Lembranças de Mogadíscio

Um inferno só para os ladrões de piadas

Crônica da Semana: porque nem só de pão vive a manteiga

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Outro dia, atarefado como sempre e mergulhado num sem fim de formulários a preencher, deparei-me, no facebook, ou livros das faces, com uma piada minha postada num outro perfil. Fiz o que qualquer cidadão que paga seus impostos faria: esfreguei com força os olhos, acheguei o celular o mais perto que dava, antes que as letras começassem a embaçar, e amaldiçoei o filho de uma quenga manca de todo jeito. Não! Não sou um homem caridoso, sobretudo com minhas piadas. 

Não que eu seja um grande humorista. Tenho lá tempo pra isso? Mas é que de vez em quando surge lá no fundinho do lóbulo frontal aquele insight. Há o estrondo. Alguns milionésimos de segundos depois, os neurônios começam a trabalhar e no lobo temporal, perto da orelha esquerda, começa a se formar a sentença. A área de Broca e a de Wernick entram em colapso. Quando todo o cérebro está bailando feito um Baryshnikov, vem o espasmo lógico que impulsiona todo o organismo e ele quase sufoca se não estamos diante de um celular ou um computador. 

É preciso escrever, é fundamental! Já desperdicei milhares de piadas geniais pelo simples fato de não encontrar um equipamento apto a executar a prodigiosa função de registrar a piada, o chiste, a pilhéria. Quando a conjuntura está favorável e o universo conspira: quando Marte encontra Vênus na casa 7, que é vizinha da D. Gertrudes, toca a campainha e é recebida para um chá, está dada a situação perfeita e a piada vem ao mundo. 

Tem também, é claro, todo o aparato gramatical que vem em meu socorro: vírgulas, dois pontos, interrogações (para o caso de advinhas), onomatopeias… (reticências), parênteses. “A vida que poderia ter sido e não foi”, li em algum lugar. Acho que foi no pneumologista. Organiza-se morfologicamente, sintaticamente: verbo, sujeito, objeto direto, predicados; substantivos, adjetivos, aquele belo pronome do caso oblíquo que cria o impacto frasal definitivo. Tudo isso e vem um puto de um Zé Ruela e lhe afana a glória efêmera. Sou bem humilde: com dois ha ha ou quatro k’s em sequência já me dou por satisfeito satisfeito. 

Vê! Não peço muito. Só não me altere o samba tanto assim. Mas não. Lhe alteram, lhe roubam. Quando nos damos conta, a piada infestou o mundo virtual, disseminada como obra autoral por uma miríade de pequenos canalhas!

Também o inferno passa, de tempos em tempos, por atualizações. Dante estabeleceu nove círculos conforme a gravidade dos pecados cometidos, sendo o nono e último círculo destinado aos traidores. Socialistas, artistas globais e hollywoodianos, torcedores de futebol e aqueles que me odeiam certamente aumentaram o número de círculos, desbravando o mapa do inferno, estabelecendo novas colônias, como bandeirantes do tártaro. 

Na última atualização do Hades, há um círculo, bem pra lá do nono, especialmente destinado àqueles que usurpam piadas alheias e não dão os devidos créditos. Na sua ânsia por fama saqueiam tudo, desde uma mera caçoada até a graça bem sacada e elaborada; por vezes, crônicas inteiras são surrupiadas na calada da noite. Alguns desses pascácios, os mais sanguinários, as esquartejam, as piadas. arrancam-lhe sem dó um artigo, aquela preposição crucial, o tal pronome do caso oblíquo. Isso para não dizer das bem velhinhas. Quanto mais velha e batida a piada, mais doloroso o castigo. 

Nem o tremulhão aguenta tamanha desfaçatez. “Abro essas redes e tem lá duzentas vezes a mesma piada”, disse o tinhoso em entrevista à GloboNews. 

Controlem-se, por favor.

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