O imbróglio entre os jogadores da NFL que se ajoelham durante o hino e o comentário de Trump dividiu a América. Mas será que foi isso mesmo?

Você provavelmente ouviu esta história na mídia: com comentários destemperados e agressivos, Donald Trump transformou um protesto pacífico de jogadores negros da NFL a favor de igualdade e contra a brutalidade policial racista em uma grande manifestação em que praticamente todos os times da NFL se ajoelharam na hora do hino americano, em mais uma prova de como o presidente divide o país e é impopular.

PUBLICIDADE

Tenho dito que o maior antídoto para a histeria que impera nas redes sociais é a informação.  Vou tentar separar as diversas questões envolvidas aqui e dar um pouco de contexto para demonstrar que o presidente está vencendo de goleada essa partida na guerra cultural.

Antes, um pouco de contexto histórico.

O que a NFL representa para os Estados Unidos

A National Football League (NFL) é a mais importante e poderosa liga esportiva dos Estados Unidos.  Apesar de disputarem um número muito menor de partidas por ano (16, contra 81 na NBA e 182 na MLB, a liga de beisebol) e de ser um esporte basicamente restrito à América do Norte, os clubes da NFL estão todos entre os mais valiosos do planeta entre todos os esportes: segundo a Forbes, metade dos doze mais valiosos clubes do planeta pertencem à liga de futebol americano (Dallas Cowboys, New England Patriots, New York Giants, San Francisco 49ers, Washington Redskins e Los Angeles Rams).

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

A grande final da temporada da NFL, o Superbowl, é o mais importante evento do ano nos Estados Unidos—o equivalente a uma final de Copa do Mundo por ano.  Todo o país para, as pessoas se reúnem para assistir, um grande espetáculo de música e entretenimento faz parte do “show do intervalo” e centenas de milhões de dólares trocam de mão nesse dia.

NFL - Mascote Freddy, do Atlanta falconsApesar de ter times em todas as grandes cidades americanas, o futebol da bola oval tem as suas raízes na América profunda. É nos estados do sul que estão os melhores times e as mais competitivas competições de nível secundário. E a mais importante conferência (como são disputadas as importantes competições universitárias) é a South Eastern Conference, que mais jogadores cede à NFL e cujos times arrebanharam sete dos últimos dez títulos nacionais universitários.

PUBLICIDADE

Para se ter uma ideia da penetração do futebol americano na sociedade, dezesseis times universitários tiveram MÉDIA de público em 2016 maior do que a capacidade total do Maracanã, ainda o maior estádio brasileiro de futebol.  Auburn, uma cidade de 45 mil habitantes, tem um estádio de 95 mil lugares, lotado em grande parte da temporada.

Por que isto é relevante para a questão atual?  Porque grande parte do público fiel do futebol americano é conservadora, de estados com eleitorado esmagadoramente republicano.  Não é exagero dizer que a NFL (especialmente nas arquibancadas) é um território conservador.

As características arquetipicamente masculinas e mesmo militares do esporte (embate físico, conquista territorial, operação por “unidades” de especialistas, cadeia de comando, espírito de corpo) também tendem a afastar as elites mais cosmopolitas e “modernas” das grandes cidades, que se sentem repelidas e mesmo ofendidas pela simbologia do jogo, que consideram violento, grotesco e antiquado.

Como negócio, a NFL é uma entidade privada cujas ações pertencem a cada um dos times, numa distribuição equânime de 1/32 para cada time.  Todos os times menos um (o Green Bay Packers, que quebrou nos anos 1960 e vendeu suas ações para moradores da cidade) pertencem a um único dono ou a uma família.  Invariavelmente esses donos são bilionários.  Como bilionários, são alvos preferenciais da esquerda.  E, como quase todo bilionários, gostam de pagar “pedágio ideológico” para não ficarem na alça de mira da esquerda (e da imprensa, o que é praticamente a mesma coisa).

A opulência da NFL, dos donos, dos times e dos atletas é parte do imaginário americano e responsável por grande parte da atratividade que o esporte inspira no público.  Um dos ícones do esporte, o magnata do petróleo Jerry Jones, dono do Dallas Cowboys (o “America’s Team”) empenhou-se pessoalmente para a construção do novo estádio da equipe, que exibe dois telões de 55m de comprimento cada acima do campo de jogo.  Nunca o time vendeu tantos ingressos.

Os atletas

O futebol americano profissional foi instituído em 1920. Em 1966, em meio ao movimento pelos direitos civis de negros nos EUA, as duas principais ligas profissionais se fundiram, dando origem à atual NFL.

NFL Football - Jacksonville Jaguars vs Baltimore Ravens - NFL International Series - Wembley Stadium, London, Britain - September 24, 2017 Jacksonville Jaguars owner Shahid Khan links arms with players during the national anthems before the match Action Images via Reuters/Paul Childs - RC172380A0B0Pela relevância do esporte universitário na formação dos atletas, havia no início uma prevalência de atletas brancos, que foi se esvaindo com o tempo e com o maior acesso das comunidades negras à educação (em alguma parte devido ao próprio desempenho esportivo). De lá para cá, a concentração de atletas negros vem crescendo sem parar.

Atualmente, 70% dos atletas da NFL são negros. Ainda há uma prevalência de quarterbacks (o jogador cerebral que comanda as ações de ataque, posição do Tom Brady, o “senhor Gisele Bundchen”) brancos, mas há décadas uma parte significativa das estrelas do esporte é composta por negros, em especial os grandes pontuadores: running backs (que correm com a bola na mão no meio das defesas adversárias) e os wide receivers (que disparam em velocidade para receber os passes em profundidade).  Sem falar na esmagadora maioria dos jogadores de defesa.

Um histórico recente de polêmicas

Nos últimos anos, houve três grandes casos que macularam a imagem da NFL.

