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Longe de revelar um liberalismo oculto no coração do povo brasileiro, a pesquisa da Fundação Perseu Abramo descobriu o que todos já sabiam: o brasileiro não entende de economia, mas é conservador e não confia na classe política.

Quem realmente conhece as periferias brasileiras, isto é, quem convive com as pessoas que as compõem e não extrai seu conhecimento de aulas de sociologia ou de filmes que exaltam o banditismo, sabe o quão equivocadas são as celebrações dos que estão vendo no estudo da Fundação Perseu Abramo a prova inconteste de que o povão é liberal.

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Não deveria ser necessário explicar algo tão óbvio, mas as conclusões ali apresentadas não são uma tradução objetiva dos dados coletados e, sim, uma interpretação subjetiva feita por sociólogos e por cientistas políticos ligados ao Partido dos Trabalhadores, os mesmos que chamam o Governo Temer de ultra-liberal e criticam o lulismo por ter adotado uma política econômica de direita (sic).

Trata-se de um estudo qualitativo e não de um estudo quantitativo. E o que isso significa? Significa que a uma síntese confusa, construída a partir das percepções dos entrevistados, está se atribuindo, equivocadamente, uma visão de mundo mais ou menos coerente, que só pode ser chamada de “liberalismo” por quem tem, a respeito dos pressupostos econômicos liberais, a mesma percepção que o Valter Pomar, o André Singer e a Marilena Chauí.

Povo brasileiro é conservadorEm sua essência, o que a pesquisa parece revelar — e digo parece porque não tive acesso aos dados brutos — é o que qualquer aluno do Professor Olavo de Carvalho já sabe há muitos anos: o povo é conservador, não confia na classe política e no estamento burocrático, não se sente representado por nossas instituições e, no entanto, vê no Estado um instrumento necessário para “solucionar problemas, reduzir desigualdades e prover serviços como saúde e educação”. É o “Paradoxo de Garschagen”: os brasileiros não confiam nos políticos, mas não conseguem vislumbrar soluções fora do Estado.

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E a que se deve essa dificuldade de enxergar soluções fora do Estado? Isso mesmo: à cultura. É a cultura que cria o imaginário de uma sociedade, e é o imaginário dessa sociedade que fornecerá a ela o repertório de possibilidades, de soluções possíveis, diante dos problemas e situações concretas com que seus membros se deparam em sua vida prática — na qual, evidentemente, estão inclusas a política e a economia.

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Se duvidam desse diagnóstico, realizem um estudo com a mesma base amostral e perguntem aos entrevistados o que eles pensam sobre pautas e propostas pontuais como a reforma previdenciária, o fim do salário mínimo, a extinção dos “benefícios” previstos na legislação trabalhista, a privatização dos hospitais e das escolas, etc. etc. etc.

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Seja como for, pior do que a dificuldade de entender um estudo simples, demonstrada por alguns dos que estão celebrando as conclusões dos sociólogos petistas, só a dificuldade que essas mesmas pessoas demonstram para entender suas próprias palavras. Digo isso porque, via de regra, os que estão chamando o povo de liberal, por ter as visões que o estudo atribui a ele, são os mesmos que chamaram o Deputado Jair Bolsonaro de estatista, quando ele defendeu exatamente as mesma visões no programa do Danilo Gentili.

Danilo Gentili, Jair Bolsonaro, Liberalismo, Conservador, Propostas EconômicasNessa entrevista, não custa lembrar, o deputado demonstrou seu desejo de diminuir o tamanho do Estado, de reduzir impostos e regulações, de eliminar a influência ideológica do comércio internacional, de valorizar a meritocracia, sem, é claro, ter conseguido articular uma idéia muito clara de como fará isso — e é aí que reside, a um só tempo, a maior virtude e o maior defeito de Jair Bolsonaro: para o bem e para o mal, ele fala e pensa como o brasileiro médio; tal como o povo brasileiro, ele é conservador, se opõe à classe política e ao estamento burocrático, mas não vislumbra (ainda) soluções que não passam pela via estatal.

Quem pensa que deve descartar o deputado por isso não demorará para concluir que também deve descartar o brasileiro médio; e isso seria um erro inaceitável. Bolsonaro é, na atual conjuntura cultural, o candidato liberal-conservador possível (não o único, que fique bem claro, mas o que melhor expressa a realidade popular brasileira), e a solução para melhorarmos sua plataforma é exatamente a mesma que precisamos para melhorar a visão do brasileiro médio na esfera da economia: ampliar seu imaginário, alargando seu repertório de possibilidades, com uma visão de mundo — ou seja, com uma percepção cultural — forte o suficiente para destronar a cultura do positivismo vulgar que, atualmente, domina tanto o deputado quanto o povão brasileiro.

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  • Rodrigo

    Eu só consigo rir de alguém acreditar que a inação do Crivella na prefeitura seja pior que o voluntarismo de Freixo e seus conselhos populares, banco de desenvolvimento municipal e banheiros compartilhados kkkkkkk

  • Rodrigo

    O que eu acho é que um cara que se refere ao vale do silício pra dizer que precisamos de um vale do nióbio não corre a menor chance de indicar um ministro da fazenda minimamente capacitado pra gerir a economia.

