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O ENEM deste ano milagrosamente não teve Marx. Mas se o que cai é Gregório Duvivier e Racionais MC's, que cultura terão nossos universitários?

O ENEM deste ano não teve Karl Marx, em pleno centenário da Revolução Russa. Se Alfred North Whitehead definiu a filosofia como notas de rodapé que colocamos nas obras de Platão e Aristóteles, apenas o último caiu no ENEM. Mas, na modernidade, a filosofia virou notas de rodapé sobre Karl Marx. Gostando-se ou se odiando, ao se conhecer um filósofo moderno, a primeira pergunta que se faz é: “Ele é marxista?”

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De acordo com o ministro da Educação, Mendonça Filho, o ENEM preferiu se furtar a temas espinhosos e que possuem divisão ideológica, evitando o que poderia causar “instabilidade jurídica”. A decisão foi elogiada por Miguel Nagib, coordenador do movimento Escola Sem Partido, que denuncia a mordaça da doutrinação ideológica na Educação brasileira.

Carmen Lúcia, a ministra do STF, impediu que se zerasse a nota de redação de candidatos que, de forma ultra-genérica, atentassem contra “os direitos humanos”, sabendo-se lá com qual critério seriam definidos “direitos humanos”.

Não ser favorável ao casamento gay é “homofobia”? E o aborto, é “direito da mulher” ou conta-se o direito do humano no ventre? Sem definições, a única certeza é a de que um ateu de esquerda teria nota garantida no ENEM, enquanto qualquer posição um milímetro fora de tal doutrina poderia ser zerada. Nenhum grupo que supostamente luta contra a “censura” deu um pio sobre a tentativa de pensamento totalitário.

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Ainda assim, fica-se inculcado com o que será que o ENEM está avaliando, em termos de cultura.

Apesar de aparições de escritores como Ortega y Gasset e G K. Chesterton (quase sempre na forma de frases isoladas), o histórico do ENEM, e de quase a totalidade dos vestibulares no Brasil, exige a leitura mais aguerrida e detalhada de autores de esquerda. Se a esquerda tanto nega a doutrinação ideológica na Educação brasileira (que fica pior a cada ano em que é dominada pela esquerda), poderia ao menos buscar disfarçar.

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Não se trata nem de esquerdistas categoria must-read, que formam a cultura geral, universal e praticamente obrigatória de homens de Humanidades: não estamos falando de textos políticos de Ernest Hemingway ou Pierre Bordieu, nem de uma análise, digamos, da diferença de visão entre Stalin e Trotsky (impossível entender o século XX sem conhecê-la, tal como qualquer ateu deve entender a visão da Igreja Católica e da Reforma Protestante, ocorrida há meio milênio).

Estamos falando da escumalha do que alguém já ousou chamar de “pensamento”. Na falta de Karl Marx, os estudantes brasileiros tiveram de lidar com coluna de Gregório Duvivier na Folha e rap dos Racionais MC’s.

Mesmo nas artes, o interesse é por Frida Kahlo, pintora de quem ninguém lembraria da existência se, num momento de fraqueza, Trotsky não tivesse passado um sal e virado ícone feminista por isso (tal como Simone de Beavouir, a ícone feminista do ENEM de 2015, que também só é ícone feminista por ter sido usada e abusada por Jean-Paul Sartre das formas mais inimaginavelmente e cinquentatonsdecinzamente submissas possíveis).

O estudante que quer entrar numa faculdade, mesmo em cursos longe das extrema-Humanas, não precisa estudar a grande cultura (talvez até o atrapalhe). O seu critério para saber se algo é “estudável”, se é in ou não, ainda mais para quem não é muito interessado nas grandes questões, é basicamente saber se algo é de esquerda ou não. Quanto mais comunista sem usar essa palavra feia, melhor.

Na vida real, ninguém lê Carta Capital ou, oh, horror, Caros Amigos para se informar. No mundo dos vestibulares e provas como o ENEM, o estudante é obrigado a passar por tal martírio, como se fosse mais importante do que ler qualquer outra fonte de informação mais séria. Todavia, tais fontes sofrem daquele pecado mortal: não são de esquerda o suficiente para passar um pano “jovial” até para os maiores genocidas do socialismo.

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Indo bem no vestibular e no ENEM ou não, se é esta a cultura que é exigida de nossos alunos, não podemos apostar todas as fichas na futura geração. Ao menos, não no que aprendem na escola.

A dica que sempre damos para jovens continua valendo ouro: “Na redação do ENEM e do vestibular, esquerde. Esquerde muito. Fale em desigualdade e preconceito, cite Adorno e Žižek sem entender do que está falando e corra para o abraço!”

Quando teremos uma educação baseada em problemas reais, inclusive baseada na idéia de ler idéias profundas (que estão longe de serem necessariamente difíceis, e muito mais longe ainda de serem chatas)? Jovens não precisam ser tratados como completo palermas, ao menos em um percentual razoável dos casos, capazes de só entender textos no nível Porta dos Fundos. Ainda mais chegando na vida adulta, quando têm um grande rito de passagem a cumprir. Seria menos doloroso cortar o prepúcio.

Não é preciso ser um Álvares de Azevedo para discutir questões muito mais profundas do que um rap do Racionais MC’s ou uma coluna de Gregório Duvivier aos 18 anos (nem é preciso discutir o problema mente-corpo ou o livre arbítrio, pode ser o petrolão ou as causas da criminalidade, que os jovens conhecem bem).

Enquanto o sistema educacional brasileiro for uma repetição e adulação de “nulidades cuja única virtude é serem de esquerda”, como perfeitamente diagnosticou nosso colunista Flávio Gordon em seu livro A corrupção da inteligência, continuaremos sempre lendo as velhas opiniões mofadas sobre tudo, tratadas como “revolucionárias” e “agora vai”, e obrigando todo jovem a ser meio esquerdista se quer chegar na faculdade. Só com muito estudo próprio e personalidade forte que conseguirá se livrar do clichê coletivo um dia.

Ah, falando nisso: já comentamos que Chico Buarque caiu no ENEM? Nem precisava.

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