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Da euforia ao cansaço: o que pode acontecer no dia 30 e por quê

O que pode acontecer no dia 30 e por quê

Diagnósticos sobre a eleição de Bolsonaro tem sido objeto de debates por outros autores mais capazes do que eu. Basta ressaltar, para não ficar só no represamento de demandas históricas de uma população majoritariamente conservadora e na ascensão de uma Nova Direita sem vergonha de se assumir enquanto tal, que ela se deveu, em grande parte, ao surgimento de uma multidão de novos intermediários que foram capazes de driblar as mediações tradicionais da mídia e dos grandes partidos políticos.

Para quem não é capaz de entender isso basta explicar que um Youtuber como Nando Moura, para ficar só num exemplo, fala para muito mais que as três milhões de pessoas inscritas em seu canal, considerando a circulação de vídeos por whatsapp e outros meios. E que ele não é o único hoje na internet a vocalizar a demanda de um tipo de eleitorado tradicionalmente excluído da grande mídia. Por sua vez, grupos conservadores e liberais que vem se formando no país desde antes do impeachment hoje tem uma capacidade de agregação e mobilização muito maior do que a militância paga tradicional dos grandes partidos brasileiros.

O problema é que a arte de se eleger não é a mesma de governar. Num jogo complicado, marcado por inúmeros tropeços, o novo governo parece ter optado pela construção de um arranjo que superasse as contradições do presidencialismo de coalizão. No modelo de governança consagrado a partir da Nova República, o Executivo atuava como elemento coordenador em troca da distribuição de ministérios, cargos e verbas para aprovação de uma agenda legislativa definida a partir do mandatário da nação, num esquema de toma-lá-dá-cá que garantia a viabilidade do governo eleito a um alto custo.

Diferente de outras democracias, a pletora de partidos existentes, maioria absoluta sem agenda própria, compunha um agregado de interesses conspícuos que inflacionavam a cada votação. Em vez do funcionamento normal republicano, onde um governo conservador, por exemplo, automaticamente costuma se agregar com forças políticas de matriz liberal, com a distribuição pragmática de ministérios operando como reflexo da incorporação de uma agenda clara, o que se tem visto no Brasil é simplesmente o “pague-se”. Primeiro com ministérios, emendas parlamentares e gordas fatias no orçamento, depois com cargos milionários em estatais e, por último, quando tudo isso se esgota, financiamento ilegal de campanhas por empresas amigas do governo e/ou, simplesmente, esquemas de mesada.

A indisposição atual de operar nessas bases tem contribuído para uma situação inusitada. Num primeiro momento, parcela considerável do Parlamento, julgando-se insuficientemente contemplada pela composição do Executivo, procurou operar os velhos boicotes de sempre, visando a um shutdown num governo o tempo inteiro vendido como inoperante e incapaz de articulação pela grande mídia. A palavra impeachment saiu da boca dos parlamentares e logo começou a ser ventilada pela imprensa já em meados de abril. O movimento só não tomou corpo pelo retorno das massas às ruas no dia 26 de maio, numa importante demonstração de força popular de apoio ao Presidente, que afastou riscos de boicote e contribuiu para um realinhamento de grupos políticos dentro do governo que andavam batendo cabeça publicamente.

Obviamente, não estamos num Céu de Brigadeiro agora. A agenda de boicote explícito foi definitivamente substituída pela do “parlamentarismo branco” a essa altura. O Centrão, que a partir do dia 26 foi recusando explicitamente o título, objetiva a imposição de uma agenda própria que tem evidente significado ideológico e eleitoral, a despeito da mera demanda fisiológica por mais cargos e espaço. Ideológico, porque visa impor freios, ou mesmo reações explícitas, às agendas conservadoras que os mesmos partidos que o compõem sempre procuraram abafar quando no poder. Eleitoral, porque joga com objetivos e alternativas que se apresentam no cardápio dos políticos e da grande imprensa.

