Há uma guerra do interior e da periferia contra a arrogância acadêmica da capital e do centro

Qualquer fenômeno que ajude a eleger um presidente dos Estados Unidos, ou a retirar o Reino Unido da União Europeia, deveria ser estudado a fundo, e não tratado com desprezo por aqueles que se querem cientistas. Mas a academia anda por demais viciada e vaidosa, preferindo agarrar-se a certezas que carrega há gerações em vez de constantemente revisar os próprios conceitos – o que seria bem mais científico, mas é politicamente tido por crime.

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Ainda que confuso e histérico, o “globalismo” – sim, é disto que este texto trata, pare de fazer careta e continue a leitura – parece de fato um problema a ser combatido. Há, claro, uma leitura que soa fantasiosa e exagerada: um governo global que emplaca marionetes no comando de vários países. Mas mesmo esta entrega um fenômeno corriqueiro, o da influência externa em agendas locais.

Porque, por mais que a humanidade seja uma só, as realidades são bem distintas. E só quem está no centro do problema tem as condições ideais para realmente compreendê-lo. Mas o grito deste indivíduo tem sido cada vez mais sufocado por forças longínquas, seja esta uma liderança de bairro, um sindicato, uma prefeitura, um governador, um presidente, um bloco econômico ou mesmo a Organização das Nações Unidas.

Referenciar a ONU, contudo, mais atrapalha do que ajuda. Pois empresta uma fantasia planetária a uma lógica que causa problemas até mesmo se aplicada num condomínio. Que é a de ignorar a necessidade de diálogo no jogo democrático. Ou de simplesmente tratar a democracia como um engodo descartável.

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Grosseiramente, democracia é vendida como o sistema em que o poder emana do povo. Na prática, contudo, é o sistema em que grupos poderosos ganham força quando convencem o povo de que suas intenções são as melhores. Lendo assim, fica longe da perfeição, mas é ainda superior ao que uma ditadura oferece, uma vez que nesta a necessidade de convencimento inexiste, tudo é feito à força.

No momento em que um pequeno grupo de renomados cientistas alega ter encontrado a verdade e que a verdade precisa ser implementada à revelia de uma consulta popular, por intermédio ou não de seus representantes, o cientista age mais como um ditador, e menos como um democrata.

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É assim quando a tal ONU pressiona o governo a aprovar uma lei de imigração independente do devido debate público, é assim quando Michel Temer desengaveta um projeto da década anterior para correr com a reforma trabalhista, é assim quando Fernando Haddad define as políticas de toda uma São Paulo com o que escuta na linha amarela do metrô – as pautas até vencem, mas não convencem.

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É uma elite que se quer intelectual definindo o que é melhor para aqueles que mais distantes estão do centro, mas sem se distanciar do centro, sem chamar para conversar, e desprezando toda a gritaria que está vindo lá de longe, da periferia, do interior, do caipira, do sertanejo, do evangélico, do nordestino, do redneck, do white trash, do bolsominion.

Os mapas de votação desenham bem: hoje há uma guerra do interior/periferia contra a arrogância acadêmica da capital/centro. E os primeiros têm acumulado grandes vitórias. Foi assim que Trump derrotou Clinton, que Doria derrotou Haddad, que Crivela derrotou Freixo, que o Brexit passou.

Ou o pós-graduado tira o fone do ouvido para escutar o que estão reclamando, ou é melhor já ir se trancando em bolhas cada vez mais apertadas.


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