Choca a normalidade com que tratam no Brasil o e-mail de Dilma, iolanda2606, data do assassinato de Mário Kozel Filho por sua VAR-Palmares.

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A menos que você tenha passado os últimos dias num buraco, já deve saber que Monica Moura, mulher do marqueteiro João Moura, apresentou impressão da tela de um suposto e-mail criado pela então presidente Dilma Rousseff para que se comunicassem na troca de informações privilegiadas transmitidas por José Eduardo Cardoso, à época Ministro da Justiça.

O teor da prova será aquilatado nos autos do processo, até mesmo sua veracidade, mas, de plano, o que mais chama atenção é o nome escolhido para o e-mail: iolanda2606@gmail.com.

Segundo a delatora, a nomenclatura teria sido escolhida pela própria Dilma, sendo Iolanda o nome da esposa do general Costa e Silva.

E 2606? A data de 26 de junho de 1968 foi a data em que o soldado Mário Kozel Filho foi morto em um ataque da Vanguarda Popular Revolucionária ao Quartel General do II Exército, na cidade de São Paulo, durante o governo do marechal Artur da Costa e Silva (marido de Iolanda), segundo presidente do Brasil durante o regime militar (1964-1985).

O menino Kozel, então com dezoito anos de idade, iniciara há seis meses o serviço militar obrigatório, deixando de lado suas aulas e o trabalho que exercia com o pai na Fiação Campo Belo. Na data fatídica, o soldado, vendo que um veículo batera no muro da unidade, correra com boa vontade para acudir eventuais ocupantes. Não sabia ele que se tratava de um carro não pilotado, uma armadilha feita por terroristas. Seu corpo foi despedaçado na explosão de vinte quilos de dinamite.

A ex-presidente Dilma Rousseff fazia parte da Vanguarda Popular Revolucionária, embora não existam registros da participação dela no dia do ato.

A veracidade sobre quem de fato criou o e-mail será apurada, mas ele existe, e o simples fato de existir demanda profundas reflexões. Os indícios apontam de forma incisiva de que a criação do e-mail seja uma lembrança do nefando ato de terrorismo homicida.

Apenas uma mente desprovida de compaixão poderia se comprazer em celebrar a morte de um jovem de forma barbara, na tentativa canhestra de implantar o regime comunista no Brasil, substituindo uma ditadura por outra, e não pela propagada Democracia.

Criado pela ex-presidente ou não, a inserção da data como recordatório ultrapassa, em muito, o mau gosto e invade a seara da psicopatia, daqueles que vêem o outro como objeto para uso e descarte.

A história brasileira recente está recheada de injustiças e de omissão dos seus heróis. Cerca de nove anos após a morte de Kozel, outro militar morria.

Em 27 de agosto de 1977, o 2º sargento do Exército Sílvio Delmar Hollenbach estava passeando com sua mulher e quatro filhos no Jardim Zoológico de Brasília quando viu uma criança cair no poço das ariranhas.

Sem pensar duas vezes, o militar disse à sua esposa “tem gente lá dentro”, e se atirou em socorro, conseguindo salvar o menino, não sem antes sofrer severas lesões do ataque dos animais que estavam protegendo seus filhotes. O sargento veio a falecer três dias depois no Hospital das Forças Armadas com mais de cem lacerações, agravadas pela água pestilenta do fosso.

Todos os filhos do heróico sargento se projetaram na vida de forma honesta. Sílvio Delmar Hollenbach Júnior hoje é medico e salva vidas em Brasília.

Já a criança retirada do fosso nunca agradeceu à família de seu salvador nesses 40 anos. Inclusive, procurada em 2010 pelo Jornal Zero Hora, optou por manter o silêncio e nada falar sobre o caso.

Quem era o indivíduo? Adilson Florêncio da Costa, ex-diretor financeiro da Postalis, preso por ordem judicial em junho de 2016 na Operação Recomeço, acusado do desvio de R$ 90 milhões dos fundos de pensão dos funcionários dos Correios e da Petrobras, cujo processo ainda está em tramitação.