Se a improvável popularidade parlamentar se impõe, o parlamentarismo aparece como alternativa dos golpistas para superar um Presidente com amplo apoio popular, mas transformado em rainha da Inglaterra. Se não, o fortalecimento de uma composição partidária nova, possivelmente já para 2020, em que parcela considerável do PSDB, do DEM e de outras legendas se agreguem numa força política única, com inclinações liberais, mas forte disposição de preservação de privilégios estamentais, aparece como alternativa desejável. Nesse jogo, ou Rodrigo Maia na primeira via, ou João Dória na segunda, tanto faz. O importante é preservar certos quinhões. E também, por mais estranho que pareça, impor agenda.

Agenda também ideológica, de fato. A mesma conhecida do público brasileiro desde o início da Nova República. Moderadamente liberal na economia, revolucionária nos costumes. Esta segunda parcela, no caso, vem se garantindo pela ação jacobina (esta sim) do Supremo Tribunal Federal. Na ausência completa de legitimidade popular para aprovação no Parlamento, sem prejuízo eleitoral, de pautas como casamento gay, criminalização da homofobia e liberalização do aborto, o STF já vem agindo há tempos como aríete da Revolução, no pior sentido da palavra. Recentemente, no caso da homofobia, operaram no melhor estilo do Direito Penal nazista, criando crimes por analogia, em consonância com o “desejo da sociedade”, que os alemães de 1930 denominavam “sentimento do povo”.

É essa espécie de deep state que disputa hoje uma agenda paralela com o governo. Ela se beneficia diretamente de investidas criminosas como a que deu munição para o Intercept, na medida que as usam para esvaziar qualquer agenda de combate à corrupção e redução da impunidade, que lhe enfraqueceria desde dentro, procurando circunscrever a agenda bolsonarista em segurança pública ao combate ao crime organizado e redução da impunidade contra a criminalidade violenta. E parece operar como uma espécie de Poder que vai se impondo pelo enfraquecimento progressivo do espírito disruptivo que elegeu e animou o início do governo, como uma horda de mosquitos que vai pouco a pouco minando a vontade do indivíduo, mesmo que um ou outro sejam abatidos por um golpe de força bem aplicado. Faz-se tão mais poderoso quanto mais o governo apresenta fraqueza em defender publicamente as demandas conservadoras que o elegeu – são seis meses de governo e sequer se aventou um Plano Nacional de Combate ao Aborto, só para ficar num exemplo –, além de não ter uma identidade clara ainda na cultura ou na educação, dois campos que poderiam dar substancia e mesmo conformar um ainda pouco definido bolsonarismo como força política.

Nesse jogo, até mesmo a aposta nas ruas como elemento capaz de desequilibrar a disputa parece carregada de certa hesitação ou franco amadorismo. Em que pese a demonstração pública e notória de força popular no dia 26, o governo não parece capaz de responder às demandas dos grupos difusos que se agregaram em torno da eleição de Bolsonaro em 2018. Com exceção da batalha pelo direito à legítima defesa, temas como aborto, valorização da carreira policial, proteção da família, combate à ideologia de gênero, descentralização administrativa na educação, abertura das concessões de rádio e televisão para livre-concorrência, reforma universitária, valorização da alta cultura, restauração do patrimônio histórico, reforma política, entre outras bandeiras caras aos diversos grupos que hoje compõem o ainda difuso bolsonarismo, não tem sido encampadas pelo governo. Muitas dessas pessoas, ao não verem seus anseios atendidos pelo governo tendem, progressivamente, a retirar seu apoio ou voltar para casa.

Para piorar a situação, parcela considerável das bases que militaram na campanha e no dia 26 parece se ressentir de certo distanciamento de um governo que a ela só acorre em apelos esporádicos, nos momentos de aperto. Policiais, professores, funcionários públicos, médicos, jornalistas, artistas, empresários, ativistas e toda sorte de pessoas comuns correram riscos reais ao se engajar politicamente em outubro do ano passado e agora sofrem toda sorte de retaliação na forma de perseguições políticas as mais diversas.

