A esquerda transformou a cerimônia do Prêmio Camões, criado para celebrar a boa literatura, em palco da politicagem mais rasteira. Entenda o que ocorreu na premiação do autor de extrema-esquerda Raduan Nassar.

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Raduan Nassar não estava errado em manifestar todo seu desconhecimento político e econômico (ele é da turma que pronuncia “neoliberalismo” a sério), ou em exibir desavergonhadamente seu desprezo pelo Estado Democrático de Direito e os ditames que o validam, na cerimônia do Prêmio Camões 2016, realizada na última sexta-feira, dia 17 de fevereiro, pelos governos do Brasil e de Portugal.

Errados, sim, estavam todos aqueles que em algum momento decidiram premiar um escritor aposentado que, nos dias que correm, se limita a escrever panfletos políticos. Deu no que deu: um discurso recheado de chavões e lugares comuns, além de totalmente descolado da realidade. Nassar não só repetiu a batida (e milhares de vezes refutada) tese de que o Governo Temer é um governo golpista e ilegítimo como, indo além, sugeriu que somos governados por um governo repressor e ditatorial como se ditaduras premiassem seus opositores.

Ao menos o episódio serviu para nos mostrar como o desejo do ex-escritor de protestar contra um governo “golpista” rivaliza de perto com seu apreço pelos euros recebidos. Nada menos que 100 mil euros! Loco sí, pero no tonto!

De diferente nisso tudo, apenas o incomum fato de uma crítica da esquerda ter sido criticada.

Houve resposta. O ministro da cultura brasileiro, Roberto Freire, teve a palavra final no evento e o folclórico Raduan Nassar ouviu em alto e bom som que seu posicionamento foi descabido e ilegítimo principalmente por ele não rejeitar o prêmio financeiro, 50% pago pelo governo que ele chamou de golpista.

Não é por acaso que, após a saída do traiçoeiro Marcelo Calero, assumiu o Ministério da Cultura um político esbravejador e combativo como Roberto Freire.

Desta vez, mesmo em um evento onde grassam intelectuais ou seja, um ambiente dominado pela esquerda , a esquerda teve que ouvir a crítica de um político um tanto menos esquerdista, apesar de ainda o sê-lo.

Roberto Freire não se fez de rogado e se posicionou à altura da baixaria, prosseguindo com a deselegância que foi a descaracterização de tal evento literário, convertido em politicagem.

A resposta era necessária. Afinal, às vezes a verdade vem de baixo e, sim, atinge.

Claro que Folha de São Paulo e companhia colocaram na conta do ministro toda culpa pelo infeliz episódio, tratando com espanto o fato de ele ter respondido o protesto do Pepe Mujica brasileiro, também conhecido como Raduan Nassar.

Mas a verdade, exposta em nota posterior do Ministério da Cultura, é que um movimento organizado de simpatizantes do governo petista deposto jogou, propositalmente, o evento na lama. Freire se limitou a reagir, como é de seu feitio, para defender não apenas o governo atual, que integra, como o estado democrático de direito e o processo que depôs legalmente os verdadeiros golpistas.

Seja como for, nossos conterrâneos protagonizaram uma briga política que os portugueses, co-organizadores da festa, não precisavam ter presenciado. Fica a lição: da próxima vez, ofereçam o prêmio para alguém que tenha mais apreço pelas letras do que pela militância política.

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  • O que sei é aceitou dinheiro da mão de quem chama de golpista. É contraditório sim, mesmo que doe a bufunfa depois.

  • Não disse que ele errou em dar o show de desconhecimento político e desprezo às leis que deu. O erro é de quem o escolheu para ali estar, um sujeito já semi-gagá, aposentado de seu ofício há mais de 30 anos. É como se resolvêssemos dar o prêmio desse ano, 2017, a Machado de Assis, post mortem.

