A seleção da Islândia já conseguiu segurar Portugal de Cristiano Ronaldo e a Argentina de Messi. Como a ilhota no Atlântico Norte pode ter feito o que os gigantes querem fazer?

A Islândia possui uma população de 336 mil habitantes. Um pouco menor do que a cidade Paulista de Piracicaba. Cerca do dobro de Bragança Paulista, lar de nosso patrimônio, o vô Joaquin Teixeira. Ninguém pensaria no XV de Piracicaba ou no Bragantino segurando a equipe portuguesa com Cristiano Ronaldo ou a argentina com Lionel Messi. Mas foi exatamente o que o diminuto país do Atlântico norte conseguiu na Eurocopa em 2016 e no seu jogo de estréia na Copa do Mundo de 2018.

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Como é possível que o time da Islândia, em que o goleiro não é goleiro full-time (também é cineasta, e fez um trabalho com a Coca-Cola de cair o queixo para apresentar sua própria seleção), que mal tem um campo para treinar, consiga segurar duas das seleções mais temidas, com os dois melhores jogadores do mundo, que não conseguiram marcar nenhum gol? (Cristiano Ronaldo e Messi saíram reclamando)

Islândia enfrenta Portugal de Cristiano Ronaldo na EurocopaPara completar, a seleção da Islândia ainda chegou às quartas de final da Eurocopa tendo desclassificado a poderosa Inglaterra, e na Copa do Mundo, o goleiro Hannes Thór Halldórsson segurou um pênalti de ninguém menos do que Lionel Messi. Como é possível?

Malcolm Gladwell, um dos melhores escritores da atualidade, descreveu no livro Davi e Golias algo que vai contra o nosso instinto primário: em disputas entre exércitos grandes e exércitos pequenos, a chance de vitória dos exércitos menores é incrivelmente maior do que dos grandes exércitos, historicamente falando.

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Pense-se em uma guerra entre os Estados Unidos e o Canadá. Em quem deveríamos apostar nossas fichas? Mesmo ocorrida há mais de 200 anos, a única guerra entre os dois países teve vitória do menor exército, que permitiu que o Canadá tivesse a extensão territorial descomunal que possui hoje, com uma população menor do que a do estado de São Paulo. E basta pensar nas modernas guerras americanas, como a do Iraque e do Afeganistão: cada soldado americano, afinal, estava ali contra centenas e centenas de mujaheddin. E eram os favoritos.

Gladwell se vale do mito bíblico e de uma leitura detalhada de cada palavra na narrativa para explicar por que tantas vezes a vitória de um Davi contra um Golias é até mesmo óbvia. E nos dá um exemplo esportivo. Em uma liga colegial americana, um time de basquete ficou sem técnico. Era um time virtualmente sem talento, que perdia todas do campeonato. O pai indiano de uma das alunas de 12 anos resolveu cumprir ele mesmo a função, mesmo sem nenhuma experiência com o basquete. Criou um time indestrutível, que chegou a disputar os National Championships, e vencia com placares indescritíveis, como 80 a 10.

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Seu segredo? Ter pensando fora da caixinha. O novo técnico notou que, no basquete, assim que um time marca uma cesta, ele se volta todo para o seu campo refazendo a sua formação, presumindo um jogo como os que vemos pela TV, com duas equipes com razoavelmente o mesmo nível. Era algo impossível para um time tão inferior, que seria massacrado. Inclusive, suas jovens atletas eram mais baixas do que a maioria das adversárias.

Ao invés de fazer uma cesta e refazer a formação, presumindo certa igualdade de nível, assim que o time fazia uma cesta, ele simplesmente fechava a entrada da sua porção da quadra, fazendo com que times bem superiores, assim que tomassem uma cesta, só conseguissem andar na sua metade da quadra, tendo a bola imediatamente roubada de novo para uma nova cesta.

Uma coisa com a qual grandes esportistas (e técnicos) não estão acostumados a lidar é com o imprevisível. Mesmo Messi e Cristiano Ronaldo (e Neymar) não parecem acostumados a jogar com um time que faça algo diferente, incomum. Uma formação esquisita e nunca pensada, ou simplesmente incomum, como a da seleção da Islândia, e toda a máquina de fazer gols se torna anódinos 0 x 0 ou 1 x 1 com um time que, proporcional e culturalmente, não tinha muita expectativa de ser melhor do que o Bragantino.

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Torcida da Islândia - Viking clapDe fato, é bem provável que a seleção argentina ou portuguesa consiga grandes resultados contra potentes adversários, como Brasil, França ou Alemanha (ou o mesmo ocorrendo com times como Milan, Arsenal ou Bayern), mas a um só tempo não consiga goleadas gigantescas contra um Guarani ou Criciúma, caso esses times estejam desesperadamente assustados e pensando não em fazer gols (e deixar, com isso, flancos abertos na defesa), mas em simplesmente fechar o gol com 10 zagueiros, como se fosse handebol, e não tomar gols. Como foi o caso da Islândia.

O fenômeno lembra também de uma das primeiras teses famosas de Nassim Nicholas Taleb, a Lógica do Cisne Negro. Enquanto não se acreditava que cisnes negros existiam, todo o conhecimento científico (que está longe de ser sinônimo de “verdadeiro”) tratava como balela a literatura mítica sobre eles, crendo ser puro misticismo o que era uma verdade maior do que o frágil conhecimento moderno. Assim que um foi descoberto, todo o castelo de cartas da arrogante ciência moderna se desfez e tudo o que era comumente feito e pensado teve de ser revisto ou descartado em face de um pequeno fenômeno inesperado.

O empreendedorismo vive disso, tal como os atentados terroristas. E na nossa vida social, dos esportes à democracia, das crenças religiosas aos relacionamentos, o impacto do incerto se faz sempre presente.

O esporte, ainda mais reunindo uma gama tão vasta de grandes times ao lado de “zebras” como acontece na Copa do Mundo, tem parte da sua graça nos favoritos que ganham a maioria, mas também quando os 10% ocorrem a cada 100%. É parte da graça da vida. E algo do qual sempre nos esquecemos ao apostar tanto em coisas com “80% de chance”, por exemplo.

Nem sempre é uma questão de “dar zebra”, ou de serem os “azarões” num dia de sorte. Basta ver como a seleção da Islândia se focou muito mais em se proteger, e com a Argentina inteira atacando, assim que via uma brecha, partia para um contra-ataque “seguro”. Era o Davi que segurou dois Golias. E também foi um Cisne Negro nórdico.

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