Censura

Legalizem a tia Lourdes do Zapzap!

A esquerda culpava a burguesia, depois o imperialismo, depois a mídia, depois a CIA e o Sérgio Moro por seu fracasso. Hoje identificaram o maior fascista: a tia Lourdes do Zapzap

Na era em que tudo é político, para alegria de Michel Foucault, todos que acessam a internet sem fins pornográficos acabam com rapidez tendo de atualizar as coisas que agora são “fascistas”. Repudiar corrupção, camiseta da seleção, ser heterossexual, não defender assassinato em troca de celular, não abortar, não gostar de criança alisando um galalau pelado com a jeba balangante no museu e, claro, votar no Bolsonaro, que é uma espécie de jubileu de tudo isto. Mas a esquerda definiu que a “democracia” brasileira está ameaçada por um perigo muito maior: a tia Lourdes do Zapzap. Aquela nazista.

A tia Lourdes achava que seu Mega Drive era uma bobageira que iria te deixar cego e retardado (e há um risco de ela ter acertado em pelo menos uma das premissas). Não sabia utilizar o interfone direito, e a primeira vez que vi uma impressora funcionando começou a rezar para Santo Expedito. Quando viu a primeira conta de telefone da sua internet discada, achava que você estava fazendo um pacto com o Cramunhão pelos fios.

A tia Lourdes faz bolinho de chuva e fazia crochê pra fora, permitindo que seu pai tenha virado um ótimo comerciante que sustenta uma família com 8 criaturas e você, um inútil retardado que faz Geografia em Universidade pública e não consegue nem alimentar seu Tamagochi, mas tem 2 mil seguidores no Twitter e às vezes até ganha uns replies do PC Siqueira.

Não há a menor chance de a Tia Lourdes conseguir ligar a TV e assistir a novela com esses controles remotos atuais sem precisar ligar para o sobrinho mongolóide que tem como grandes preocupações o casamento gay, os banheiros para transgêneros e a legalização da maconha, mas ao menos sabe ligar a desgraça da TV. Para alguma coisa ele teria de servir.

Bom dia da tia LourdesTia Lourdes não é uma cosmopolita como seu sobrinho eleitor do PSOL que faz mochilão na América Latina, mas depois de uma bela viagem pra Nova York pra comprar equipamento. Ela nunca viajou de avião, inventa sempre um jeito ainda mais engraçado de pronunciar Tupperware, não gravou até hoje o que significam os botões “REW” e “FF” do videocassete e às vezes é flagrada pelo sobrinho galeroso assistindo o Datena, aquele fascista.

A tia Lourdes também começa a ter umas idéias estranhamente fascistas. Por exemplo: ela passa a não gostar de bandidos. Até acha que assassinos precisam de uma punição mais nazista do que aula de capoeira e artesanato com garrafa pet. Ao menos o sobrinho todo semiótico acha que ela precisa do Datena pra pensar esses absurdos.

Tecnologia mais avançada do que uma panela de pressão, definitivamente, não é com a Tia Lourdes. Ela ouviu falar da Conceição do 202 e da tia Dalva, a que anda com a Isaura e a Alzira, que celular dava câncer e acreditou por anos que na internet só tinha putaria e pactos com o Demônio (tia Lourdes às vezes é uma gênia). Quando você mostrou algo feito no Corel Draw para ela, ela perguntou se não era melhor entregar currículo como carregador no supermercado ao invés de perder tempo com essas besteiras.

Mas aí veio um tal de Steve Jobs e reinventou a idéia de telefone celular: agora serão não apenas microcomputadores ainda mais micro, e fáceis de usar. Tão fáceis que até tia Lourdes consegue usar, entre uma macarronada, uma ida à feira e uma rodada de pastéis ouvindo o programa da Silvia Popovic.

E aí, a esquerda brasileira, aquela encastelada no Palácio do Planalto há mais de uma década graças ao mensalão, que permitiu que Lula legislasse com sua estrutura de partido verticalizada, sem contrapeso do poder Legislativo (todas as votações eram cartas marcadas comprando votos), a esquerda do petrolão, a esquerda pedaladas, a esquerda do Celso Daniel, esta esquerda que chama censura de “regulamentação” e está preocupadíssima com a ascensão do fascismo, identificou quem é a maior fascista do país: a tia Lourdes.

Waffen SSApós muita investigação, descobriram que a aparentemente inocente velhinha é na verdade a maior agente da Waffen SS em terras brazucas. Que a tão propalada democracia brasileira está em frangalhos, com risco imediato e risco de torturas e espancamento de negros, mulheres, gays, nordestinos e atores fracassados esquecidos pela Rede Globo, graças à ascensão autoritária orquestrada pela terrível e temível tia Lourdes, com uma nova arma de destruição em massa mais mortífera e cruel em seus lentos efeitos do que a câmara de gás: o WhatsApp.

A tia Lourdes, que acorda e manda cerca de 800 imagens com flores, ursinhos, paisagens, Jesus Cristo, sol, mais flores, tudo dando bom dia, mensagens de amor, carinho, motivação, harmonia, tudo isso antes das 7 da manhã, vejam só que ditadora, também às vezes compartilha uma informação NÃO-CHECADA (favor apertar este botão). Com isso, nossa nazista heroína acaba todo dia compartilhando alguma fake news, que, como todos sabem, já que é tão repetido, é uma novidade e é mais mortal do que AIDS, câncer, lepra, peste negra e CD da Daniela Mercury somados.

E vira e mexe acaba aparecendo uma notícia de que o Haddad, por exemplo, responde a 50 processos após sua gestão na prefeitura de São Paulo, o que garante o selo FAKE NEWS em vermelho e letras garrafais das agências de checagem (na verdade, Haddad responde a apenas 32 processos).

