O mesmo argumento usado para soltar o goleiro Bruno é usado para soltar José Dirceu. A esquerda tem um norte: bandido bom é bandido solto.

José Dirceu pode ser solto nesta terça-feira, segundo ameaça do STF. O argumento é o de que Dirça ainda não foi julgado e, por lei, tem o direito de responder ao processo em liberdade. O julgamento pela segunda turma da Suprema Corte ocorre no mesmo dia em que se apreciou se o goleiro Bruno deveria voltar à prisão, causando um enxame de comparações e piadas na internet.

A grande questão que não foi apreciada é que o Brasil não é um país para principiantes, e ficcionistas não têm espaço em um país cujo realidade é surrealista: o primeiro a fazer uma comparação entre a soltura do goleiro Bruno e a prisão de Dirceu não foi ninguém menos do que Rui Falcão, o próprio presidente do PT.

Há menos de um mês, Rui Falcão escreveu um artigo declarando que se o STF decidira por acatar o habeas corpus do goleiro Bruno de Souza, condenado pelo homicídio de Eliza Samudio, deveria agir com coerência e acatar igualmente todos os pedidos de habeas corpus em tramitação na Suprema Corte, como os do ex-tesoureiro do PT João Vaccari e dos ex-ministros José Dirceu e Antonio Palocci.

Para confirmar que todas as piadas são ainda mais verdadeiras, realistas e naturalistas do que nosso vão noticiário, o argumento do habeas corpus do goleiro Bruno realmente utiliza o mesmíssimo argumento utilizado pela defesa de José Dirceu para soltar ambos os bandidos: que o réu ainda aguarda julgamento de recurso na segunda instância.

O goleiro Bruno foi condenado a 22 anos anos e 3 meses em regime fechado pela morte de Eliza Samudio. José Dirceu foi condenado a 23 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro. A pena, mais tarde, foi reduzida a 20 anos e 10 meses. Dirceu tem ainda uma segunda condenação, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, com pena de 11 anos e 3 meses de reclusão. O juiz Sergio Moro ainda estipulou uma multa de R$ 774 mil.

A tese de Rui Falcão foi espelhada por um grande acólito do petismo para a mídia: Alex Solnik, infame por afirmar que black blocs são de direita porque “usam máscaras” (sic). Alex Solnik escreveu para o site petista Brasil 247 o artigo intitulado Ou soltam Dirceu ou prendem Bruno de novo, cujo título fala por si.

O que o STF acabou por decidir foi pelo retorno do goleiro Bruno à prisão. Na mesma toada, ainda liberou da prisão domiciliar o pecuarista José Carlos Bumlai, o “dono” do sítio em Atibaia, cujos pedalinhos têm os nomes dos netos de Lula. Bumlai sofre de câncer terminal, o que deve ter pesado para a decisão de livrá-lo até mesmo da prisão domiciliar.

Coitadismo penal

A soltura do goleiro Bruno de Souza causou uma das raras unanimidades no país cada vez mais bipolarizado: direita e esquerda acharam um absurdo que o ex-goleiro do Flamengo, acusado de planejar e encomendar o assassinato de Eliza Samudio, ex-atriz pornô que engravidou do goleiro e queria dar à luz à criança e que o jogador pagasse pensão do filho. Seu corpo nunca foi encontrado, mas provavelmente foi espancada até a morte e posteriormente esquartejada, tendo suas mãos comidas por Rottweillers.

Como o presidente do PT Rui Falcão e o petista Alex Solnik consubstanciam à perfeição, um assassino frio que não demonstra o menor arrependimento ou qualquer sentimento de culpa ou remorso pelo assassinato como o goleiro Bruno só volta às ruas graças aos ditames do pensamento de esquerda.

É a esquerda que possui “teses” ou, na verdade, frases de efeito e cacoetes verbais como “cadeia não resolve”, “o importante é ressocializar”, “polícia mata”, “legalize o aborto”, “meu corpo, minhas regras” e outros bordões repetidos acerebralmente pela militância em 140 caracteres. É a esquerda que acredita que leis penais, mormente quanto a temas que envolvam crimes de sangue e correlatos, têm apenas o fito de “criminalizar os pobres” (em sua visão, todos criminosos), como o ex-favelado goleiro Bruno.

É o que se chama de coitadismo penal: a idéia do Direito Penal Abolicionista (pregada por Juarez Cirino dos Santos, advogado mais óbvio do ex-presidente Lula), ou do Direito Penal Mínimo como meio para se atingir o Abolicionismo (o Direito Penal Mínimo como fim, a separação extrema de penas entre crimes brancos e de sangue, é defendido, por exemplo, pela doutora Janaína Paschoal). Toda uma cultura baseada na idéia estúpida de que criminosos, incluindo assaltantes, seqüestradores e assassinos, são coitadinhos. A culpa seria da sociedade, e não dos criminosos.

A simples materialização de suas próprias teses, atacadas pela direita todo santo dia, faz com que a esquerda se indigne. Não com seu próprio discurso, mas com a injustiça absurda de um homicida que mata uma mulher para não pagar as contas do filho (preferia que Eliza Samudio o abortasse), negando-se a cumprir seu papel de pai de família.