Concussão na NFLO primeiro (e certamente o mais grave de todos) foi a constatação de que a NFL havia deliberadamente escondido dos atletas e da imprensa as evidências de que concussões seguidas levavam a um quadro conhecido como encefalopatia traumática crônica, que leva a demência e morte prematuras.  Esta história foi contada no documentário “League of Denial” e romantizada no filme “Um homem entre gigantes” (“Concussion”, 2015), com Will Smith no papel do médico nigeriano naturalizado americano Bennet Omalu, que desvendou (inicialmente) por acidente o caso.

A NFL foi obrigada a tomar uma série de providências, inclusive mudar as regras do jogo, para mitigar o efeito das concussões.  Todos os jogadores que recebem impactos na cabeça são obrigados a passar por um “protocolo de concussões”, que envolve deixar a partida em curso e, em alguns casos, ficar semanas em inatividade, tudo supervisionado por médicos da NFL.

O efeito mais sensível foi a redução no número de crianças (especialmente de classe média) praticando o esporte desde cedo.  Isto coincide com a expansão do (nosso) futebol na América, percebido como um esporte mais social e democrático, que oferece menos riscos a crianças e jovens.

O segundo “escândalo” foi fabricado pela esquerda. Na incansável tentativa de controlar a linguagem e criminalizar a tradição cultural do país, grupos de esquerda acampados na mídia orquestraram um ataque ao time Washington Redskins pela suposta ofensa racial do próprio nome, os “peles-vermelhas”.

O politicamente-correto já havia feito uma série de outras vítimas, mas nunca na NFL.  Os Washington Bullets (balas, projéteis) de basquete viraram Wizards (magos) e os Houston Colt .45 de beisebol viraram Astros pela mesma razão: desconforto de se associar com “violência por armas”.

No esporte amador o politicamente-correto fez muito mais vítimas.  Só entre as universidades (um campo cada vez mais hegemônico da esquerda), dezenove delas abandonaram nomes ligados aos indígenas americanos.  A mais notável de todas, Stanford, trocou o tradicional Indians para adotar o anódino apelido de Cardinal (a cor da universidade) e o mascote da árvore, constantemente citado com um dos mais patéticos do universo esportivo americano.

Washington RedskinsVoltando à NFL, em meio a incontáveis editoriais e pesquisas forjadas, o governo de Barack Obama tentou nos tribunais forçar a proibição do nome Redskins. Não tendo sucesso, buscou nas masmorras do “deep state” o golpe que achava possível: o escritório federal de patentes cassou o direito de o time explorar sua própria marca. Não durou muito e a cassação foi suspensa pela Justiça.

Pouco depois, uma pesquisa séria expôs que 90% dos indígenas americanos não ligam a mínima para um time chamado “peles vermelhas” ou, ao contrário do que dizem os sermões de esquerda, sentem-se lisonjeados por uma das mais importantes equipes do esporte profissional americano honrá-los com a imagem de bravos e temidos guerreiros.

O terceiro escândalo é a recorrência com que atletas da NFL envolvem-se em episódios de violência doméstica. Advindos de estruturas familiares falhas, cercados desde muito cedo por uma bolha de bajulação, jorrando testosterona por todos os orifícios e tomados pela euforia da fama e da riqueza da elite do esporte, muitos optam por resolver conflitos em seus relacionamentos afetivos da mesma forma com que conquistam jardas nos campos: na força.

Ray RiceO caso de maior repercussão envolveu o running back Ray Rice, que nocauteou sua então noiva às vistas de uma câmera de segurança de um elevador. O vídeo foi revelado pela imprensa, o atleta foi preso por agressão agravada em terceiro grau e suspenso indefinidamente pela NFL. Mesmo depois de apelar e ter a suspensão revertida, nunca mais jogou futebol americano profissionalmente. Este caso fez com que a liga passasse a ser muito mais rigorosa com casos de violência doméstica, tantos foram os casos com que a NFL havia sido complacente no passado.

Na prática, a ocorrência desse tipo de crime é menor entre atletas da NFL do que na sociedade americana como um todo, como demonstrou o blog Five Thirty Eight, do estatístico Nate Silver, em um artigo de Benjamin Morris. Na média, o índice de prisões entre atletas da NFL é 13% o da população masculina de 25 a 29 anos, o estrato mais parecido com a composição da liga. É de se esperar que pessoas com sucesso em uma profissão de tanto respaldo popular comportem-se algo melhor do que a média da sociedade, mesmo porque são assessorados por um sem-número de profissionais: advogados, agentes, gestores pessoais, profissionais de relações públicas, técnicos, psicólogos e mesmo tutores individuais

No entanto, quando o caso é violência doméstica, o percentual entre o índice dos atletas da NFL e a população masculina de 25 a 29 anos é de 55,4% ‒ mais de quatro vezes maior do que a da média geral de prisões.

Todos de pé para o hino

Muita gente acredita que sempre houve execução do hino americano antes de qualquer partida.  Não é verdade.

Nos primórdios do esporte profissional americano, o hino exigia a contratação de uma banda, logo estava restrita a ocasiões especiais, como abertura de temporada, jogos decisivos e dias comemorativos.

Depois da Segunda Guerra Mundial e a disseminação de auto-falantes, a reprodução de gravações do hino tornou a execução mais comum.

Em 1968, um cantor porto-riquenho cantou uma versão estilizada (ou mesmo desfigurada) do hino antes de um jogo da World Series, o playoff final que define o campeão da temporada de beisebol.  Recebeu crítica ferrenha, mas deu notoriedade a versões interpretadas do hino, não raras sem acompanhamento instrumental.

Na NFL, todos os jogos transmitidos pela televisão contam com a execução do hino há muitos anos.  Em jogos importantes, não raro há um “fly-over”, um rasante de aeronaves de guerra, o ponto máximo da apresentação.

Kelly Clarkson canta o hino americano na NFLDesde 2009, portanto no governo esquerdista de Barack Obama, a NFL deu um passo além e instituiu uma cerimônia com a presença de militares da ativa e da reserva antes de cada partida.  O pano de fundo era uma redução contínua e acelerante de alistamento militar, que é 100% voluntário nos EUA. A cerimônia fazia parte de um programa de estímulo ao alistamento, que conta também com uma homenagem coordenada de todos os times durante todo o mês de novembro, o que prova a confluência entre o público do futebol americano e da vida militar na América.

