Dayse ganha o MasterChef e diz que não quer ser símbolo feminista. Afinal, devemos algo à última modinha da internet, o feminismo?

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A final do MasterChef Profissionais foi marcante para o Brasil. Não necessariamente pela vitória da chef Dayse Paparoto, mas pela grita após a vencedora usar o lugar mais perigoso do mundo para se expressar uma opinião hoje depois do Estado Islâmico: a internet. Ao se sagrar campeã da disputa, Dayse afirmou não querer ser considerada um símbolo feminista, por não ser feminista.

Feministas passaram a xingar Dayse Paparoto de tudo quanto é nome (inclusive ofensas bem pouco progressistas, como “lésbica”). Para feministas, o mais importante é a defesa das mulheres… feministas. Se uma mulher não pagar pedágio na ideologia, já passa a ser xingada com argumentos os mais, como se diz hoje?, machistas.

A rigor, o feminismo é o que chamamos na lingüística antropológica de signo flutuante: uma palavra que pode significar qualquer coisa, com potencial de mobilização, ainda que sem significado. Signos flutuantes foram definidos por Claude Lévi-Strauss, a partir da palavra mágica “mana”, que poderia ser transformada em qualquer elemento material.

As feministas, ao serem perguntadas sobre o que é o feminismo, geralmente respondem que é a defesa dos direitos das mulheres – na prática, novamente à exceção do islamismo, algo que encontra abrigo em qualquer coisa, seja a Constituição americana ou as 14 palavras dos neonazistas.

Por que Dayse Paparoto repudia então o feminismo? Sem um conteúdo discernível, o que o discurso feminista (e o mana feminista não pode ser nada além de discurso: feminismo é discurso, apenas discurso, nada mais do que discurso) preconiza é um Xou da Xuxa entre meninos e meninas. Se algum problema existe entre homens e mulheres, crêem que é preciso haver feminismo para resolver a situação em favor da mulher. Se algo na história, seja em Zurique em 2014 ou na Babilônia da Antigüidade, favoreceu alguma mulher, o discurso feminista afiança que apenas o feminismo garantiu direitos às mulheres.

Para as feministas, se Dayse Paparoto venceu o MasterChef, é graças a elas, que não fizeram nada além de “problematizar” e falar em “empoderamento” na intenet, e não de Dayse. Melhor ainda se Dayse venceu o MasterChef contra homens: aplicando a filosofia Xou da Xuxa a tudo, querem defender Dayse não por ter trabalhado, estudado, se esforçado, mas por ser mulher, e contra homens, como se tudo fosse a velha luta de classes aplicada a gênero. Até pensam em tirar o “ponto para as me-ni-nas!” se Dayse não fizer propaganda feminista de volta (“cozinhei melhor, o que é uma vitória do feminismo!”). As mulheres, para as feministas, se tornam propriedade privada das feministas: caso não obedeçam o movimento genérico, passam a merecer ser tratadas como lixo.

Para complicar, Dayse Paparoto agradeceu a Deus e se definiu como evangélica. Exatamente o que feministas menos permitem: que uma mulher pense em algo além de propaganda feminista, que é a luta de classes aplicada a gênero. Dayse, então, seria uma obscurantista, uma alienada, alguém que não estudou em faculdades de extrema-Humanas para saber como funciona a vida. Uma religiosa, não uma acadêmica. Quem entende mais da vida?

No mesmo dia, recebemos, por exemplo, a notícia de que mulheres e famílias sírias estão pedindo autorização a líderes religiosos para matar as próprias filhas e evitar que elas se tornem escravas sexuais em Aleppo. Para tais mulheres, é melhor ir para o Inferno do que seu corpo servir de prazer ao exército de Bashar al-Assad. Preferem morrer puras do que serem violentadas pelo exército sírio. O líder islâmico sírio Muhammad Al-Yaqoubi postou no Twitter que está recebendo perguntas de pessoas perguntando se um homem pode matar a esposa ou a irmã antes de ela ser capturada pelas forças de Bashar al-Assad e ser estuprada em sua frente.