Ou que Haddad foi considerado o pior prefeito do Brasil (especial quando a tia Lourdes não é paulistana) e não conseguiu nem chegar ao segundo turno de sua reeleição (FAKE NEWS!!!! na verdade, Haddad foi apenas o pior prefeito entre 8 prefeitos de capitais e pior em avaliação desde Celso Pitta, veja bem, veja bem). 

Mas a preferida de todos, do Andrade e da tia Lourdes, é a de que o Haddad teria incluído no kit gay um livro com buracos para as criancinhas enfiarem os dedos no lugar dos órgãos sexuais, o que configura fascismo, e mostra que devemos censurar o WhatsApp, ou melhor, regulamentar, que seria beeem diferente.

Ora, na verdade o livro “Aparelho Sexual e Cia”, do pacote Escola Sem Homofobia”apenas foi distribuído em bibliotecas, e não foi distribuído pelo MEC justamente porque votos como o de Bolsonaro no Congresso impediram (logo, Bolsonaro mente fascistamente ao usar o livro como prova do que o MEC fez, quando na verdade apenas faria, mas o próprio Bolsonaro não permitiu). Logo, FAKE NEWS!!!! e vamos chamar Bolsonaro e tia Lourdes de nazistas que vivem de espalhar mentiras.

Claro que devemos dar aquela ignorada marota™ em outros livros distribuídos, como o imperdível “Mamãe, como eu nasci?”, distribuído a crianças de 8 a 10 anos em Recife, administrada pelo PT. Com criancinhas se masturbando e lições ensinando a olhar a vulva, o livro seria ainda pior se mostrado no Jornal Nacional – William Bonner consideraria que o material divulgado para criancinhas é muito pesado para os pais verem no horário nobre antes de decidir seu voto.

A esquerda, tão preocupada em controlar o que devemos pensar, viu que esse negócio de a tia Lourdes ser não apenas uma consumidora de notícias, mas também uma divulgadora por meio do fascistíssimo botão “compartilhar” é algo que precisa de censura, digo, regulamentação. Afinal, a tia Lourdes está praticando desinformação, aquilo que a esquerda jurava que não existia quando a KGB espalhava pelo mundo, e achando que é a mesma coisa do que uma tia-avó que não acessa o site da Agência Lupa (que só fala verdades, naturalmente) antes de compartilhar o que lê no Zapzap.

Ou seja: a tia Lourdes simplesmente compartilha posts de sites que não verificam informações em detalhes, apesar de o grosso da mensagem permanecer verdadeiro (o que acontece muito com a grande mídia, inclusive, mas esta pode dizer que é “coluna de opinião”). Mas já a comparam com espiões da KGB. Ah, não, isso pegaria mal: é sempre para fazer comparações com fascistas.

Como se a tia Lourdes, afinal, tivesse interesse em criar e propagar mentiras, e não apenas acreditar em mensagens um pouco exageradas justamente porque o PT exagerou todos os níveis de corrupção, amoralidade e mentiras da história deste país, com a melhor das intenções. E exageros que, mesmo quando “corrigidos” após o chorume de jornalistas e agências de checagem, não fazem a mais ínfima diferença no voto e em quem é realmente um cretino nessas eleições.

Parecem que esqueceram que o PT tinha (e tem) toda a blogosfera progressista (aquela que diz que Moro foi treinado pela CIA, que impeachment é golpe e até hoje tá naquela logorréia ultrapassada de que a a Globo é “golpista”) a seu favor, manda mensagem até de celular da cadeia dizendo que o Bolsa Família vai acabar se o PT não for eleito plenipotenciário (sempre repetem essa), que vai voltar a ditadura e a tortura, que só haverá oxigênio com o PT.

Todo mundo tem uma tia Lourdes no grupo de WhatsApp da família. É geralmente a que só chama o WhatsApp de ZapZap, sem nem saber que o nome do aplicativo tem um trocadilho em inglês. É a tia Aracy, a tia Ivone, a tia Zulmira, a tia Cremilda ou a tia Amélia. E se elas às vezes transmitem uma notícia ou outra que estão mais para exageradas do que falsas, é porque são verossímeis. Parecem verdade quando se trata da hecatombe na normalidade que foi a chegada do PT ao poder. Ou a tia Aparecida ou a tia Inocência iriam compartilhar essas coisas no Zap se Lula fosse um anjo e Dilma, uma filósofa?

A esquerda brasileira quer aproveitar o termo da moda, fake news, e surfar na onda mundial da mídia: ter uma desculpa para seus erros. Se algo que a mídia e a esquerda (cada vez mais uma e mesma unidade) fazem ou pensam não condiz com o que a população faz ou pensa, certamente é porque o povo, essa canalha ignara, está acreditando em mentiras. A Globo, a Folha, a Veja, estes bastiões da verdade que nunca falham e nem têm interesses ocultos por trás, só podem querer controlar a concorrência para ter o monopólio das fake news, mantendo sua cumplicidade monstruosa com dinheiro público para se manter de pé.

E a esquerda precisa dessa desculpa de fake news não apenas para censurar (nesta época em que não adianta mais queimar livros, é preciso bloquear o meio, e “regulamentar” as redes sociais), mas também para manter a narrativa. Se perde, é porque o povo foi enganado. E por alguém tão poderoso que justifique medidas extremas, que seriam chamadas de censura pela mídia, não fosse a mídia se ver livre de um concorrente. Por isso a retórica estrambótica e exagerada: fascistas pra cá, extrema-direita pra lá.

Afinal, não é que o PT roubou, é que certamente a tia Lourdes é nazista.

Alguém ainda vai acreditar nessa, mesmo que a mídia não pare de repetir? Está na hora de uma campanha séria para legalizarmos a tia Lourdes.

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