Preferindo o prazer fácil, o hedonismo irresponsável e negando a “família tradicional”, o goleiro Bruno seguiu pari passu o que a esquerda prega, mas quando feministas, esquerdistas e progressistas viram o próprio Frankenstein que criaram, tão lindo e defensável em abstrato, tão absolutamente horrendo, fétido, abissal e sulfúrico quando adquire carne e osso nas tessituras da realidade concreta.

Assim que viram seu monstro, esquerdistas abandonaram o discurso do “crime é culpa do social” e de “cadeia deve reeducar” e exigiram o retorno do goleiro Bruno à prisão – não em busca de “reeducação”, mas de simples punição por seu crime, como qualquer pessoa dotada do super-poder de enxergar o óbvio quando esfregado no nariz sabe que é a função primordial de uma cadeia ao lidar com um homicida. Foi-se a defesa do aborto, a crítica à família tradicional, a noção transfigurada de que justiça é soltar criminosos, e não prendê-los: acreditando que “esquerda” e “feminismo” são o contrário do que são, todas passaram a defender o que a direita sempre defendeu, sem palavrinhas chics para universitários se sentirem “intelectuais”.

A esquerda, que tem sua revelação com um livro sobre juros, e hoje se refugia nas ciências sociais e na crítica literária, é hoje pura estética: palavras que geram uma reação imediata (daí seu vocabulário ora hiperbólico, como “fascista”, ora pornograficamente eufemístico, como “interrupção da gravidez”). Esquerdistas adoram o palavreado do coitadismo penal, mas são de todo incapazes de formar conceitos de suas palavras, extrair idéias de seus vocábulos, organizá-los em silogismos para repudiar idéias que soem verdadeiras, como “desigualdade social”, sem precisar concretizá-las à custo de sangue alheio.

Rui Falcão e Alex Solnik sabem o que fazem, e sabem que só usam um discurso para proteger seus cupinchas usando a militância como peões. Já os militantes, acham que têm o poder de fogo de um Rui Falcão ou Alex Solnik, mas são apenas buchas de canhão e peões cuja maior glória na vida é serem substituídos por peças que interessem mais a quem está jogando o xadrez a sério.

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  • Obrigado, Antonio, já enviarei! Fico honradíssimo, sempre quis entender melhor essa questão, embora não seja do Direito e não entenda essa língua que vocês falam. 😀

  • Tutameia

    Recentemente na TV (onde mais?) um desses Humans Right Watch que abundam nesses lugares dizia com todas as letras: “mas, veja bem, o crime somente ocorre pq existe uma definição legal dizendo; tal coisa é crime – tipo matar alguém é crime – e se vc suprimisse tal dispositivo não existiria crime algum”..não é uma solução genial???

    • Ilbirs

      Vamos lembrar que na cabeça dessas pessoas a solução para a falta de moeda como ferramenta de troca no dia a dia é imprimir mais dinheiro, não sendo de surpreender o uso da mecânica do absurdo para todos os aspectos da vida de uma sociedade.

  • Ilbirs

    Mais uma para estranhar ainda mais o teor do texto de Su Tonani acusando Zé Mayer de assédio: ela decidiu não processar o ator após tê-lo acusado daquilo que acusou e ter apontado a existência de pelo menos 32 testemunhas, isso tendo sido antecipado por não ter comparecido à delegacia. Portanto, desconfiarei ainda mais de que aquela acusação saindo de um blog feminista da Folha e depois acompanhada pelo depoimento do ator na realidade seria algum “apito de cachorro” em que as acusações de assédio seriam o disfarce para o real sentido contido nas palavras aparentemente duras. Temos também a história da fotógrafa que surgiu com a campanha recicladora de hashtag e responsável pelas camisas usadas pelas globais. Pode até mesmo o depoimento de José Mayer assumindo a autoria também ter sido “apito de cachorro” e combinado com as donas em questão, ainda mais considerando o passado esquerdista do ator.

    PS ao Flavio Morgenstern e a quem cuida do Senso Incomum: mudem aqui no Disqus a cor com que aparecem os hyperlinks nos comentários. Eles estão aparecendo na mesma cor preta do texto corrido e dificultando que as pessoas saibam se o comentário de fato os tem. Adotem alguma cor contrastante que seja, podendo ser o mesmo vermelho que vemos nos hyperlinks do texto dos artigos.

  • Antônio Jr

    Eu também sou entusiasta do Direito Penal Mínimo (DPM). Só faria um adendo ao seu texto: a distinção entre “crimes brancos” e “crimes de sangue” não me apetece. Uma troca de sopapos entre dois marmanjos, via de regra, resulta num nariz vertendo sangue. Algo reprovável, mas de repercussão limitada. No entanto, aquele sujeito descolado da universidade, amigão da galera do DCE, que vende maconha, ecstasy e metafentamina não resulta de maneira imediata nalguma gota de sangue, mas sua conduta acarreta uma corrosão social imensa.
    Desse modo, prefiro os termos de crimes de menor ou maior potencial ofensivo. Naqueles delitos de menor potencial ofensivo, acredito que outros ramos do Direito sejam mais eficazes e que podem retributivamente repreender o indivíduo. Inclusive é com base nessa premissa que num artigo meu defendi a tese da inconstitucionalidade da Lei 11.705/2008 (vá lá, Lei Seca), por ter ferido de morte os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. Nos de maior potencial ofensivo sou absolutamente austero. Tanto é que defendo a aplicação em casos extremíssimos e de maneira deveras criteriosa do chamado direito penal do inimigo.

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