Muito tem se falado sobre Donald Trump não cumprir os preceitos do liberalismo ou ser contra a "globalização". A informação procede?

Ao olhar não-doutrinário, a má vontade que alguns liberais e conservadores ainda demonstram em relação ao Donald Trump não faz o menor sentido, mas quem se apega àquilo que Michael Oakeshott chamava de política da perfeição — como o fazem esses poucos implicantes — acaba se perdendo em uma espécie de utopismo estéril e inerme, incapaz de tornar o mundo minimamente mais livre, mas muito eficiente em iludir, com uma falsa sensação de superioridade, quem quer que por ele se deixe contaminar.

Deslumbrados com os seus ideais, os adeptos da política da perfeição acabam atribuindo a si próprios as virtudes (reais ou hipotéticas) dos valores que defendem, julgando-se a si mesmos de acordo com seus ideais e aos outros de acordo com suas ações concretas, de modo que acabam por vivenciar uma situação similar à do garoto que, dirigindo uma Ferrari no vídeo-game mas dependendo de transporte coletivo na vida real, sente um desprezo profundo por seu vizinho que, diariamente, dirige um Mustang para o trabalho — é a fórmula perfeita para a exaltação imaginativa, para a presunção farisaica e para a revolta gnóstica contra a realidade.

E, a meu ver, em nenhum outro grupo esses traços estão tão presentes quanto no meio libertário e, de modo mais amplo, no meio liberal. De tempo em tempo, me chegam textos escritos por liberais, ou libertários, com críticas à alguma medida anunciada pela equipe de transição do futuro presidente americano. Invariavelmente, a crítica possui a mesma natureza: tomando como ponto de partida uma posição adotada com base em um raciocínio abstrato, o sujeito reclama porque o Trump não está agindo de acordo com um checklist de pautas prontas, ou de princípios gerais abstratos, mas, sim, de acordo com uma análise ponderada da realidade concreta, orientada pela prudência, pelo discernimento e pela consciência de que, em um mundo caído, a política é a arte do possível, o que exige (quase) sempre o abandono do ideal abstrato em nome da melhor opção possível dadas as circunstâncias — evidentemente, nessas críticas, essa distinção vem camuflada numa linguagem que tenta contrapor a defesa de ideais abstratos à posição simetricamente oposta (a de quem, também em abstrato, defende ideais anti-liberais), atribuindo esta última posição ao futuro presidente e tentando dar às virtudes políticas demonstradas por ele a aparência de defeitos abomináveis.

Está dada aí toda a insuficiência, toda a limitação, toda a inépcia do liberalismo (como filosofia política e não como modelo econômico) e das ideologias de modo geral para o guiamento de quem quer que seja. Não podendo abarcar as contradições do mundo real, os liberais se apegam a um formalismo doutrinário que, de uma só vez, ignora as questões morais substantivas e o pragmatismo, resultando na rejeição de tudo o que não seja o seu ideal formal e absoluto; lançando fora não apenas os ganhos de liberdade que não sejam irrestritos e lineares como o próprio correspondente desse ideal formal na realidade, o que, na prática, significa trocar a imperfeita liberdade real pela perfeita liberdade teórica e hipotética — com o singelo detalhe de que a inexistência é incompatível com a perfeição, como já nos ensinava Santo Anselmo.

O problema dos liberais, em suma, é que eles não compreendem o que nossas avós querem dizer quando afirmam que “o ótimo é inimigo do bom”; e nem podem fazê-lo, já que deixariam de ser liberais e se converteriam em conservadores no momentos mesmo em que assimilassem o significado por trás dessa máxima popular, o que os habilitaria a distinguir o bem verdadeiro do bem aparente, levando-os ao reconhecimento de que devem se pautar por uma ética da responsabilidade, consequencial, em detrimento de uma ética dos princípios e compreender que a realidade comporta, necessariamente, uma série de contradições inabarcáveis à linearidade do pensamento ideológico e doutrinário, cujos ideais não são senão elementos dos vários credos que culminam no que Eric Voegelin chamava de “fé metastática”.A eleição de Trump — e junto com ela a ascensão e o sucesso de movimentos e partidos anti-globalistas — nos oferece uma oportunidade única de contemplar a insuficiência do liberalismo como filosofia política. Como todo sistema composto por pautas prontas, fixas e absolutas, o liberalismo é incapaz de tornar inteligível as soluções específicas, e reativas, que políticos como Donald Trump e Nigel Farage propõem para os novos problemas que emergem, um após o outro, da constante mudança da conjuntura geopolítica, bem como da contínua variação estratégica por parte dos atores que disputam o poder em âmbito local e global.

