Terceiro Reich

É preciso ser bem retardado para acreditar nas fanfics da esquerda contra Bolsonaro

Escravizar negros. Matar gays. Subjugar mulheres com armas. E muitos neonazistas e suásticas para todo lado. Este é o mundo imaginário de fanfics de esquerda contra Bolsonaro

Tão logo Bolsonaro foi confirmado no segundo turno com chances numéricas praticamente nulas para Haddad, começaram a pipocar na internet histórias estranhas, sem provas, mal acabadas, sobre supostas agressões que pessoas teriam sofrido de eleitores de Bolsonaro. Via de regra, os “bolsonaristas” das historinhas são retratados como nazistas tout court, só faltando usar sobretudo Hugo Boss com suásticas no braço no meio de Sergipe. São as famosas fanfics.

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O termo é retirado dos fóruns de mangás, nos quais fãs das historinhas tentam recriar os roteiros profissionais de maneira tosca. Surge a fan-fiction, uma narrativa bobinha, plana, maniqueísta e que os adolescentes que ouvem emo acabam reproduzindo quando tentam brincar de política ao atingir mais idade. É uma maneira segura, escapista e aparvalhada de fingir que estão mesmo numa aventura perigosa contra nazistas ao concordar com os professores e amiguinhos e votar no Haddad.

Tem fanfic para todos os gostos. Mas quando se trata de Bolsonaro, o elemento comum praticamente nunca muda: associar sua eleição ao nazismo. Todos os seus eleitores seriam nazistas que vão matar todos os gays do país, restaurar a ditadura militar num molde Terceiro Reich, as mulheres serão submissas aos homens através de armas, os negros serão reescravizados e qualquer outra patacoada que só existe na cabeça de esquerdistas.

O problema é: estão falando isso a sério. Os jovens, as pessoas com menos instrução, muitos acabam caindo nesse mundo fantasioso da esquerda. E como não há nada no programa de Bolsonaro que mostre um futuro pior do que o Khmer Vermelho (pelo contrário: prevê federalismo e Estado mínimo, na primeira tentativa de diminuir os poderes do presidente desde o Império), apelam a fanfics.

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Relatos e mais relatos, sem uma foto, um vídeo, uma prova, dão conta de que o Brasil está à beira da chegada de Adolf Hitler ao poder. Sempre com neonazistas com suásticas ostensivas, discursos anti-nordestinos que nunca foram feitos antes de anteontem (e em que momento Bolsonaro teria feito até mesmo uma de suas frases politicamente incorretas contra o Nordeste?!), crianças à beira de terem seus órgãos vendidos. Se está na internet, aconteceu de verdade.

Algumas fanfics estão sendo bem elaboradas. Como eleitores de Lula que andaram pelo Nordeste fingindo que eram eleitores de Bolsonaro distribuindo grama para nordestinos comerem. Obviamente: é a visão de Bolsonaro que apenas petistas e a esquerda têm. Não a que seus eleitores pensam dele.

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Outra foi uma bela fake news divulgada aos 4 ventos pela grande e velha mídia: o de que um mestre de capoeira teria sido assassinado por criticar Bolsonaro. A fanfic ficou destacada no Twitter por mais de um dia, divulgada por todos os grandes portais de notícias e usada como exemplo da “intolerância” e do risco da eleição de Bolsonaro ou de quão violentos são seus eleitores.

Não durou 3 dias: a declaração do próprio homem que matou o mestre capoeirista deu um plot twist violento na narrativa da esquerda, hoje tão centrada em minorias: o homem fala que foi uma briga de bar na qual foi chamado de “negro e viado”. Mesmo perguntado se não havia uma motivação política, o homem negou.

Os portais que tanto divulgaram a notícia raramente postaram algo desfazendo a impressão que tentaram causar. A primeira é a que fica.

