Se a mídia diz que Trump "ameaça" ou "ataca" ditaduras, terroristas islâmicos e o socialismo, certa está a mídia ou o próprio Trump?

Donald Trump, o presidente americano, fez nesta semana seu primeiro discurso na ONU, em Nova York. Fiel a seu estilo, Trump foi muito além da camisa de força do decoro e disparou contra toda sorte de ditaduras pelo mundo. Criticou o fundamentalismo islâmico, o socialismo e o próprio globalismo, encarnado na própria ONU.

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A ONU, órgão respeitado e não questionado por praticamente nenhuma autoridade ou jornalista no mundo, usada como argumento de autoridade em questões que variam de saúde e educação a ciência e geopolítica, voltou à baila, agora como alvo, por Donald Trump ser o primeiro presidente americano com discurso e prática abertamente anti-globalista.

O conflito atual surpassou esquerda e direita, e hoje é mal compreendida por jornalistas e analistas como uma discussão entre “nacionalismo e globalização”, usando-se o termo “populismo” para descrever como os assim pejados como “nacionalistas” ganham eleições.

É uma dicotomia que poderia ser muito mais bem descrita como uma disputa entre soberania nacional e a governança global, tendo justamente a ONU como principal legislador, julgador e executor de leis em nível transnacional de maneira integralmente não-eleita, sem consulta popular e representatividade.

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É o que Donald Trump e alguns estudiosos do fenômeno denominam como “globalismo”, e jornalistas acostumados a palavras-chave estanques que aprenderam antes de estudos mais profundos ganharem a Academia insistem em denominar como um discurso contra a globalização, que é quase o oposto do globalismo.

Um discurso contrário a ditaduras, chamando terroristas islâmicos de terroristas islâmicos e ainda mais anti-globalista na própria ONU é um dos eventos mais significados da administração Trump, algo a ser lembrado pela História que, até o presente momento, tratou a ONU como a pura verdade, paz, amor, caridade e bondade encarnados.

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Trump “chocou” ao afirmar o que sempre afirmou, em plena ONU: “Como presidente dos Estados Unidos, eu sempre colocarei a América em primeiro lugar” [America first], o que jornalistas e analistas preguiçosos tratam como “nacionalismo”. Foi um dos momentos mais aplaudidos.

A continuação de sua fala é reveladora: “tal como vocês, como líderes de seus países, sempre farão e sempre deverão fazer : colocar seus países em primeiro lugar”. Muito antes de um discurso nacionalista (“meu país é melhor do que o seu”), tal como no federalismo americano tão defendido por Trump (em que o poder está dividido pelos estados, e não concentrado no governo federal, chefiado por ele próprio), é um clamor pelo poder do Estado-nação, que Trump reiteradas vezes definiu, ainda em campanha, como o melhor modelo de governança: todos os líderes governam para seu povo, e não para… os burocratas da ONU.

Se ainda não ficou claro, Trump falou que às vezes é preciso trabalhar com “unidade e harmonia”. Porém, acrescentou: “Enquanto eu estiver no cargo, colocarei os interesses americanos sobre todos. Mas, cumprindo nossas obrigações com as outras nações, nós também percebemos que é do interesse de todos buscar um futuro onde todas as nações possam ser soberanas, prósperas e seguras”. A lista de adjetivos começar com “soberanas” em plena ONU é uma declaração que faz os sábios pensarem, e os idiotas concluírem apressadamente com base em sua própria falta de conceitos.

Acordo nuclear com o Irã e Oriente Médio

Trump trouxe a teoria à prática, dizendo que o acordo nuclear com o Irã feito por Barack Obama, que dá 30 dias ao regime dos aiatolás para esconder fabricação de armas nucleares antes das inspeções internacionais, é um “vexame” para a América, e que provavelmente “não ouviremos mais falar dele”. E decretou: “O acordo com o Irã foi uma das piores e assimétricas transações nas quais os Estados Unidos já entraram”, e o líder do país dos aitolás é “exportador de violência,  derramamento de sangue e caos”.

