Há muito a se comentar por meses sobre o depoimento de Lula a Sérgio Moro. Mas algumas notas dão o tom do fim. Por Taiguara Fernandes.

A versão de Lula é a seguinte: ele não sabia de nada sobre o apartamento. Só soube dele em 2005, quando a esposa comprou (o simples), e veio ter notícias de novo em 2013, através do Léo Pinheiro. Sobre o triplex, não sabe nada, nem assinou nada, nem tinha intenção de adquirir nada.

Essa é a tese de Lula em seu depoimento. Nada além do já conhecido. Podemos analisar mais alguns trechos que merecem destaque de seu depoimento.

Lula afirma que esteve no triplex porque, como todos os apartamentos foram vendidos (inclusive o simples dele, o 141, que Marisa autorizou vender em 2011, quando ele teve câncer), o Léo Pinheiro convidou-lhe a conhecer um último apartamento que estava disponível e que ele queria vender “de qualquer jeito”.

Ele diz que foi lá, colocou 500 defeitos no apartamento e nunca mais tratou sobre.

A versão de Lula é que Léo Pinheiro, por querer vender o apartamento de todo jeito, fez as reformas.

Marisa teria feito uma segunda visita “para dizer que ele não teria interesse no apartamento”, pois o apartamento era muito pequeno para uma família de 5 filhos e 8 netos e ele não poderia, de todo modo, ir à praia, por ser uma pessoa pública.

Marisa queria o apartamento para investimento, mas Lula não tem conhecimento se ela resolveu isso. O problema é que, no inquérito policial, quando a esposa ainda estava viva, Lula disse o contrário: que ele mesmo tinha decidido tudo, com conhecimento de causa, e não Marisa.

Parece que, após o falecimento da esposa, a versão mudou…

Quando Lula começa a se irritar, os seus advogados criam questões de ordem processuais (repetidamente) — sacadas, às vezes, da cartola — para que ele possa ter um tempo de se acalmar e não falar bobagem.

Lula fala sobre as acusações do Ministério Público: “quem conta uma mentira passa a vida inteira mentindo para justificar a primeira mentira”.

Sabemos disso, Lula.

Depois, se irrita e acusa a Lava Jato de tentar derrubá-lo. Moro é direto: “o senhor entende, então, que existe uma conspiração?” Lula, batendo pino: “não, não…”

O megalomaníaco dispara: “Vocês estão julgando aqui Lula, O Presidente da República!” [irritado, dedos em riste].

Às 2h20min de depoimento, diz Moro: “Senhor ex-Presidente, deixe-me ver se eu entendi: o senhor está dizendo, então, que a corrupção fomenta a economia e o combate à corrupção a destrói?”

A partir de 2h28min começa uma das melhores partes do depoimento, que não posso resumir aqui: quando Sérgio Moro questiona Lula a respeito do Mensalão. Debates acalorados entre a defesa de Lula e o Professor René Ariel Dotti, advogado da Petrobrás, precedem as questões. Prestem atenção às mãos de Lula e aos sorrisos debochados. A linguagem corporal indica muito.

2h43min: René Ariel Dotti, advogado da Petrobrás, do alto dos seus 83 anos, teve uma atuação espetacular no depoimento, explicando aos colegas mais jovens como se age com o juiz numa audiência — e ainda deu lições de educação.

Já a partir de 2h45min, Sergio Moro questiona Lula sobre todas as suas tentativas de intimidação e de criminalização dos agentes da Lava Jato — inclusive dele mesmo. Lula foge de fininho.

A partir de 2h50min, Moro questiona Lula sobre a ameaça de palanque de que ele “mandaria prender” os agentes da Lava Jato.

Lula: “foi só força de expressão?”

Moro: “e o senhor acha adequado usar esse tipo de expressão? O senhor vai mandar prender os agentes públicos?”

O diálogo é curioso — e a postura mansa do boquirroto Lula é mais ainda.

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