Todas as academias militares mantêm relevantes times de futebol americano e a partida da equipe do Exército com a da Marinha é uma das mais antigas rivalidades do esporte americano. O então presidente eleito Trump foi ovacionado na edição de 2016, um testamento à popularidade de seu discurso e posição política nos meios militares.

A NFL tem regulamentos específicos sobre como cada atleta deve se portar no momento do hino: de pé, de frente e com o olhar voltado à bandeira, com o capacete na mão esquerda e a mão direita sobre o ombro. No entanto, o regulamento tem poder de recomendação, não de obrigação.

Quem vem a ser Colin Kaepernick?

O jogador que começou toda a polêmica de ajoelhar durante o hino foi um quarterback que teve uma brilhante carreira universitária na Universidade de Nevada, que disputa uma conferência de segunda classe. Foi o selecionado em 2011 pelos San Francisco 49ers como a 36ª escolha (4.ª da segunda rodada) do draft, o processo pelo qual os times profissionais selecionam os atletas que estão deixando o nível universitário—uma forma extremamente complexa e profissional de “tirar o time”, que pode ser conhecida pelo razoável filme “Draft Day”, com Kevin Costner.

Reserva do experiente Alex Smith, assistiu sua primeira temporada do banco. Na décima rodada da temporada seguinte, Smith sofreu uma concussão e ficou impossibilitado de jogar por dois jogos.  Kaepernick não foi apenas um substituto à altura, mas surpreendeu com um estilo de jogo mais agressivo.

KaepernickAo contrário do titular, considerado um jogador consistente mas com pouca mobilidade e alguma insegurança, Kaepernick era um franco atirador: com pouco a perder, arriscava mais. Com um braço forte, fazia passes longos que encontravam companheiros livres. E, mais importante, usava sua estatura e arrancada para conquistar jardas correndo com a bola. Era um quarterback que os analistas chamam de “ameaça dupla”: se a defesa marcar a corrida, ele passa; se marcar o passe, ele corre.

Num esporte em que os times estudam metodicamente seus adversários, suas jogadas ensaiadas, todas suas forças e fraquezas, Kaepernick tinha a seu favor o “elemento surpresa”: ninguém conhecia muito bem seu estilo de jogo.

Confirmado como novo titular, levou o time a vencer a divisão (a chave de quatro times), o que o classificou para os playoffs.  Venceu o que seriam as quartas-de-final e a semi-final e colocou o time em uma das edições mais atribuladas do Super Bowl.  Os técnicos dos dois times eram irmãos, cada time dominou absolutamente cada metade da partida, o intervalo teve um show megaproduzido da cantora Beyoncé e, no começo do segundo tempo, o estádio teve uma queda de energia, algo inédito neste tipo de evento. Ao final o adversário de Kaepernick, os Baltimore Ravens, prevaleceu por pouco: 34 a 31.

Nas temporadas seguintes, Kaepernick não era mais uma novidade e sofreu com a maior previsibilidade de suas jogadas. Depois da saída do técnico Jim Harbaugh, ao final da temporada de 2014, as coisas só pioraram para ele. Já em 2015, ele fazia parte da lista de reserva e era considerado o terceiro quarterback do time.

O início da polêmica

Em 2016, Kaepernick era considerado o quarto quarterback do time. Nos dois jogos de abertura da pré-temporada, o jogador ficou sentado durante o hino.  Ninguém notou. Mesmo porque ele sequer entraria em campo, nem mesmo para experimentações.

Kaepernick se ajoelha durante execução do hinoNo terceiro jogo, uma fotógrafa do Niners Nation, uma comunidade de torcedores do time de San Francisco postou uma foto com o quarterback sentado enquanto todos os demais atletas perfilavam-se de pé para a execução do hino. Foi quando a polêmica começou: a mídia se interessou pela história e o time emitiu um comunicado confirmando que o jogador havia ficado sentado. Depois do jogo, ele deu uma entrevista dizendo que teria feito aquilo num protesto contra “a opressão contra pessoas de cor e a os constantes casos de brutalidade da polícia”.

Havia dois anos Kaepernick vinha frequentando cursos em Berkeley, o campus mais célebre da Universidade da Califórnia, berço do movimento de liberdade de expressão nos anos 1960 (quando a esquerda ainda abraçava a ideia) e atual nave-mãe do movimento de “resistência” a Donald Trump e de intolerância “antifascista” que tenta calar vozes de oposição por meio de intimidação e violência físicas.

Em um comunicado evidentemente montado por gente mais inteligente que ele, Kaepernick “empacotou” a atitude adolescente como se ele fosse um mártir altruísta: ele estava fazendo aquilo por outras pessoas, que estão sendo oprimidas e não têm uma voz, que o time e o país poderiam e deveriam se unir em torno disso, que era importante ter um debate aberto, que respeita os militares, mas que eles lutam por liberdade e isso não é o que está acontecendo no país.

Kaepernick ganha adeptos

No quarto jogo da pré-temporada, Kaepernick passa de ficar displicentemente sentado para apoiar-se em um joelho durante o hino. Segundo o atleta, ele fez isso depois de conversar com o ex-Boina Verde e ex-jogador da NFL Nate Boyer, que foi ao jogo para debater o assunto com o quarterback do 49ers.

Pela primeira vez, um colega seu de time, o defensor Eric Reid, faz o mesmo gesto, agora com ares de protesto. No mesmo dia, um defensor do Seattle Seahawks fica sentado durante o hino em seu jogo.

Como sempre, uma atitude isolada de esquerda foi grotescamente amplificada na mídia, que reportava a atitude de milionários privilegiados como se fossem reencarnações de Rosa Parks, a mulher negra americana que se tornou um ícone do movimento de direitos humanos ao se recusar a ir para o fundo do ônibus em 1955 no Alabama, núcleo-duro do segregacionismo racial americano, onde gente que ameaçava o status quo assumia riscos reais.

