O novo clipe de Clarice Falcão tem nudez. É pra ser uma arte chocante para a família. Mas até o Vaticano tem arte mais contestadora.

Lá vou eu, num mundo que tem Bach, Cervantes, Dante, Shakespeare e Beethoven, falar de Clarice Falcão. Faço isso por dever cidadão, porque vivo no país da “lacração” e sinto-me na obrigação de gritar que o rei está nu e fazendo pirocóptero com a jiromba na sua cara.

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Antes de tudo, quero deixar claro que não considero Clarice Falcão uma pessoa má, nem mesmo uma má artista. De maneira alguma a considero uma espécie de Valerie Solanas tupiniquim. Ela é talentosa, tem uma boa voz e fez coisas interessantes. O que é lamentável é que ela está, como boa parte dos artistas pop atuais, contaminada pelo ativismo ideológico bobinho característico dessa juventude “lacradora”. Outro bom artista pop completamente contaminado pelo “lacratismo cultural” é o Liniker, por exemplo.

Primeiro, precisamos definir “lacração”. Lacração é a expressão usada pela geração mertiolate que não arde para definir algo que, segundo eles, surpreenda, choque, deixe os inimigos sem ação e sem resposta.

Pois o clipe da Clarice Falcão é uma peça emblemática dessa vertente cultural, hegemônica entre a juventude que cresceu longe de guerras e de grandes desastres naturais.

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Sob o pretexto de “desconstruir paradigmas”, os podres de mimados buscam chocar usando o surradíssimo tema do sexo livre e “desconstruído das amarras morais da sociedade”, presente desde as tragédias gregas datadas de 500 a.C.

Ao mostrar closes de bingolinhos, peidolas e xerecas, o clipe de Clarice Falcão choca tanto quanto uma criança pensa chocar quando descobre a palavra “cocô”.

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Depois de Jocasta, de Julieta, de Capitu, do Marquês de Sade, da Dama do Lotação, do Decameron, da Lolita, do Festival de Woodstock, do XVideos e do Programa Sílvio Santos, onde nossas tias e avós viam shows de travestis com a mesma naturalidade com que faziam bolinhos de chuva, parece ser difícil alguém com menos de cinco anos de idade se chocar com pintos e buças. Se foi para lacrar, não lacrou, deu sono.

Uma segunda hipótese é que o clipe foi feito para fazer com que as partes pudendas do corpo humano fossem vistas de maneira natural e sem tabus.

Novamente preciso lembrar de Davi, por exemplo, com seu cacetinho flácido exposto para a eternidade, contrastando com aquele homenzarrão de mais de cinco metros, que não chocou nem os padres de Florença.

Mais uma vez, não chegou a lacrar, com o agravante de que a exibição de partes pudendas ao som de uma música ruim e infantilizada faz o ouvinte broxar. Visto sob este aspecto, o clipe pode ser interpretado como um ícone pudico e assexuado, ao evitar que as pessoas pensem sacanagem vendo corpos nus.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, já havia falado que as roupas protegiam a espécie humana. Se todos andassem nus, perderiam o interesse por sexo:

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“Realmente, não sei como lhes diga que não me senti mal, ao pé da moça, trajando garridamente um vestido fino, um vestido que me dava cócegas de Tartufo. Ao contemplá-lo, cobrindo casta e redondamente o joelho, foi que eu fiz uma descoberta sutil, a saber, que a natureza previu a vestidura humana, condição necessária ao desenvolvimento da nossa espécie. A nudez habitual, dada a multiplicação das obras e dos cuidados do indivíduo, tenderia a embotar os sentidos e a retardar os sexos, ao passo que o vestuário, negaceando a natureza, aguça e atrai as vontades, ativa-as, reprodu-las, e conseguintemente faz andar a civilização. Abençoado uso que nos deu Otelo e os paquetes transatlânticos!”

É uma fina ironia da vida que a geração que tem como mais alta referência de conduta e identificação coletiva as preferências sexuais individuais, essa geração que tem o sexo em mais alta conta, ao buscar expor despudoradamente tais preferências, acabe dessensibilizando o próprio instinto humano pelo sexo.

O clipe de Clarice Falcão, standard da geração lacradora, conseguiu a proeza de não lacrar em duas hipóteses opostas: não lacrou ao desconstruir as amarras morais nem ao fazer com que o corpo humano seja visto de maneira “naturalizada”.