reaganA maioria dos libertários (e, com eles, um grande número de liberais) critica até hoje as medidas tomadas por Ronald Reagan em seu governo por serem, segundo eles, pouco liberais ou mesmo anti-liberais. Acontece que, por ser conservador, Reagan tinha consciência de que o economicismo e o formalismo doutrinário do liberalismo nada poderiam fazer contra as maiores ameaças enfrentadas, em sua época, pela liberdade (e por valores mais importantes do que ela, como a dignidade humana): o abandono dos valores tradicionais ocidentais e a ação coordenada do movimento comunista a partir da União Soviética. Assim, Reagan não hesitou em adotar medidas supostamente “anti-liberais”, como o aumento brutal do orçamento estatal, para ferir de morte o regime soviético e restaurar os valores tradicionais do Ocidente, aumentando o quociente de liberdade de seu país e realizando o que ele jamais teria sido capaz de realizar, caso tivesse se deixado paralisar pelo doutrinarismo liberal.

farage-ftrumpDonald Trump, do mesmo modo, compreende que o economicismo e o formalismo doutrinário do liberalismo nada podem fazer contra as maiores ameaças enfrentadas, hoje, pela liberdade: o globalismo (a concentração do poder em regimes internacionais, burocráticos e impermeáveis à pressão popular, que têm por finalidade impor um conjunto de valores postiços e uniformizantes a todo o mundo), a hegemonia cultural esquerdista, a desfiguração demográfica e cultural causada pela imigração ilegal, e a ascensão de um bloco de países anti-americanos e anti-ocidentais liderados pela China. Diante disso, ele não hesita em defender medidas supostamente “anti-liberais” — como o fortalecimento das fronteiras e da soberania nacional americana e a relativização da doutrina liberal do comércio internacional — quando isso se mostra necessário para frear os avanços do globalismo, a corrosão cultural da América, e a ascensão da China, um país governado por um regime que sempre soube utilizar o doutrinarismo burguês em seu benefício e em prejuízo dos próprios burgueses ocidentais.

Donald Trump compreende, como compreendia Reagan, que a economia não é toda a realidade e que, na ação política, ela deve ser integrada a uma estratégia muito mais ampla, que não a tome como um fim em si mesmo e compreenda que a economia de mercado, tal como qualquer outro modelo econômico, é apenas um esquema neutro de regras operacionais, um conjunto de soluções práticas, que podem ser utilizadas tanto para defender princípios e valores substantivos (a vida, a dignidade humana, a liberdade real, etc.) quanto para destruí-los.

Ele também tem dado sinais de que compreende, intuitivamente, o que compreenderam todos os grandes filósofos políticos (de Aristóteles a Eric Voegelin): que a ação política deve ser orientada pelo exame detido e prudencial da estrutura da realidade e não por construções mentais abstratas e meramente normativas — algo que transcende em muito as possibilidades do liberalismo e de outras ideologias.

Portanto, se você deseja compreender Donald Trump; se você deseja compreender os movimentos e partidos euro-céticos; e, mais do que isso, se você deseja compreender a realidade política; esqueça o liberalismo e o libertarianismo, deixe de lado as doutrinas políticas, as ideologias e as respostas prontas, e aprenda a se abrir para a realidade e a nela se orientar, com base em virtudes superiores como a prudência, a honestidade, a temperança, a justiça e a coragem.

Qualquer pessoa que tenha assistido a uma única entrevista do Wilbur Ross e do Steven Mnuchin; que tenha lido com atenção a proposta tributária do Trump; que conheça a atuação do Tom Price contra a estatização do sistema de saúde americano; que esteja informada sobre o trabalho da Betsy DeVos no campo da educação; que tenha familiaridade com o trabalho do Ben Carson no fortalecimento das comunidades locais e dos corpos médios; que compreenda a devoção do Jeff Sessions à Constituição americana; receberá o novo governo como uma grande vitória para a liberdade. Os liberais, no entanto, seguirão agindo como o garotinho do segundo parágrafo: por não poderem ter uma Ferrari, rejeitarão o Mustang e continuarão andando de ônibus — a menos, é claro, que se curem de sua exaltação imaginativa e abandonem o doutrinarismo liberal.