    • Jan Mozol

      Então seria melhor logo entregar o nióbio para investidores estrangeiros…mas espere . a esquerda é contra privatizações…vc apenas afirmou que Bolsonaro pensa em estratégia, privatizações estratégicas, até mesmo para a esquerda Bolsonaro é melhor.Lula, mal sabendo somar dois mais dois, sempre ébrio , se utilizou de ministros. Bolsonaro passou no concurso de Agulhas Negras, coisa que dúvido que vc passasse

  • Ilbirs

    Notícia d’O Reacionário sobre esse ocorrido.

  • Gahas

    O “pobre” da cidade grande, a pesquisa foi em SP não é conservador, é consumidor. Ele quer o que a elite teve por anos e a mídia disse para ele que é bom (filmes, novelas, anúncios). Quer consumir, ter dinheiro, andar de avião, sexo, drogas. Repetiria os erros de uma elite, pois esses erros deram a essa elite latifúndios, regalias, prazer.

  • Rodrigo

    Vamos dar nome aos bois: a pessoa que mais ataca a ideia de que a cultura é tão ou mais importante que a economia se chama Marcelo Faria, presidente do Instituto Liberal de São Paulo. Vive criando treta como todo mundo, seja opositor ou aliado.

    • Fabrício Quintanilha

      Na verdade Olavo de Carvalho faz isso desde antes do Marcelo nascer…
      😉

  • Ilbirs

    Eis que o Foro de São Paulo, por meio de quem lhe é satélite, no caso o Partido da Causa Operária, quer fazer auê para evitar que Lula seja preso ao depor em Curitiba, em 3 de maio:

    A parte da íntegra do programa em que surgiu essa declaração:

    Sim, Rui Costa Pimenta, o líder do Partido da Causa Operária, que se originou da antiga ala Causa Operária do PT, mas ainda dentro da superestrutura ligada a tal partido, como se pode ver por estar na CUT. Isso foi na análise política semanal que o partido solta todo sábado no YouTube, neste caso a edição de 18 de março, demonstrando aí haver algum planejamento prévio que seja. Joice Hasselmann já pôs a boca no trombone:

    Anteontem a Carla Zambelli, do NasRuas, também já falou a respeito:

    http://www.facebook.com/nasruas/videos/1307301612695066/

    E a notícia disso pela Joice inclusive já caiu nos ouvidos do PCO:

    https://www.facebook.com/ruicpimenta/posts/1236700693051339?pnref=story

    Portanto, mais que caracterizada a famosa falsa dissidência, manobra muito comum dentro do comunismo de matiz gramscista para iludir incautos sobre supostas brigas internas na esquerda e impressão de que ela está se fracionando, quando na prática cai aqui na concessão de uma parcela de poder que não afeta a principal mas pode e sempre será usada para ajudar a parcela principal e que vale, mais ou menos o mesmo mecanismo que gerou feminismo, militância negra, militância gay e outras, mas aqui aplicado à esfera político-partidária. Quem viu o programa para além da declaração notou que o presidente do PCO basicamente falar aquilo que o PT não poderia falar diretamente para sua militância.
    Portanto, a primeira verdade que temos é a de que a esquerda está mais unida que a direita, mas usa de uma cortina de fumaça para fazer parecer desunida ao olho do leigo. O básico a ser dito para todos é passado por meio de “vasos comunicantes”, sendo o PCO um deles. Quando vemos os caras criticando outro partido, é a parte a ser desprezada do discurso, pois os próprios líderes dos partidos criticados sabem que não é para ser levado a sério e na prática todos estão no mesmo barco, sendo tais críticas a parte cênica da coisa.

  • Airton Carneiro

    Um texto excelente. Jair Bolsonaro tem grandes chances de ganhar as eleições por causa do seu discurso para o brasileiro médio, que é a grande maioria do País. Talvez ele não consiga ser eleito pelos financiamentos aos partidos de esquerda na qual, com certeza, comprará votos, no mínimo.

    Outro ponto do texto interessante, Bolsonaro precisa realmente melhorar o seu repertório e sua fala.

    • O problema é que isso é tudo o que ele tem. Sinceramente, até seu filho, o que passou mal nos debates para o RJ, é melhor articulado para esse tipo de coisa. Para uma eleição que está às portas, ele precisa se apressar.

  • marcos

    Para o ano quem, eleições de 2018 a “arma secreta” da esquerda será o João Doria. Que ele vem fazendo um bom trabalho como “Zelador” da cidade de SP, sem dúvida, porém, até o momento, Doria não entrou em “choque” com nenhuma pauta esquerdista, está apenas “faxinando” SP e por ser um empresário, muitos acabam o colocando como “de direita” isso comprova ainda mais essa analise do Filipe em que demonstra que o povo brasileiro é conservador, porém, não tem, em seu imaginário discernimento suficiente para distinguir “política/ideologia”. Culpa do povo brasileiro, não necessariamente, décadas de doutrinação esquerdistas, uma ampla hegemonia esquerdista no país é óbvio que até “o mais letrado” dos brasileiros comuns seria afetado por isso.

