Tal como Donald Trump, Roberto Justus apresentou O Aprendiz e parece querer disputar a presidência com uma proposta liberal. Vai funcionar?

Facebooktwittermail

Com sua declaração recente de que não descarta a possibilidade de se candidatar à presidência do Brasil em 2018, Roberto Justus deu início a uma série de discussões acaloradas entre os que vêem sua candidatura com bons olhos e os que a rejeitam por não considerá-lo bom o suficiente. O problema é que discutir abstratamente sobre as qualidades e os defeitos do Justus como candidato não faz o menor sentido. Os argumentos que estão sendo apresentados, de parte a parte, não passam de arranjos apressados e inócuos de palavras que expressam, não uma análise objetiva dos fatos, mas apenas reações emocionais (contrárias ou favoráveis) a atitudes ou opiniões por ele externadas no passado.

É bem verdade que muitas das críticas dirigidas a ele são em si mesmas justas, mas é preciso deixar claro que o tipo de coisa que se pode avaliar à esta altura do campeonato, e com base nas informações que temos, não possui qualquer relevância para uma análise política séria.

Jamais se pode julgar um agente político baseando-se apenas nos valores que ele aparenta representar. Em uma análise política, é necessário deixar as crenças subjetivas dos agentes em segundo plano e julgá-los de acordo com a substância de suas ações, com a qualidade de sua estratégia, com a composição de suas alianças e com as características de sua base de apoio.

Nenhuma dessas informações está disponível — não sabemos qual será a estratégia que ele adotará, por qual partido ele se candidatará, quais grupos o apoiarão, etc. etc. etc. — e, sem isso, não se pode formar um juízo objetivo sobre o candidato, restando-nos a possibilidade de formar uma síntese confusa, que expressa, se muito, nossas preferências subjetivas sobre a imagem pública projetada por ele no passado (ou em entrevistas recentes).

Não se esqueçam que o próprio Donald Trump, quando surgiu como candidato, era muito criticado por conservadores e republicanos com base em opiniões e atitudes passadas. Não é difícil lembrar disso, pois quase todo o mundo chegou a flertar com a idéia ridícula de que ele era um infiltrado democrata, usando para justificá-la a proximidade de Trump com políticos democratas e as opiniões confusas que ele havia expressado sobre o aborto, sobre o desarmamento, sobre a economia e sobre uma série de outras questões importantes.

É necessário, portanto, deixar essas discussões abstratas de lado e focar no que se pode saber.

A candidatura do Justus tem potencial. Ele não tem a força de personalidade do Trump e é um sujeito que ainda não demonstrou a disposição necessária para romper com a camisa-de-força verbal do politicamente correto, mas poderá surpreender positivamente se souber ajustar sua postura, cercar-se das pessoas certas, e, indo além das propostas econômicas, adotar uma estratégia e um discurso adequados ao momento atual.

E o que o momento revela é que o conservadorismo, no Brasil, é um corpo fortíssimo que não encontrou ainda uma cabeça. Para preencher esse espaço, mais do que ter o coração ao lado das massas, é preciso ter a visão estratégica necessária para conduzi-las e a compreensão de que isso não pode ser feito por uma única pessoa. Um indivíduo, por mais dotado que seja, será sempre um símbolo aglutinador, a expressão externa do grupo que o sustenta e que possibilita a execução de sua estratégia, sem a qual jamais poderá agir efetivamente na esfera política — por essa razão, qualquer pessoa que aspire se tornar a voz e a face pública da maior força política que existe hoje no Brasil terá de compreender que suas qualidades individuais não bastam.

Os valores conservadores são os valores do povo brasileiro, os valores das pessoas simples que nem sempre entendem conceitos econômicos, mas que entendem melhor do que ninguém a linguagem da ordem, da moral, dos bons costumes, e que estão cansados de ver tudo o que respeitam e reverenciam ser tratado com desprezo e escárnio pelas elites. Portanto, qualquer candidato que ousar falar em nome dessas pessoas, como o Trump ousou falar em nome do americano médio, enquanto ataca os problemas reais do país, alcançará um êxito eleitoral sem precedentes. Mas isso não basta.

Diante disso, o principal conselho a qualquer candidato que queira chegar a 2018 com chances de vencer a disputa presidencial e de exercer um bom governo, que queira repetir no Brasil o que o Trump realizou na América, (seja o Justus, seja o Caiado, seja o Bolsonaro, seja quem for), é organizar o quanto antes uma pequena operação política, que terá por finalidade, não a promoção publicitária, mas o estudo estratégico das possibilidades de ação. Foi o que fez Donald Trump quase dois anos antes da disputa que ele viria a vencer, e esse é um dos principais motivos pelos quais hoje já o chamamos de presidente.

—————

Não perca o artigo exclusivo para nossos patronos. Basta contribuir no Patreon. Siga no Facebook e no Twitter: @sensoinc

  • Renato Tenorio

    vc poderia convidar o Bolsonaro para uma entrevista em seu podcast

  • Rafael Nascimento

    Justus disse em uma entrevista no Estadão que ele acabaria com o Trump em um debate em cinco minutos. Interessante… Jeb Bush, Marco Rubio, Ted Cruz, Carly Fiorina, Ben Carson, etc, todos juntos, não conseguiram acabar com o Trump nem em cinco minutos nem em cinco meses. Será que o Justus se considera mais inteligente que essa turma toda?
    Para falar uma besteira dessas, mostrou que vive em uma bolha. Acho que não vai longe…

    • Rodrigo Ribeiro

      Roberto Justus é uma incógnita tupiniquim, mas ouso dizer que é mais do mesmo. E se realmente for, pode ser até mesmo candidato de algum partido criminoso, como o PT, em caso de prisão do cachaceiro-mor.

