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Muito tem se falado sobre Donald Trump não cumprir os preceitos do liberalismo ou ser contra a "globalização". A informação procede?

Ao olhar não-doutrinário, a má vontade que alguns liberais e conservadores ainda demonstram em relação ao Donald Trump não faz o menor sentido, mas quem se apega àquilo que Michael Oakeshott chamava de política da perfeição — como o fazem esses poucos implicantes — acaba se perdendo em uma espécie de utopismo estéril e inerme, incapaz de tornar o mundo minimamente mais livre, mas muito eficiente em iludir, com uma falsa sensação de superioridade, quem quer que por ele se deixe contaminar.

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Deslumbrados com os seus ideais, os adeptos da política da perfeição acabam atribuindo a si próprios as virtudes (reais ou hipotéticas) dos valores que defendem, julgando-se a si mesmos de acordo com seus ideais e aos outros de acordo com suas ações concretas, de modo que acabam por vivenciar uma situação similar à do garoto que, dirigindo uma Ferrari no vídeo-game mas dependendo de transporte coletivo na vida real, sente um desprezo profundo por seu vizinho que, diariamente, dirige um Mustang para o trabalho — é a fórmula perfeita para a exaltação imaginativa, para a presunção farisaica e para a revolta gnóstica contra a realidade.

E, a meu ver, em nenhum outro grupo esses traços estão tão presentes quanto no meio libertário e, de modo mais amplo, no meio liberal. De tempo em tempo, me chegam textos escritos por liberais, ou libertários, com críticas à alguma medida anunciada pela equipe de transição do futuro presidente americano. Invariavelmente, a crítica possui a mesma natureza: tomando como ponto de partida uma posição adotada com base em um raciocínio abstrato, o sujeito reclama porque o Trump não está agindo de acordo com um checklist de pautas prontas, ou de princípios gerais abstratos, mas, sim, de acordo com uma análise ponderada da realidade concreta, orientada pela prudência, pelo discernimento e pela consciência de que, em um mundo caído, a política é a arte do possível, o que exige (quase) sempre o abandono do ideal abstrato em nome da melhor opção possível dadas as circunstâncias — evidentemente, nessas críticas, essa distinção vem camuflada numa linguagem que tenta contrapor a defesa de ideais abstratos à posição simetricamente oposta (a de quem, também em abstrato, defende ideais anti-liberais), atribuindo esta última posição ao futuro presidente e tentando dar às virtudes políticas demonstradas por ele a aparência de defeitos abomináveis.

Está dada aí toda a insuficiência, toda a limitação, toda a inépcia do liberalismo (como filosofia política e não como modelo econômico) e das ideologias de modo geral para o guiamento de quem quer que seja. Não podendo abarcar as contradições do mundo real, os liberais se apegam a um formalismo doutrinário que, de uma só vez, ignora as questões morais substantivas e o pragmatismo, resultando na rejeição de tudo o que não seja o seu ideal formal e absoluto; lançando fora não apenas os ganhos de liberdade que não sejam irrestritos e lineares como o próprio correspondente desse ideal formal na realidade, o que, na prática, significa trocar a imperfeita liberdade real pela perfeita liberdade teórica e hipotética — com o singelo detalhe de que a inexistência é incompatível com a perfeição, como já nos ensinava Santo Anselmo.

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O problema dos liberais, em suma, é que eles não compreendem o que nossas avós querem dizer quando afirmam que “o ótimo é inimigo do bom”; e nem podem fazê-lo, já que deixariam de ser liberais e se converteriam em conservadores no momentos mesmo em que assimilassem o significado por trás dessa máxima popular, o que os habilitaria a distinguir o bem verdadeiro do bem aparente, levando-os ao reconhecimento de que devem se pautar por uma ética da responsabilidade, consequencial, em detrimento de uma ética dos princípios e compreender que a realidade comporta, necessariamente, uma série de contradições inabarcáveis à linearidade do pensamento ideológico e doutrinário, cujos ideais não são senão elementos dos vários credos que culminam no que Eric Voegelin chamava de “fé metastática”.A eleição de Trump — e junto com ela a ascensão e o sucesso de movimentos e partidos anti-globalistas — nos oferece uma oportunidade única de contemplar a insuficiência do liberalismo como filosofia política. Como todo sistema composto por pautas prontas, fixas e absolutas, o liberalismo é incapaz de tornar inteligível as soluções específicas, e reativas, que políticos como Donald Trump e Nigel Farage propõem para os novos problemas que emergem, um após o outro, da constante mudança da conjuntura geopolítica, bem como da contínua variação estratégica por parte dos atores que disputam o poder em âmbito local e global.

