Violência no Rio

Traficante não é microempresário mal compreendido

A comoção com crianças mortas em tiroteio deve mirar o real culpado: o financiador do tráfico de drogas

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“No meu governo polícia não sobe o morro!”, anunciava Leonel Brizola em sua campanha para governador em 1982. Coisa rara, eleito, cumpriu a promessa à risca. Assim se iniciava a formação do império narcoterrorista nos morros cariocas. A ação foi vigorosamente aplaudida pela grande imprensa e efusivamente comemorada pelos consumidores do Leblon que, não importando sua cor de pele, estavam longe de tombar nas intermináveis batalhas pelos pontos de venda de drogas.

Mais de duas décadas depois, em 2 de janeiro de 2007, o delegado da Polícia Federal José Mariano Beltrame, recém-empossado como Secretário de Segurança afirmaria: “O Estado necessita dar visibilidade de segurança à comunidade. E a visibilidade de segurança passa pela presença do policial. Num primeiro momento, isso tem que ser enfatizado”. Surgiam, então, as Unidade de Polícia Pacificadora (UPPs). O modelo – baseado em um cessar-fogo com os traficantes – estava fadado ao fracasso e assim foi. A ideia de uma possível pacificação sem confronto, exatamente para não expor a vida de inocentes, durou apenas enquanto os traficantes se sentiram confortáveis em continuar vendendo os seus produtos desde que não desfilassem com seus fuzis ou entrassem em guerra com outras facções. Mas, sabe como é… traficante não é microempresário mal compreendido, oprimido pelo Estado que, por exemplo, sonega imposto. Traficantes são criminosos, e não porque assim define a lei, mas por índole e escolha!

Há uma ideia estapafúrdia que uma vez liberada a venda – e, para fazer algum sentido, aqui estaríamos falando de uma liberação geral e irrestrita de todo o tipo de drogas, em qualquer situação e para qualquer um – seria o suficiente para acabar ou reduzir drasticamente a criminalidade no Brasil, em especial no Rio de Janeiro. Quem assim pensa erra por desconhecer a alma criminal. Oras, um traficante quase nunca é apenas um traficante, em sua ficha há homicídios, tortura, estupros, sequestro, roubo de cargas e toda uma variedade de crimes. Se o tráfico deixasse de existir, nenhum deles correria para os órgãos responsáveis para legalizar sua boca de fumo, simplesmente migrariam para outro tipo de crime, provavelmente crimes onde haja maior violência contra as vítimas, o que acarretaria em um crescimento na criminalidade violenta e não o inverso.

Pouca gente sabe, mas o roubo de carga já é a principal fonte financeira para muitas quadrilhas e organizações que, em passado recente, tinham como operação principal o tráfico de drogas e afins. O criminoso – via de regra – migra, adapta-se, mas não abandona sua escolha criminal sem um forte choque de valores. Nunca ouvi falar em um só criminoso que tenha deixado de delinquir porque aquele “nicho de mercado” estava ruim. A verdade é que o enfrentamento ao crime deve ocorrer, ou repetiremos os erros de Brizolas e Betrames.

O problema é quando para se justificar a inequívoca simpatia pelo traficante – ou irascível antipatia pelo governante no melhor estilo de achar feio o que não é espelho – como se este fosse um exemplo de resistência ao Estado opressor, usa-se o sangue inocente como tinta de caneta e pequenos caixões brancos como palanque, não para sustentar uma discussão séria sobre segurança pública, mas, sim, para corroborar com sua narrativa “bandidólatra”. Delinquentes subintelectuais chegam ao cúmulo de afirmar que se você é favorável a uma política de enfrentamento, você está defendendo a morte de crianças! Centenas de pessoas foram vítimas inocentes em tiroteios por décadas em todo o Brasil, mas lendo os últimos jornais e notícias qualquer marciano recém-chegado por essas bandas juraria que isso só começou a ocorrer em 2019. Esse pessoal – que olha tudo atentamente de sua janela antirruído em algum bairro onde o traficante é um playboyzinho universitário – sabe a resposta para tudo, a solução para todos os problemas, mas estranhamente não escrevem uma só linha com qualquer resquício de concretude. Muita divagação e nenhuma solução, aí é fácil.

 


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