Tim Tebow se ajoelha para rezarVale lembrar que há alguns anos o quarterback cristão Tim Tebow era criticado pela mesma imprensa por ajoelhar-se para rezar ou para agradecer a Deus em jogos ou jogadas importantes.  Segundo os comentaristas, seu gesto era ofensivo aos não-cristãos e perpetuava estereótipos que precisavam ser combatidos.

Lentamente, o protesto de Kaepernick foi se expandindo, chegando a outros esportes. Os números nunca impressionaram: há registros de não mais de 24 jogadores no total. Mas o que importava era a simbologia da coisa. O público abomina a atitude, seja pelo desrespeito a tudo que o hino e a bandeira representam, seja pelo motivo distorcido (a narrativa por trás do movimento racista negro Black Lives Matter).

A temporada de Kaepernick demonstrou por que ele precisou a recorrer a algo que não futebol americano para chamar atenção. Com o mau desempenho dos outros jogadores da posição no time, ele voltou a ter chances de jogar. Na medida mais utilizada para avaliar a qualidade de um jogador da sua posição (o quarterback rating), ele ficou em 17º entre quase setenta jogadores na temporada de 2016.  Mas o que importa é o desempenho do time, uma vez que o quarterback é uma espécie de maestro de todas as ações ofensivas: foram dez derrotas em doze partidas.

Kaepernick com camiseta de Fidel CastroNão foram só os protestos durante a execução do hino e as entrevistas cada vez mais ideologizadas. Colin Kaepernick certa vez treinou com uma meia que trazia desenhos de porcos com quepes policiais. “Porco” é um termo ofensivo comumente usado contra policiais, mas que ganhou notoriedade no movimento Black Lives Matter depois que “manifestantes” foram filmados nas ruas de Nova York cantanto “Porcos num cobertor, frite-os como bacon” (“Pigs in a blanket, fry ’em like bacon”), que quer dizer “policiais uniformizados merecem ser mortos”.

Não satisfeito, Kaepernick achou por bem aparecer na coletiva de imprensa anterior ao jogo com o Miami Dolphins na casa do adversário vestindo uma camisa com uma imagem de Fidel Castro.  Miami é a cidade americana com o maior contingente de exilados cubanos e seus descendentes.  Foi questionado por jornalistas. Mas a melhor crítica ele recebeu do linebacker cubano-americano Kiko Alonso, do time de Miami, depois de atropelá-lo e deixá-lo se contorcendo no campo: “Vamos, coño!”

O destino de Kaepernick

Depois de temporadas decepcionantes e tanto ruído em torno de uma atitude individual que rachou o time e trouxe distrações indesejadas para o vestiário, o San Francisco 49ers decidiu não renovar o contrato de Colin Kaepernick. Antes que isso acontecesse, o jogador divulgou que estava optando por não continuar no clube, uma atitude orgulhosa desamparada de bom senso.

A imprensa foi em defesa do quarterback, dizendo que era uma represália pelos protestos. A tese dos comentaristas é que uma boa meia dúzia de times correria para contratar um atleta tão talentoso.

Nada disso aconteceu. Até hoje, nenhum time se dispôs a contratar um quarterback que, apesar de ser considerado uma “ameaça dupla” (passe e corrida), não toma decisões inteligentes no campo, não faz passes longos com precisão e já não apresenta o mesmo vigor na corrida como nas primeiras duas temporadas. Em resumo, ele representava tumulto demais para performance de menos.

Oakland RaidersDepois de algum arrefecimento no final da temporada de 2016, a pré-temporada de 2017 começou com um dos maiores ídolos da NFL, o running back dos Oakland Raiders Marshawn Lynch, aderindo aos protestos e ficando sentado durante a execução do hino no jogo contra os Arizona Cardinals, em 12 de agosto. Oakland é uma cidade operária, uma espécie de Osasco de San Francisco. Lynch nasceu e cresceu lá e resolveu jogar pelo time da cidade mesmo depois de anunciar aposentadoria ano passado. O time tem um pirata como símbolo e tem um certo orgulho de sua imagem de “thug”, uma espécie de bandido orgulhoso.

No dia seguinte, o defensive end Michael Bennett fica sentado durante o hino antes do jogo contra o Los Angeles Chargers. Um detalhe macabro: Bennett está no meio de um imbróglio jurídico com a NFL, que o suspendeu por violência doméstica. Um bom exemplo de alguém lutando contra a brutalidade…

Trump entra em campo

No dia 22 de setembro, Donald Trump faz um discurso num evento em apoio a Luther Strange, o candidato do establishment republicano nas primárias do partido para a eleição que vai escolher o substituto de Jeff Sessions, que Trump alçou ao cargo de Attorney General (um misto de Ministro da Justiça com Procurador Geral).

À frente de um público cativo, conservador e majoritariamente apaixonado por futebol americano, Trump lança a crítica: “Você não amaria ver um desses donos de times da NFL, quando alguém desrespeita nossa bandeira, dizer ‘tire esse filho de uma cadela do campo!  Fora!  Ele está demitido!’” O público respondeu com um longo coro de “USA! USA! USA!”

Não satisfeito, o presidente vai ao Twitter dizer com todas as letras que os jogadores que desrespeitassem o hino deveriam ser suspensos ou demitidos.

Sábado é dia de futebol americano universitário. O comentário esportivo não poderia ser a respeito de outra coisa e o dia levou o assunto à ebulição. Nenhum time ou atleta poderia se esquivar na rodada de domingo do que estava acontecendo. É o que Trump faz melhor: sequestrar o debate público com tiradas que colocam a imprensa em frenesi.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Jacksonville Jaguars e Baltimore Ravens se ajoelham em LondresNo domingo, os protestos atingem seu pico. Mais de cem atletas se ajoelham durante o hino. Os Oakland Raiders, de Marshawn Lynch, tem quase o time todo sentado de braços dados. Os Jacksonville Jaguars e os Baltimore Ravens jogam em Londres, diversos jogadores se ajoelham para o hino americano mas ficam de pé para o “God Save the Queen”, o hino inglês ‒ numa flagrante evidência de que desconhecem o mais básico sobre a história de seu próprio país. Três times resolvem não ir para campo antes do hino: os adversários Tennessee Titans e Seattle Seahawks, além dos Pittsburgh Steelers.