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  • Bruce

    Acho muito importante que seja comentada essa falibilidade do liberalismo como doutrina política; as ideias em que se pauta o liberalismo só conseguem responder às questões relativas a economia, e é ingenuidade pensar que seja possível enquadrar todas as questões da realidade dentro dessa redoma doutrinária. Como liberal que sou, e adepto da irrestrita liberdade de mercado, li muitas críticas ao Donald Trump por estar supostamente adotando uma política protecionista, e teoricamente deveria ser induzido a colocar-me prontamente contra o republicano. Mas, tenho lido alguns textos que conseguiram me convencer até então (majoritariamente do Filipe e do Alexandre Borges) de que os caminhos escolhidos pelo presidente americano ainda não representam o protecionismo, mas sim que ele esteja praticando uma política do possível, atento aos desafios da geopolítica, como foi dito no texto. Até agora tenho encontrado motivos para dar um crédito ao Trump, e isso vem desde sua indicação pelo partido republicano, muito em função da minha completa rejeição pela ordem mundial globalista, que entendo que realmente pode trazer desdobramentos indesejados para o Ocidente, e do meu enorme medo da expansão islâmica para além do mundo árabe, tendo eu um grande receio de um futuro onde a Europa possa ser muçulmana, uma ameaça clara as mais diversas liberdades. É preciso entender que vivemos um momento derradeiro para a civilização, um momento muito peculiar, e de que parâmetros teóricos não são suficientes para julgar as atitudes do novo presidente. Realmente espero que ele consiga fazer a América grande de novo, combatendo a ascensão da China e os agentes globalistas. Para mim é muito imprevisível o que está por vir, e tenho receio de qual será o cenário geopolítico daqui alguns anos. Só espero que Trump não pratique o protecionismo prometido em campanha, por que isso invariavelmente traz consequências ruins à longo prazo, ainda mais se tratando da maior potência mundial. Para manter minha coerência ideológica, continuarei acompanhando os desdobramentos dos fatos e farei meu julgamento pautado naquilo que venho acreditando até aqui.

  • Só se for em campos muito particulares, mais relacionados a direitos de liberdade e “privacidade”. Por exemplo, defesa da descriminalização das drogas ou, em alguns círculos, do casório gay.
    Em questões mais afeitas à economia, certamente libertários estão mais afastados da esquerda.

  • MM

    Liberais não entendem que são marxistas ?
    Eu não sou Marxista e sou liberal.
    Talvez meu marxismo revele se na liberdade de imprensa de Marx ?

  • MM

    Exato, amigo.
    Saber que as coisas vão mudar independente de nossas condutas é ser sensato.

  • João Marcos

    Talvez a coleção Ordem e História do Voegelin e o livro “O Poder”, do Jouvenel, ajudem.

  • João Marcos

    Ideologia é o sistema de crenças para construir um mundo ideal. É o que Eric Voegelin chamava de “imanentização do schaton”, algo como querer fazer o Jardim do Éden nesta terra.

    O conservadorismo, por definição, é a negação da ideologia. É esquecer esse sonho de mundo ideal, orientar a política por alguns poucos princípios morais essenciais à sobrevivência da comunidade política (a polis) e fazer o possível para sobreviver à realidade.

    É mais ou menos como guiar uma família, só que com milhões de pessoas.

    O problema que eu citei no comentário anterior é a “ideologização” de algo que não é ideologia (porque se fosse, não seria necessário falar em ideologização). Os caras fazem uma listinha dos 10 Mandamentos de uma estrovenga que eles acham que é conservadorismo, e usam isso de régua para medir, aprovar ou desaprovar políticos.

    Um exemplo prático: pegar a lista dos “10 Princípios Conservadores” do Kirk ignorando o que ele explica ANTES dessa lista. Veja aqui: http://tradutoresdedireita.org/os-dez-principios-conservadores/

    Ele faz mil advertências contra “listas de dogmas” ou “testes de fé” do conservadorismo. Só não vê quem não quer.