  • Paulo Moura

    Excelente texto!

    Se os inteligentinhos de gabinete não conseguem perceber que o povo é conservador, é por que estão preso em suas redomas.

    Por outro lado e muito bem colocado no texto, por motivos culturais, o povo brasileiro precisa mesmo aprender a se perguntar o que o estado não deve fazer.

  • Fábio Peres

    O que o brasileiro quer é um paradoxo: um Estado que funcione como iniciativa privada para servi-lo em suas necessidades.

    Embora esta visão não faça o menor sentido se considerarmos aquilo que o Direito Administrativo prega, da função do aparelho estatal como provedora de um “bem comum” para todos, estamos falando de um cidadão que se considera “dono” do Estado, e que, por sustentá-lo, tem o direito de ser tratado como consumidor dos produtos que esse mesmo Estado produz.

    “Eu pago impostos, e exijo direitos”. Assim é a cabeça do brasileiro.

    • Christian Zangrando

      Parabéns pelo argumento. Realmente acredito que sejam poucos que viram com clareza esse aspecto do brasileiro. Na verdade isso pode-se dizer que é quase toda América Latina…

  • Thiago Rossellini

    Bravo, Filipe! Ainda tratando da questão cultural e sua influência no imaginário, é possível também ampliar para uma parte dos próprios eleitores do Bolsonaro, haja vista que essa parte enxerga nele a solução para os problemas do país, ou seja, pela via política, que corrobora ainda mais com seu artigo. Um exemplo claro sobre a importância do trabalho cultural a ser feito diz respeito à questão do desarmamento. Há quanto tempo ouvimos e aceitamos a política do “não reaja”? Acreditar que elegendo Bolsonaro isso mudará é tão utópico quanto a promessa do paraíso na Terra. Acho que esse exemplo pontua claramente meu raciocínio em relação à importância do trabalho cultural e, consequentemente, do imaginário da população.
    Antes que alguém me ataque aqui, deixo claro que, sim, sou eleitor do Bolsonaro, mas de forma alguma cometerei a covardia de colocar no ombro dele toda a responsabilidade para as soluções dos problemas graves que têm o país.

  • Knight Templar

    Excelente texto, parabéns.

  • O Bolsonaro tá realmente com a faca e o queijo na mão, mas ele precisava era ser BOM DE BRIGA. Mas nãããão, ele prefere só ficar “mitando”. Nem processar seus inimigos ele processa. Do contrário, Jean Wyllys e Maria do Rosário já estariam comendo o pão que o diabo amassou.

    Enquanto isso, o Doria peita até a Amazon. E sai por cima.

    • Hique: de férias na Terra

      Acho que o Dória (apesar de estar num partideco de merda) é um candidato muito mais preparado para uma possível presidência.

      Se eu fosse o Bolsonaro, acompanhava de perto as propostas dele.

    • WillMDias

      Concordo.

      Bolsonaro precisa ditar as pautas das entrevistas.
      Sair do combo homofóbico/armas/machismo, mesmo que sejam pautados pelos entrevistadores.

    • E não foi uma peitada qualquer, foi algo classudo! E milimetricamente pensado, diria eu.
      Afinal, todos têm visto o Doria pagando de anti-establishment desde o início: fazendo parcerias, o Corujão da Saúde, doações de sabonete para mendigos e albergados, e mais recentemente a contratação por parte do McDonalds de uma ruma de desempregados e moradores de rua.
      Ninguém vai poder falar um nada contra ele, nem chamá-lo de hipócrita ou o que seja, afinal de contas ele só está convidando a Amazon a dar uma contribuição mais importante e visível do que colocar trechos de 50 Shades em paredes cinzentas que antes eram cobertas de grafites e pichações horrendas.

    • Giordano Santiago

      Concordo contigo.
      E falo mais: Apesar da gestão positiva do Doria até o momento, o dna tucano (e tudo que isso pode trazer de ruim junto) está ali; Bolsonaro é de fato o que está sem rabo preso com ninguém, e portanto não tem a necessidade que o Doria tem de agradar alguns caciques. Mas falta nele mesmo o detalhe que voce disse.

      • Douglas

        Ele não é bem quisto dentro do PSDB. Ele é anti-PSDB em sua essência, FHC e Serra nem estiveram na posse.

    • Rodrigo

      Com todo o respeito, o Bolsonaro é fraco e não há tempo de torná-lo minimamente instruído em cultura e economia, infelizmente. Meu entendimento é que ele deveria ser candidato ao Senado Federal, pra impedir que tenhamos a tragédia de elegerem Freixo e outro esquerdista pelo estado do Rio de Janeiro.

  • [NK] Sweetlemonade

    Bom texto

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