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Hoje foi Renan Calheiros. Amanhã, sabe-se lá. Políticos roubam nosso dinheiro e liberdade. Mas sobretudo, nosso tempo e nossos assuntos.

Meu sonho é morar num lugar em que nada de muito interessante aconteça. Você sai pra cuidar da vida (dos cachorros, do supermercado, do alinhamento do carro etc) e, na volta, pensa: “Bom, agora vamos cuidar das coisas importantes e urgentes: decidir entre ler Hugo de São Vitor ou Shakespeare!” É o mundo dos sonhos, o lugar para onde as pessoas boas vão depois que morrem.

Mas não. Aqui no Brasil, finalmente começaram a punir corruptos. Depois de começarem a punir corruptos (algo inimaginável para a história do país, de Cabral a Dilma), inventaram que precisavam urgentemente de 10 medidas (na verdade, mais de 100 artigos) para punir corruptos, senão, não puniríamos corruptos igualzinho estávamos punindo. 

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Uns senadores acataram as tais medidas (sem elas, lembre-se, haveria corrupção e não se puniria corruptos!) e “deturparam” tudo, como professores universitários falam que ditadores sempre deturpam seus ídolos. De repente, as emendas às tais 10 medidas contra a corrupção se tornaram algo para fugir da corrupção, e se passassem as 10 medidas contra a corrupção com as emendas, aí sim é que haveria corrupção e não conseguiríamos punir corruptos.

Os senadores estavam com tanta pressa que os mais corruptos do país aventaram de pedir urgência para trabalhar e votar as tais medidas. O povo foi às ruas no domingo, revoltado contra a corrupção, e expôs os políticos que queriam urgência na votação do projeto contra a corrupção como os mais corruptos do país (eu sei, está difícil, tente reler a frase umas 4 vezes, na quinta começa a engatar direito). O principal deles se chama Renan Calheiros.

A coisa foi tão tensa que Renan Calheiros foi afastado do cargo no dia seguinte pelo STF, mas não acatou a decisão.

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OK, a frase foi muito fácil, vamos complicar. O PT, de quem Renan Calheiros fora aliado por mais de uma década, e para quem Renan Calheiros sempre passou um pano (dificultando investigações, mantendo Gleisi Hoffmann à solta etc), havia afirmado, meses antes, que o processo de impeachment contra a petista Dilma Rousseff era um golpe arquitetado pelo PMDB de Michel Temer (seu próprio vice, escolhido por ela) e de Eduardo Cunha. Cunha foi preso, e o PT nem pôde comemorar (afinal, lá se foi sua narrativa). E o PMDB também tem Renan Calheiros, que por um ativismo judicial do STF quase pôs o processo de impeachment abaixo, protegendo mais uma vez o PT. Como Renan Calheiros, acusado de corrupção, velha guarda da política e, chaplau!, do PMDB, defendeu o PT até o penúltimo minuto, petistas nunca reclamaram de Renan Calheiros.

Vamos voltar à frase. O mesmo STF, o mesmo do ativismo judicial que quase permitiu que Renan Calheiros defendesse o PT uma última vez, fez o mesmo Renan Calheiros, por um novo ativismo judicial, perder seu cargo. Então, Renan está errado e o STF também está errado. Na linha sucessória da vaga desocupada de Renan está um petista, Jorge Viana. Logo, o cumprimento de leis, que o PT chama de “golpe”, por um novo ativismo, põe um petista mais próximo da linha de sucessão de Michel Temer, no caso de um “Fora Temer”, sem vírgula, prosperar. Facílimo de entender, não? Não.

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Mas eis que Renan Calheiros, ele, o Próprio, não acata a decisão do STF, fazendo um cabo de guerra entre Judiciário e Legislativo. Renan se furta a receber a ordem (de despejo, de alguma versão mais aristocrática disso) do Oficial de Justiça. A mesa do Senado se recusa a cumprir a ordem, errada, que retirou o cargo de Renan, que está errado. Carmen Lúcia, outra ministra do STF, deixa o julgamento da questão para amanhã. O país pára, atônito, para saber o que vai acontecer amanhã. Daqui a pouco. O que está acontecendo. O que foi que aconteceu. Meu Deus, liguem os jornais, o que está acontecendo, é o fim da República.

Bem, como pensar em Dostoievsky e Edmund Husserl num país desses? Como parar para viver a vida, a coisa rica da vida, o lado difícil da vida, o caminho da bem aventurança e da difícil travessia do despertar, se temos de prestar atenção numa pantomima dessas todo santo dia? Não é uma macaqueação fácil de acompanhar: tente explicar o que acontece para alguém sem faixa preta em Brasil e o bolo desanda rapidinho.

É uma vida que vivemos completamente sem imaginação. É apenas a “realidade”, ou os homens de terno com cabelos brancos jogados para trás mandando na realidade que, mais do que dinheiro e liberdade, nos furtam a riqueza e complexidade de nossas vidas todo santo dia com suas picuinhas e siricoticos que, no fim das contas, podem mesmo ter algumas conseqüências terríveis.

Mas é possível pensar em conversar com a vovó sobre a receita do delicioso bolo de chocolate com tradição na família em um país desses? É possível parar para pensar na versificação do Beowulf ou da Teogonia, na história da Guerra das Duas Rosas, na teologia de Bernard Lonergan ou no quanto William Blake tem a nos ensinar sobre viver num país desses?

Com ainda efeitos perversos. Você pode estudar o quanto quiser, tudo o que resta de contato humano são as chatices chatas do Renan Calheiros mandando em nossos assuntos (oh, horror!). As pessoas, as mais bem intencionadas e que gastam o dia inteiro lendo, ao invés de estarem produzindo obras como as de Richard Wagner ou Dante Alighieri, estão todas torrando 102% de seu tempo livre e não-livre com as estripulias no Congresso. Que, mais uma vez, pode simplesmente não resultar em nada na nossa vida.

Definitivamente, os políticos precisam nos devolver o dinheiro, a liberdade, mas sobretudo os assuntos. No Brasil, precisa acontecer menos coisa.

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  • Luciano

    Já uniu : o ódio ao PT!

  • João Marcos

    “O Brasil faz House of Cards parecer um episódio da Peppa Pig” (Ícaro de Carvalho, facebook)

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