Se considerarmos uma interpretação mais rasa e menos sociológica, o clipe de Clarice Falcão poderia se tratar apenas de um jogo de palavras sobre o dildo, o famigerado vibrador, artefato velho conhecido de homens e mulheres desde as mais remotas civilizações. Ainda assim, como metáfora, não lacrou. A monotonia, a falta de surpresa e refinamento faz com que mesmo a hipótese do simples joguinho de palavras torne-se óbvia demais.

O clipe falhou miseravelmente também em ser algo novo e criativo. Falhou em ser algo belo. Pelo contrário, revelou a feiura inerente do pinto mole. É um mistério como mulheres e gays gostam disso. Coisa feia do diabo.

Falhou também na música. Melodia e harmonia bobinhas, caretas, contrastando com a tentativa de fazer um clipe “revolucionário”. O clipe torna a letra óbvia, não sugere, mas escancara. A tentativa de Clarice Falcão de fazer algo parecido com o Sprechgesang (canto-falado) tonal ao estilo de Luis Tatit não funcionou.

“Eu escolhi você porque não tá tão fácil assim de escolher. Tem muita gente ruim e quando não é ruim é porque não gosta de mim”.

Sério, também não lacrou.

Mas é preciso dar o braço a torcer em um aspecto: o vídeo é ruim pra caralho.

Sendo assim, ruim pra caralho, é a metalinguagem da arte pop-engajada contemporânea. Mais do que uma página infeliz na biografia de uma boa artista pop, o clipe certamente se tornará um símbolo para a geração vitimista e hiper-sensível, que mostra as tetas, costura a xana em público e enfia crucifixos no cu, mas sente dores com golpes de palavras.

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  • Sergio Rainor

    Eu até gostei da musiquinha mas o clip é bobo demais. Nada contra mostrar partes íntimas, isso não choca há muito tempo, mas que fizessem com algum contexto, com alguma narrativa. Do jeito que fizeram foi como se assistíssemos uma procissão de placas com as palavras vagina, pênis, nádegas…..

  • Rafael

    Clarice… só a Lispector!
    Que mulherzinha sem graça essa tal de Falcão!

  • Luiza Alves

    Arte contestadora é aquela que não adere a partido político e sequer a ideologias hegemonizadas, como estamos cansados de ver atualmente. A arte é livre, livre de preceitos. Nunca pensei que a arte estivesse a serviço de politicagem, mas a serviço do livre pensar, do sentir, do transcender. Infelizmente, hoje, é o que menos temos acesso e riqueza de conteúdo.

  • Pingback: Alezzia x Clarice Falcão – a patricinha carioca feminista do Porta dos Fundos deve responder: mulher pode ou não usar nudez para vender? | Mulheres contra o feminismo()

  • Matheus Cajaíba

    Ah…. Ela é muito ruim de serviço, vai….

  • Pingback: Clarice Falcão: Já não se faz mais arte contestadora como antigamente – Senso Incomum | Cotidiana Vida Blog()

  • Earl John Bean

    A música é bonitinha, pelo menos pra mim (não entendo porra nenhuma de música).

    Agora, o clipe é feio pra caralho. Deu pra ver porque não colocam gente mediana nas propagandas, passarelas e filmes pornôs.

    Trocando vídeo por áudio, é como se musicassem imagens aéreas de uma praia bacaninha com Ratos do Porão.

    • David Bor

      Ridículo. Para ver coisa melhor é só acessar qualquer site XXX da internet. Nem para chocar serve. Não é questão de se ser puritano, libertino (viva o “divino marquês”!)Se isso é alguma forma de arte vou queimar minha biblioteca e começar a abraçar árvores na Lagoa Rodrigo de Freitas….

  • Thomaz Ferreira Martins

    Banheira do Gugu! Se tivesse lembrado disso eu teria colocado no texto hahaha

  • Thomaz Ferreira Martins

    Ela contratou modelos. Chamo isso de lacração terceirizada. Prefiro John e Yoko. Pelo menos eles botavam a cara quando queriam causar rsrs

  • Thomaz Ferreira Martins

    Não, a pixuleca dela está preservada. Ela usou modelos profissionais. É a lacração terceirizada 😛

  • Raphael Giovanni

    O que dizer do escritor dessa matéria que eu nem conheço mas já considero pakas? hahaha

  • Sérgio

    Discordo quanto à incapacidade disso chocar, aquilo que antigamente diziam “épâter la bourgeoisie”, no sentido de um imperativo.