America first. Basta comparar ao próprio Barack Obama, que na ONU, reiteradas vezes, falou dos “erros” e “transgressões” (sic) da América diante de países nada errados como Irã, Arábia Saudita, Venezuela e a própria Coréia do Norte. Por que será que o slogan de Trump era “Make America great again?

Trump ainda assegurou que a América continuará protegendo seus aliados na região, como Israel – postura diametralmente oposta à de seu antecessor.

Mais: a América ajudará a refugiados se instalarem em países próximos aos seus de origem. É muito mais barato e faz todo o sentido para os refugiados e para o Ocidente, se descaracterizando para se entupir de imigrantes, entre eles terroristas e pessoas sem nenhum desejo de adaptação. Além do mais, evita a hégira, que, se o Ocidente conhecesse, ficaria de cabelos em pé.

Coréia do Norte e o “Rocket Man”

Sobre a maior ameaça à paz no mundo hoje, a Coréia do Norte (o Estado Islâmico perdeu 70% do território que controlava no Iraque e na Síria, devido à mudança de posicionamento da América após Hillary Clinton deixar o cargo de Secretária de Estado, municiando grupos rebeldes contra al-Assad, entre eles os que formaram o Estado Islâmico), Donald Trump usou palavras não apenas duras, mas que não vestiram a camisa de força do protocolo:

“Os Estados Unidos têm grande força e paciência, mas se for forçado a se defender ou a defender seus aliados, nós não teremos escolha senão destruir totalmente a Coréia do Norte”. Trump ainda adicionou: “O homem-foguete [Rocket Man] está em uma missão suicida para si próprio e para seu regime”.

A mídia, como sói, tratou o epiteto como um “insulto estranho”. Trump acrescentou, até fazendo uma concessão à ONU: “Os Estados Unidos estão prontos, dispostos e capazes. Mas esperamos que isto não seja necessário. É para isto que serve a ONU. É o que os Estados Unidos defendem. Vamos ver o que eles fazem”.

A animação Team America, dos mesmos criadores de South Park, já havia tirado sarro, em 2004, da inutilidade dos discursos da ONU contra a Coréia do Norte. O diplomata Hans Blix, da Agência Internacional de Energia Atômica, usa o protocolo da ONU com suas “ameaças” assustadoras que deixam Kim Kong Il, o então Kim em chefe, com muito medo de perder o seu poder:

“Deixe-me ver suas armas de destruição em massa, ou então…” Kim 2 responde: “Ou então o quê?” “Ou então nós vamos ficar muito, muito bravos com você. E vamos escrever uma carta te dizendo quanto nós estamos bravos”. É a ONU descrita em um diálogo de 15 segundos.

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Socialismo na Venezuela e Cuba

Sem medo de pegar mal para jornalistas que demoraram ao menos 12 anos para perceber que a Venezuela é uma ditadura, Donald Trump, assemelhando-se à descrição do filósofo Roger Scruton, afirmou que “[o] problema na Venezuela não é que o socialismo foi insuficientemente implementado, mas sim que o socialismo foi fielmente implementado”.

E acrescentou que, onde quer que tenha sido implementado, socialismo e comunismo causaram “angústia e devastação e fracasso”, e que são “ideologias desacreditadas”.

E não teve medo de dizer verdades também a Nicolás Maduro: a Venezuela hoje é um “estado selvagem economicamente esgotado”, e seu governo “tem infligido uma dor terrível e sofrimento na boa população do país”.

Trump ainda deixou bem claro, para os olhos estupefatos da ONU tão acostumados a passar a mão na cabeça de Cuba, que a América não irá diminuir as sanções em Cuba enquanto o regime de Raúl Castro não fizer reformas importantes em seu regime corrupto. Algo pode ser mais justo?

Globalismo e ONU

Muito mais do que a distante Coréia do Norte, os aiatolás atômicos ou refugiados que a ONU se preocupa mais como propaganda numérica do que como seres humanos, o que deixou os burocratas globalistas da ONU mais preocupados no discurso de Trump foi a relação da América com a própria ONU, considerada “consolidada” por si há muito.

Países com maior crença em uma governança global, sobretudo para ombrear a América e poder mandar em seu território, dispendem muito menos dinheiro para manter a ONU funcionando em Nova York. Desde 2000, a América aumentou em 140% o seu orçamento para com a ONU e dobrou o seu pessoal. E a mensagem de Trump foi clara neste sentido, até levantando os números no dia anterior.