Os Steelers têm um caso interessante: Alejandro Villanueva, um brutamontes de 2,05m de altura que protege o quarterback também calha de ser um ex-capitão dos Army Rangers (tropa de elite do exército americano) com três temporadas no Afeganistão e uma condecoração Estrela de Bronze. Ele decide que não vai ficar no vestiário com o resto do time, que diz em uma declaração só ter querido fugir da polêmica. A imagem de Villanueva na saída do túnel, sozinho, com a mão no peito cantando o hino faz com que sua camisa dispare para o topo da lista de itens mais vendidos da NFL, algo muito incomum para um offensive tackle. Mais um detalhe irônico: a partida seria jogada no campo dos Bears, o Soldier Field (“campo do soldado”).

No dia seguinte, Villanueva foi constrangido por seu time a pedir desculpas numa coletiva de imprensa.  De acordo com suas declarações, ele teria embaraçado seu técnico e seus companheiros.  (É verdade: em contraste com a postura patriótica do ex-militar, a combinação de covardia com antipatriotismo dos demais realmente ficou feia.)

Depois da rodada do final de semana, quem assumiu a liderança?

Assistindo a rodada, eu mesmo fiquei com a impressão de que Trump tinha feito uma burrada.  O aspecto de dezenas de atletas ajoelhados em cada partida e dos demais posando em apoio foi forte e dava a impressão de que o presidente poderia ter perdido a narrativa.

Para agravar a situação, algumas das principais estrelas da NFL, como Richard Sherman, Adrian Peterson e até Tom Brady, que se mantinham isentas, vieram a público criticar o presidente.

Mas ao longo da semana, foi exatamente o contrário que prevaleceu.

O fato mais relevante é que o público da NFL pensa como o presidente. Melhor: como um populista talentoso que é, Trump tem um faro aguçado para perceber quais são os anseios das multidões silenciosas. E costuma dar voz e amplificar (no último volume) o que essas pessoas pensam. Foi assim na eleição com a questão da imigração, foi assim na sua primeira medida de impacto (a limitação de entrada no país a seis países muçulmanos), está sendo assim na celeuma dos ajoelhadores.

Sabendo que tinha a vantagem na discussão, Trump voltou ao Twitter para dizer que entrar de braços dados (o que muitos atletas estavam fazendo para demonstrar união contra as declarações do presidente) não tinha problema, mas que desrespeitar bandeira e hino seriam imperdoáveis.

Ao longo da semana, o público exerceu enorme pressão sobre a NFL, os times e os jogadores. Torcedores fiéis publicaram vídeos em que queimavam as camisas de seus times. Muitos usaram as redes sociais para protestar. Outros foram aos canais diretos de seus times para manifestar suas opiniões. Outros tantos expressaram suas fortes ideias para a imprensa.

Dallas Cowboys se ajoelhamNo jogo da segunda-feira, o Dallas Cowboys (o “America’s Team”) foi a Atlanta enfrentar os Falcons. Antes do hino, todos os jogadores se ajoelharam de braços dados, para demonstrar união sem desrespeitar os símbolos nacionais. Quando o hino começou, estavam todos de pé. Mas o que importa é que, enquanto se ajoelhavam, os atletas do time texano foram sonoramente vaiados pelo estádio da muito mais esquerdista capital da Georgia. (Hillary Clinton venceu no condado que abarca a cidade com 69% dos votos.)

No jogo da quinta-feira, que abriu a quarta rodada, todos os jogadores dos dois times (Green Bay Packers e Chicago Bears) ficaram de pé, de braços dados. Ficou claro que a NFL estava nas cordas.

Depois de uma semana, quem está à frente do placar

Na rodada do final de semana, a polêmica da semana passada continuou: jogadores de diversos times se ajoelharam, alguns sentaram-se, uns poucos estenderam punhos cerrados no ar. Mas ficou claro que o ímpeto do protesto perdeu força.

Os New Orleans Saints repetiram o gesto dos Cowboys na quinta-feira e se ajoelharam antes, mas estavam de pé para a execução do hino. No time adversário, o Miami Dolphins, três jogadores se ajoelharam.

Os Baltimore Ravens fizeram a mesma coisa que os Saints. Seus adversários, o Pittsburgh Steelers (time de Villanueva) ficaram de pé o tempo todo.

No jogo entre os Tennessee Titans e os Houston Texans, todos ficaram de pé. Um jogador dos Titans ficou no vestiário.

New England Patriotes e Carolina Panthers ficaram todos de pé, de braços dados.

Na partida entre Detroit Lions e Minnesota Vikings, dois jogadores dos Lions ajoelharam-se.

Os Jacksonville Jaguars ajoelharam antes, mas estavam de pé para o hino, como seus adversários, os New York Jets.

Os Atlanta Falcons ouviram seus fãs vaiando os Dallas Cowboys na segunda-feira e ficaram de pé.  Do outro lado do campo, seis jogadores dos Buffalo Bills se ajoelharam.

Los Angeles Rams e Dallas Cowboys ficaram todos de pé. Eles não seriam loucos de desrespeitar bandeira e hino em Dallas…

Os Arizona Cardinals estavam de pé enquanto metade dos San Francisco 49ers, ex-time de Colin Kaepernick e de uma das cidades mais esquerdistas da América, estavam de joelho, numa formação que lembrava os times de futebol (metade do time de pé atrás, metade abaixada na frente).

Todos os jogadores de Philadelphia Eagles e Los Angeles Chargers ficaram de pé, mas dois Eagles ergueram os punhos fechados.

Apenas um jogador dos New York Giants e dois dos Tampa Bay Buccaneers se ajoelharam.