    (eu penso que essa mania de querer classificar tudo e todos numa categoria é um vício modernista – geralmente as pessoas mais interessantes e importantes não são classificáveis)

    • Felipe Martins

      Eu entendo o quer dizer, João, mas é necessário que entenda também que eu não defino “ideologia” como “sistema de crenças para construir um mundo ideial”. Na minha visão, e de diversos autores, ideologia é um conjunto de ideias que compõe uma visão da realidade.

      Se o conservadorismo, por definição de Roger Scruton, é entender que recebemos uma carga cultural e um conjunto de tradições (no caso, a ocidental greco-romana e judaico-cristã), aceita como boa e civilizada, nada mais racional que mantê-la (eu sei que resumi de forma tosca, mas creio que seja isso). Ou seja, a meu ver, isso também é uma forma de “busca ideal de mundo”. Ou não?

      Entende?

      • João Marcos

        Entendi.

        Eu também pensava sobre isso dia desses. Mas a questão é que, antes de mais nada, o conservadorismo (pelo menos da tradição anglófona, que é a que tem publicado mais ultimamente…) é prudente.

        Por isso ele é avesso a mudanças bruscas ou sem reflexão. Você não vai (ou não deveria) ver um conservador militando por uma revolução política. Isso é algo muito difícil e restrito a circunstâncias especiais.

        Mas até isso que estou dizendo pode ser dogmatismo, o que contraria o próprio “jeitão” do conservador. Pelo que entendi, o conservador é realista com o estado de coisas que podem ser mudadas (política e economia), e é apegado às coisas que fundamentam a parte mutável da vida (a tal “superestrutura” marxista: a cultura e as tradições).

        Então, um conservador pode fazer alianças temporárias para combater um mal maior (o terrorismo islâmico, por exemplo). Mas ele não apoiaria o ativismo judicial das cortes supremas, por exemplo.

        Não sei se consegui me fazer entender. O conservadorismo, define Burke, é mais um “jeitão”, um estado de espírito, que uma posição do espectro político.

        Tanto que você pode ver elementos de Direita e Esquerda nos conservadores. Veja, por exemplo, os conservadores católicos (especialmente os fãs de Pio IX): defendem a Doutrina Social da Igreja e/ou distributismo de Chesterton e Belloc, que é uma visão econômica muito mais humana e impregnada de moral que o capitalismo de livre mercado (que é neutro) ou o socialismo (que é alienante). Então, esse tipo de conservador acaba sendo um pouco esquerdista na Economia, apesar de se ater aos valores morais católicos.

        Enfim, repito: conservadorismo é um estado de espírito de buscar preservar aquilo que é essencial à comunidade (local ou nacional). O topo da lista de coisas a serem preservadas são os valores morais.

      • João Marcos

        Na prática, percebo que os melhores políticos (ou seja, aqueles que fazem mais bem à população) são aqueles que não podem ser enquadrados perfeitamente em nenhum rótulo político.

        Reagan era de direita mas aumentou gastos do estado.
        Tatcher era “conservadora” mas liberou o aborto.
        Etc, etc.

        Não é natural ser um “ideal de cartilha”. Isso me parece uma amputação da pessoa. É igual só ouvir um único tipo de música.

        • Leniéverson

          Ela não liberou o aborto. Você está redondamente enganado.

  • Fabrício Campos

    Concordar com o protecionismo de Trump e as medidas estatais do Reagan não seria outra forma de “se apegar a um
    formalismo doutrinário que, de uma só vez, ignora as questões morais
    substantivas e o pragmatismo, resultando na rejeição de tudo o que não
    seja o seu ideal formal e absoluto” Afinal, ninguem sabe o futuro e as medidas de Trump podem muito bem ter consequências ruins a longo prazo.

    Eu não entendo a vontade que o autor tem de atacar libertários e liberais, e se colocar na mesma posição que eles. É engraçado ver como conservadores sempre foram arrogantes (desde Kirk e Chesterton) com todas as outras ideologias, enquanto se colocam praticamente no mesmo lugar delas sem praticamente não perceber.

  • André Meira

    O texto é muito bom. Mas tenho realmente dúvidas se algumas das principais propostas de Trump estão, de fato, ligadas a uma “análise ponderada da realidade concreta” ou simplesmente a ideias ruins.

    Não entendo, por exemplo, como a imposição de tarifas alfandegárias a empresas americanas que se mudem para o México, um país politicamente pouco relevante no cenário internacional, serviria ao combate contra o “globalismo”.

