A revista da Abril cai numa historieta comum sobre Giordano Bruno para atacar a Igreja Católica. Quem era de fato o mais famoso dos hereges?

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Um jovem some no Acre. Em sua casa são encontradas mensagens em código, escritos que prometem “mudar o mundo” (conte uma novidade pelo menos nesses escritos, porque essa promessa é velha); quadro dele com um ET; e uma estátua de Giordano Bruno, seu ídolo e xará. O que é realmente preocupante é que o jovem sumiu! Sumiu deixando essa longa lista de nada de novo. Encontrem o rapaz primeiro, depois o elevem a profeta New Age!

No entanto, qual é a primeira coisa que uma revista decadente chamada “Super Interessante” (para quem?) escreve sobre o caso? Algo para baixar o sarrafo na Igreja Católica! A chamada diz: “Em uma era de opressão da Igreja Católica, o filósofo italiano afirmou que o universo é infinito, e que cada estrela tem seus próprios planetas”. Daí por diante, a matéria enumera, com aquele ‘rigor científico’ digno de um encontro de grêmio estudantil ou protesto organizado pela UNE, os muitos supostos méritos de Giordano Bruno, a quem o autor classifica como “filósofo, matemático, astrônomo, poeta e teólogo. Seu currículo é maior que uma nota fiscal de compra do mês”.

Será?

Giordano Bruno nasceu no então Reino de Nápoles, em 1548. Aos 17 anos entrou para a Ordem dos Pregadores, conhecida como os “Dominicanos”, em homenagem ao seu fundador, São Domingos. Durante seu tempo no seminário, Bruno começou a demonstrar sua verdadeira face, a de um aventureiro. Ele não tinha nenhum interesse em teologia católica, ou, de fato, qualquer sistema organizado de conhecimento. Sua disciplina (ou ausência dela) como estudante era desorganizada como o seu pensamento. Ele não tinha ordem, e seu interesse parecia variar com o momento. Na verdade, Bruno era próximo do que poderíamos chamar de um gnóstico em seu método, senão na prática.

A gnose é uma mistura não organizada de pensamentos, e essa é a única aparente regra teórica real das muitas faces da gnose. A face prática é o esoterismo, na forma de seitas iniciáticas. Por não ser parte de uma seita, Bruno dificilmente poderia ser chamado de gnóstico de facto. Porém, seu método de misturar neoplatonismo com pequenos pedaços de filosofia ocidental, oriental, teologias diversas e antagônicas, misticismo e pseudo-ciência, o aproximam do modus operandi dos pensadores gnósticos.

Giordano Bruno só foi realmente reconhecido por uma coisa: o desenvolvimento de métodos ‘mnemônicos’, técnicas de fortalecimento da memória. Ele prometia um método revolucionário que permitiria aos grandes pregadores católicos pregar por horas seguidas, um tipo de viagra para a memória. De tanto insistir que tinha um método, Bruno foi recebido por São Pio V. Porém, como em tudo o mais em sua vida, Bruno se mostrou um charlatão. Ele foi incapaz de explicar ou demonstrar seu suposto método para além de pequenos truques mnemônicos que não se enquadravam perfeitamente nem no termo ‘novidade’. Alguns tentam salvar sua pele dizendo que ele não queria revelar seu ‘método secreto’, mas isso seria terrivelmente estúpido, já que foi ele que pediu a audiência com o papa para ficar famoso, sua grande ambição na vida.

Se você for excomungado três vezes, pode pedir música no Fantástico?

Depois de seu primeiro grande fracasso (seriam vários), Giordano Bruno abriu o jogo e expôs sua completa falta de conhecimento teológico e filosófico, e admitiu não acreditar em nada do que a Igreja defendia. Antes de receber uma reprimenda, Bruno foge para a Suíça, onde se declara um Calvinista.

A professora Ingrid D. Rowland, doutora em literatura grega e arqueologia, escreveu uma biografia sobre Giordano Bruno. No livro, a autora explica que Bruno fugiu também por outro motivo, sua vida sexual desregrada. Chegando na Suíça, Bruno “perseguiu mulheres com franqueza Falstaffiana” (Ingrid D. Rowland, Giordano Bruno, Philosopher Heretic). Ao que parece, não era seu apetite intelectual que o diferenciava de seus colegas dominicanos.