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reaganA maioria dos libertários (e, com eles, um grande número de liberais) critica até hoje as medidas tomadas por Ronald Reagan em seu governo por serem, segundo eles, pouco liberais ou mesmo anti-liberais. Acontece que, por ser conservador, Reagan tinha consciência de que o economicismo e o formalismo doutrinário do liberalismo nada poderiam fazer contra as maiores ameaças enfrentadas, em sua época, pela liberdade (e por valores mais importantes do que ela, como a dignidade humana): o abandono dos valores tradicionais ocidentais e a ação coordenada do movimento comunista a partir da União Soviética. Assim, Reagan não hesitou em adotar medidas supostamente “anti-liberais”, como o aumento brutal do orçamento estatal, para ferir de morte o regime soviético e restaurar os valores tradicionais do Ocidente, aumentando o quociente de liberdade de seu país e realizando o que ele jamais teria sido capaz de realizar, caso tivesse se deixado paralisar pelo doutrinarismo liberal.

PUBLICIDADE

farage-ftrumpDonald Trump, do mesmo modo, compreende que o economicismo e o formalismo doutrinário do liberalismo nada podem fazer contra as maiores ameaças enfrentadas, hoje, pela liberdade: o globalismo (a concentração do poder em regimes internacionais, burocráticos e impermeáveis à pressão popular, que têm por finalidade impor um conjunto de valores postiços e uniformizantes a todo o mundo), a hegemonia cultural esquerdista, a desfiguração demográfica e cultural causada pela imigração ilegal, e a ascensão de um bloco de países anti-americanos e anti-ocidentais liderados pela China. Diante disso, ele não hesita em defender medidas supostamente “anti-liberais” — como o fortalecimento das fronteiras e da soberania nacional americana e a relativização da doutrina liberal do comércio internacional — quando isso se mostra necessário para frear os avanços do globalismo, a corrosão cultural da América, e a ascensão da China, um país governado por um regime que sempre soube utilizar o doutrinarismo burguês em seu benefício e em prejuízo dos próprios burgueses ocidentais.

Donald Trump compreende, como compreendia Reagan, que a economia não é toda a realidade e que, na ação política, ela deve ser integrada a uma estratégia muito mais ampla, que não a tome como um fim em si mesmo e compreenda que a economia de mercado, tal como qualquer outro modelo econômico, é apenas um esquema neutro de regras operacionais, um conjunto de soluções práticas, que podem ser utilizadas tanto para defender princípios e valores substantivos (a vida, a dignidade humana, a liberdade real, etc.) quanto para destruí-los.

Ele também tem dado sinais de que compreende, intuitivamente, o que compreenderam todos os grandes filósofos políticos (de Aristóteles a Eric Voegelin): que a ação política deve ser orientada pelo exame detido e prudencial da estrutura da realidade e não por construções mentais abstratas e meramente normativas — algo que transcende em muito as possibilidades do liberalismo e de outras ideologias.

Portanto, se você deseja compreender Donald Trump; se você deseja compreender os movimentos e partidos euro-céticos; e, mais do que isso, se você deseja compreender a realidade política; esqueça o liberalismo e o libertarianismo, deixe de lado as doutrinas políticas, as ideologias e as respostas prontas, e aprenda a se abrir para a realidade e a nela se orientar, com base em virtudes superiores como a prudência, a honestidade, a temperança, a justiça e a coragem.

Qualquer pessoa que tenha assistido a uma única entrevista do Wilbur Ross e do Steven Mnuchin; que tenha lido com atenção a proposta tributária do Trump; que conheça a atuação do Tom Price contra a estatização do sistema de saúde americano; que esteja informada sobre o trabalho da Betsy DeVos no campo da educação; que tenha familiaridade com o trabalho do Ben Carson no fortalecimento das comunidades locais e dos corpos médios; que compreenda a devoção do Jeff Sessions à Constituição americana; receberá o novo governo como uma grande vitória para a liberdade. Os liberais, no entanto, seguirão agindo como o garotinho do segundo parágrafo: por não poderem ter uma Ferrari, rejeitarão o Mustang e continuarão andando de ônibus — a menos, é claro, que se curem de sua exaltação imaginativa e abandonem o doutrinarismo liberal.

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