Uma das fanfics recentes mais divulgada, que foi replicada por n jornais, é a de uma “jovem lésbica de 19 anos” que teria sido agredida a socos por três homens após descer de um ônibus, e depois desenhado uma suástica com um canivete em sua barriga. A mulher estaria usando uma camiseta “Elenão” e os agressores, obviamente, seriam “apoiadores de Bolsonaro”, já que só assim podem tentar produzir algo contra o candidato hoje.

A notícia foi divulgada com tom de cobrança ao próprio Jair Bolsonaro por Fernando Haddad e por Manuela D’Ávila, que aparentemente é sua candidata a vice, embora só se lembrem do Lula. Além, é claro, de Maria do Rosário.

(obviamente que se, ao invés de terem supostamente desenhado uma suástica na jovem, tivessem-na seqüestrado, estuprado coletivamente por 5 dias e a matado degolada com um facão, como fizeram com Liana Friedenbach, Maria do Rosário poderia acabar defendendo o agressor, dizendo que é “apenas uma criança”, como o fez em seu famoso bate-boca com Jair Bolsonaro.)

Haddad e Manuela divergem da data do ocorrido. Pegando-se mais um tweet de um famoso apoiador do PT nas redes, chegamos ainda a uma terceira data diferente.

O fato de as datas não baterem não foi averiguado por agências de suposto fact-checking, como Lupa e Aos Fatos. Nem por jornalistas que replicaram a fanfic com tom de cobrança ao próprio Jair Bolsonaro, como Mônica Waldvogel, Lúcia Guimarães, Carolina Cimenti, Cauê Fabiano e Quebrando o Tabu (óbvio).

Nem mesmo notaram o fato de terem feito a mesma fanfic no Rio Grande do Sul, e depois terem replicado como se ela tivesse ocorrido no Rio de Janeiro. Para atacar Bolsonaro e jurar que ele é nazista, nem importa acertar o Rio.

Fanfic da suástica

Fanfic da suástica

(do Instagram de Thais Azevedo)

Mas um dos destaques mesmo ficou para o cartunista Carlos Latuff, um dos maiores críticos de Israel do planeta, que já entrou na lista dos 10 cartunistas mais anti-semitas do planeta e que (oh, ironia!) ganhou até um prêmio no Irã (!!!) num concurso para… negar o Holocausto. Latuff ficou com o segundo prêmio. O cartunista petista também associar Bolsonaro ao fascismo, mesmo defendendo o que defende:

As esquisitices não pararam aí. O delegado responsável pelo caso, Paulo César Jardim, afirmou o óbvio: quem fez este desenho não sabe o que é uma suástica, e acabou o desenhando invertido, o que o transforma no símbolo budista de paz.

Ora, uma suástica ficaria “invertida” se fosse feita através de um espelho. E aí, saberíamos imediatamente quem é o verdadeiro autor da “suástica”. Também não há marcas de luta no corpo da jovem – só a tal “suástica”. Parece que ela não se debateu e não procurou evitar o desenho enquanto estava sendo supostamente talhada à força.

As linhas também estão completamente retas, sem demonstrar sequer a dor de cortes na região sensível da barriga. Nenhum corte profundo e todos homogêneos, também: meio estranho para os perigosos neonazistas bolsonaristas, tão cuidadosos com a barriga da garota. Nada de marcas de faca nas mãos, braços, resto da barriga. E os cortes se repetem muitas vezes: não parece muito o modus operandi de alguém que quer causar dor e meter uma suástica contra a vontade de alguém, e sim o trabalho laborioso de alguém que gastou bastante tempo cortando de forma superficial, evitando dor e tentando fazer várias vezes o desenho, da maneira mais reta possível. 

Claro, a investigação policial poderia descobrir tudo isso. Então, não mais do que de repente, a garota resolve desistir de representar criminalmente, e pronto, nenhum crime existe, sua barriga não será mais investigada. Por que ela mudou de idéia? Porque poderia acabar gerando problemas para ela própria?