Como a maioria dos charlatões, Giordano Bruno era indiscutivelmente carismático. Sua história é de alguém que, por um curto período de tempo, consegue convencer a todos sobre seu conhecimento e idéias revolucionárias. Depois de um tempo, ele era descoberto e era obrigado a fugir. E assim foi na Suíça! Vale notar que a Inquisição Calvinista era muito mais rápida e rígida que a Católica, e Bruno foi excomungado e condenado como herege praticamente sem processo. A fuga foi mais rápida ainda.

A França seria a sua próxima parada. Vendendo o seu peixe bem como sempre, Bruno se torna tutor do monarca, Henrique III. Aparentemente, mais uma vez oferecendo seu “método mnemônico”, a única coisa que ele parecia apresentar mais ou menos com alguma metodologia, ainda que incompleta e confusa.

Com a ajuda de seus colegas de um círculo de poesia e nobres da corte, o destemido charlatão passa por um processo para se tornar professor na prestigiosa universidade de Oxford, na Inglaterra. Mais uma vez, ele falha miseravelmente. Ao ponto de se tornar chacota. Bruno teria apresentado, como sempre, uma mistura do trabalho de vários astrônomos e matemáticos. Acusado de plágio e burrice (sim, de ser idiota) pelo reitor, ele retorna para a França.

Em Paris, Giordano Bruno começa a mostrar sinais de que sua loucura não podia ser controlada. Ele escreve um livro que, de acordo com ele, representava um avanço na filosofia natural. Na verdade, seu ataque a Aristóteles foi mais uma vez ignorado como obra intelectual séria. Seus ataques seriam dirigidos a todos os que riram dele e suas teorias. Matemáticos, astrônomos, filósofos, teólogos etc.

O ‘incompreendido’ Bruno, então, tenta a vida na Alemanha. Nessa época, ele  já assumia abertamente sua mistura de pseudo-intelectualidade com ocultismo. Seus trabalhos sobre a magia e a sua influência no universo são a base da maioria das teses conhecidas do autor sobre cosmologia. As mesmas que hoje são ‘desinfetadas’ para parecer trabalhos científicos sérios. Curiosamente, Bruno consegue enganar a faculdade de Helmstedt, e se torna professor por pouco tempo. Apenas o suficiente para ser excomungado pela igreja Luterana. Temendo por sua vida, o charlatão foge novamente.

Seu único feito até aquele momento era ter conseguido ser excomungado três vezes!

Veneza e a fogueira das vaidades

Rejeitado em todos os lugares, “livres pensadores” como Giordano Bruno só podem culpar a si mesmos por seus fracassos. Mas como é o mais comum, eles culpam os outros. Principalmente, é claro, as instituições e religiões.

Em Veneza, Bruno encontra refúgio na casa de um amigo. O que acontece em seguida se tornou ainda mais claro para os biógrafos modernos: ou Bruno avançou sobre o dinheiro do amigo, ou sobre a mulher dele! Talvez os dois! De qualquer forma, Giordano Bruno foi entregue às autoridades em 1592. Sua obra teológica (sic) era formada apenas de chacota e afronta juvenil. Ele flertava com qualquer heresia para afrontar a Igreja, tendo notoriamente escrito em defesa do Arianismo, uma heresia cristológica.

Como a enorme maioria dos julgamentos da época, o de Giordano Bruno foi encomendado pela autoridade secular, que considerava, não sem razão, Bruno um agitador com laços profundos com outras nações. Seu trabalho era considerado perturbador, mas a monarquia nada podia dizer sobre o conteúdo da sua obra. Esse trabalho, mais uma vez, seria da Santa Inquisição.

Código Marciano do Manual do Escoteiro MirimO julgamento de Giordano Bruno foi inteiramente sobre teologia, como sempre foi o escopo do trabalho dos tribunais inquisitoriais. Nenhum autor honesto pode discordar disso, já que os processos são bem documentados. Ao contrário dos tribunais protestantes, que decidiam imediatamente se a pessoa era um herege ou não, o julgamento de Bruno durou aproximadamente sete anos! Durante esse período, ele teve a oportunidade de travar amplo diálogo com gente altamente qualificada, como São Roberto Belarmino.

Em certo momento do processo, ele quase foi liberado. Porém, ao que parece, a cabeça de Giordano Bruno não era mesmo muito sã. No meio de seu julgamento, ele voltou a assumir a personalidade agressiva e irônica que tantas vezes o atormentou e aos outros. Após voltar atrás e fazer diversas acusações, ofensas, e entrar de cabeça na heresia, Bruno passou à última etapa do processo, quando o acusado pode renegar seus erros.