      Falo isso pois achei irônico também a afirmação de Justus sobre “acabar” com Trump. O correto não seria ele se referir à Hillary? Para alguém que quer se portar como o “Trump” brasileiro, suas declarações são muito contraditórias…

      Enfim, também acredito que não vá longe, principalmente se o cachaceiro-mor petista concorrer, o que eu não duvido.

  • K9s10

    Não obrigado!!! Vou de Bolsonaro mesmo, Caiado também seria uma boa mas acho que a lava jato vai pegar ele, Roberto Justus tem suas mãos sujas na lava jato também.

  • Lian Carlo Palavicini

    É rico e famoso, só falta ter duas bolas.

  • Eder Giovani Savio

    Caricatura. Daqui a pouco aparece um de verdade e eu vou rir muito das piadinhas que o mainstream e o mainstream 2.0 pseudo independente vão fazer. Nesse dia haverá piadas politicamente incorretas. Vai ser bom. Preferimos o que é correto em toda sua pureza. O politicamente fica com os mentirosos.

  • J Paulo

    Pra mim esse cara hoje em dia vive mais de mídia do que das empresas dele. Acho-o fanfarrão.

  • Cirlaine Cosme Viana Gomes

    Xem Xanxe!

  • Victor Franca

    É preciso que o candidato da oposição (já que é um pouco genérico tratar como “o da direita”) seja estabelecido ainda em 2017.
    Ao se definir, as mídias alternativas e as lideranças cívicas liberais se organizarão para a campanha.
    2018 será ainda mais árduo que 2014…

  • Victor Franca

    Ronaldo Caiado me parece a grande alternativa liberal. Infelizmente, as notícias nos levam a esperar uma candidatura ao estado de Goiás…

    • Pedro Rocha

      Ronaldo Caiado é parte do “sistema”, diferente de Trump, Bolsonaro, Justus ou Dória. Sinceramente, acho que Caiado não faria muito melhor do que o Temer está fazendo agora, já que ele não é alinhado ideologicamente com os socialistas do PT e PSDB mas também não deu mostras de ser um conservador.

  • Alexandre

    Se o Justus apresentar uma proposta liberal ele já vai ser bem diferente do Trump. O Bolsonaro se apresenta como cabeça do conservadorismo brasileiro. Tendo em vista a realidade brasileira e a americana, o Bolsonaro representa o conservadorismo muito melhor que o Trump..

    • Pedro Rocha

      Tanto Trump como Bolsonaro estão em uma caminhada à direita, mas Bolsonaro está um pouco mais adiantado porque nunca pertenceu a um partido de esquerda, enquanto Trump era democrata.
      Fora isso, acho que comparações entre os dois não são esclarecedores porque cada um possui um contexto político-social distinto: Trump um bilionário norte-americano e Bolsonaro um militar brasileiro.

    • K9s10

      Concordo nesta.

  • bedotRJ

    Entendi o ponto do artigo e acredito que a análise das questões objetivas está correta. Também não discordo da intenção subjacente de induzir o eventual candidato a filiar-se ao campo conservador. Mas é preciso acrescentar alguns importantes elementos fáticos, levando-se em conta o que aconteceu na eleição municipal aqui no Rio e o sistema eleitoral vigente no Brasil. O nome posto mais forte dentro do campo conservador é o do Bolsonaro (nenhuma dúvida quanto a isso, certo?). O que, além das pesquisas fraudulentas, impediu a ida do filho dele ao 2º turno: o excessivo número de candidatos com eleitorado de perfis semelhantes, a saber, Osório, Indio e até mesmo o Pedro Paulo. A pulverização de candidaturas “de direita” (tecla SAP, ok?) teve como consequência a ida do Marcelo Freixo ao 2º turno com meros 18% dos votos. É um percentual que o Lula, mesmo condenado e puxando cadeia, conseguiria facilmente – acho que até a Dilma. Num sistema majoritário de dois turnos como o nosso, dada a tendência do momento, eu, se fosse um estrategista da esquerda, defenderia em âmbito nacional o mesmo que foi feito no Rio. É principalmente sob esse prisma que vejo a candidatura do Roberto Justus. Sem ter a mesma perseverança, a mesma pujança, a mesma força, enfim, o mesmo ‘will to power’ do Trump, o único potencial visível da candidatura Justus hoje é o de atrapalhar o Bolsonaro. A total falta de naturalidade com que seu nome foi colocado e ganhou diversos holofotes na grande mídia (aquela de sempre) corrobora a desconfiança. Então, a meu ver, não, o Justus não tem como ser o Trump brasileiro. A reprodução do fenômeno por aqui não se apoiará nas mesmas bases. Lembremos que nosso país é onde até o Uber se desvirtua. Por isso que é necessário ainda mais desconfiança do que se teve em relação ao Trump.

    • Pedro Rocha

      A candidatura do Justus não deve passar desse “balão de ensaio”, pois nem o Caiado está se garantindo como presidenciável e já cogita se candidatar a governador.
      Só quem reúne condições para almejar uma ida ao 2º turno em 2018 é Bolsonaro.

    • Rodrigo Ribeiro

      Perfeita a análise: “o único potencial visível da candidatura Justus hoje é o de atrapalhar o Bolsonaro.”

  • João Paulo

    Excelente artigo. Acredito que se o Justus se aproximar do partido novo e do instituto mises Brasil ele terá ótimas chances.

    • Renato Lorenzoni Perim

      Nesse caso, pelo menos o meu voto e de toda minha família e de quem mais eu puder influenciar, ele terá.