Histórias diferentes, mas com um fio comum: a inversão de valores, com os falecidos e seus familiares permanecendo no anonimato, enquanto os envolvidos ganharam protagonismo e cargos políticos.

Alguém envolvido num dos maiores escândalos de corrupção do mundo, que pode ou não ser a ex-presidente, criou um e-mail celebrando a morte do jovem Mario Kozel. Adilson, supostamente envolvido no escândalo da Postalis e da Petro, nunca agradeceu aos filhos e à viúva pelo sacrifício final do herói Hollenbach.

Embora Adilson fosse um infante na época dos atos de terrorismo dos grupos de esquerda contra o regime ditatorial militar, em sua vida adulta esteve envolvido com políticos que já atuavam no referido período.

Aliás, o fim da ditadura e o início da democracia que, gize-se, não era desejada pelos grupos terroristas, cuja intenção era implantar um regime nos moldes soviético, gerou, porém, significativo ganho a inúmeras pessoas, com a chamada anistia geral para ambos os lados e a outorga de aposentadorias especiais e indenizações milionárias pagas pelo Estado brasileiro.

Como o Estado é uma ficção e sua renda é obtida de tributos, foi paga, em verdade, pelos contribuintes, os mesmos que foram vítimas tanto da censura da ditadura quanto dos atos criminosos e terroristas de muitos que, posteriormente, continuaram suas vidas como políticos ou de qualquer forma auferindo renda vinculada à máquina estatal em cargos de diretoria, gerência ou em associações ou sindicatos.

A família de Mário Kozel, o Kuka, que fazia parte do Grupo Juventude, Amor, Fraternidade, fundado pelo padre Silveira, da Paróquia Nossa Senhora da Aparecida, no bairro de Indianópolis, não teve homenagens ou indenizações vultosas. Só um caixão fechado.

A família de Hollenbach não teve nem um obrigado.

Em ambos os casos, Kozel e Hollenbach se preocuparam em ajudar, colocando o interesse do próximo acima do seu. Em ambos os casos, foram traídos.

Mas o destino é uma coisa curiosa e não há ponta solta. O dia da morte de Kozel pode agora lançar mais luz e desenrolar mais fatos na apuração dos crimes contra a humanidade praticados em escala inédita no Brasil.

A atitude heróica de Hollenbach permitiu que o resgatado viesse a crescer e ser mais uma possível peça no jogo da corrupção que consome o Brasil há tempos. Fosse outra pessoa, talvez os fatos não viessem a ser descobertos, talvez a corrupção continuasse oculta.

Jorge Luis Borges possui um livro excelente chamado História Universal da Infâmia, cuja proposta é narrar vilanias do passado. Nele, há o conto sobre o grosseiro mestre de cerimônias Kotsuké no Suké, que deu ensejo ao épico episódio dos 47 ronins.

Em outra oportunidade me ocuparei desse edificante acontecimento histórico, mas, resumidamente, trata de como a maldade de uma pessoa serviu para fazer brilhar a virtude de outras.

Não diferentemente do que propõem diversas filosofias, e a própria física, a sombra é necessária para que seja possível enxergar, pelo contraste, o que existe. Sem o parâmetro do mal, não é possível divisar o bem.

O Brasil está diante de uma encruzilhada em que pode escolher seguir um caminho de transparência e ética ou afundar-se de vez na vilania e na idolatria a criminosos empedernidos e caudilhos arbitrários.

A luz lançada sobre o caso exige uma visão crua dos fatos, sem paixões e idolatrias políticas.

A forma como o Estado brasileiro foi aparelhado para perverter a verdade e subverter os fatos, não raro os suprimindo, é nítida. A implantação ideológica em seus vários meios e o patrulhamento da liberdade de expressão vigem não só no âmbito político, como também na mídia e nos meios acadêmicos.