As possibilidades para quem confessava seus erros eram muitas, como viver enclausurado em um mosteiro, ou ser libertado sob a promessa de não mais escrever, ensinar ou pregar heresia. Nada sobre seu trabalho astronômico ou matemático, apenas teológico. Tendo recusado, Bruno foi declarado um herege e… apenas entregue às autoridades seculares. Nada de punições gráficas, tortura etc. A lei secular foi responsável pela sua condenação à fogueira. Mas foi a sua vaidade que o levou até lá.

Giordano Bruno foi devidamente esquecido durante séculos. Seu trabalho é de uma irrelevância impar. Apenas no século XIX, os filhos do iluminismo, em sua cruzada secularista, decidem usar o autor como um “mártir da ciência”. Após a derrubada dos reinos da Itália, a unificação e a tomada das terras papais, os humanistas italianos erguem a famosa estátua de Giordano Bruno como provocação à Igreja. Daí por diante, o autor, sem qualquer mérito, passa a ser parte de mais uma lenda negra sobre a perseguição da Igreja e o seu ‘ódio à ciência’.

As teorias científicas de Bruno, se retirarmos todo o ocultismo, como os planetas serem sustentados por forças místicas e multiplicados por forças ocultas, não são originais ou revolucionárias. A idéia de que a Igreja combatia a ciência sob a forma do heliocentrismo é ridícula! A Igreja era a grande patrocinadora da ciência! Nicolau Copérnico, formulador do modelo heliocêntrico baseado em pensadores desde Aristarco de Samos, era um padre!

Alguns autores modernistas tentam passar a idéia de que ele foi apenas um coroinha, mas o fato é que Copérnico chegou a ser comunicado da possibilidade de ser elevado ao episcopado, o que seria impossível para um leigo de sua época. No mais, os maiores apoiadores das obras de Copérnico foram os papas Clemente VII e Paulo III, a quem Copérnico dedica sua principal obra “De revolutionibus orbium coelestium“. Quem combatia as idéias científicas de Copérnico, Giordano Bruno, ou Galileu, era a própria ciência da época. A Igreja só se preocupava com a sua teologia.

O falso Giordano Bruno é um mártir da ciência, oprimido pela malvada Igreja Católica por suas idéias avançadas e libertadoras da opressão do obscurantismo religioso. O verdadeiro Giordano Bruno foi um grande charlatão. Alguém que jamais foi levado a sério até a revolução iluminista o escolher como símbolo de sua cruzada secularista.

É uma pena que um jovem esteja desaparecido. Esperemos que o jovem seja encontrado bem e largue seus falsos ídolos. Já do humanismo militante e de seus frutos, tablóides tolos como a Super Interessante, ninguém espera nada.

            Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

            um Papista.

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  • Jeferson Jef

    Coitado desse jovens que perdem tempo e energia no nada. Qual é ofuturo dessa geração imensa de jovens, adolescentes e crianças (sim crianças) entregues às drogas, indisciplina, libertinagem, destruição de patrimônio público e privado, dentre tantas outras coisas ruins ?

  • Robson Jorge

    O autor expõe sua opinião baseado em dados que apenas a corroboram. Em nenhum momento cita que a leitura de Copérnico (e principalmente a defesa de seu heliocentrismo) era condenada pela Igreja. Ademais, culpa a vítima por sua morte. Por mais imbecil, rebelde ou farsante que tenha sido Giordano Bruno, foi o obscurantismo religioso quem o queimou. E Galileu quase teve o mesmo destino. Vejo no articulista a mesma ideologia torta que a esquerda patológica utiliza para corroborar sua opinião: na ausência de defesa, parte-se para o ataque!

    • Igor Praça

      Não teria dito melhor…

  • Mefis Tofeles

    Entendi, se falou algumas merdas é perfeitamente admissível morrer queimado, simples assim, problema dele, a Igreja é perfeita….

  • Bruno Villela

    quanta baboseira junta. Só de dizer que o universo é infinito e propor a existência de vários mundos como a terra ele já se mostrava séculos a frente da igreja católica.
    Essa única afirmação já lhe garante um posto muito mais alto do que qualquer instituição religiosa, notadamente conhecidas por atrapalhar a evolução científica.

    • Andrei RZ

      Balela! Bruno, Nicolau de Cusa propôs isso um século antes de G. Bruno, Cusa era Padre e tornou-se um Cardeal da Igreja sem sofrer censura alguma (Cardeais são como consultores do Papa, só pessoas muito capacitadas são escolhidas). A idéia de Bruno não era herética por contar com “diversos mundos”, mas sim por afirmar que cada mundo possuía uma eternidade própria, o que contraria o Gênesis (e tbm a Teoria do Big Bang). Além disso, Bruno defendia a metempsicose e mais uma porrada de heresias como o texto mostra.