Mídia

Não há o que Donald Trump possa fazer, incluindo observar o sol ou ajudar vítimas de furacões, que a grande e velha mídia não vá criticar e associar com autoritarismo e nazismo. Exemplos variam de Julian Borger comparando o discurso uma vez a George W. Bush e seu “eixo do mal”, e muito mais a Nikita Khrushchev, Fidel Castro e Hugo Chávez discursando na ONU, por nenhuma outra razão além de irritar, ou David Smith chamando Trump de “escória do planeta” por não seguir o protocolo – e se esquecendo que, nessa toada, acabou também ferindo o protocolo jornalístico, tornando-se uma “escória” quase tão auto-declarada quanto a declaração infeliz de Hillary sobre os eleitores de Trump.

Jornalistas se aboletaram para tratar o discurso de Trump como “belicoso”. Como uma “ameaça” ao mundo, como a manchete mais repetida para anunciar o discurso na ONU: “Em discurso na ONU Trump ameaça destruir Coréia do Norte” e suas variantes.

Para a grande e velha mídia, nenhuma palavra sobre os aliados, sobre o orçamento da ONU que pode marcar o futuro da instituição, sobre a soberania e o Estado nação.

Por exemplo, Sarah Snyder, professora de “direitos humanos” na American University’s School of International Service, afirmou à The Atlantic que é terrível que Trump tenha usado uma linguagem como “terroristas perdedores” [loser terrorists]. Para Sarah Snyder, os terroristas perdedores podem se tornar terroristas perdedores se forem chamados de terroristas perdedores. E então, teremos terroristas perdedores no mundo. Lógica não anda sendo o forte da intelligentsia.

Como pessoas como Sarah Snyder e David Smith podem dizer que Trump está fazendo um mal ao mundo, ao nomear os problemas do mundo e dizer que a América e a ONU precisam lidar com os males do mundo?

Por acaso acreditam que a retórica de Barack Obama, de não dizer quais são os males do mundo, acabou com os males do mundo? Acreditam mesmo que é Trump que está “ameaçando” destruir a Coréia do Norte, como se fosse alguém tão disposto a acabar com a vida dos norte-coreanos como, digamos, Kim Jong-un?

A credibilidade da grande e velha mídia está em queda brusca no mundo exatamente por isso: a mídia é monomaníaca, trata tudo de Trump como algo ruim por coisas que ela própria inventou de dizer sem pesquisar, e se esquece de fazer ao menos um sopesamento. Ora, quem, na vida real, acredita mesmo que Donald Trump seja tão ruim quanto Kim Jong-un? Quem não sabe que pode explodir com uma bomba de pregos na Europa graças ao terrorismo islâmico, e não à política de Trump em relação aos refugiados?

Como seria Donald Trump que “ameaça” o mundo na ONU? Se a ONU conseguiu se manter com uma imagem pública de perfeição na Terra até o ano passado para o mundo, mesmo acreditando em toda manchete sensacionalista com obsessão com Trump, quem acaba, menos lentamente do que parece, ficando melhor perante a opinião pública é o próprio Trump. Ou ao menos a ONU perde seu apelo. E sobretudo a mídia, que se torna insuportavelmente chata e repetitiva.

É possível acreditar em gente que não disfarça seu desgosto em falar, em 2017, que um presidente americano disse que o socialismo deu errado, que o Irã atômico é perigoso e o acordo de Obama foi um desastre, que os terroristas são uns losers?

Podem chamar de “populismo” o quanto for, Trump apenas disse verdades inconvenientes. Populismo não é ganhar eleições justamente com mentiras dóceis? A grande e velha mídia é que anda cumprindo tal papel.

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  • Informar que o protagonismo Americano ‘ volta ‘ e que outros países o devem fazê-lo : uma verdade inconveniente …..

    Informar que os problemas ‘ devem ‘ ser resolvidos por Nações Soberanas : uma verdade inconveniente ….

    ‘ Nomear ‘ perdedores os Terroristas : uma verdade inconveniente ….

