Beleza e tristeza

Roger Scruton e Neil Peart partiram deixando o mundo mais belo

O mundo perdeu, no último fim de semana, duas grandes figuras do mundo da cultura: o músico Neil Peart e o filósofo Roger Scruton

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Nunca estive em situação mais desfavorável do que esta. Músico medíocre e filósofo ainda mais medonhamente estúpido, forcei-me a falar da perda, neste triste fim de semana, de duas grandes figuras do mundo da cultura: Roger Scruton e Neil Peart.

Não vou com isso encher esse espaço de referências sobre o pensamento de um e a música de outro, mas apenas relatar o que sei de ambos e como nos encontramos.

O inglês Roger Scruton se foi no domingo, dia 12. No Brasil, é bem conhecido. Talvez seja mais lido aqui do que na Inglaterra. O despertar do pensamento conservador deu ao filósofo inglês um crédito pouco visto entre pensadores que possuam alguma substância.


Scruton é atualíssimo, ao contrário dos dinossauros idolatrados pela esquerda, como Derrida e Foucault. Aliás, qualquer filósofo conservador sabe quem são esses franceses afetados e fetichistas da linguagem. Pela atenção da mídia, percebe-se que o lado esquerdo do estábulo ignora Scruton completamente.

Combateu duramente o ressentimento dizendo que é melhor lutar para manter o que se ama do que destruir o que se odeia. Lição pouco assimilada por aqui por parte da direita, justamente aquela que usou a morte do filósofo para exaltar as próprias virtudes.

Conheci Scruton em 2013. Naquele ano, depois da onda de manifestações, entrei numa crise de conhecimento. Conhecia a estética analisada pela Escola de Frankfurt, Benjamin e Adorno, sobretudo. Lia Terry Eagleton e Perry Anderson. Na minha visão esdrúxula, a direita era algo entre meus amigos iletrados e Adolf Hitler.

Incomodado com os rumos do meu intelecto resolvi ver uns vídeos de um sujeito grisalho e boca suja, mas que, entre um palavrão e outro, dizia coisas tão imensas que acabei percebendo que meu conhecimento não estava assim tão alinhado com a realidade. A conclusão fatal de que eu era um pateta absoluto veio com um texto chamado O Imbecil Juvenil. 

Foi o fim de uma era de acomodação e desleixo. Passados os três dias de reclusão debaixo da cama, ardendo com a aceitação da minha estupidez completa, resolvi ler tudo o que esse sujeito indicava e, entre Voegelins, Lavelles e Zubiris, estava Roger Scruton. 

Comecei a ler Beleza, mas como ainda não estava com todas as vacinas em dia, acabei deixando-o de lado. O amor veio com Os Pensadores da Nova Esquerda. Descascando os meus antigos ídolos como bananas, Scruton ganhou minha cabeça mesmo no último texto O que é a Direita?. Ele dizia coisas óbvias até, mas para alguém educado no Brasil, aquilo soava bem estranho:

“Instituições são uma herança necessária da sociedade civilizada.”

“O radical é incapaz de ver que o “sistema” que ele tenta superar é consensual, enquanto aquele que seu pensamento almeja não é.”

Scruton me ajudou a ver que apenas sociedades doentes corrompem os indivíduos; as sociedades saudáveis os civilizam. A esquerda, tentando destruir o que odeia, apenas transfere o ressentimento de uma geração a outra. Em As Vantagens do Pessimismo, falando sobre a Al Qaeda, dá uma luz sobre o que está acontecendo na disputa entre Irã e os EUA, sendo o Irã um estado que recruta terroristas:

“Existe para recrutar ressentidos e dirigir seu ressentimento contra o alvo habitual, que é aquele que está à vontade no mundo e goza os frutos que nós, os ressentidos, não conseguimos colher.”

Scruton falou sobre diversos temas: arquitetura, música e até sobre vinho. Ganhei de presente  Bebo, Logo Existo! – Guia de um filósofo para o vinho, que pretendo ler ainda esse ano. Mas a respeito de sua obra, fico por aqui. Agradeço a sua presença rara e ao legado que deixa. Ainda espero brindar com ele.

 

***

 

Neil Peart partiu na sexta, dia 10. Era um exímio baterista e compositor. Na bateria é uma unanimidade. Pode-se contestar o som da banda, mas a técnica primorosa de Peart era admirável. E usou essa técnica assombrosa não como virtuosismo exibicionista, mas como recurso estético. Não sou um grande fã da sua banda, o Rush. Gosto de algumas músicas apenas, mas resolvi conhecer um pouco mais do baterista morto no sábado.

Peart tem uma história trágica. Perdeu a filha num acidente automobilístico e, dez meses depois, perdeu a esposa que morreu de câncer. Li as primeiras páginas de Ghost Rider – Estrada para a Cura, livro que escreveu sobre seu período de luto, quando pegou sua moto e, sentindo-se um fantasma sem fé e esperança, rodou sem destino tentando preencher o vazio imenso que sentia. 

Uma prosa direta, sem rodeios, que começa no dia da sua partida. Como a dor capta a paisagem de um modo especial, seja para afirmar ou negar seu estado de espírito; como o mundo ao nosso redor é importante, tendo luz ou não! Com coragem, Peart assume o risco de se embrenhar na estrada e dentro de si mesmo, sabendo que essa pode ser uma jornada sem volta.

O modo como Peart narra o momento em que recebe a notícia da morte da filha é tão impressionante pela precisão quanto pelo fato de que aquele que escreve com aparente distanciamento está consumido pela dor. Não calculo o que seja e quanto uma alma tem que se elevar para contar aquilo.

Tendo muito a simpatizar com gente que teme todas as dores, mas, quando as vive, demonstra uma firmeza contundente. Num mundo onde todas as pessoas se fazem de forte até que uma breve reprimenda derreta seu mundinho de faz-de-conta, ler essas primeiras páginas do seu livro me ajudou um pouco a retomar o caminho no “deserto do real”,  fora da vidinha virtualmente virtuosa que se esgota sem nenhuma graça, entre um tuíte e outro.


Tenho uma vaga ideia do que fazemos por aqui. Acho que a vida é um caminho que tem que tocar outros caminhos. Seja pela sua arte, pela sua educação, pelo seu senso de beleza – como Roger Scruton bem coloca. Scruton já havia me tocado com sua imensa capacidade de transmissão de conhecimento. Peart, de modo distinto, me tocou também. Não me importo se isso se deu depois da sua morte. A vida tem dessas coisas mesmo. Peart queria saber que tipo de homem se tornaria depois de passar pelo que passou “porque não conseguia morrer”. Não sei que tipo de homem se tornou, mas executou com maestria o seu papel por aqui.

Scruton e Peart aumentaram com primor o legado humano e cumpriram sua principal função: mantiveram o equilíbrio entre criatura, capaz de expandir seus limites na ânsia de alcançar os céus e o Criador, perto de quem somos muito pequenos.

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