O indivíduo é “aliviado” da carga de pensar por uma cartilha ideológica implantada que atende a interesses de poucos em desfavor do povo, e, no âmbito jurídico, isso reflete não só na criação de leis oportunistas, como a de abuso de autoridade e os inúmeros perdões fiscais, como também na exigência de que sejam interpretadas pelos juízes seguindo este ou aquele padrão ideológico.

É curioso que a história de Hollenbach foi contada por meu pai quando eu era ainda bem criança, e a impressão que me causou fez com que jamais a esquecesse.

Meu pai não é de esquerda ou de direita, é um homem honesto que trabalhou muito para criar dois filhos. Os maiores presentes que recebi dele foram um exemplo ético, compromissado com a verdade, não com ideologias, e o prazer da leitura, sempre cercado de livros.

Seguramente outros pais, mães e parentes diversos contaram, e contam, às suas crianças episódios como esse, que servem para fixar quais os parâmetros de certo e errado.

Nós temos muitos heróis, a maioria, se não todos, excluídos da história pela narrativa que transformou genocidas e terroristas em exemplos de virtude e hoje contribuem para um país rachado, em crise, dominado pelo crime e pela corrupção e mais violento que zona de guerra.

Não precisamos de ditaduras comunistas ou militares. Precisamos de mais verdades. De mais pessoas dispostas a se preocupar com o próximo.

Você, leitor, consegue imaginar algum político, profissional da mídia ou jornalista que defende partido ou eminência parda no poder que se jogaria no poço das ariranhas para salvar uma criança?

Tenho certeza que você, porém, conhece vários anônimos que o fariam.

É preciso resgatar o que há de seguro na humanidade, o próprio senso da humanidade, perdido em teorias e relativizações, cujos frutos amargos agora são provados pelo brasileiro que terceirizou a políticos o dever pessoal de salvar-se.

Um fato é um fato, e não se pode mais permitir que manobras jurídicas ou interpretações filosóficas lisérgicas digam o contrário.

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  • Odilon Rocha

    Texto magistral. Excelente lembrança a do Sargento Hollenbach. Conheci a pessoa que casou com a viúva.
    Ditaduras, não importa o espectro, são todas iguais: totalitárias e sufocantes. Algum cubano ou norte-coreano se dispõe a discordar?
    No entanto, uma coisa tem de ser dita, sem obviamente compactuar com o aspecto intrínseco de regimes antidemocráticos; o regime militar, tenha sido ou não uma ditadura ou, como muitos dizem, uma ‘ditamole’, a situação exigiu aquelas medidas. E nessas oportunidades sempre surgem excessos, naturais do esforço de se contrapor (os justiçados, se pudessem falar, que o digam!).
    Hoje, sem ufanismos tolos, mas sob uma ótica realista, com os pés no chão, não resta dúvida alguma de aquele período foi altamente produtivo, seguro, prospectivo e gerador de enormes esperanças de um país que parecia ter iniciado o seu voo. Mal sabíamos que com a Anistia iniciaríamos o período do voo da galinha, chocando ovos podres.
    Se querem colocar alguma culpa nos militares, coloquem, mas unicamente a de ter deixado isso acontecer.
    Nação não é laboratório da Estrela.

  • Paulo Lobo

    compartilho contigo o mesmo sentimento.

  • Joaninha Gama

    Olá Flávio Morgenstern e Eduardo Perez. Este depoimento de Eduardo Perez é muito significativo. Vocês saberiam me dizer se existe algum livro com histórias similares?

    Não seria uma boa ideia, se o site SENSO INCOMUM promovesse a coleta de depoimentos similares (quem sabe por meio de um concurso?) , de relatos de casos ocorridos durante o período militar – caso já não exista um livro sobre isso – e posteriormente pensasse na publicação dos mais relevantes?

  • João Luiz

    Faço minhas as suas palavras! Bravo!!

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