    Tampouco me parece lógico por que a derrubada da TPP (Trans-Pacific Partnership), que objetivava justamente aumentar a influência americana na Ásia e enfraquecer o poder da China, pode ser compreendida como uma forma de conter a “ascensão de um bloco de países anti-americanos e anti-ocidentais liderados pela China”.

    Em ambos os casos, me parece que o que move Trump é mais a crença em ideias protecionistas ruins, visando à preservação de alguns empregos em solo americano, do que uma “análise ponderada da realidade concreta”.

  • Marcio Edimir Goncalves

    Texto exceletente, parabéns! Só gostaria de pontuar que Reagan se considerava um “libertarian” – sua visão era que o libertarianismo era o “soul” do conservadorismo americano (que não tem nada a ver com um conservadorismo europeu, por exemplo).

    Mas ele tinha, como você bem colocou, uma visão pragmática do libertarianismo e não dogmática. Como ele disse em uma entrevista a Reason Magazine em 1975:

    “If you analyze it I believe the very heart and soul of conservatism is libertarianism. I think conservatism is really a misnomer just as liberalism is a misnomer for the liberals”

  • João Marcos

    Excelente texto! Um adendo: é irônico que nestas eleições muitos “conservadores” agiram como ideólogos, condenando Trump por ele não seguir uma “cartilha conservadora”. Ben Shapiro, Glenn Beck, até mesmo Sowell (e a National Review) embarcaram nessa. Foi muito, muito triste, presenciar essa “ideologização” dos conservadores de lá.

    Quanto ao choro eterno dos ideólogos (liberais ou “conservadores” – coloco entre aspas pq o conservadorismo é a própria negação da ideologia), me lembro da analogia de Jesus em Lucas 7,31-35

    “E disse o Senhor: A quem, pois, compararei os homens desta geração, e a quem são semelhantes?
    São semelhantes aos meninos que, assentados nas praças, clamam uns aos outros, e dizem: Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes.
    Porque veio João o Batista, que não comia pão nem bebia vinho, e dizeis: Tem demônio;
    Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizeis: Eis aí um homem comilão e bebedor de vinho, amigo dos publicanos e pecadores.
    Mas a sabedoria é justificada por todos os seus filhos.”

    Ou seja: são reclamões eternos. Nunca estão satisfeitos.

    Política é a arte do possível. Tenha alguns princípios gerais para nortear a ação (e classificar ameaças) e procure sobreviver à realidade.

    Obrigado. Escreva mais análises para o Senso Incomum. Seus textos são muito bons.

  • Eu iria fazer um comentário parecido com o do Alfeu. Sou libertário e concordo com a crítica, em polífica temos que escolher o projeto menos pior e trabalhar com ele. Mas não deixarei de acreditar em uma sociedade sem estado como melhor opção por causa disso, ela só não é factível no momento.

    • Jean Gomes

      Isso é que é a “fé metastática” amigo, pois como já dizia Aristóteles, o ser humano é um ser social, logo o Estado é inerente ao ser humano, sociedade sem estado você só vai achar nas teorias loucas do Rousseau.

      Se o Estado é inerente a condição humana, deve ser inerente por causa de alguma coisa – e é essa coisa que vocês ignoram totalmente – vocês liberais/libertários vêm o Estado pela sua forma (tamanho e intromissão nas liberdade individuais) e não pela sua matéria e função:que é a de conduzir a sociedade ao Bem comum – mas o problema é que “a liberdade” é o único Bem comum de vocês, sendo que a liberdade é um meio e nunca o fim!

    • Jean, o libertarianismo não coloca a liberdade acima de tudo. Isso é uma visão distorcida do que é essa doutrina, e eu concordo contigo que colocar a liberdade acima de tudo é um passo em direção ao socialismo. Não vou fundamentar isso porque se você quem trouxe essa ideia, imagino que já conhece os fundamentos.

      Entretanto, o libertarianismo NÃO defende a liberdade. Na verdade, trata-se de uma doutrina que limita a liberdade, porque é uma teoria ligada a lei. Ela diz qual é a lei correta a ser seguida, ou seja, é um sistema ético que rege a ação humana em sociedade. Diz quais ações são permitidas e quais não são, o que não se confunde com moral (certo ou errado).