Está claro quem está ganhando. E de goleada.

Como a esquerda reage a Trump

O presidente-celebridade vive há mais de 30 anos no imaginário americano manipulando a mídia a dar atenção às coisas que lhe são caras. Participou de dezenas de projetos imobiliários em que era não mais que o promotor, algo que faz com maestria incomparável.

A principal plataforma eleitoral de Trump foi a luta contra a imigração ilegal. Mas sua principal plataforma de comunicação foi o tempo todo antagonizar com a imprensa. A voz silenciada da maioria queria dizer a mesma coisa: “nós não suportamos o viés de esquerda da imprensa, que retrata as pessoas que sustentam este país como retrógrados inconvenientes à sua agenda progressista”.

Donald Trump com camiseta da NFLDesde o início da campanha de Trump, quanto mais a imprensa batia nele, mais ele crescia nas pesquisas. Como diz o comentarista político Ben Shapiro, “a imprensa reage a Trump como uma criança de três anos: basta ele dizer alguma coisa que a imprensa sai gritando que o certo seria o contrário. Logo, ele usa psicologia reversa e manipula os jornalistas a fazer o que ele quer”.

Neste caso, Trump conseguiu que a esquerda (a imprensa e os atletas que protestam) defendesse a profanação dos mais queridos símbolos nacionais. Mesmo nos momentos mais radicais e acirrados da disputa política americana ‒ os protestos contra a Guerra do Vietnã ‒, a esquerda chegou a esse ponto. Alguns poucos chegavam à atitude extrema de queimar a bandeira, mas essa nunca foi uma postura do movimento como um todo.

No entanto, era essa a postura de três outros movimentos: o Black Panthers, o Weather Underground e a Nação do Islã.

As referências que alimentam o protesto

Eu não tenho o talento ou o conhecimento de um dos geniais Flavios (Morgenstern ou Gordon) para fazer uma análise mais profunda sobre as questões sociológicas, filosóficas ou simbólicas dos protestos. Mas uma coisa fica clara: o “mainstream” da esquerda americana da década de 1960 era moderado (as posições de um Democrata médio hoje seriam consideradas como a de um Republicano fundamentalista).

O fato é que os protestos na NFL são inspirados pelos mais radicais movimentos de esquerda da história americana, mas que ainda eram uma franja minoritária em 1968. Hoje, são o “mainstream” da esquerda.

O Weather Underground é um movimento criado por intelectuais de esquerda que chegou a praticar atentados terroristas domésticos. Seu principal expoente, Bill Ayers, é ainda influência importante na esquerda americana e tem papel de destaque na formação política e ideológica de Barack Obama. Há registros de que a candidatura do ex-presidente ao senado por Illinois tenha começado com uma reunião com potenciais doadores de campanha na casa de Ayers.

Ayers é um dos formuladores da hegemonia cultural de esquerda que hoje impera nos campi universitários americanos. Essa influência pode claramente ser vista na ideologização de Colin Kaepernick, que usa a novilíngua da esquerda para se manifestar, muito embora seu olhar vidrado demonstre que ele tem parco conhecimento sobre o que está dizendo.

A outra influência é o Black Panthers, um movimento radical racialista e segregacionista negro. Na prática, era um partido político que se posicionava como revolucionário, “black nacionalista” (nacionalista negro, uma espécie de neo-nazista de sinal trocado) e socialista. O gesto tradicional era o punho cerrado estendido para o alto, de preferência com uma luva negra de couro.

Beyoncé faz performance em homenagem aos Black Panthers (Panteras Negras) no SuperBowlO gesto ganhou notoriedade quando dois velocistas americanos, Tommie Smith e John Carlos, subiram ao pódio nas Olimpíadas de 1968, na Cidade do México, para receber respectivamente as medalhas de ouro e bronze nos 200m rasos da competição de atletismo. Cada um estendeu uma das luvas de couro negro de um par que conseguiram nos vestiários. O protesto foi representado pela imprensa como um protesto pela igualdade racial, já que ambos, assim como o medalhista de prata, o australiano Peter Norman, usavam um emblema da organização Projeto Olímpico para Direitos Humanos.

No entanto, a jornalista britânica Barbara Smit, em seu excelente livro “Invasão de Campo”, sobre a eterna batalha entre os irmãos fundadores de Adidas e Puma, explica que o protesto era na verdade contra a instituição do amadorismo no esporte olímpico. Esse bastião do “movimento olímpico” impedia que atletas com origens humildes competissem em pé de igualdade com os mais abastados, que podiam se dar ao luxo de treinar enquanto seguiam sustentados pelas suas famílias.

De fato, os atletas negros americanos, no auge dos protestos contra a Guerra do Vietnã, protestavam por liberdade: aquela que só é proporcionada pelo capitalismo.

A terceira influência é a Nação do Islã, nas pessoas de seus mais ilustres ativistas: Muhammad Ali, como o modelo até hoje de atleta-ativista, e Malcolm X, com autor da retórica ressentida contra uma América opressora e repressora da comunidade negra.

Beyoncé faz homenagem a Malcolm X e aos Panteras NegrasEspecialmente na imprensa esportiva, a memória de Ali é incensada para atribuir um significado mais profundo e relevante para atletas que se utilizam da visibilidade que o esporte oferece para seu proselitismo político ‒ desde que os jornalistas concordem com ele.  Caso contrário, somente a crítica ou o silêncio.

Malcolm X estava estampado em uma das camisetas usadas por Colin Kaepernick em uma de suas entrevistas coletivas. A ladainha é a mesma.

Um ponto da história que a turma esquece de contar: tanto Ali quanto X deixaram a Nação do Islã em aberta discordância com a organização. Malcolm X foi assassinado por membros da seita. E Muhammad Ali confessou ter mantido uma postura fiel à organização motivado por medo das consequências sobre si próprio e sua família.

Na prática, ambos se arrependeram de muito do que disseram, que incendiou a população negra a um divisionismo que era prejudicial a si própria e à sociedade americana nos anos 1960, quando os problemas raciais eram muito mais profundos e reais do que hoje.