Lideranças políticas com enorme potencial de mobilização não tem encontrado no partido do Presidente, nem mesmo nos seus círculos mais próximos, um elemento de agregação capaz de organizar a força política ainda difusa em centenas de movimentos espalhados pelo país. Não existe um plano claro para formação ou consolidação de um partido bolsonarista; não se vê preocupação com seleção e promoção de novas lideranças ou formação de quadros. Ao contrário, em muitos estados já fica evidente certa preocupação com uma composição política de cima para baixo, com candidatos fisiológicos ou novas subcelebridades (o que impressiona, depois do fracasso rotundo do PSL enquanto força política) escolhidos pela proximidade que tem com círculos próximos ao Presidente, fazendo composições na pura base dos velhos cálculos de sempre (tempo de televisão, quantidade de intermediários, fundo partidário etc), contando com um (ainda) suposto poder de transferência de votos de Bolsonaro, que pode muito bem não se concretizar de fato – é só lembrar do que foram as eleições estaduais posteriores ao início da Revolução de 1964, expressão de uma derrota fragorosa do movimento, que acelerou a agenda autoritária do regime.

Dessa forma, o bolsonarismo vai se constituindo, como força política nas capitais e rincões do país, num agregado de interesses difusos, sem identidade ou agenda própria, sem conexão profunda com as bases e a militância. E, para piorar, fica a constatação óbvia: não há um Paulo Guedes, um Tarcísio ou um Sergio Moro em cada cidade do país para compor uma equipe de notáveis.

Lógico que é possível também ver o copo meio cheio. Num cabo de guerra com o Congresso, o governo parece estar deslocando o que antes era uma agenda “extremista” para o meio termo. Foi assim, por exemplo, na disputa em relação ao porte/posse de armas. Enquanto o governo puxa para o porte relativamente disseminado, o Centrão acaba aceitando a posse praticamente indiscriminada. O mesmo pode ser dito, sob certo modo, da Reforma da Previdência. Não conseguir mais de um trilhão como quer o Guedes pode ser bom, quando se consegue mais bilhões do que qualquer outro Presidente já o fez com essa agenda.

O problema, nesse jogo, é que há tendência para uma vitória do Pântano. Com o enfraquecimento progressivo do animo da militância, sem uma agenda ampla de reformas que agregue os diversos grupos num ímpeto plebiscitário comum, que se converta em ação direta para pressão dos parlamentares, servindo, ao mesmo tempo, como mote ou ideia força para organização de um partido-movimento, a tendência é que o governo vá se amoldando pouco a pouco aos parâmetros de um tucanato mais à direita, ou aquilo que no Brasil melhor se expressa no nome de um partido com cada vez mais força no jogo político atual – Democratas (DEM).

Algo assim nem seria de todo preocupante – talvez mesmo próprio do jogo democrático – se não servisse como um paraquedas de uma agenda francamente revolucionária, anti-conservadora e anti-cristã que hoje avança pela via de um Judiciário que se transformou na expressão máxima de um poder político autoritário e não submetido a qualquer controle popular. Em resumo, enquanto o governo puxa para a direita e o Centrão (perdão pela obviedade) para o centro, o STF impõe, a despeito da luta política, a Revolução de cima para baixo. E o que fica, para aqueles que elegeram um Presidente com o objetivo de romper com esse processo revolucionário, na raiz do qual reside toda a perda de autoridade na sociedade brasileira, é o cansaço.

É possível que seja esse sentimento que explique a até agora baixa mobilização em torno dos protestos do dia 30. Para além da vontade de certos grupos de dar um troco em movimentos como o MBL e Vem Pra Rua, que, depois do vergonhoso boicote do dia 26, agora tentam se limpar na militância conservadora, há certo desânimo patente em grande parte das pessoas. Pode ser que ele não se manifeste num esvaziamento substantivo já no dia 30, mas não se pode duvidar que vá se fazer presente mais cedo ou mais tarde. Em que pese o otimismo com muitas dos ministros do governo, parece evidente que nos encontramos num impasse. Caberia, portanto, o apelo a um novo conselho bíblico, para um Presidente que se elegeu usando de mote um trecho do Evangelho, dessa vez, do Apocalipse de São João (3;16): “Assim, porque és morno, e nem és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca”.

Em bom português: reaja, Bolsonaro!


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