      Se quiser uma visão mais aprofundada sobre o tema, pode ir nesse vídeo do canal do do Alexandre Porto https://www.youtube.com/watch?v=v1-SsAd2WgE&t .

  • Alexandre

    Belo malabarismo! Resumo: como apresentar um argumento circular, com conceitos vazios (prudência, temperança, justiça, honestidade, coragem = faça aquilo que falo sem apresentar o porquê) para tentar justificar o protecionismo trumpista para proteger os EUA da China. O mais engraçado é apresentar o globalismo como um mal em si, uma burocracia global do demônio, mas quando a burocracia é trumpista ela é divina, ela é a nossa guardiã contra o demônio chinês? O nível do argumento é o mesmo apresentado pelos comunistas contra o diabo capitalista imperialista. Risível!
    E fora ALCA! Kkkkk!

    • André Meira

      Exato! Da mesma forma que nossos “queridos” petistas gritavam “Fora Alca” na década de 90, destilando ódio contra o “neoliberalismo”, os trumpistas de hoje gritam “Fora TPP”, culpando o livre mercado pelo empobrecimento da sociedade americana. Como o mundo dá voltas…

    • Jonathan David

      Belo malabarismo é o seu. Cria espantalho e bate nele. Sabe muito bem a diferença entre “globalISMO” e “globalização”. Sabe que não é defesa da burocracia ou do protecionismo, mas sim proteção contra inimigos dos valores ocidentais e garantia de negociação justa. O problema de vocês é não querer reconhecer o problema do Liberalismo, que são similares aos do Ancap, isto é, não conseguir dar respostas a questões centrais para a garantia da própria Liberdade e Ordem. Qual a resposta, por exemplo, para ascensão islâmica, que pouco se importa pelos valores pregados pelo liberalismo (a não ser, obviamente, quando em benefício próprio)? De que serve a Praxeologia para aquele que tem a “missão divina” de cortar tua cabeça? Do mesmo modo, a China, que explora as falhas do capitalismo! A gravidade do Liberalismo é não enxergar a complexidade e a influência que o fator teológico exerce na equação. Para mim, o texto é claro, mostrando que o Liberalismo é subconjunto, é o conjunto do números racionais apenas, e, portanto, ficando curto para explicar a realidade em sua totalidade.

      • Alexandre

        Sabe muito bem a diferença entre “globalizacão” e “união internacional do proletariado”. Sabe que não é defesa da burocracia ou do protecionismo, mas sim proteção contra inimigos dos valores comunistas e garantia de negociação justa. O problema de vocês é não querer reconhecer o problema do Liberalismo, que são similares aos do Ancap, isto é, não conseguir dar respostas a questões centrais para a garantia da própria Liberdade, eis que essa não existe sem Igualdade. Qual a resposta, por exemplo, para ascensão do capitalismo financeiro, que pouco se importa pelos valores pregados pelo liberalismo (a não ser, obviamente, quando em benefício próprio)? De que serve a Praxeologia para aquele que tem a missão divina de auferir lucros mesmo que seja por cima do teu cadáver? Do mesmo modo, os EUA e sua Wall Street, que explora as falhas do capitalismo liberal! A gravidade do Liberalismo é não enxergar a complexidade e a influência que o fator “luta de classes” exerce na equação. Para mim, o texto é claro, mostrando que o Liberalismo é subconjunto, é o conjunto do números racionais apenas, e, portanto, ficando curto para explicar a realidade em sua totalidade.
        Continua que tá divertido ver “conservadores” fazendo de tudo para defender um empresário com 1 bi em dívidas, defensor de um capitalismo clientelista e aliado de um ex-agente da KGB.

        • Jonathan David

          Poderia ter colocado “aliado a um ex-agente da KGB” no início para eu ter soltado logo a gargalhada. Teu jogo ‘protagórico’ de troca de palavras pode estar correto sintaticamente, porém semanticamente é totalmente ridículo. Comunismo não defende negociação justa coisa nenhuma, o comunismo não tem valores – aliás, é destruição total de valores disfarçado em desculpas “igualitárias”. EUA explora as falhas do capitalismo?? Tá bom, parei por aqui, não vou descer ao teu nível de estupidez porque sei que ganhará, afinal de contas, você tem muita mais experiência…

          • Alexandre

            Realmente, um comunista não acha que a Wall Street explora os erros do capitalismo liberal nem acredita que luta por negociações justas…

      • MM

        Como o fator teológico exerce forte função levando em consideração o fato de que tudo é cultura ?