A narrativa da esquerda sobre os acontecimentos

Na Globo, só o que se ouviu foi que Trump fez mais uma de suas idiotices. Mas a esquerda americana é muito mais sofisticada e impiedosa, mesmo quando está perdendo.

O vídeo abaixo é o melhor resumo do contorcionismo retórico a que a esquerda americana se propôs para encapsular os fatos da semana em sua narrativa. Nos próximos parágrafos, enumerarei as questões que o comentarista Dale Hansen, do programa Dallas Sports, da emissora local da ABC (esquerdista) com alguns comentários.

“Colin Kaepernick perdeu o emprego em represália pelos protestos.”

Não é verdade. Ele perdeu o emprego nos 49ers e uma oportunidade em qualquer outro time da NFL porque é tóxico demais para talento de menos.

“Trump quer calar os protestos pacíficos.”

O presidente não quer calar ninguém. Ele já disse que os atletas têm direito ao protesto. Só o que ele está fazendo é pedindo para que os atletas façam seu protesto em qualquer outro momento que não aquele em que são reverenciados os dois principais símbolos de unidade nacional e os milhões de americanos que dedicaram e perderam suas vidas lutando pelas liberdades que os revoltados gozam hoje. A mesma liberdade que a bandeira e o hino que querem ultrajar representam.

“O termo (filho de uma cadela) que Trump usou para se referir aos jogadores é racista.”

A ioga argumentativa aqui é impressionante. Se houver algum mérito nos artigos escritos tanto na ultraesquerdista Salon quanto na esquerdista New Yorker, eu seria capaz de apostar meu braço direito como Donald Trump não faz a menor ideia sobre isso. Ele só quis ofender quem está ofendendo aquilo por que seu eleitorado tem tanta estima.

“Trump escolher o Alabama para criticar atletas-ativistas negros é racista.”

Alabama foi um estado profundamente segregacionista. É lá que fica a cidade de Selma, que teve uma das mais importantes manifestações do movimento pelos direitos civis nos anos 1960. O ponto é que Trump é motivado pelos aplausos do público. Ele sabia que seria ovacionado se dissesse o que disse e, para ele, isso basta.

“Qualquer protesto com o qual o presidente não concorda é um protesto que ele quer silenciar.”

Já respondi a essa coisa de “silenciar protesto”. A questão é que a esquerda americana está mais do que nunca praticando isso. A organização conhecida por Antifa vem cometendo atos de violência país afora (mais notadamente em campi universitários) para tentar evitar que conservadores emitam publicamente sua opinião. E para intimidar qualquer conservador a exercer sua liberdade de expressão, sob o risco de ameaça a sua reputação e a sua integridade física.

“Meu amigo morreu no Vietnã para que Trump decida quem é patriota ou quem ama mais a América.”

Não precisa de muita reflexão aqui: quem não respeita os maiores símbolos de unidade nacional não ama o projeto que esses símbolos representam. Fim.

“Os atletas que protestam não estão desrespeitando o país, mas honrando o que o país tem de melhor.”

Se fossem somente protestos, ninguém estaria gastando um minuto com o assunto. É verdade que uma das coisas mais maravilhosas da América é a liberdade de criticá-la, por mais que isso represente uma fragilidade. O problema é que os protestos escolheram desrespeitar bandeira e hino. Isso o americano médio não aceita.

“Dizer que os atletas não estão honrando o que o país tem de melhor é um ‘apito de cachorro’ para racistas.”

A tentativa aqui é a de encurralar quem está criticando os atletas. A ofensa mais sensível para qualquer americano é ser chamado de racista. O que a esquerda quer é intimidar seus críticos, equivalendo-os a racistas, uma vez que o “apito de cachorro” é uma sinalização em código que só os “iniciados” seriam capazes de ouvir. Coisa nojenta.

“Todos deveriam protestar contra a forma como americanos negros são tratados no país.”

O vídeo abaixo de Larry Elder, traduzido pelos Tradutores de Direita, destrói qualquer argumento em defesa dessa tese.

“Se você não acredita que ‘privilégio branco’ é um fato, você não entende a América.”

Outra falácia da esquerda: não apresentar argumentos e insinuar que seus críticos são ignorantes.  Melhor deixar Ben Shapiro destruir o argumento do “privilégio branco”.

“Trump atacou mexicanos, muçulmanos a, agora, atletas negros. Mas levou dias para criticar brancos que marchavam sob a bandeira nazista em Charlottesville, a não ser para nos lembrar de que havia ‘boa gente’ lá.”

Trump não atacou mexicanos, mas imigrantes ilegais que cometem crimes nos Estados Unidos.  Trump não atacou muçulmanos, mas islamistas radicais que querem praticar terrorismo nos Estados Unidos. Trump não está atacando atletas negros, mas qualquer um que desrespeite os mais importantes símbolos da unidade nacional. Trump já criticou e censurou publicamente as organizações extremistas que pregaram supremacia branca em Charlottesville. E Trump não quis dizer que havia “boa gente” nos dois lados dos tumultos em Charlottesville, mas nos dois lados da questão sobre a remoção dos monumentos a soldados confederados país afora.

“Quando criticou os nazistas, Trump não chamou ninguém de ‘filho de uma cadela’ ou disse que tinha que ser demitido.”

Eram contextos significativamente diferentes. Ele se referiu aos atletas como um torcedor se refere a um jogador que o está desagradando. Não há nada mais profundo nisso.

“Ajoelhar perante a bandeira durante a execução do hino não é mais antipatriótico do que vender produtos como bandanas, cuecas ou capachos com o desenho da bandeira.”

Este argumento é tão asinino que não deveria merecer comentário. Mas critiquei essa postura mais acima, logo lá vai: quem vende uma cueca com a bandeira americana não está criticando o país.  Nada mais precisa ser dito.

“Os protestos são exercício de liberdade de expressão.”