  • Eduardo Reis

    Artigo incongruente. O mesmo veneno ideológico de que tu acusa o Nassar flutua no teu texto. E se pesquisasse um pouco, saberia que Nassar foi premiado antes da saída de Dilma. Então, em prática ele aceitou o prêmio do governo anterior.

    • Bom, o ministério que organizou a “festa” e lhe entregou o prêmio foi o atual, então…

      Aliás, veja, não acusei Nassar de soltar nenhum veneno. Disse sim que sua postura no evento foi coerente com suas últimas posturas públicas em periódicos com a Folha de São Paulo, e que em sua lógica interna ele não estava errado em fazer o que fez.

      Errado estava quem decidiu premiá-lo, em pleno 2016, estando ele aposentado há tanto tempo. Só prova como o critério é mais ideológico, no sentido de ajudar os “amigos”, do que meritocrático.

  • André Caldas

    Gostei dessa parte:
    […] um evento onde grassam intelectuais — ou seja, um ambiente dominado pela esquerda.

  • Elen

    “Fernando Pessoa:
    A coerência, a convicção, a certeza, são demonstrações evidentes – quantas vezes escusadas – de falta de educação.
    É uma falta de cortesia com os outros ser sempre o mesmo à vista deles, é maçá-los, apoquentá-los, com a nossa falta de variedade”
    Será que ele conhece esse cidadão Raduan Nassar?

  • Sonia T Monteiro

    Adorei o artigo sobre o Prêmio Camões, que acabou por se transformar na mais pura baixaria, orquestrada pelo PT! Uma vergonha!!!

  • Diego Borges

    Não sei se a Lavoura é Arcaica, mas a cabeça do senhor Nassar, com certeza.

  • Phillip Garrard

    Comunista so ate a PAGINA 2. Porque nao recusou a grana do governo golpista? Como todo comunista, acha que o comunismo e bom nos olhos dos outros. 100 mil euros? Quase 400 mil reais? De a uma instituicao de caridade ou a um hospital como AACD ou Cancer. Duvido. Canalhas desse nivel so enxergam o proprio umbigo.

  • Ilbirs

    Situemos a coisa:

    1) Um Raduan Nassar da vida está mais para inocente útil e aquela parte artística do gramscismo que influencia as mentes do povo em geral para que este apoie os tais projetos que aumentam o poder do estado sobre o povo;

    2) Sendo um prêmio internacional, torna-se palanque para tentar emplacar a tal narrativa de que tudo não passa de…

    http://www.troktokmusical.com.br/sistema/file/img/58185.JPG

    É preciso continuar fazendo a banda tocar a mesma música para que algum incauto compre essa narrativa e despreze a realidade normal de que o Brasil em momento algum deixou de funcionar normalmente e os do Foro de São Paulo continuam tendo pleno direito de soltar das suas, mesmo que bobagens retumbantes. Pode ser mais um discurso para as próprias hostes, mas está sendo por ora a única narrativa que reúne as esquerdas depois da chulapada que levaram nas ruas e nas urnas;

    3) Sendo do PPS, partido integrante do Foro, e atualmente seu homem-síntese, ele precisa ser a parte discreta do gramscismo, ainda mais estando em cargo de ministério. Portanto, ele acaba sendo obrigado a falar a verdade dos fatos sobre o prêmio que Raduan recebeu;

    4) Não saberei se foi uma boa jogada do Temer ao usar um gramscista para conter outros gramscistas, mas na prática foi isso, em que pese dar poder ao Foro em área na qual ele nada de braçada por ser marxista cultural;

    5) A se considerar a dinâmica do inocente útil, Raduan não notou que na prática rebaixou sua reputação e sua carreira após tal episódio defendendo gente que quando no poder nunca lhe deu qualquer espaço na repartição do butim. Porém, na cabeça do inocente útil mais utilitaristicamente inocentado, seu bom nome perante a sociedade é nada comparado àquele futuro cheio de unicórnios pelo qual batalha sem saber que estará fora dele seja por morrer antes disso ou, se atingido, descartado pelos líderes que o usaram.

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