Notando bem que se trata do exército sírio de Bashar al-Assad, protegido pelo exército russo de Vladimir Putin (vide o episódio Terceira Guerra Mundial? do nosso podcast, o Guten Morgen), e não do Estado Islâmico. Quem realmente protegia essas mulheres? Feministas? O blog da Lola Aronovich? Textões de Facebook? Problematizações? Oficinas de siririca? Safe spaces? Aulas de literatura de gênero?

Não: eram os homens da comunidade cristã da Síria. É como começa uma horrenda carta de uma enfermeira síria: “Sou uma das mulheres em Aleppo que em breve serão violadas. Não há mais armas ou homens que possam ficar entre nós e os animais que estão prestes a vir, o chamado Exército do país.”

Quando Dayse Paparoto vence o MasterChef agradecendo a Deus, a uma religião que proíbe o estupro de mulheres, que não permite escravas sexuais como espólio de guerra, que não as obriga a usar hijab e nem mesmo a satisfazer o marido, feministas dizem que ela precisa estudar mais, que não sabe do que a levou a ganhar o programa, que qualquer coisa boa que aconteceu em sua vida é devido ao discurso feminista, e não a sua alienação religiosa, o ópio do povo. Quem parece ter alguma noção melhor da vida?

Afinal, alguma feminista e suas “micro-agressões” e “empoderamento” e “lugar de fala” e “trigger warning” se preocupou com uma das notícias mais horrendas da humanidade, ou está “problematizando” afrescalhadamente sobre a sociedade patriarcal judaico-cristã, enquanto depende dela e dos militares e combatentes que permitem que elas gastem seu tempo em prazeres hedonistas, imanência mental e proteção da industrialização criticando o capitalismo ocidental na internet, enquanto defendem “refugiados” e visões de mundo “multiculturais” tentando reviver os ditames soviéticos?

Voltando a algo menos sangrento como o MasterChef, Dayse venceu dois homens na semi-final do MasterChef. Os concorrentes Marcelo e Dario queriam ir para a final juntos. Foram acusados de “machismo” por isso – como signo flutuante, como palavra sem conteúdo, como mero agremiador de fanatismo, feministas encontram machismo até em um homem fazer mais amizade com outro homem do que com uma mulher (assim como feministas podem considerar “objetificação” se o homem preferir a mulher, mas mesmo assim não forem com a cara dele).

Durante o programa, um dos participantes disse que ela deveria varrer o chão. Algo que, afinal, todo cozinheiro deve já ter feito, em um dos ambientes mais dominados por mulheres de toda a crosta terrestre. Alguém espera que uma cozinha profissional seja um mar de rosas, sem xingamentos, gritos e má educação? A própria Dayse teve de explicar que a gastronomia “tem muita mulher sonsa, cozinha pede ogra”. Que “empoderamento” sonso chega aos pés disso?

O apresentador do Jornal da Band, Fábio Pannunzio, um dos melhores jornalistas do país, logo após o MasterChef, ainda amenizou, usando o costumeiro dito popular com enunciação própria, gerando novo significado, para dizer que “Quem manda na cozinha é a mulher, mesmo”, como Dayse provou. Mais “problematizadores” e “lacradores” tentaram acusar machismo de Pannunzio, por elogiar uma mulher.

É um dos milhares de problemas advindos do feminismo como modelo de pensamento: o vício em um signo flutuante impede alguém de ver ironias, sutilezas, múltiplas camadas na linguagem. E errados estão todos os que conseguem pensar acima das ganas pela lacração.

Enquanto não sabe o que é, mas fanatiza e transforma em chorume até mesmo uma final de MasterChef, tratando como Xou da Xuxa o que é um programa técnico de culinária, o feminismo mostra por que até o machismo é mais facilmente enfrentável do que a histeria coletiva de feministas se analfabetizando com seus cabrestos ideológicos. E quanto mais se cegam e menos fazem, mais cobram dos produtores da sociedade que reconheçam o que as feministas fizeram por eles.

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