        • Jonathan David

          Há uma confusão na sua pergunta, talvez por que entenda uma definição deturpada de cultura. O termo cultura foi relativizado, chamando “tudo” de cultura ou como algo que dá testemunho do modo de ser de alguém. Nada mais falso. Cultura tem duas faces, uma como cultivo e que implica em melhora, que eleva o estado de coisas e a outra, o de culto, ou seja, de devoção, algo que é melhor e que merece nossa máxima atenção, nosso amor, nosso respeito (ou seja, desembocando no Supremo Bem). Agora, mesmo que tudo fosse cultura, isso implica que tudo seja aceito? Sobre o fator teológico, vemos como isso claramente influencia a nossa existência, e isso o Liberalismo fica parco, desconhece totalmente essa dimensão, não sabe como lidar, não tem como decidir e nos dar uma resposta. Isto não é um tema simples para tratar em um post, mas ao menos dá uma ideia e uma direção a seguir na sua procura pela verdade.

  • Alfeu Rabelo Neto

    As criticas feitas pelos liberais e libertários são sim válidas.
    O ótimo é o norte, é a política de longo prazo.
    Se ninguém cobrar pelo ótimo o ótimo nunca acontecerá.
    Apenas concordo que quando não há opção e temos que escolher entre o bom e o ruim então a escolha é óbvia.

    Não peçam que liberais se transmutem em conservadores.
    Cada um pensa de um jeito e tem a sua importância no debate.

    • Pedro Rocha

      O problema é que liberais/libertários parte de premissas distintas dos conservadores, coincidindo apenas na questão do Estado mínimo. Fora isso, as raízes jacobino-esquerdistas assomam e, na dúvida, viram à esquerda:

      https://www.institutoliberal.org.br/blog/por-que-os-liberais-nao-deveriam-apoiar-jair-bolsonaro/

      Não dá para obrigar a todos a pensar da mesma forma, mas os liberais/libertários se estão muito mais próximos do PSOL do que de Bolsonaro ou Trump, para não falar Reagan.

      • Macknroe

        Você que pensa. Basta ler algumas obras Hoppeanas e achará o supra-sumo entre libertarianismo e conservadorismo. Achar que o libertário está ajudando a esquerda é de uma falácia tremenda. Não existe uma forma semelhante entre libertarianismo e socialismo. A principal reinvidicação são os direitos naturais e o direito a propriedade. As liberdades e costumes varia de pessoa pra pessoa. Por exemplo, tem religioso que não segue em nada uma cartilha conservadora. Eu sem ser conservador sou muito mais ponderado que muito religioso em questão. Sou ocultista. Eu já li sobre conservadorismo moral e este não tem qualquer vinculo com o estado. Tente ler saobre o libertarianismo da fonte e procure entender o porque do libertarianismo sim ser coerente na defesa dos costumes conservadores.

      • MM

        Liberais não são conservadores, nem esquerdistas. Vá arrumar outra desculpa.

        • Leniéverson

          Sim, Liberais e libertários se assemelham e muito a esquerdistas, principalmente, no campo cultural, como, por exemplo, no caso do aborto e liberação/descriminalização das drogas. Ou seja: atrapalham mais que ajudam.

      • Bruce

        Sou liberal, mas sobretudo entendo a existência do globalismo e sou prontamente contra esse movimento, uma vez que o mesmo representa uma ameaça à liberdade e a atual estrutura da civilização ocidental, pelos motivos que o Filipe elencou mais que precisamente em seu texto. Praticando esse reducionismo político e empurrando os liberais à esquerda, você está completamente equivocado na sua suposição de que estamos mais próximos do PSOL do que de políticos conservadores, uma vez que esse partido de esquerda representa a onipresença do Estado e centralização do poder, exatamente o oposto defendido pelos liberais. Então não venha rotular os liberais como se fôssemos um único grupo que compartilha de ideais de outros grupos políticos que são defensores do Estado, pois há muita divergência em questões de cunho social e moral que podem colocar um liberal mais à esquerda ou à direita. Não temos que ser “mais próximos” de um extremo ou de outro, nós queremos ser justamente uma alternativa à esse dualismo de extremos em que se posicionam PSOL e Bolsonaro.

  • Alex Souza

    Muito bom!

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