De novo, ninguém quer calar o protesto, só quer que sejam feitos em outra ocasião que não desrespeite símbolos nacionais e os militares presentes. O exercício de liberdade de expressão também não isenta seu autor de críticas. É o que o presidente fez e o que estamos todos fazendo.

“Nenhuma das emendas do Bill of Rights manda ficar de pé durante o hino.”

Os Patriarcas Fundadores não são a única fonte de patriotismo. A tradição patriótica americana foi sendo construída ao longo de seus quase 241 anos de história. Assim como vem sendo lentamente erodida pela esquerda nas últimas cinco décadas.

“Quem critica os atletas que protestam quer negar liberdades básicas porque são hipócritas e porque não valorizam ou amam o país tanto assim.”

Novamente, a estratégia da intimidação. A liberdade de expressão de quem critica é protegida pela mesma emenda constitucional daquela de quem protesta.

Mas qual é a crítica central aos protestos?

A questão central, no entanto, é outra. A premissa em que todos os protestos se baseiam é, na verdade, uma mentira. Diversos estudos já demonstraram que a pretensa brutalidade policial contra jovens negros é uma falácia.

Logo, tanto o Black Lives Matter quanto os atletas-ativistas da NFL baseiam-se em uma mentira primordial para avançar sua narrativa de esquerda antipatriótica.

Mais uma vez, ninguém melhor do que Larry Elder para explicar este argumento:

Então, Donald Trump acertou em tudo?

Trump é um guerreiro cultural e a maior parte de suas atitudes é fundadas nisso. Neste caso, mais uma vez ele entendeu que a maior parte do eleitorado americano estava de um lado da discussão que ninguém tinha coragem (especialmente os políticos republicanos, intimidados pela imprensa esquerdista) de defender. Mais uma vez, ele deu voz ao americano silencioso. Ele criou o segundo polo em uma guerra que só tinha um lado lutando.

Mas não fez isso sem cometer equívocos.

Em minha opinião, há um pecado indefensável nas manifestações do presidente: o pedido para que funcionários de uma empresa privada sejam demitidos. Sim, o presidente tem o direito de expressar sua opinião, também. Mas não deveria usar o peso de seu cargo para dizer (ou mesmo intimidar) uma empresa sobre como conduzir seus negócios.

Donald Trump e a NFLO outro erro foi o de colocar a NFL, um patrimônio conservador, em uma sinuca de bico.  Depois de ameaçar diretamente atletas, Trump praticamente obrigou os principais jogadores a se posicionarem em favor de seus companheiros. Da mesma forma, os donos dos times, que já pagam normalmente pedágio ideológico como bilionários para ganharem dinheiro em paz, são obrigados a cerrar fileiras com seus atletas. E a própria NFL, que tem tido algumas posturas por demais subalternas à agenda da esquerda (em parte para sair da “berlinda” nos casos das concussões e de violência doméstica), tem que se posicionar contrariamente ao presidente.

Em política, embates como esse são definidos com apenas um vencedor. Eu não tenho qualquer dúvida de que Trump venceu a batalha. Mas a guerra é mais longa, complexa e sangrenta.

A cizânia que está instaurada na NFL é o sonho maior de qualquer esquerdista que quisesse destruir a liga. Ou atacar o patriotismo dos americanos. A não ser que alguma solução salomônica (que ainda não surgiu) apareça nas próximas semanas, uma das duas instituições sairá ferida desse episódio.

—————

Contribua em nosso Patreon ou Apoia.se e tenha acesso a conteúdos exclusivos!

Conheça o curso Infowar: Linguagem e Política de Flavio Morgenstern pelo Instituto Borborema para aprender como a política se faz pelo controle da linguagem e de sentimentos.

Faça sua inscrição para a série Brasil: A Última Cruzada, do Brasil Paralelo, e ganhe um curso de História sem doutrinação ideológica por este link. Ou você pode aproveitar a promoção com as duas temporadas por apenas 12 x R$ 59,90.

Compre o filme O Jardim das Aflições, sobre a obra do filósofo Olavo de Carvalho, por este link. Ou a versão estendida, com mais de 12 extras, por aqui.

  • Deilan Nunes

    Artigo espetacular !!!

  • Guido

    Ótimo artigo. Só uma correção: o jogo do Dallas Cowboys em que ajoelharam e foram vaiados foi contra o Arizona Cardinals.

  • Julio Cesar

    Cara, eu continuo com a nota 9, mesmo concordando com vc sobre o “estar de saco cheio do politicamente correto”.
    Eu entendo o posicionamento do Trump.
    O autor do artigo qualificou a NFL como patrimonio conservador, mas os donos dos times nao sao conservadores, sao “meramente” bilionarios, como ele mesmo disse. Ou seja, Trump nao ta nem ligando para as possiveis consequencias negativas de suas declaraçoes.
    Mesmo pq dinheiro ele também tem. Entao fica na mesma.
    Perfeito é somente Deus.
    No mais, acredito que até mesmo icones do conservadorismo como Thatcher e Reagan deveriam ter seus excessos (ou omissoes) na época.
    O que temos para hoje é isso mesmo: Trump, Bolsonaro. . .
    E esses ja fazem contraste suficiente que precisamos hoje na politica.

  • Fabio MS

    Sensacional esse texto!

  • Eliane Moura

    Excelente artigo!
    Só acho que a NFL vai ter que ficar do lado de quem realmente importa: o torcedor.
    A propósito, em qual país de governo negro os negros têm um bom padrão de vida? Haiti, Angola?
    E pq durante o governo Obama os negros americanos não ficaram ricos?
    Esse papo de racismo americano é BS pra tirar dinheiro de trouxa.

  • Rafael Dos Santos Dias

    O texto nao aparece inteiro…. alguem pode me ajudar para em “parte do “show do intervalo” e centenas de milhões de dólares trocam de mão nesse dia.”

    eu estava lendo, sai da pagina sem querer voltei e esta assim.

  • Regina Villela

    Que aula, que aula!!! Obrigada demais! Amei!!!

Sem mais artigos