Luto

Morte de Boechat é uma das mais tristes notícias do jornalismo brasileiro em anos

Apesar de já chegar à terceira idade, Ricardo Boechat representava um esforço de renovação, independência e coragem no jornalismo em crise no país

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A morte do jornalista e âncora da Band News Ricardo Boechat em um acidente de helicóptero na manhã desta segunda-feira (11) é uma das notícias mais tristes que os jornais divulgaram. Não apenas pela notícia, mas para o próprio jornalismo, que perdeu, com Boechat, uma de suas melhores vozes atuais.

Boechat sofreu uma séria crise de depressão em 2015, e era uma das poucas pessoas com coragem de falar sobre o ocorrido, para alertar não apenas quem sofria do mesmo mal, mas sobretudo as pessoas que não sabem o que é a doença e a confundem com uma tristeza ou “estar jururu”, como o âncora descreveu.

Saído da depressão, Boechat pareceu não apenas revigorado: estava combativo, corajoso e com um vigor que não se via em um jornalista televisivo desde os anos 90.

Parece que o âncora da Band News percebeu que o jornalismo vivia talvez a maior crise de sua história. Enquanto jornalistas repetiam aleatoriamente a tese de que o problema do mundo, do dia para a noite, seriam as tais “fake news”, Boechat, em um encontro de jornalistas promovidos pela Folha, rasgou o verbo: o problema seriam as “fuck news”, o “monte de merda que os jornais publicam todos os dias”. Isso, frise-se, foi dito para jornalistas.

Era quase a apresentação de um novo Boechat. Se o antigo jornalista já havia chegado a defender “arranhar carro de autoridade, a jogar ovo, a quebra-quebra”, sua virulência contra os poderosos estava mais refletida: os jornais também faziam parte do que hoje chamamos de “sistema” ou establishment. A grande mídia, que deveria ser o maior contrapeso aos poderosos políticos e suas tramóias, não era uma vítima: era ela própria uma das principais forças de sustentação das idéias que mantinham os poderosos bem encastelados e protegidos do povo.

Isto não significa que Boechat tenha virado um revolucionário contra tudo isso que está aí, nem mesmo um crítico do establishment como a expressão tornou-se conhecida após a eleição de Donald Trump, mas o jornalista tomou para si a responsabilidade de pensar sozinho, não raro contra os seus pares, como no evento da Folha, não importando qual fosse a conclusão – e quem não gostaria de ouvi-la.

Ricardo Boechat de perucaEm seus comentários, tornou-se comum que Boechat, com calma, educação e uma clareza admirável, corrigisse notícias que estavam sendo veiculadas, sem precisar citar nomes ou mesmo dizer que eram correções. Bem humorado, chegou a usar uma ridícula peruca para apresentar o telejornal da Band, além de aparecer de sutiã em uma campanha pela vacinação contra a gripe.

Mesmo já chegando à terceira idade, Boechat era, curiosamente, um dos poucos – raros – nomes do jornalismo a significar alguma possibilidade de renovação. Boechat, afinal, não comprou lados ideológicos ou escolheu partidos ou candidatos – menos ainda aderiu ao tom apocalíptico e ridiculamente histérico que os jornais assumiram com o descrédito do PT e das explicações de esquerda para os problemas do país.

Não era um leitor da mídia independente, como se tornou Alexandre Garcia, mas percebeu que o jornalismo já não era mais visto de maneira neutra pelo público, e precisava pensar em novas idéias, novos formatos, além de ter explicações, premissas e modelos que, até o momento, não existiam no Brasil. Raros jornalistas com metade de sua idade tiveram tal coragem de rever posições e o próprio papel da mídia nestes tempos.

Boechat deixa o jornalismo órfão, além de seis filhos. Era uma esperança de que não houvesse apenas as repetidas visões de mundo que, além de maçantes, não nos fizeram avançar até hoje. Era um jornalista com coragem para falar sozinho, e não apenas repetir o que fosse considerado “adequado” ou permitido pelos outros. Não era um gramofone, mas um jornalista que conseguiu ser independente, e ainda assim querido por quase todo o espectro político.

O Brasil perde alguém que deixou as melhores impressões onde quer que tenha trabalhado.

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