Depois da enxurrada de jornalistas que exercitaram a boataria, nenhum pediu desculpas, voltou atrás, ou ao menos duvidou da versão da garota. Despiciendo lembrar que são os mesmos que, ao reportarem as denúncias de fraudes nas urnas eletrônicas, prontificam-se imediatamente a dizer que é tudo fake news, ou a colocar a palavra “suposto” ou “suspeito” até em assassinato confessado – mas se o espalhafato é contra Bolsonaro, o próprio Jair Bolsonaro, todos os seus eleitores no planeta e a própria Santíssima Trindade são obrigados a se pronunciar, do contrário são todos nazistas, e os jornalistas podem espalhar tal verdade incontestável sem precisar provar (até menos do que a suposta “vítima”) e depois fazer análises sobre o risco da ascensão da “extrema-direita”.

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Como sabemos quando algo é fanfic ou não? Simples, quando alguém é REALMENTE agredido, a pessoa vai até o final para ver seus agressores punidos. Isso não significa fazer textão no Facebook. Isso significa ir a uma delegacia, prestar depoimento, fazer o bo e o corpo de delito. Se a pessoa se recusar a fazer isso, sabemos que é mentira. Outro holofote de evidência é: a pessoa não pode estar em 2 lugares ao mesmo tempo. A mina da suástica era do sul. Foi noticiado que era do sul. Os marmitas do Lula postaram dizendo que a mina era do sul. Aí aparece uma mina do RJ contando a MESMA história, só que com uma amiga que teria sido agredida no centro do RJ… Assim fica difícil acreditar em vcs, Pedrinhos. Quando o lobo vier de verdade, ninguém levará vcs a sério. Fica a dica da professora. 😉

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Não foi a única suástica. Basta procurar nas redes e parece que é impossível entrar num banheiro público hoje sem suásticas desenhadas erroneamente (belos neonazistas estes, hein?) e mensagens de morte a negros endossando Bolsonaro – exatamente como a esquerda pensa que Bolsonaro é, e não a direita. As mensagens de ódio, ao invés de revoltosas e agressivas, são sempre escritas com letras caprichadas, delicadas e até femininas.

 

A revista Fórum, que é uma espécie de “voz oficial” do PT, chegou inclusive a postar que o teatro da UERJ havia sido pichado com os dizeres “Fora Pretos” (imitando a falta de vírgulas da esquerda e seu “Fora Temer”). A foto, na verdade, era de 2011.

E que tal lembrar de um outro grande momento das fanfics: quando Arlindo Chinaglia, debatendo com nosso colunista Filipe Martins, afiançou que Bolsonaro já havia afirmado que “nordestino deveria comer grama” (isto após acusar a direita de espalhar fake news)? O desfecho foi simplesmente hilário.

Ou que a ditadura já começou e estão prendendo as pessoas arbitrariamente:

Até entre as crianças armadas nas escolas:

Tudo isto, é claro, com conivência da mídia, que agora quer informar a quem busca saber do que acontece que há um surto de “ódio e intolerância” pesadíssimo de eleitores de Bolsonaro, que estão espancando e pichando suásticas e agredindo negros pelo Brasil.

Dá pra acreditar em alguma delas? Enquanto tudo o que se tem de críticas ao PT é calcado em fatos, como seu próprio programa, seu apoio à ditadura da Venezuela (que o partido está agora apagando do site), sua tentativa de usar o MEC para destruir a família e afins, tudo o que se tem contra Bolsonaro é baseado em ouvir dizer. Para uma geração de leituras fracas, uma fanfic no Facebook ou Twitter vale muito mais do que uma investigação policial ou ler livros ao invés de manchetes e posts sem fontes.

A grande vantagem é que a impressão que fanfics causam, de estarmos à beira do Terceiro Reich, se inverte logo que são desmentidas: quem acreditaria num partido e numa ideologia que precisa viver de historinhas inventadas? Basta pedir um BO, que investiga tudo, e aí os autores das fanfics desaparecem como que por mágica, ainda que os grandes jornalistas que divulgaram nunca peçam desculpas por falarem tanta bobagem.

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