    (Excurso: Pensando bem, como essa gente é acomodada! Quando a cantora diz “se não for pra chocar, melhor não lançar nada”, só mostra o quanto é submissa a um imperativo mais que centenário; ou seja, no meio em que ela atua, o grande tabu seria você se negar a “desmascarar” tabus – ou o que você imagina ser um tabu – alheios. Portanto, a cantora fez isso sabendo de antemão que agradaria todo mundo que ela precisa agradar: seus fãs, seus “patrões” e seus colegas, e desagradaria só aqueles cujo desagrado não tem impacto maior sobre ela. Não imagino torção lógica, por mais mirabolante, capaz de fazer disso um ato de contestação ou ousadia.)

    Bom, feito esse excurso, por que penso que o clipe conseguiu em parte realizar o objetivo de chocar, de chocar os tais “falsos moralistas”? Não foi pelas genitálias (como dito, a arte já vem há mais de 500 anos lidando bem com isso, ninguém olha o David ou a Capela Sistina e diz: “Ai, que horror, um piupiu, um bumbum!!”)

    O que há de chocante aí na verdade é o nihilismo, um tipo de nihilismo comum hoje em dia, que se dá sob a forma de nonsense. Há aí uma proclamação bobinha e meio sonsa do nada e do absurdo. (Sei que, ao dizer disso, omito uma série de raciocínios que seriam necessários para demonstrar essa conclusão.) Mas que outra maneira de entender o sentido, tanto da letra quanto do clipe? Não há como escapar da sensação de que se a vida for mesmo aquilo, a única coisa sensata a ser feita seria jogar-se diante do primeiro caminhão que passasse. Nesse sentido, essa sonsice nihiloboboca tem um efeito chocante parecido com o daquelas esculturas que mostram o ser humano como cadáver, ou como animal, em suma, como um bocadão de carne que vaga a esmo – e de vez em quando esculpe um David. Bem, sabemos que, visto que essa gente não tem o hábito de atravancar caminhões em movimento, essa pose toda só é devida à boa e velha paralaxe cognitiva, de Olavo de Carvalho, nesse caso considerada em sua manifestação existencial.

    Mas para chegar aqui é preciso abstrair esses elementos do clipe em si. Ora, a maioria das pessoas não poderá fazer isso, terá apenas uma intuição da bobagem toda, porém uma intuição indissociável do clipe que está diante dos olhos. E o clipe, basicamente, emite duas informações que são profundamente irritantes e costumam causar indignação – inclusive entre os tais liberodescolados: 1) estou mentindo pra você, 2) me acho mais esperto que você.

    Enfim, digo isso até para justificar a “fúria dos justos”, que num caso desses se tornam presas fáceis para a rançosa e manjada acusação de “falso moralismo”. Não se trata de anatomia, trata-se de mentira e presunção, embora a constatação destes entes abstratos não possa ser feita pela maioria das pessoas separadamente da manifestação concreta. Mas isso, visto a cafonice do clipe e o letargo melódico-literário da canção, é mais um ponto a favor do bom senso das pessoas mais simples.

    • Thomaz Ferreira Martins

      Prezado Sérgio, fico muito feliz com seu comentário. Como é bom saber que tenho leitores de alto nível, é um oásis no deserto cultural brasileiro, dá até um certo alívio em saber que nem tudo está perdido. Especialmente se é um comentário discordando de algum ponto com tanta elegância.

      Você tem razão. Na verdade você tem tanta razão que espero que os demais leitores venham dar uma espiada aqui nos comentários e leiam o seu comentário como adendo.

      Um forte abraço.

  • Gustavo V.

    Eu achei uma cópia paraguaiana da abertura de orange is the new black…

  • “…Mais do que uma página infeliz na biografia de uma boa artista pop, o clipe certamente se tornará um símbolo para a geração vitimista e hiper-sensível, que mostra as tetas, costura a xana em público e enfia crucifixos no cu, mas sente dores com golpes de palavras.” Bravo!

  • ProfGeodeDireita

    Música bem chocha e clipe muito ruim, feito à medida para “causar”…Dá sono, literalmente. Não revoluciona nada, não choca nada, apenas é sonífero.

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