Apesar de toda a verborréia acadêmica, a arte contemporânea tem como substância o cocô. Ele não é um desvio: é a sua quintessência. Por Victor Grinbaum

Este artigo terá que começar do final: mais do que herética ou desrespeitosa, a exposição Queermuseum, patrocinada pelo Santander em Porto Alegre é ruim. MUITO ruim. Com isto explicitado, vamos voltar e entender por que ela é assim tão ruim.

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O Modernismo surgiu em um tempo de transformações como jamais ocorreram em toda História mundial anterior. Embora incompreendida desde o seu primeiro minuto de vida, o fato é que o surgimento de manifestações artísticas não figurativas e niilistas não fez da Arte Moderna menos artística. Tampouco menos bela.

Menos ainda refratária à presença de artistas medíocres ou picaretas. É importante ressaltar que a má arte sempre existiu. Tendemos a crer que “antigamente” todas as telas, esculturas, músicas e projetos arquitetônicos eram belíssimos e perfeitos. O fato, entretanto, é que o tempo filtra as criações menores e os relega ao esquecimento, preservando o que realmente interessa. É uma espécie de “darwinismo artístico”: o mais belo e mais elevado vira cânone.

Não hesito em apontar o primeiro e mais célebre exemplo de picaretagem da Arte Moderna: o famigerado urinol de Marcel Duchamp. Não vou discorrer sobre ele, posto que outros já o fizeram com muito mais propriedade que eu. Mas como diria uma certa pensadora brasileira de origem búlgara, “por trás de toda arte contemporânea existe uma figura oculta, que é o urinol de Duchamp”. Mas colocá-lo no mesmo patamar das criações de Chagall; Picasso; Matisse; Gaugain; Mondrian; Paul Klee; Max Ernst etc. é um erro crasso.

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A “Fonte” de Marcel Duchamp – Uma pegadinha até hoje levada a sério.

Talvez o grande pecado da Arte Moderna tenha sido o de ainda não ter sido capaz de se filtrar e de se livrar dos urinóis. Mas há outra questão fundamental na Arte Moderna: a de que ela acabou por se tornar um híbrido infértil. O rompimento com o passado foi tão profundo que tudo o que a montanha pôde parir foram ratos. Daí surgiu o Pós-Modernismo, ou Arte Contemporânea, onde tudo parece ter sido arrancado de uma reforma no banheiro da rodoviária. Mas ainda há o que dizer antes de chegarmos a ela:

Todos os artistas citados acima constavam no catálogo de 650 obras de uma exposição realizada em Munique, em 1937. Chamada de Entartete Kunst, a mostra seria o sonho de qualquer museu dos dias atuais, com peças modernistas apreendidas de museus alemães de antes da ascensão de Hitler ou das coleções privadas saqueadas de judeus. Mas na Alemanha de 1937 aqueles itens estavam condenados ao olvido e até à destruição. No entanto, para um certo Adolf Ziegler, aquilo ainda poderia ter um caráter didático, e foi assim que o regime nazista reservou o Deutsches Archäologisches Institut para abrigar a “Mostra de Arte Degenerada” em paralelo com a Große Deutsche Kunstausstellung, onde a “arte sadia” do regime lhe serviria de contraponto.

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A “Arte Degenerada” e modernista atraia multidões enquanto a “Arte Sadia” e cafona dos nazistas era solenemente desprezada.

Entretanto, o que o Reichskunstkammer (presidente da Câmara de Artes do Reich) Adolf Ziegler (ele próprio um pintor), assim como seus superiores hierárquicos Joseph Goebbels e Hitler, não contavam, era que a exposição de “arte degenerada” fosse fazer muito mais sucesso do que a de “arte sadia”. Pudera! Basta comparar os catálogos de ambas (ainda existentes e facilmente encontráveis na internet) para entender: o conteúdo da exposição nazista era medonhamente kitsch. A releitura pretensamente classicista de artistas que jamais teriam saído das sombras da mediocridade se não fosse o profundo mau gosto do “Curador-Mor da Nação” (o próprio Hitler) era não apenas ruim, mas ridícula mesmo. Uma overdose de corpos musculosos nus – evidenciando o pendor homoerótico da elite nazista – e de cenários bucólicos e chinfrins, num espelho hiperbólico daquilo que os nazistas julgavam ser a Alemanha. Tanto a do passado quanto a do futuro prometido.

Tudo isso é para explicar o que se pode resumir em uma frase: Só existem duas formas de arte: a boa e a ruim. Sendo assim, então o que explica que hoje haja tanta arte ruim sendo exposta e adorada por todos os museus e galerias do mundo? Para responder isso, precisamos dar mais uma passadinha na Alemanha Nazista: A mostra Entartete Kunst percorreu outras cidades alemãs até 1939, repetindo o fenômeno de Munique. E pouco antes de rebentar a Segunda Guerra Mundial, elas foram secretamente leiloadas na Suíça. Para os nazistas, o Modernismo podia ser degenerado, mas que mal haveria em fazer um dinheirinho com ele, não? Foi a sorte daquelas peças, que hoje valem bilhões de euros no mercado.