  • Shulk

    Ah, os bons velhos tempos….

  • Shulk

    “A idéia de que a Igreja combatia a ciência sob a forma do heliocentrismo é ridícula!”
    É tão ridícula que o livro de Copérnico foi proibido e adicionado ao Index Librorum Prohibitorum, e Galileu foi condenado por defender o modelo heliocêntrico.
    O próprio texto se contradiz quando afirma que a Igreja era uma grande apoiadora e patrocinadora da ciência e em outro momento diz que a Igreja só se preocupava com sua teologia.

    Enfim, um texto péssimo, cheio de contradições e falsas informações, algo do nível do que se lê no DCM, Carta Capital e afins.

    • Galileu foi condenado por tentar reescrever a Bíblia (sic) e por questões teológicas. Só na Superinteressante (ou DCM e Carta Capital, claro) você vai encontrar “estudiosos” que JURAM que Galileu foi condenado por heliocentrismo (e que disse “Eppur si muove!”, frase mais falsa do que a tipicamente atribuída a Voltaire). Por isso gostamos de pensar fora desse senso comum deturpado.

  • Leniéverson

    Eu sou jornalista e não vi nada demais. Além disso, Paulo, o autor do texto não está fazendo una tese de mestrado ou doutorado. Está apenas exercendo sua liberdade de expressão que você não está respeitando.

  • Felipe Martinelli

    O Neil Degrasse Tyson sozinho contribuiu mais para o avanço da humanidade que todas as religiões somadas.

    • Leniéverson

      Se você não gostou do post e acha que Deus não existe, tá fazendo aqui? O blog da ATEA e o do Paulopes estão te esperando. Vai lá nesses lugares, que são adequados e específicos pra você

  • Felipe Martinelli

    Se você falar um monte de bobagens, e tiver um julgamento de sete anos, ai tudo bem ser queimado numa fogueira.

    PS: Deus não existe, abraços.

    • Leniéverson

      Se você não gostou do post e acha que Deus não existe, tá fazendo aqui? O blog da ATEA e o do Paulopes estão te esperando. Vai lá nesses lugares, que são adequados e específicos pra você.

  • Bem lembrado, o Washington Irvine, num conto, inventa de que Cristóvão Colombo foi à Universidade de Salamanca “ensinar” que a Terra era redonda, o que já se sabia desde a Antigüidade (até Dante entra no inferno por um lado da Terra e sai pelo outro).

  • As fontes estão no texto, inclusive linkadas, e com links para os livros no fim.

    • Paulo Maurício M Magalhães

      Devo ressaltar ser Livro, no singular e não no plural, posto que apenas um é referenciado no texto. E em segundo lugar o livro citado já na sinopse diz:
      “Writing with great verve and sympathy for her protagonist, Rowland traces Bruno’s wanderings through a sixteenth-century Europe where every certainty of religion and philosophy had been called into question and shows him valiantly defending his ideas (and his right to maintain them) to the very end. An incisive, independent thinker just when natural philosophy was transformed into modern science, he was also a writer of sublime talent.”
      Logo a acidez do articulista é sua interpretação pessoal dos fatos. É lógico que ele tem a total liberdade de ter sua fé e expressa-la da maneira que julgar mais apropriada; mas que isso fique claro, e não se dê a impressão de estar enunciando fatos e nem mesmo de contar com a concordância de autores que claramente discordam de sua posição.
      A propósito, entre os livros linkados no final há uma obra de FICÇÃO ( O nome da Rosa de Humberto Eco) onde a Igreja MATA justamente para esconder uma verdade incômoda.

      • Paulo, você está fazendo uma resenha de uma… resenha, é isso? Sim, no final há links para diversos livros, inclusive um romance de um não-cristão. É assim que formamos nossa mente e nosso imaginário, e nem precisamos concordar com tudo. Abraço.

  • Tá igual o menino do Acre.

    • Douglas

      kkkkkkkkk

  • Não passou no rigor do Tribunal dos Comentários de Internet.

    • Paulo

      Por que existiu o Renascimento então, se já era tudo uma beleza?!

    • Ailton Ferreira

      Brigadão Flávio, vou atrás agora desses ai, e já tô seguindo tua indicação no último podcast e comecei a Eneida de Virgilho.

      abraço

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