final. Mas é possível ter fé! A confiança de que no final, se nós buscarmos a Deus, tudo vai ser explicado. Tudo vai fazer sentido.

No dia de uma tragédia tão terrível, a resposta para o mistério insondável da dor da perda foi explicada não por um grande teólogo, filósofo, “intelectual”. Mas pelo preparador físico Paulo Paixão, conhecido por seu trabalho durante anos com a seleção brasileira.

Paulo perdeu um filho na tragédia do avião da Chapecoense. É o segundo filho que o profissional perde em uma tragédia. Eu não consigo sequer compreender como um homem se ergue para sair da cama depois de uma tragédia dessas. Porém, Paulo Paixão disse: “quis o bom Deus que essa situação viesse”.

É difícil escrever isso sem chorar. A fé de um homem desses é o que chamamos de “mysterium fidei“: o mistério da fé! Não há nada que explique isso fora uma fé inquebravel em Deus; na certeza de que apenas o Senhor pode fazer tudo ficar bem no final. Porém, ao mesmo tempo, é apenas com isso que a vida faz sentido! Sem essa fé, a vida não vale a pena ser vivida. Se podemos viver apenas para sofrer; se toda a beleza da vida, de tudo o que a ciência pode nos revelar fisicamente, e a teologia nos ajuda para além da beleza física, não pode ser justificada e santificada no final; não é possível aguentar. No entanto, alguém como o conhecido preparador físico, que sentiu na carne como ninguém confortável atrás da tela de um computador sequer sonhou sentir, nos diz que é possível! Que tudo fará sentido!

Paulo Paixão traz no nome o momento da redenção. O momento em que Deus enviou Seu filho para sofrer como nunca e morrer por nós. Ele sabe! Ele entende nossa dor! Ele veio ao mundo para sentir e dividir conosco as dores. Mas Ele fez mais que isso! Ele nos deixou a certeza de que tudo fará sentido!

É na Paixão do Senhor que sentimos o amor que divide até os piores momentos. É na ressurreição que podemos acreditar de novo, e ter certeza de que nos ama o suficiente para nos levar até Ele e com Seu amor vivermos juntos por toda a eternidade.

A todas as vítimas dessa tragédia e seus familiares, tudo o que eu posso fazer é deixar algumas poucas palavras de esperança, e rezar por vocês! Que possamos todos refletir, rezar, abraçar as famílias e em Deus ter a certeza da união definitiva.

            Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

            um Papista.

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