    Risível o artigo da theAtlantic ….

  • Eliane Moura

    Sobre os jogadores babacas que ajoelham pro hino americano:

    https://youtu.be/thg4lnaVIT4

  • Pedro Santos

    Flavio, comenta o caso dos jogadores da NBA e NFL e a mídia brasileira reportando o que acontece nos EUA DAQUELE que a gente sabe.

  • WillMDias

    Ahahaha.
    Acabei de ver no YouTube, um trecho do “jornal hoje” sobre as eleições na Alemanha.
    O correspondente Rodrigo Alvarez, disse que o AfD, se comporta como nazistas, agem como nazistas e por isso deveriam ser tratados como nazistas.

    Fora todo o falatório de “Ultra/Extrema/Super/Mega – Direita” radical e nacionalista até os bagos.

    Que coisa.

  • WillMDias

    Belo texto Flavio.
    Sinceramente eu considero muito quem é capaz de analisar os textos dessa “grande mídia” (sites, tv, rádio etc).
    Eu sinto tava vergonha alheia, que hoje sou incapaz de ver qualquer coisa deles.
    Sei que isso pode ser ruim, pois é importante saber o que a tal mídia diz sobre determinado assunto. Estou tentando me reeducar.

    Eu vi discurso completo e assim como no seu texto, eu concordei com tudo.
    Trump, deu um “tapa sem mão” em toda a representação do globalismo e colocou todos em seus devidos lugares.

    Sem clubismo, mas não tem como não admirar a postura deste líder. A luta dele é bem difícil, mas acredito que ele possa contornar e seguir até o fim do mandato.

    “Team America” ehehehe.
    Preciso ver novamente. Lembro que minha ex esposa odiou o filme e eu gostei muito.
    Ahahaha

  • WillMDias

    Muito bom.
    Fiz o mesmo.
    Não uso adblocks em site e blog com conteúdo extremamente relevante.

    • WillMDias, muito obrigado mesmo – pelas palavras e pelo block no AdBlock! É o que faz toda a diferença para continuarmos podendo fazer este trabalho – tanto as palavras quanto o apoio!

      • WillMDias

        Disponha Flavio.
        Qualidade não se discute.
        O Senso tem de sobra.

  • Ânthony Hunhoff

    Flavio, poderiam elaborar um artigo comentando as eleições da Alemanha, em especial o que é o AfD? Obrigado.

  • Bruno

    Sempre informações relevantes. Parabéns pelo trabalho!

    E essa reação dos atletas frente a retirada do convite para visita a casa branca? Quais os comentários relevantes sobre isso?

  • Paulo, muitíssimo obrigado pelo não-AdBlock no Senso, é como podemos manter este trabalho!

    Sobre a JFKalização, creio que hoje o clima é diferente. JFK era um ídolo, Trump é atacado por onde quer que passe. Foi morto por um comunista maluco, já Trump é atacado por gente radicalíssima tentando parecer moderada. Hoje, com o globalismo muito avançado, eles querem atacá-lo pela imprensa, fazer um gigantesco assassinato de reputações e são otimistas (vide o clima no dia anterior às eleições). Apesar dos malucos mesmo, creio e espero que Trump esteja mais municiado contra atentados do que JFK.

  • Pablo, muito honrado com o comentário! É o que dá mais ânimo para seguir neste trabalho! Muito obrigado!

  • Xará, excelente comentário! Só discordaria de uma palavra… 😉
    http://sensoincomum.org/2017/01/21/america-nao-e-uma-democracia/

  • Godofredo Guilherme de Leibniz

    É, meu caro Flávio, o jorgepontualismo se dissemina velozmente.

    Para quem não lembra, o imitador do Chewbacca disse que chamar Maduro de ditador é extremismo e pode levá-lo a radicalizar o regime. Ou seja, Maduro não era tão radical, mas pode se tornar graças à fala de Trump. Já deu pra ver que a Fakenewslândia usará essa mesma bela lógica em relação a qualquer coisa que o Trump critique.

  • David Lee Abraham

    Jamais podia imaginar que o TRUMP fosse esse cara mega fodástico que ele é. Tenho inveja dos americanos por terem um presidente assim!

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