Mas se o nazismo involuntariamente salvou aquelas peças – e a Arte Moderna como um todo por tabela –, ele também plasmou uma falsa dicotomia: a de que toda Arte Moderna é boa, enquanto que toda arte tradicional e figurativa é ruim e “fascista”. É bem verdade também que alguns dos defensores do tradicionalismo não ajudam. O filósofo e esteta britânico Roger Scruton, em seu famoso documentário Why Beauty Matters? inverte os polos e determina: a função da arte é ser bela e ponto final. Seria apenas isso mesmo?

Um exemplo da “Arte Sadia” dos nazistas: uma mistura de pseudo-Renascença com Romantismo piegas (Adolf Ziegler, “Die Vier Elemente”).

Podemos até mesmo aceitar que a Arte tem a Beleza como finalidade, mas como ignorar a Arte como um espelho ou termômetro do seu tempo? Se o Modernismo rompeu com o passado e derreteu o Realismo, foi porque o século 20 foi mesmo uma era de niilismo patológico. Mas olhar para o passado com lentes idealizadoras para repeti-lo é mergulhar de cabeça no pastiche. Foi o que o nazismo pretendeu. E é o que Scruton parece propor com sua tese. O que não absolve o Modernismo do seu grande erro já citado: por ser tão desenraizado e pessimista, ele se esgotou e morreu sem deixar herdeiros.

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A não ser que consideremos o Pós-Modernismo como tal, embora seu papel esteja mais próximo daquele desempenhado pelos vermes que roem as carnes de um defunto. Sejamos diretos: a Arte Contemporânea simplesmente não existe, a não ser como narrativa. À pretexto de representar o mundo onde supostamente se insere, a Arte Contemporânea não preenche nada: não é estética, não é antropológica, não é utilitária, não é nada além de discurso e de pose. Pour épater la bourgeoisie.

Todas as exposições de Arte Contemporânea às quais tive o desprazer de comparecer me remetem a uma traquinagem da minha infância: um dia, não lembro por que razão, minha mãe me pôs de castigo no quarto dos livros. Havia nele uma estante de madeira recentemente envernizada, e eu resolvi que ela seria o palco da minha vingança. Entendam: eu estava muito revoltado com o castigo materno, e precisava protestar contra tamanha injustiça! Apanhei um alfinete e expressei a minha indignação com um palavrão na porta da estante. É claro que diante de tanta raiva eu não poderia usar um palavrão qualquer, e arranhei o pior de todos que eu conhecia na ocasião:

COCÔ

Mr Hankey, o cocô de NatalA pichação me valeu um prolongamento na detenção. Mas para meu gáudio, mesmo depois de aplicada mais uma camada de verniz, quem a olhasse assim de contraluz ainda podia ver aquele cocozão gravado na madeira. Uma vingança maligna de um menino mal saído da Fase Anal, tão chocante quanto qualquer dessas exposições cheias de escatologia. Com a diferença que os ditos artistas que as cometem não têm quatro anos de idade.

O que nos leva novamente ao urinol de Duchamp. Se aquilo é arte, logo tudo é arte. Portanto nada mais é arte. E esse é também um dos postulados de Sir Scruton em seu documentário. No qual, dessa vez, ele acerta na mosca.

O que se viu na exposição que o banco Santander patrocinou em Porto Alegre foi apenas a repetição de um padrão que já se tornou exaustivo: um discurso da moda qualquer (no caso em questão foi o da ideologia de gênero) traduzido através de provocações pueris como a de escrever palavrões em hóstias (lembram do cocô escrito na estante?) ou em pintar frases como “criança viada” sobre um painel de madeira.

Exposição do Queermuseum do Santander, com Jesus e uma ovelha

Uma das bobagens expostas no “Queermuseum” de Porto Alegre. Mais do que uma afronta ao Catolicismo, isso é apenas uma traquinagem de alguém que clama “olha eu, mamãe!”

Ofender-me? Obrigue-me! Não nasci no país de Gregório de Matos; Costinha; Dercy Gonçalves; Arí Toledo; Agildo Ribeiro; Casseta e Planeta e Hermes & Renato pra ter medo de “palavra feia”. Gênios da comédia e verdadeiros revolucionários que orbitam em esferas celestiais anos-luz acima de qualquer um desses artistas-autistas. A Arte Contemporânea é soporífera, estéril e tão frágil que até um pirralho com um alfinete nas mãos é capaz de derrubá-la. A exposição de Porto Alegre é apenas ruim. MUITO ruim, como disse no primeiro parágrafo. E é como tal que ela deve ser tratada. Sem discursos nem narrativas.

Agora parem de me ler e vão ao MASP! Mas não caiam na asneira de descerem até as salas do subsolo, onde ocorrem as exposições de Arte Contemporânea. E se forem ao banheiro, lembrem-se que a Arte jamais estará num urinol ou numa estante de madeira. Mesmo que alguém tenha escrito R. Mutt 1917 ou COCÔ neles.

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